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2.1ASPECTOS INTRODUTÓRIOS

A história da civilização humana, didaticamente, é dividida em três grandes períodos: a Antiguidade, a Idade Média e a Idade Moderna. O que marca, sobretudo, cada um desses períodos históricos é a autoridade prevalente. Durante a Antiguidade, os valores morais eram passados através dos mitos; na Idade Média, a autoridade vinha somente de um único Deus; na Modernidade, surge o império da razão e da ciência.

Em cada um desses períodos, o significado e o alcance da liberdade foram bastante diferentes, assim como o próprio Direito:

(...) sendo um objeto histórico-social variável, o direito não é o mesmo em todos os tempos históricos. Assim, a um tipo de direito pré-capitalista, variável e condicional, corresponde também uma filosofia do direito e do justo de tipo casual. A um direito capitalista, rigidamente normativo, corresponde o juspositivismo.100

Acrescentamos que a um tipo de direito capitalista humanista corresponde uma hermenêutica jus-humanista, donde decorre uma Liberdade, que é o nosso objeto de estudo e que se pretende conceituar nesta tese. Para tanto, analisaremos a liberdade, que é categoria jurídica, no decorrer da história da filosofia do Direito. Cabe ressaltar que a filosofia do Direito é apenas uma parte da filosofia geral. Ou seja, é a aplicação das teorias filosóficas gerais ao caso específico do Direito.101

100 Alysson Leandro Mascaro, Filosofia do Direito, São Paulo: Atlas, 2010, p. 18.

101 “A filosofia, ao mesmo tempo em que é uma sistematização do pensamento, é um enfrentamento do próprio pensamento e do mundo. Tudo isso pode se aplicar a objetos específicos da própria filosofia, como o direito. E, assim sendo, a filosofia do direito nada mais é que a filosofia geral com um tema específico de análise, o direito”. Ibid., p. 10.

Paulo de Barros Carvalho, com muita propriedade, apresenta a distinção, acompanhando Tércio Sampaio Ferraz Jr, entre “filosofia do direito” e “filosofia no direito”:

Parece-me útil distinguir “Filosofia do Direito” de “Filosofia no Direito”, como tem feito Tércio Sampaio Ferraz Jr. A primeira locução, utilizada para significar o conjunto de reflexões acerca do jurídico, corpo de ponderações de quem olha, de cima e por fora, textos de direito positivo historicamente dados, compondo proposições crítico-avaliativas. A segunda, como o emprego de categorias que se prestam às meditações filosóficas, todavia inseridas nos textos da dogmática, isto é, vindas por dentro, penetrando as construções mesmas da ciência. São enunciados extrajurídicos, não necessariamente filosóficos, lingüísticos ou não, mas que potencializam o trabalho do cientista do direito em sentido estrito, na medida em que são introduzidos no discurso para aumentar sua capacidade cognoscente, ao provocar novos meios de aproximação com o objeto que se pretende conhecer.102

Para Paulo de Barros Carvalho, é importante “o emprego da ‘Filosofia no Direito’, tendo em vista expandir o conhecimento e dar mais consistência ao saber jurídico”.103

No que se refere à “Filosofia do Direito”, Alysson Mascaro explica que

(...) há também três grandes níveis gerais de reflexão jusfilosófica: uma filosofia do direito antiga, eminentemente greco-romana, que corresponde às formas superiores de organização do modo de produção escravagista; uma filosofia do direito medieval, eminentemente cristã, que corresponde ao modo de produção feudal; uma filosofia do direito moderna, construída no embate entre uma lógica religiosa-absolutista e uma perspectiva burguesa racionalista, e que, ao seu final, antecipou o arcabouço do direito positivo contemporâneo. 104

102 Paulo de Barros Carvalho, O preâmbulo e a prescritividade constitutiva dos textos jurídicos, in Revista de Direito GV, v. 6, nº 1, jan-jun 2010, São Paulo, p. 295-296.

103 Ibid., p. 296.

Acrescentamos às ponderações do autor que existe também uma nova filosofia jus-humanista do Direito que já foi apresentada neste estudo como um de seus postulados, e que, pautada numa visão antropofilíaca, bem como no símbolo de Jesus Cristo, admitido no campo da ciência jurídica por meio do culturalismo jurídico, propõe uma grande missão ao Direito: humanizar o sistema capitalista por via do espírito da fraternidade.

A filosofia do Direito, pois, acompanha também as mudanças nos sistemas econômicos: ao sistema escravagista correspondia a filosofia antiga; ao feudalismo, a filosofia cristã; como sustentáculo do sistema capitalista surgiu a filosofia moderna; e, por fim, para embasar um sistema capitalista humanista, surge a filosofia jus-humanista; e com ela o conceito de Liberdade proposto neste estudo.

2.2ANTIGUIDADE HELÊNICA

A Antiguidade costuma ser definida historicamente a partir do surgimento das primeiras civilizações. No caso de nossa tradição ocidental, destacam-se a civilização grega e a romana.

