• Sonuç bulunamadı

Müteahhidin ayıba karşı tekeffül ve garanti yükümlülüğü

A- Müteahhidin yükümlülükleri

14. Müteahhidin ayıba karşı tekeffül ve garanti yükümlülüğü

Em 1995, Heraldo casou-se com Vera, que na época era Secretária de Educação da cidade de Santa Cruz e mais tarde viria a acompanhá-lo nas apresentações e a contribuir para as construções e transformações do seu espetáculo. Desde o início da pesquisa foi observado que Vera não é só a puxadora de malas, ela tem um papel muito importante dentro do teatro de mamulengos de Heraldo Lins. Ela dá o feedback para Heraldo ao final de cada show. Observa a reação da plateia diante de cada boneco e piada. Analisa criticamente o próprio Heraldo em sua atuação apontando o que ele pode melhorar o que falar para ser politicamente correto. Ela controla Heraldo para que ele não extrapole em suas piadas para que não ofenda alguém na plateia. Lembrando que no teatro de mamulengos tradicional muitas piadas são de deboche, preconceituosas e obscenas. Vera também estudou fonoaudiologia para ajudar Heraldo a desenvolver sua voz, que é muito bem trabalhada de forma a impor a cada boneco uma voz com tom e timbre muito diferente uma em relação à outra. Hoje ele faz isso com facilidade, confessou-me ela.

A voz, no teatro de mamulengos, é um instrumento de trabalho muito importante para a identificação dos personagens e para as falas dos mesmos. O artista fica invisível à plateia durante a apresentação e sua voz é emprestada aos bonecos, ela precisa ser projetada para a plateia de forma clara para que esta possa compreender as piadas. Heraldo conta que no início do seu trabalho com mamulengos sua voz ficava cansada, que havia um desgaste físico grande, às vezes ficava rouco após algumas apresentações tal era o esforço que fazia. Vera conseguiu trabalhar a voz dele com exercícios e muita disciplina com a alimentação, descanso e cuidados com a voz. Heraldo não fuma, não ingere álcool e evita bebidas geladas. Com o auxílio de Vera, ele conseguiu manter a qualidade da voz em todas as apresentações sem prejudicar suas pregas vocais. Durante o trabalho de campo, cheguei a acompanhar Heraldo em três apresentações em um único dia e a qualidade da voz foi a mesma, de excelência.

Manteve os timbres e tons sem demonstrar cansaço vocal. Hoje, já conhecedora dos personagens e vozes destes, consigo reconhecê-los somente pela voz. Cada um tem a sua qualidade, mesmo que repetindo de um personagem a outro, possuem tons e timbres diferentes. No capítulo II falarei sobre a qualidade da voz dos personagens.

Observei que Vera tem uma participação importante no processo de construção e de transformação do “Show de Mamulengos” de Heraldo Lins. Ela declara que no início sentia vergonha em andar pra cima e pra baixo com malas e bonecos, mas que depois foi compreendendo o valor da cultura popular e hoje isso já está resolvido em sua cabeça. Além de acompanhar Heraldo nas apresentações, trabalhar e cuidar de sua voz dá apoio ajudando-o a puxar as malas, a conferir e a guardar o material, mas não só isso, ela é a maior crítica do teatro feito por Heraldo, além dele mesmo. Observa e opina sobre tudo dentro do teatro contribuindo para que Heraldo faça transformações nos seus espetáculos mantendo-o dentro de uma moralidade aceitável a qualquer grupo social. Ela faz uma mediação entre Heraldo e a plateia se colocando no papel de crítica e de censura às falas e atitudes que ela percebe que extrapola os limites delineados durante esses vinte e um anos de atuação e que propiciam ao “Show de Mamulengos” de Heraldo Lins ser reconhecido como um teatro politicamente correto podendo ser apresentado a qualquer tipo de plateia, independente de sua faixa etária, mesmo que esta não tenha familiaridade com esse. O seu papel é de manter Heraldo sempre numa linha moralizante do teatro, evitando que ele se entregue a falas preconceituosas, obscenas e performances que denotem violência como é comum no teatro tradicional de mamulengos.

