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Espada de Luz e informações sobre Anshgayliacht, cumpre a tarefa difícil (N) imposta pelo Campeão Ruivo, libertando-se do encantamento lançado por ele.

4.2.2.2 Sequência das funções da sequência narrativa encaixada (História narrada por Niall)

Situação inicial (antes do surgimento das funções)

Niall conta que conhece a linguagem dos pássaros, mas sua esposa não sabe disso.

ß,  Gafastamento do herói, cumplicidade do herói em sua própria desgraça, dano, partida do herói, deslocamento entre dois reinos

O afastamento (ß) de Niall dá-se ao ir passear com a esposa. Sua metamorfose (dano A) ocorre porque durante o passeio, ele ouve a conversa dos pássaros e se põe a rir. A esposa

o obriga a revelar seu segredo e, uma vez que cede às pressões da mulher, ele contribui para sua própria desgraça ( ), ainda que involuntariamente. Metamorfoseado em animal (cão) pela mulher, sua antagonista, Niall é obrigado a partir ( ), constituindo uma fuga. O rapaz chega a outro reino (G) sem ajuda do meio mágico.

M, H, J e  Tarefa difícil, combate com antagonista, antagonista é vencido, retorno do herói

Já no outro reino, a Niall é implicitamente imposta uma tarefa (M) pelo rei: cuidar de seu filho. Embora o rapaz consiga salvar a criança numa tentativa de rapto, atacando e vencendo o antagonista (H e J) (mão que desce pela chaminé e é decepada pelo cão), mais tarde a criança desaparece. Niall, tendo fracassado no cumprimento de proteger o menino, volta ao lar (), ainda metamorfoseado em cão.

O , D, F, K, Q: Herói chega incógnito ao lar, encontro com doador, recebimento meio mágico, herói recobra antiga aparência, é reconhecido

Niall retorna ao lar e permanece escondido (O). Lá descobre que a criança, filho do rei que havia desaparecido está com sua esposa (antagonista). A criança torna-se um doador do meio mágico de forma involuntária (D), ao bater-lhe com o ramo (F), fazendo com que sua antiga aparência fosse recuperada (K). Todos os seus criados, que acreditavam que estava morto, reconhecem-no (Q). O antagonismo da esposa é sutilmente eliminado quando, por meio do pacto de segredo de toda a situação, esta cede à harmonização do casal, não havendo punição direta (U).

, G, H, J, N e : Nova partida do herói, deslocamento entre dois reinos, antagonista confrontado, antagonista vencido, cumprimento da tarefa difícil e retorno ao lar

Niall parte novamente ao outro reino ( e G) para devolver a criança ao rei. No caminho, encontra o antigo antagonista (o que teve a mão decepada pelo cão) e, numa forma sublimada de confronto, o herói o mata, vencendo-o definitivamente (H e J). Como consequência, recupera todos os filhos do rei que haviam desaparecido anteriormente, levando-os ao palácio. Assim sua tarefa é realizada de forma intensificada (N), pois ao invés

de um filho, salva a todos. Como recompensa, recebe tesouros e o filho mais novo do rei lhe é entregue para viver com ele e a esposa. Seu retorno ao lar () não é narrado, mas está implícito, uma vez que conta sua história em sua própria casa, junto da esposa.

4.2.2.3 Considerações gerais sobre a análise morfológica, forma e estilo

O conto “Morraha” é composto por uma sequência narrativa principal, na qual é encaixada uma subnarrativa, denominada de “A História”, narrada por Niall. Ambas as narrativas se entrelaçam em certos pontos, embora sejam bem delimitadas no conto. Na narrativa principal, o herói é Morraha e Niall é seu antagonista. Na sequência encaixada, Niall é o herói e conta sua história, que tem um caráter autobiográfico, esclarecendo certos acontecimentos da sequência narrativa principal, além de fornecer ao herói Morraha a informação sobre Anshgayliacht, necessária para completar a tarefa imposta pelo Campeão Ruivo.

A sequência de funções apresentadas no conto é: ß, ß, ß, W0  , ß, A, M , D, F, G, D, F, Pr, Rs, Pr, Rs, Pr, Rs [ß, A,  G, M, H, J , O , D, F, K, Q, , G, H, J, N e ]  e N; sendo a sequência entre colchetes, a da narrativa encaixada, que possibilita o retorno de Morraha ao lar (), munido do que precisa para completar a tarefa difícil (N).