A “bíblia” dos antigos eram as epopeias de Homero, sobretudo, a Ilíada e a

Odisseia105; e também os poemas antigos, como, por exemplo, os de Hesíodo106. Na visão mítica, a grande virtude era agir com diké (justiça), e a pior degeneração era cometer hybris (arrogância, descometimento). Homem bom era aquele que, conhecendo a si mesmo, conhecia também o seu lugar no mundo e nele procurava permanecer, sem cair, no caminho, na tentação de cometer hybris, ou seja, sem querer igualar-se aos deuses ou ainda atingi-los. O ideal de homem virtuoso era materializado no personagem

105

Homero, Odisseia, tradução direta do grego, introdução e notas por Jaime Bruna − São Paulo: Cultrix, 2006;

_______. Odisseia, Volume II, tradução de Haroldo de Campos − São Paulo: Arx, 2002;

_______. Ilíada, Volume I, tradução de Haroldo de Campos, introdução e organização Trajano Vieira, 4ª. ed. − São Paulo: Arx, 2003.

106 Hesíodo, Teogonia: a origem dos deuses, estudo e tradução Jaa Torrano, 7ª. ed. − São Paulo: Iluminuras, 2007/2009;

______. Os Trabalhos e os Dias. (primeira parte), introdução, tradução e comentários Mary de Camargo Neves Lafer, 6ª. reimpressão − São Paulo: Iluminuras, 2006/2008.

Ulisses (Odisseu em grego), herói da famosa Odisseia, de Homero. Por sua vez, a Ilíada concentrou-se no momento da guerra de Troia, marcado pela hybris de Aquiles. Vida boa, para os antigos, era aquela em harmonia com o cosmos.

Nas antigas civilizações greco-romanas, os costumes, os valores, bem como o Direito, eram transmitidos por meio das narrativas simbólicas dos mitos.107 Foi somente com a dialética de Sócrates e Platão e com a lógica de Aristóteles que o pensamento racionalista passou a surgir na antiga Grécia. Pensamento este adormecido na Idade Média, e ressuscitado no século XIII, especialmente por São Tomás de Aquino, até que floresceu no chamado século das luzes, o XVIII, quando passou a predominar a razão iluminista burguesa.

Um exemplo de filosofia antiga é a apresentada pelos estoicos, que surgiram na antiga Grécia. Antes do surgimento da filosofia na Grécia, no século VI a.C., eram as religiões que monopolizavam as respostas à pergunta da salvação. O que possibilitou o surgimento da filosofia na Grécia foi o sistema político democrático, que conferia liberdade e autonomia de pensamento para uma elite.

A escola estoica atuou em três períodos. Seu fundador foi Zenão de Cítio (+/- 334-230 a.C) e suas lições eram gratuitas e públicas. Foram seus sucessores Cleanto de Assos (+/- 331-230 a.C) e Crisipo de Solis (+/- 280-208 a.C).

São esses os três grandes nomes do que se convencionou designar como ‘estoicismo antigo’. Além de um breve poema, Hino a Zeus, de Cleanto, praticamente não conservamos nada dos inúmeros trabalhos redigidos pelos primeiros estóicos. Conhecemos seu pensamento apenas de maneira indireta, por escritos muito posteriores a eles (notadamente Cícero). O estoicismo teve uma segunda vida, na Grécia, no século II a.C., e, depois, uma terceira, muito mais tarde, em Roma.108

107 “O pensamento mítico consiste em uma forma pela qual um povo explica aspectos essenciais da realidade em que vive: a origem do mundo, o funcionamento da natureza e dos processos naturais e as origens deste povo, bem como seus valores básicos. O mito caracteriza-se sobretudo pelo modo como essas explicações são dadas, ou seja, pelo tipo de discurso que constitui. O próprio termo grego mythos signifia um tipo bastante especial de discurso, o discurso fictício ou imaginário, sendo por vezes até sinônimo de ‘mentira’”. Danilo Marcondes, Iniciação à História da Filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein, 9ª. ed. − Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005, p. 20.

108 Luc Ferry, Aprender a viver: filosofia para os novos tempos, tradução de Vera Lucia dos Reis, − Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, p. 36/37.

Portanto, o estoicismo se divide em três fases: 1ª fase − em Atenas com Zenão, Cleanto e Crisipo (séc. 334-208 a.C); 2ª fase – na Grécia (séc. II a.C.); e 3ª fase − em Roma, com Cícero e Sêneca (4 a.C – 64 d.C). Outros importantes nomes também estão associados a essa corrente filosófica, como Epicteto e o imperador romano Marco Aurélio.

Comparato salienta que:

(...) não houve, propriamente, uma só escola da filosofia estóica – tal como a Academia de Platão ou o Liceu de Aristóteles -, a qual assegurasse o mesmo ensinamento sistemático para várias gerações de discípulos. No decurso dos séculos, os diferentes filósofos ligados ao estoicismo exprimiram idéias contraditórias sobre os mesmos temas.

(...)

Na verdade, em lugar de ser uma escola unitária de filosofia, o estoicismo representou a comunhão de grande número de pensadores, durante pelo menos seis séculos, em uma mesma visão de mundo, marcada por algumas idéias gerais que ensejam, no entanto, apreciável liberdade de interpretação em sua aplicação particular.109

O estudo do estoicismo nos três grandes eixos da filosofia − teoria, ética e sabedoria – se faz necessário para entender a visão que se tinha da liberdade na Antiguidade.