À primeira vista, quem observa Vera sentada num local próximo a tolda durante as apresentações, certamente não deve imaginar o seu papel dentro do teatro de mamulengos de Heraldo. Daquele ponto estratégico, escolhido por ela, Vera observa tudo o que acontece: o contratante, a reação da plateia, a qualidade do som e da voz de Heraldo, as falas, a performance com os bonecos, e tudo o mais. Após o espetáculo, já de volta para casa, ela tece as considerações que julga serem necessárias. Heraldo diz que Vera é o olho dele fora da tolda. Reconhece o papel desempenhado por Vera e atribui muitas das mudanças realizadas por ele em seu teatro ao olhar crítico de Vera. Heraldo salienta que,

Vera tem uma importância muito grande porque ela sempre me dá opiniões muito válidas. Como ela está de fora, vê melhor o show, e depois, quando ela não gosta da perfomance, diz o que devo mudar, e depois de vários questionamentos eu passo a aceitar a idéia e modificar para melhor.

Quando voltávamos de uma apresentação feita em São José de Mipibú, RN, Heraldo comentou sobre a obscenidade que ainda hoje é um elemento presente no teatro tradicional de mamulengos. Disse achar uma grosseria, um desrespeito com a plateia, mas que tem contratantes que pedem isso. Vera, nesta hora lembrou a ele que ela não gosta quando o boneco Lilico diz que a vovó gosta muito de uma mangueira, na peça da CAERN e da fala de Baltazar que diz ter uma cobra dentro das calças. Disse ela: “Tem duplo sentido, já falei pra você mais de dez vezes sobre isso e ainda assim você continua”. Heraldo reconheceu que ainda diz algumas coisas de duplo sentido que denota obscenidade.

Lembrando aqui que o teatro de mamulengos é um teatro originalmente construído para divertir pessoas adultas, por isso a presença do obsceno. Percebi que Heraldo, mantem nas falas dos bonecos, algumas falas de duplo sentido que estarei mostrando no capítulo III desta dissertação. Observei que Vera opera como um ponto de censura dentro do teatro de Heraldo, dizendo a ele o que deve ser falado para que o seu teatro seja politicamente correto e moral, podendo ser apresentado a qualquer plateia e não só a uma plateia de adultos.

Em outra ocasião Vera me falou sobre a fala de Benedito ao colocar apelido no sanfoneiro, Vera aconselhou Heraldo a mudar, pois poderia estimular o bullying. Heraldo conta que uma grande contribuição de Vera para o teatro foi tê-lo convencido a fazer shows tematizados, o que para ele não era concebível, pois compreendia que tinha que seguir o teatro tradicional para ser um teatro de mamulengos e mais ainda, que o teatro era dele e ele fazia do jeito que achava melhor. Vera o fez perceber que os contratantes pediam um show personalizado com um tema escolhido por eles, pois se sentiam no direito por estarem pagando e se Heraldo quisesse obter contratos teria que se adaptar ao mercado. Depois que ele compreendeu essa relação produção/mercado, passou a tematizar seus shows a pedido do contratante e o teatro dele deslanchou, afirmou Heraldo. Sobre essa questão Carvalho (2007, p. 81) define que a cultura popular são aquelas manifestações que “[...] foram criadas, mantidas e preservadas pelas comunidades, com relativa independência das instituições oficiais do Estado, ainda que estabelecendo algum apoio eventual ou parcial”. Isto é, possuem autonomia para a criação e recriação de seus bens simbólicos. A mesma autonomia buscada por Heraldo no início, antes de ter aceitado a modificar o seu teatro para atender ao mercado consumidor. Heraldo comentou durante a conversa que tivemos sobre a tematização do seu espetáculo, que ele não admitia que ninguém dissesse como ele deveria fazer o seu próprio teatro,

Eu entendia que o teatro era meu e por isso eu podia fazer do jeito que achava que devia ser feito. Eu ainda era muito preso ao passado, tentava fazer um teatro como eu conhecia de outros mamulengueiros, como o de Bastos. Não queria aceitar opinião de ninguém, mas depois vi que eu estava mesmo fora do contexto atual, a sociedade é outra e eu precisava me adaptar ao mercado. Vi que eu estava fazendo um teatro para mim e não para o povo. É como a brincadeira que fazem por aí, um mamulengo feito para o brincante brincar mesmo. Vera me convenceu que eu deveria tematizar o meu show. Se o contratante pede, agora eu faço. Eu não faço uma brincadeira, eu apresento um espetáculo do jeito que o contratante pede.