Na sequência narrativa principal (desconsiderando-se a interrupção causada pela narrativa encaixada), a descaracterização da sequência-padrão se dá no início do conto, principalmente pela realização do casamento W0, que normalmente ocorre no final. Temos

também a presença da tarefa M, mas como já dito anteriormente, isso é corriqueiro nos contos e não constitui uma anomalia. Os três afastamentos (ß) ao invés de acarretarem danos (A), acarretam recompensas, sendo isso explicado como uma necessidade do enredo, se considerarmos as recompensas como uma preparação ao nó da intriga (que se dá com ß , A e ), pois elas intensificam o contraste entre uma situação de extrema bem-aventurança e a desgraça que recai sobre Morraha com seu quarto afastamento. Na narrativa de encaixe, da situação inicial até a partida do herói ( ), a sequência se mantém; do deslocamento G até seu retorno (), há interrupção da mesma com a introdução da tarefa difícil (M), implicitamente imposta pelo rei. A partir deste ponto, a sequência sofre grande embaralhamento, voltando à ordem em sua segunda partida ( ) ao reino distante até seu retorno definitivo (). Observamos que o maior embaralhamento se dá no retorno incomum do herói ao lar antes do momento previsto: antes de ser definitivamente sancionado enquanto herói, um momento em que seu fracasso é evidente. Isso significa que funções que deveriam ter sido realizadas em

momentos anteriores, em sua primeira partida, como o encontro com doador e recebimento do auxiliar mágico (o que comumente garante a vitória do herói) se dão neste momento tardio do conto, o que explica a necessidade de ele ter que retornar à sua jornada para cumprir definitivamente sua missão. A partir daí, a sequência volta ao normal.

A diferença entre a sequência narrativa principal e a de encaixe é que a primeira é heterodiegética centrada no narrador e a segunda é homodiegética, de caráter autobiográfico, sendo uma anacronia por retrospecção, já que é narrada para explicar um acontecimento anterior, com o intuito de informar o herói Morraha (narratário) sobre a morte de Anshgayliacht.

Ambas são narrações ulteriores, obedecendo a ordem cronológica lógica, exceto que em alguns momentos, a narrativa de encaixe tem narração intercalada, quando volta ao momento presente do ato narrativo, entrelaçando-se com a narrativa principal. Isso ocorre quando o narrador Niall pede que a mulher testemunhe a veracidade do que conta ao narratário (herói Morraha): “‘Aqui, é ela própria que dirá se é mentira o que estou dizendo.’” (JACOBS, 2002, p. 96), sendo que a mulher ganha voz na história ao responder quando solicitada: “ ‘Oh, você não está falando mais que a verdade, nada menos que a verdade.’”.

É surpreendente verificar como o passado do antagonista Niall é revelado no conto, mostrando ser ele também um herói (ao menos em sua própria narrativa), bem como o caráter de sua esposa, sobre o qual, na narrativa principal, temos um vislumbre, mas na narrativa de encaixe se mostra mais profundamente por suas ações, dando a entender que tem caráter dúbio, entre humano e bruxa. Um exemplo disso é que ela surge com a criança, filho do rei, em sua própria casa, o que nos faz inferir que ela tenha conexões com o Outro Mundo, de forma maléfica, uma vez que teve a possibilidade de raptá-la e trazê-la de lá, embora não se saiba como, pois o fato é tratado no conto como uma elipse: Niall apenas nos diz que ao chegar a casa, viu a criança com a esposa. Uma inferência direta sobre sua misteriosa estada no castelo em outra ocasião é quando o filho do rei aparece dentro do baú, no quarto de uma mulher misteriosa que ali se hospedara: “‘Mas a mulher estranha tinha desaparecido e não presenciou isso. E aqui está ela própria para dizer se estou dizendo mentiras sobre ela. ’” conta Niall, referindo-se à esposa (JACOBS, 2002, p.99).

Por meio da narrativa de encaixe, o público tem também a informação de que o Campeão Ruivo é irmão de Anshgayliacht, sendo filho da bruxa do castelo, pois Niall diz: “‘Quando for para casa, e o vistoso Campeão Ruivo perguntar-lhe pelas notícias da morte de Anshgayliacht e pela espada de luz, diga-lhe o modo como seu irmão foi morto[...].’”( Id. ibid., p.104).

Ambas as narrativas apresentam motivos cegos (sem função na história) ou truncados (podem ter alguma função, mas permanecem desconectados da narrativa). Na primeira, um motivo truncado é Morraha apresentar no peito as marcas de um filho de rei, além de ser carregado nos ombros para dentro do palácio do rei da França. Segundo Lüthi (1986, p. 61-2), o motivo truncado ocorre como parte do estilo do conto, quando forças misteriosas atuam sobre os personagens. O fato de a esposa de Niall jogar-lhe um prato de carne e um de pudim pode ser considerado um motivo cego, sem função e sem conexão com a história. Segundo o autor, isso ocorre por esquecimento do narrador ou pelo entrelaçamento com motivos de outros contos. Já na narrativa de encaixe, um exemplo de motivo truncado é o filho do rei ter sido encontrado trancafiado num baú, após desaparecer de seu quarto. Sua função seria a de conectar, implicitamente, a mulher misteriosa que se hospedava no quarto ao sumiço da criança, mas não há relações desse motivo com o restante da narrativa. Um motivo cego seria o fato de o filho da bruxa possuir um só olho. Nada explica isso na história, podendo ser um motivo advindo de outro conto.