3.8. Verilerin Dağılımı ve Analizi
3.8.2. Verilerin Analizi
3.8.2.5. Müşterilerin, AVM’de Alışverişten Beklentilerinin Sosyo-Demografik
Assim como no conto anterior, “Smallhead and the king’s sons”, em “Morraha” a representação feminina é bastante reveladora de certos aspectos sociais relativos à mulher na sociedade patriarcal em geral. Portanto este aspecto será aqui abordado com mais ênfase.
A noiva de Morraha é ganha pelo herói como um prêmio no jogo de cartas. Segundo Warner (1999, p. 22), o fato de adquirir uma esposa no jogo é resquício de um tempo em que a posse da mulher era dada ao marido pelos pais dela como uma transação financeira entre ambas as famílias, a mulher seria mero objeto de troca.
Existe também uma conexão com o estereótipo da mulher-anjo e mulher-demônio disseminado pela cultura patriarcal ocidental: a esposa e a sogra do herói, ambas doadoras do
meio mágico, são oriundas do Outro Reino. Sobre isso Propp (2002, p. 119-20) diz que, se a doadora for aparentada com o herói, será sempre por parte da família da esposa. As princesas e rainhas encontradas no Outro Mundo possuem sabedoria e dons de profecia, e normalmente auxiliam o herói a obter sucesso em sua missão. Sendo etéreas e mediadoras entre o reino material e o espiritual, elas remetem à idealização da mulher-anjo. Um aspecto intrigante é que a esposa de Morraha fornece-lhe o auxiliar mágico mesmo após o marido não dar ouvidos a sua proibição de sair de casa – implicitamente, podemos considerar que a ajuda da esposa ao marido seja algo inerente à relação conjugal, de acordo com os moldes patriarcais. Já a esposa de Niall é o oposto, representando a mulher-demônio. Ela é a própria antagonista do marido, causando sua desgraça. Alguns episódios do conto demonstram que ela tem características de bruxa: enfeitiça o marido, aparece e desaparece misteriosamente do palácio, rapta o filho caçula do rei.
Outro aspecto da tradição social refletido no conto é a questão da fala feminina, que representa a tagarelice, a sedução e o engano (WARNER, 1999, p. 37-108): a esposa de Niall o chantageia para que este lhe conte seu segredo, e quando o convence, utiliza-o para seu mal. Quando se sente ameaçada pela volta do marido, ameaça suicidar-se, conseguindo que ele prometa guardar o segredo sobre seus atos sórdidos.
É interessante notar que Niall aceita tudo, como se as ações da mulher fossem algo corriqueiro. Além do estilo do conto, que não exige motivações (LÜTHI, 1986, p. 62), implicitamente, existe uma aceitação disseminada sobre a contraparte demoníaca da mulher, algo inerente à natureza feminina, que faz com que sua atitude negativa não cause espanto, nem necessite de mais explicações ao público.
4.2.4 Análise do percurso dos personagens principais sob uma perspectiva actancial (COURTÉS, 1979)
Na narrativa sobre Morraha, o objeto de valor visado pelo herói é a liberdade dos encantamentos impostos pelo antagonista Campeão Ruivo. Com a introdução da tarefa difícil (M), é estabelecido um contrato de troca entre os dois homens: a libertação dos encantamentos ocorrerá com a entrega da espada mágica e de uma informação. Desta forma, o Campeão Ruivo, antagonista, se estabelece como destinador das ações de Morraha, incutindo nele a modalidade do querer fazer; enquanto que as modalidades que lhe dão competência, a do saber fazer e a do poder fazer, lhe são proporcionadas pela esposa, primeira doadora (D),
que lhe fornece o meio mágico e informações (F) e, depois, pela segunda doadora (D), a rainha do reino da França.
Porque a partida do herói () se dá como um castigo por sua imprudência, subjacente estão também certos valores sociais de conduta a serem considerados: agir com bom-senso e cautela perante o desconhecido, ainda mais quando a própria esposa o adverte sobre a insensatez de seu ato, o que pode ser visto como uma valorização dos laços familiares.
Com isso, se estabelece o percurso narrativo do herói, que deve empenhar-se na travessia ao Outro Mundo (G), a fim de obter o que busca; enfrentando vários obstáculos e se firmando enquanto herói. Temos aqui enquanto valor axiológico subjacente, os testes a que os jovens das tribos eram submetidos nos ritos de iniciação, antes de serem considerados homens adultos.
Para que obtenha a liberdade, Morraha deve alterar seu estado corrente de disjunção da espada mágica e da informação que precisa. Para isso, deve tirá-los do oponente Niall. A transformação do estatuto do herói torna-se evidente: antes, parecia auto-suficiente, fazendo o que bem entendesse, agora, seu sucesso depende de seguir instruções (da esposa e sogra), o que faz à risca. Com isso, entra em conjunção com os objetos de que precisa e obtém sua libertação, cumprindo a tarefa difícil (N).
Com relação a Niall, na narrativa em que tem papel de herói, seu estatuto inicial de detentor da magia (conhecimento da linguagem dos pássaros) é alterado para o de um ser impotente, metamorfoseado em animal. Sua esposa, ao encantá-lo, torna-se o destinador de suas ações, incutindo no herói a modalidade do querer fazer. O objeto de valor visado é a libertação da metamorfose.
Como a metamorfose foi desencadeada devido à quebra de um segredo, implicitamente, temos a importância moral de mantermos nossa palavra, além de um aviso para que não se confie em mulheres. Explicitada na estrutura superficial do conto, está a
negatividade da fala feminina, quando Niall explica porque não queria contar seu segredo: “ ‘[...] pois as mulheres estão sempre a fazer perguntas.’” (JACOBS, 2002, p. 95). Ademais,
enquanto justificativa para sua desgraça, temos valores primitivos, nos quais os iniciados nos segredos mágicos, não deveriam jamais revelá-los.
Num primeiro momento, na busca de sua libertação, o herói ainda não possui competência para tal, não tem o saber fazer. Ele parte () ao Outro Mundo (G) metamorfoseado e só encontra fracassos. Sua tarefa (M) é a de cuidar do filho do rei, mas ele deixa que o garoto desapareça. Implicitamente, temos valores axiológicos antigos, vindos das
crenças sobre os perigos que cercam o mundo natural e ameaçam o rei/sacerdote e sua família, os quais não devem ser ignorados sob pena de incorrer em desgraça.
Depois, Niall obtém a modalidade do saber fazer, quando já não confia mais na esposa e volta para casa sem se revelar a ela. Astutamente, faz com que a criança lhe bata com o ramo mágico, recuperando o que buscava: sua antiga aparência. Ao adquirir sua forma anterior (objeto de valor: libertação da metamorfose), adquire também o poder ser e o poder fazer. Ele parte novamente ao Outro Mundo e, agora, age com astúcia: seu antigo estatuto de homem ingênuo e crédulo já não existe mais (não há lugar para ingenuidade no caráter de um homem na sociedade): engana a bruxa, mata seu filho e recupera as crianças, realizando com sucesso a tarefa difícil (N). Niall não tinha motivos para continuar sua empreitada, mas o faz por vontade própria, porque exerce sua liberdade de escolha (poder fazer). Implicitamente, temos o valor de justiça, retidão do herói, que faz o que é certo por obrigação moral e não por ser ameaçado por algo. Como recompensa, Niall obtém riquezas e a criança que vai viver com ele. Novo contrato é firmado entre ele e a esposa (de manterem segredo sobre todo o ocorrido), cujo cumprimento leva à convivência harmoniosa entre eles.