Vera, que procura sempre estar presente nas apresentações observando todos os detalhes, depois de alguns meses, começou a perceber os pontos da minha pesquisa e numa atitude voluntária se dispôs a relatar-me sobre os shows em que eu não conseguia estar presente. Fez isso várias vezes se tornando voluntariamente meus olhos e ouvidos durante as minhas ausências. Com uma extrema sensibilidade, ela descrevia a cena, a reação da plateia, alguma mudança feita por Heraldo e me enviava imagens dos shows por email. Por algumas vezes ela me ligou passando informações que julgava necessárias para a pesquisa no momento em que estava no local do evento, dando-me um feedback em tempo real.

Certa vez, já quase nove horas da noite, Vera me ligou para dizer que estava com Heraldo esperando a hora do show a ser apresentado naquela noite numa festa de igreja na cidade de São Tomé, RN. Ela descreveu-me todo o cenário à sua frente, as bandeirinhas penduradas colorindo o pátio ao lado da igreja, a igreja e seus detalhes arquitetônicos, as crianças correndo de um lado para o outro, os fiéis, a reza do terço, o padre, as barraquinhas da quermesse, o parque de diversões armado próximo ao local. Disse que iria fotografar tudo e me enviar por email. Reportei-me àquele cenário imaginando-o mentalmente a partir das informações passadas por ela.

De Vera, recebi muitas informações e fotos dos shows em que estive ausente. Colhi muitas informações e impressões dentro do carro, durante o percurso que fazíamos até os locais das apresentações ou durante nossas conversas antes e depois do espetáculo. Vera tornou-se uma interlocutora com um olhar participativo e reflexivo dentro da pesquisa.

Clifford (1998, p. 43), reflete sobre a autoridade etnográfica observando que se faz necessário conceber a etnografia como uma “negociação construtiva envolvendo pelo menos dois, e muitas vezes mais, sujeitos conscientes e politicamente significativos” Vera mostrou- se uma interlocutora sensível com capacidade de se colocar em posição de observadora do teatro e de selecionar dados informacionais que considerava importante para a pesquisa. O seu papel de observadora e de olhar crítico em relação ao teatro do esposo se estendeu à pesquisa.

Clifford (1998) atesta que “os antropólogos terão cada vez mais de partilhar seus textos, e por vezes as folhas de rosto dos livros, com aqueles colaboradores nativos para os quais o termo informante não é mais adequado, se é que algum dia foi”. (CLIFFORD, 1998, p. 55)

Quando encerrei a observação participativa, Vera ainda continuou durante algum tempo, a me enviar imagens dos shows.

1.3 “O meu Show não é brincadeira”

Heraldo mantem relativa independência, durante o processo de construção e transformação do seu teatro, em relação aos códigos do teatro de mamulengo tradicional. Se sente livre para percorrer outros caminhos, dissolver sentidos e inserir outros valores simbólicos a seus personagens e a seu teatro como um todo. Não só a sua percepção, sensibilidade e criatividade que o levam a operar transformações, mas fatores externos ao teatro também influenciam nessas mudanças e no momento criativo, como a recepção da plateia, o olhar de Vera, os contratantes, a própria sociedade como um todo considerando a cultura de massa e a indústria cultural como pontos de referências para tais modificações. A aceitação de Heraldo em tematizar seu espetáculo e até mesmo criar peças para uma determinada instituição, proporcionam a ele condições para manter-se no mercado, conseguindo fechar novos contratos, exercitando sua arte dia a dia e atualizando o seu teatro. As transformações em seu show dependem tanto do que lhe é solicitado pelos contratantes e reações da plateia, como de suas concepções individuais e opiniões de Vera.

