A- Müteahhidin yükümlülükleri
5. Çizim ve planlar ile gözetim ve denetime dair yükümlülükleri
A violência não só atingiu a população nativa, como também num momento seguinte e paralelo a este, fez parte da realidade vivenciada pelo negro africano importado para o Brasil para ser usado como mão de obra escrava, tornando-se elemento essencial para a dinâmica agroexportadora da economia brasileira nos seus regimes político colonialista e imperialista. Ou seja, o escravismo, fora uma força de trabalho muito lucrativo para o Brasil durante séculos. De forma sintética podemos dizer que esse tipo de mão de obra foi utilizado, entre outros aspectos, para a produção de cana-de-açúcar no litoral do Nordeste, posteriormente usado como força de trabalho na exploração de metais preciosos na região central do território e por fim nas grandes plantações de café no Sudeste brasileiro. Em um dado momento da história, tratava-se de um modelo de força de trabalho, altamente vantajoso, tanto para as elites locais e/ou para as metrópoles europeias.
Na perspectiva do sistema escravista, fundamentalmente, o negro era considerado um ser sem alma, um bem a ser comercializado, utilizado, explorado, ou seja, uma mercadoria, peça e que, portanto pertencia ao seu senhor. Neste sentido, a violência contra o negro foi marcada pela agressão física, cultural e psicológica, quadro em que, a linha que separa o limite entre um ou outro tipo de violência era muito tênue.
Ao refletirmos sobre o regime escravocrata no Brasil, temos de entender que o uso do trabalho escravo, exigia dos seus senhores, mecanismos de repressão para sua manutenção, e é ai podemos pontuar varias esferas que marcaram a violência contra o negro, entre elas aquela que mencionamos como o campo da opressão física, que se materializavam em açoites, estupros, prisões e mutilação. Enfim, sob o olhar do sistema escravocrata, o castigo do negro
era considerado como necessário e justo para a manutenção da ordem estabelecida coagindo assim possíveis núcleos de revoltas.
A face da opressão cultural se apresentava entre outras formas, na expurgação de suas terras, na coação ao uso da língua materna, na proibição aos cultos e crenças religiosas, do não direito ao parentesco, na alienação traduzida na sua negação enquanto ser, ou seja, na sua desumanização como uma das formas mais cruéis e perversas vividas por esse povo, reduzindo a sua capacidade de pensar e agir por si, limitando-se apenas a condição servil. Ou seja,
Desapossados de suas terras, escravizados em seus corpos, convertidos em bens semoventes para os usos que o senhor lhes desse, eles eram também despojados de sua alma. Isso se alcançava através da conversão que invadia e avassalava sua própria consciência, fazendo‐os verem‐se a si mesmos como a pobre humanidade gentílica e pecadora (DARCY RIBEIRO, 1995 p.72).
Violentados e expropriados de suas terras, o homem negro traficado para o Brasil, se encontrava em um terreno hostil, obrigado a conviver com seus pares de diferentes línguas, tribos e culturas. Em meio a esse caldeirão étnico em que se encontrava, o negro se via imerso a uma sociedade indiferente que o tratava enquanto mera mercadoria, um bem a ser adquirido. É assim que funcionava a empresa escravista no Brasil,
Fundada na apropriação de seres humanos através da violência mais crua e da coerção permanente, exercida através dos castigos mais atrozes [...] de eficácia incomparável. Submetido a essa compressão, qualquer povo é desapropriado de si, deixando de ser ele próprio, primeiro, para ser ninguém ao ver‐se reduzido a uma condição de bem semovente, como um animal de carga; depois, para ser outro, quando transfigurado etnicamente na linha consentida pelo senhor, que é a mais compatível com a preservação dos seus interesses (DARCY RIBEIRO, op cit p.118).
É ai que impera a face da violência psicológica, fruto e complemento das demais formas de violência que marcavam o cotidiano vivido pelo negro no Brasil. Marcado pelo racismo e pela indiferença; pelos laços mantidos com a terra de origem; pela proibição da fé; pela separação de familiares enfim, o trabalho escravo foi duro e massacrante para o negro. Onde os poucos núcleos de resistência (quilombos) que emergiam em meio a este contexto, foram duramente massacrados pelos senhores agrários sob o aval da coroa portuguesa e mais tarde pelo império brasileiro. Protegido através das ações do Estado, a empresa escravocrata era altamente lucrativa, concretizando-se num sistema que deu certo para a elite portuguesa,
posteriormente para a elite brasileira, que retiravam dessa força de trabalho parte de sua fonte de riquezas.
