Aqui evidenciaremos certos percursos narrativos da heroína, bem como o de outras personagens envolvidas, conforme sua importância para uma compreensão geral do conto. Para tanto, ordenaremos alguns dados obtidos na análise morfológica, em conexão com aqueles da análise sociocultural, evidenciando as interrelações entre os elementos explícitos na superfície do texto e os implícitos, presentes em sua estrutura profunda.
De modo amplo, podemos definir o percurso narrativo da heroína como sendo condicionado pelo objetivo de encontrar casamentos com filhos de reis (objeto de valor visado), primeiro para as irmãs e, então, para si mesma. Todo o fazer de Cabeça Pequena, assim como o fazer negativo (maldoso) das irmãs, é orientado neste sentido. O destinador das ações das personagens seria a condição tradicional da mulher na sociedade e a importância de estar em conjunção com um marido adequado, como já tratado no tópico acima (WARNER, 1999, p. 233-73).
A mãe (metamorfoseada), antes passiva, assume o papel de sujeito transformador ao voltar para cumprir a tarefa difícil (M) imposta à Cabeça Pequena. Ao realizar a tarefa (N), torna-se destinador das ações da heroína, exigindo que esta perdoe e cuide das irmãs (estabelecendo nova tarefa M). Assim, a mãe impõe à filha a modalidade do querer-fazer. Essa modalidade advém de duas crenças disseminadas, embora não mencionadas na história: a primeira é que o amor de uma mãe é incondicional: embora tenha sido assassinada pelas próprias filhas, não nos causa exatamente espanto o fato de ela ainda assim preocupar-se com o bem-estar delas. A outra é a de que os mortos não devem ser contrariados (PROPP, 2002, p. 169-79), o que leva Cabeça Pequena a acatar o pedido. Dessa forma, a heroína assume uma dívida contratual implícita para com a mãe: esta salvara sua vida e, em troca, ela deve salvar a vida das irmãs. Algo, então, que à primeira vista nos parecia contraditório: ajudar suas antagonistas, agora faz todo sentido.
Vamos, então, focar-nos no percurso narrativo da heroína. A narrativa, a partir daqui, decorre de forma a que a heroína cumpra seu papel de protetora das irmãs, e segue vencendo os obstáculos e zelando pelo bem-estar das mesmas (o que faz por meio do salvamento das irmãs, traduzida nas funções de perseguição e salvamento (Pr e Rs), na condução destas ao
outro reino, G, e por meio dos contratos com os filhos de rei, na forma de tarefas M e seu cumprimento N). Sua relação com as irmãs transforma-se gradativamente no decorrer do enredo, pois de dominada torna-se dominadora, dona do destino de todas elas. Assim Cabeça Pequena prossegue, até que as coloca em conjunção com o casamento com filhos de reis (W0), desta forma, alterando o estatuto inicial das irmãs, que era o de vulnerabilidade e instabilidade financeira, passando à condição final de segurança, riqueza e elevação social.
Ao cumprir o contrato estabelecido com a mãe (casamento das irmãs), a heroína consegue também a liberdade necessária, para cuidar de si mesma. A narrativa agora será orientada pelo seu próprio casamento (W0) (objeto de valor).
Essa nova história tem início na casa da bruxa. A princípio, parece incompreensível por que a garota aceita trabalhar para ela. Entretanto, lembremos que a velha joga diversas pragas em Cabeça Pequena, desejando seu mal. Segundo Moore (1981, p. 33-51), pela tradição popular celta, incorrer em desafeto com seres do Outro Mundo era algo temido e evitado pelos camponeses, que mantinham rituais domésticos na tentativa de conviver em bons-termos com eles. Essa crença subjaz à atitude da heroína, passando a ser o destinador de suas ações. Ela, sensatamente, aceita auxiliar a bruxa como meio de anular os males que certamente recairiam sobre si.
A conjunção da heroína com o noivo se dá, primeiramente, pela aquisição de objetos mágicos (F), pertencentes à bruxa. A partir disso, a moça está apta a contrair um contrato de troca com o filho do rei de Munster, o qual aceita casar-se como meio de salvar sua vida.
A relação de Cabeça Pequena com o filho do rei é uma de dominador-dominado. Ela tem o poder sobre ele enquanto detentora do objeto de valor que este busca: sua liberdade. A heroína, então tem o papel de destinador e o príncipe é o destinatário: ela o faz querer casar- se. Ao ser transformado novamente em homem, ele adquire também a modalidade do poder fazer (a ação do casamento).
Partindo ao reino distante e escapando à perseguição da irmã da bruxa (funções G, Pr e Rs), ela transforma a condição de ambos: de cativos tornam-se livres. Depois, usando de magia, ela faz-se bela e desejada, conquistando o amor do príncipe. Isso implica na sedução (poder): ela não só quer o casamento, quer também o amor do moço e o obtém. Agora ela o domina não só com a posse de sua liberdade, mas também com sua aparência desejável. Conquistando seu amor, ela o tem por “inteiro”, afastando, implicitamente, a ameaça de futuros problemas conjugais, como o interesse do noivo por outras mulheres.
Quase no final do conto, Cabeça Pequena faz com que o príncipe contraia outra obrigação para com ela: não se deixar beijar. Como sanção à quebra do contrato (é beijado por
um cão), ele se esquece dela (ambos são penalizados). Novamente, a moça o faz querer casar- se, por meio da realização de tarefas impostas pelo rei de Munster (M e N). Os noivos finalmente contraem núpcias, sendo permanentemente modificado o estatuto da heroína: obtém elevação social e riqueza por meio do objeto casamento (W0).
Portanto, do ponto de vista aqui adotado, esse é um conto de uma moça que sabe o que quer e que utiliza todas as suas habilidades e vantagens, com poucos escrúpulos éticos, para obter o que deseja, transformando a si mesma e sua vida no decorrer do enredo. É interessante notar que Cabeça Pequena utiliza todo seu potencial interno para tornar-se bem sucedida: sua determinação em cumprir os tratos contraídos com outras personagens, suas habilidades domésticas, sua astúcia e coragem e sua facilidade no trato com as pessoas. Tudo isso se traduz nas modalidades de poder e saber fazer, sendo esta última geralmente destinada aos sujeitos transformadores masculinos, dificilmente encontrada nas heroínas dos contos franceses (COURTÉS,1979, p. 166). Aqui, a oposição entre parecer e ser, segundo o autor comum nos contos, também é evidente: Cabeça Pequena apenas parece idiota, mas na verdade mostra-se dotada de grande astúcia.
Muito do que aqui foi evidenciado explica certas manifestações textuais antes incompreensíveis. Por meio da explicitação dos motivos que compõem o conto e suas correlações com aspectos socioculturais, foi proporcionada uma compreensão mais profunda da significação geral da narrativa toda.