Desde o início das conversas com Heraldo, foi possível observar que ele se colocava numa posição de diferenciação em relação aos demais mamulengueiros da região. Considera- se um artista profissional, não aceita ser chamado de brincante e classifica o seu teatro como um teatro contemporâneo, “trabalhado e pesquisado na tradição, mas adaptado à sociedade atual”, afirma ele. Ao comentar sobre o uso do termo “brincadeira” pelos outros mamulengueiros, ele ponderou: “Os mestres fazem como se fosse para eles se divertirem, eu faço o meu show para a plateia se divertir. Minha preocupação é com ela. Sou altruísta. Faço o show para divertir o outro. Quando a plateia gosta me lava a alma”. Compreendi que ele próprio se sente diferente em relação aos outros mamulengueiros neste aspecto por não se considerar um brincante e sim um artista, nem tampouco seu teatro de mamulengos uma brincadeira e sim um teatro profissional. Em uma ocasião enquanto nos dirigíamos para mais

uma apresentação, pedi a ele que me explicasse como ele compreendia a “brincadeira” e o “trabalho”, termos recorrentes em suas falas. Pois, o termo “brincadeira” é frequentemente encontrado e veiculado no repertório daqueles que fazem, assistem, estudam ou agenciam o teatro de mamulengos, e “trabalho” é utilizado por Heraldo em substituição a “brincadeira”. Enquanto dirigia, ele refletiu aprofundando o seu conceito sobre o tema, algo não observável quando comecei a acompanhá-lo nas apresentações, suas respostas no início eram mais superficiais e curtas:

Pra mim existe uma diferença entre brincadeira e trabalho. A brincadeira o artista brinca com os bonecos, a ação pode se prolongar muito, a história demora a desenrolar, é um teatro mais parado, as falas se repetem, fica na lenga-lenga. É como se o artista se preocupasse em brincar mesmo com os bonecos e a plateia o ajuda na brincadeira. Os participantes precisam conhecer o jogo e ser da comunidade para estar sabendo do que se fala durante a brincadeira. Serve àquela comunidade conhecedora da brincadeira e dos bonecos. Já o trabalho é bem diferente. O artista realmente trabalha porque ele visa receber por isso. Então ele estuda, cria, produz, planeja toda a ação dramática de forma que possa ser compreendida por qualquer plateia independente de seu contexto ou de sua familiaridade com o teatro. Ele é todo planejado. Tem um tempo fechado de duração. O meu teatro é muito dinâmico. É todo pensado para atender a um mercado consumidor. Ele precisa ser um produto vendável em que o consumidor possa ter a opção de escolher o que vai comprar, se um teatro didático ou um folclórico, no caso do meu trabalho. Eu vendo o meu trabalho e utilizo da tradição para montar o meu show.

Tanto Heraldo quanto Vera, que já haviam me falado em outras ocasiões que o teatro de Heraldo é diferente dos outros mamulengos porque é mais dinâmico e tematizado, consideram o teatro de mamulengos tradicional, aquele feito pela maioria dos mamulengueiros da região, como um teatro enfadonho, monótono, parado, cansativo de ser assistido. Para Heraldo, esse tipo de teatro serviu a um público anterior à televisão e à tecnologia, mas já não serve à geração da cultura audiovisual. Por isso, ele investe num teatro de mamulengos contemporâneo, como ele mesmo classifica, que segundo ele explica é um teatro com passagens de sequências rápidas, falas atualizadas ao contexto, muito movimento com os bonecos que entram e saem de cena usando apetrechos como notebook, telefone, óculos escuros, vaso de flores, carro, microfone, facão, chuveiro, caixa d‟água, bolo de aniversário, e outros mais. O próprio Heraldo diz, “Meu show não é brincadeira, é um trabalho pesquisado na tradição e no que há de mais moderno”.

