Grande parte das diferenças encontradas neste conto, com relação ao padrão do gênero, já foi evidenciada por meio de comentários contidos nas análises posteriores; entretanto, neste tópico, faremos uma síntese de todas elas, de forma a torná-las mais claras.
a) Transformações na forma e estilo
Neste conto, há vários afastamentos seguidos (), sem que a heroína parta. Quando se dá o afastamento da mãe, embora tome forma de dano (A), não se caracteriza enquanto tal por não haver a partida da heroína (Cabeça Pequena ainda permanece em casa e tem que cumprir uma tarefa difícil (M e N) antes que novo afastamento (o das irmãs) se realize e se estabeleça a carência (a) (ausência das irmãs), o que finalmente acarreta a partida (). Observa-se, assim, um intrincamento inicial excessivo como preparação à partida, uma intensificação que
pode ser atribuída à criatividade do narrador, principalmente pelo excesso de acontecimentos aí descritos: o nascimento da menina num lar abastado, as sucessivas mortes dos maridos da mãe, o nascimento das irmãs, o estado deprimente da mãe antes de sua morte, a fuga das meninas após o assassinato da mãe com a subsequente volta das mesmas – o último tratando- se de um motivo cego, nos termos de Lüthi (1986, p. 61), já que sua função é a de apenas intensificar e preparar para a última fuga das meninas, mas é desnecessário ao enredo. Este excesso é detectado porque os contos podem exibir uma situação inicial bem mais simples, indo direto ao ponto em que o problema se apresenta: um lar constituído por uma mãe viúva, com conflitos entre a irmã mais velha e duas irmãs mais novas, sem elaboração textual de como se chegou a essa situação.
A primeira tarefa difícil (M) (recolher agulhas do palheiro) assimila a função de ardil (), já que não lhe traria recompensas, enquanto que o fracasso resultaria em morte. No estabelecimento da segunda tarefa difícil (imposta pela mãe), o fato de Cabeça Pequena acatar um pedido, ao invés de uma ordem, denota um enfraquecimento deste motivo. Há também um acúmulo de funções: a função da doadora (D) assimila a de meio mágico (F).
Na segunda narrativa, o dano (A) (metamorfose do príncipe em porco) não é precedido pelo afastamento () ou outro acontecimento que o condicione. O excesso de afastamentos da primeira história se opõe à total ausência na segunda.
O fato de o conto ser bipartido em duas narrativas praticamente isoladas é comum ao estilo do conto, mas não o fato de a primeira dar indícios de episódios e atributos de personagens da segunda, como já citado anteriormente. Episódios repetidos que, ainda segundo Lüthi (1986, p. 49) deveriam ser considerados de forma totalmente isolada, encontram-se relacionados no conto. Há também a ocorrência de episódios que não têm função alguma tanto na primeira como na segunda narrativa: ambas as descrições de como a heroína foi à casa de um ferreiro, passando ali algum tempo. Tais episódios parecem decorrer de entrelaçamentos com motivos de outros contos, tendo sido ali encaixados.
Em ambas as narrativas são mencionadas localizações de regiões irlandesas (Erin, Munster, Ulster, Connacht), incomum aos contos, já que seu estilo evita a menção de lugares. Outros elementos da sociedade irlandesa aparecem: medidas de peso em libras (do sal e da cinza colocados no mingau da bruxa); vassoura de urzes; Espada de Luz (objeto mítico). Como também observado antes, Cabeça Pequena é dona do saber fazer, pouco comum às heroínas dos contos da Europa continental (COURTÉS, 1979, p. 166), o que remete à tradição das mulheres celtas irlandesas. Tudo isso denota a introdução de elementos tardios, já que de
acordo com Propp (1971, p. 254), elementos universais são mais antigos que os nacionais, que por sua vez, são anteriores aos regionais.
b) Transformações nos elementos de origem mítica e ritualística
Neste conto há o que Lüthi (1986, p.61) chama de motivo cego, o qual permanece sem relação com a história: o fato de a mãe ter sido cozida pelas filhas, após seu assassinato, indicando que pode ser um motivo advindo do entrelaçamento com outros contos, o que é comum de ocorrer no estilo do gênero.
Ao invés da heroína partir e encontrar o doador (D), este vem a seu encontro na forma do espírito da mãe morta transformado em gatinho, constituindo um motivo tardio.
Segundo Propp (2002, p. 64), a cabana da floresta seria um padrão nos contos deste tipo, mas neste caso, não há menção de floresta, e ao invés da cabana, temos uma casa. A impressão é que existem pessoas vivendo próximo a ela, já que a heroína é informada por terceiros de que as irmãs se encontravam ali. A ausência total de descrições pode advir de um esquecimento do narrador. Segundo Propp (1971, p. 255-56), essa transformação se dá pela falta de correspondência do conto e o gênero de vida da sociedade em que o conto é engendrado; indicando a desatualização entre o conto e o meio, a época ou o narrador. A casa pode ser algo mais próximo à vida em sociedade do que uma mera cabana.
A travessia das três moças ao Outro Mundo (G) pela Ponte de Sangue dá-se de forma pouco convencional, pois somente o herói/heroína dos contos seria capaz de fazê-lo (PROPP, 2002, p. 83-4; 2006, p. 48-9). Isso se explica em função do enredo, mas não deixa de ser uma anomalia ao estilo do gênero. O retorno de Cabeça Pequena ao lar () tampouco ocorre dentro dos padrões, já que volta à casa da bruxa e não à sua própria. A substituição que se dá nessa função seria originada de superstições populares irlandesas, que abominam pragas lançadas por seres do Outro Mundo, no caso, a bruxa, e um modo de evitá-las seria agradando a personagem citada.
Cabeça Pequena encontra o príncipe metamorfoseado em porco e faz um pacto com ele. Normalmente, o animal agradecido ajudaria, sendo ele mesmo o meio mágico ou, então, seu doador, mas, neste conto, é a moça quem o auxilia com o meio mágico.
O casamento (W0) da heroína se dá no reino do sogro, ou seja, o príncipe herda o reino do pai e não o do sogro. Propp (2002, p. 410-22) identifica o fato como um motivo tardio, correspondente à sociedade da época em que o conto foi composto.
A sociedade celta também pode ter gerado uma inversão nos atributos da heroína, normalmente destinados ao herói (o saber fazer), que se relaciona mais às ações do jovem púbere nos rituais de iniciação. Enquanto na maioria dos contos a heroína é auxiliada para obter sucesso, sendo mais passiva, neste, ela toma o destino em suas mãos e atua com um fazer transformador de seu próprio estatuto e de outras personagens, como natural aos heróis masculinos (COURTÉS, 1979, p. 166).
De acordo com as observações acima, elaboramos a seguinte tabela com o intuito de facilitar a identificação dos elementos introduzidos tardiamente no conto, os quais não pertencem à forma fundamental do mesmo:
TABELA 1 – “Smallhead and the king’s sons”: Localização das principais transformações na primeira e segunda sequências narrativas
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