Ianni (1988) nos lembra de que a consolidação e generalização do trabalho escravo no novo mundo, fora obra arquitetada pelo capital comercial europeu. Tornando-se um dos negócios mais sólidos e lucrativos para o regime colonialista brasileiro, permanecendo-se quase que inalterado até quase o final da fase do Brasil imperial. Com a abolição da escravatura nos fins do século XIX, não se percebe o fim da carga de violência contra o negro, mas a emersão ou repaginação de novas formas de opressão. Visto que, o preconceito racial dificultou a integração do negro enquanto cidadão e detentor de direitos civis. A anuência social do negro fora dificultada pela elite e pelo próprio Estado brasileiro. O negro agora liberto encontra-se desprovido do acesso a terra, moradia, educação, emprego e alimentação. Estes foram habitar os cortiços e favelas das cidades brasileiras da época. Assim,
Os negros, analfabetos, sem direitos, sem cidadania, sem posses, na mais absoluta miséria, e sem alternativas de vida, se lançam a própria sorte, no subemprego, na marginalidade, nas ruas, nos cortiços. Excluídos ontem, excluídos sempre. Hoje, o trabalho informal ou forçado, a precarização atingem majoritariamente a população negra (HENTGES, 2013).
Entre outras formas de violência vivenciada pelos negros, tem-se a proibição do uso e culto de crenças e culturas de matrizes africanas, consideradas como atos criminosos; ou mesmo a política do branqueamento que o governo promoveu através da abertura de uma forte política de emigração de europeus para trabalhar no Brasil, sob o discurso que estes, em detrimento daqueles, possuíam mão de obra qualificada para o exercício de suas funções. A abolição da escravidão no Brasil é uma realidade social que podemos caracterizar como uma
“liberdade opressora”. Uma liberdade que o liberta dos grilhões, mas que oprime pela tirania
do racismo e pelo abandono social e político por parte do Estado. Deste modo, tem-se uma massa de indivíduos abandonados pelo governo, corroborando assim para a disseminação da marginalização social, ao passo que se multiplica a pobreza e as desigualdades, criando grandes guetos que se transformariam mais tarde em favelas alterando a paisagem urbana das cidades do Brasil
A nação brasileira [...] nunca fez nada pela massa negra que a construíra. Negou‐lhe a posse de qualquer pedaço de terra para viver e cultivar, de escolas em que pudesse educar seus filhos, e de qualquer ordem de assistência. Só lhes deu, sobejamente, discriminação e repressão. Grande parte desses negros dirigiu‐se às cidades, onde encontrava um ambiente de convivência social menos hostil. Constituíram, originalmente, os chamados bairros africanos, que deram lugar às favelas. Desde então, elas vêm se
multiplicando, como a solução que o pobre encontra para morar e conviver (DARCY RIBEIRO, p.222).
Ocorre que, a abolição do trabalho escravo no Brasil, não representou em sua essência uma decisão do governo local, e sim em uma exigência externa do contexto capitalista mundial, que neste momento tinha no trabalho escravo uma contra racionalidade ao desenvolvimento da indústria que se encontrava em franca expansão, sobretudo na Inglaterra que precisava de mão de obra assalariada e de um mercado consumidor forte para a comercialização de seus produtos. Enfim, o governo e a elite brasileira, com o objetivo de manter o seu poder perante as classes mais desfavorecias, e engendrados pelo pavor do levante social, sempre impetraram contra o oprimido (nativo, negro, pobre, ribeirinho) ações violentas e repressivas, mantendo-os sob o domínio do medo. Nesse sentido, tem-se como exemplo de manifestações das massas:
A Confederação do Equador, movimento iniciado em Pernambuco em 1824 e liderado por Frei Caneca, que terminou executado; as de 1831e 1832 no Ceará; a Cabanagem, no Pará, em 1834; a Guerra dos Farrapos, em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, iniciada em 1835 e só sufocada dez anos depois; a Sabinada, na Bahia, em 1837 e 1838; a Revolução Liberal de São Paulo e Minas Gerais, em 1842; e a Revolução Praieira, de Pernambuco, em 1848 (ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO, 1985 p.05).
Ou seja, trata-se de insurreições populares que foram duramente massacradas pelo império do Brasil no seu regime monárquico. Indivíduos oprimidos que buscavam em ações violentas, a sua liberdade na luta contra seu opressor. O fato é que, em meio a estes conflitos sangrentos que constituem a história do Brasil, pobres, índios e negros foram massacrados, explorados, oprimidos e exterminados aos milhões. O apelo à violência, por aqueles que detinham o poder, foi marca dominante na construção do território brasileiro, anotando assim a relação entre a riqueza e pobreza no Brasil, somando-se a isto, a indiferença e a discriminação social e racial como uma das heranças desse país e que permeia até hoje o cotidiano de seus cidadãos.
No momento em que a criminalidade e a violência são muitas vezes associadas à pobreza, isto nos remete a uma visão deformada que pode ser explicada pela nossa herança social, onde o negro, o pobre, o mulato são taxados como seres violentos. O raciocínio que atribui a estes indivíduos esta característica como algo inato e não como fruto de uma sociedade individualista e pouco acolhedora, são caracteres que fermentam os malefícios causados pela onda generalizada de violência que o país enfrenta.