Percebi que Heraldo havia construído o seu olhar sobre si como artista e sobre o seu próprio teatro, assim, numa outra oportunidade perguntei a Heraldo como ele via os brincantes da “tradição” do teatro de mamulengos. Sua resposta foi a seguinte:

Eu tenho pena dos brincantes da tradição. Infelizmente é essa a palavra mais apropriada que tenho para dizer o que sinto em relação a eles: pena. Eles continuam presos no passado, não procuram inovar para que essa geração venha a gostar do teatro de mamulengos. É como se eles estivessem presos numa caverna, na caverna de Platão. Vivem ainda olhando as sombras da caverna de Platão, não conseguem ver a realidade. O mundo agora é outro, mudou muito. No começo eu era assim também, me recusava a mudar a tradição. Achava que para ser um verdadeiro teatro de mamulengos tinha que fazer como sempre fizeram lá no passado, ficar repetindo, repetindo sem inovar. Se um contratante pedia para que eu inserisse alguma fala ou tratasse de algum tema eu retrucava, não aceitava. Eu entendia que o teatro era meu, agora eu sei que é do povo. Com o tempo fui mudando esse jeito, fui ouvindo mais as pessoas. Meu irmão29 me falou uma coisa uma vez que mexeu comigo, ele disse que as pessoas hoje estão usando computador e eu estava insistindo numa coisa do passado, estava fora do tempo. Fiquei pensando sobre isso, refletindo, mas o que me fez mudar mesmo a minha maneira de fazer o meu teatro foi Vera. Aos poucos ela foi me mostrando que se eu não mudasse e não atendesse aos desejos dos meus clientes eu não conseguiria contratos.

A ideia primeira de Heraldo de conceber a tradição em seu teatro como algo inerte, presa no tempo e imutável, atribuindo a ela a função de dar identidade ao seu teatro, foi forjada no senso comum, numa opinião retirada da experiência do sujeito, não de sua reflexão sobre a coisa. Geertz (2004, p. 114) assinala que o senso comum é uma ideia, uma opinião resgatada da experiência e não o resultado de reflexões sobre ela. Isso indica a existência de um corpo organizado de pensamento a partir da experiência vivida ou imposta ao indivíduo, sem que haja uma reflexão ou outro olhar sobre ela. Heraldo, ao aceitar as opiniões de Vera para tematizar o seu teatro atendendo aos seus clientes, terminou por modificar também o seu olhar sobre a sua produção teatral e a refletir sobre ela. Passou a perceber que pode se apropriar de elementos construídos no passado e manipulá-los no presente, sem que com isso o seu teatro perca a identidade de uma expressão da cultura popular. Embora a sua ideia de tradição ainda esteja pairando muito no senso comum, as palavras de Vera o fizeram refletir sobre ela e se utilizar dela para construir o seu show de mamulengos.

29

Algumas falas se repetem em nossas conversas porque Heraldo sempre volta a elas, são lembranças marcantes para ele.

As palavras de Heraldo citadas acima remetem a uma reflexão sobre a cultura popular nos tempos atuais, o quanto ela vem resistindo e procurando brechas para escapar dos invasores, da expropriação e predação da indústria cultural e da manipulação política dos artistas populares. Carvalho (2007) é bastante enfático ao afirmar que a cultura popular vem passando por um processo de espetacularização e canibalização, ao ter seus valores simbólicos manipulados pelo poder, seja pela indústria do entretenimento ou pela indústria do turismo. Para este autor o processo de espetacularização da cultura popular é definido da seguinte maneira:

Defino espetacularização como a operação típica da sociedade de massas, em que um evento, em geral de caráter ritual ou artístico, criado para atender a uma necessidade expressiva específica de um grupo e preservado e transmitido através de um circuito próprio, é transformado em espetáculo para consumo de outro grupo, desvinculado da comunidade de origem. (CARVALHO, 2007, p. 83)

O “Show de Mamulengos” de Heraldo Lins, antes mesmo de atender às aspirações de Heraldo ou às necessidades de um grupo que poderia ser partícipe de sua criação e manutenção, como o é nas diversas manifestações consideradas expressões da cultura popular, ele atende às “necessidades” de um público consumidor, destituído na maioria das vezes da experiência com esse tipo de teatro popular, que vê no teatro de mamulengos um meio de