5. MÜŞTERİ MEMNUNİYETİ ÖLÇME TEKNİKLERİ
5.3. KRİTİK OLAY TEKNİĞİ
Em reforço ao marco teórico, adicionamos a Teoria imaginária do Direito (e da Totalidade), desenvolvida por Willis Santiago Guerra Filho, que propõe que o estudo do Direito seja feito dentro de um campo mais amplo.86 Sua proposta retoma, em parte, ideias desenvolvidas pelo italiano Giambattista Vico, no século XVIII, quando este ousou contrapor-se ao pensamento racionalista cartesiano e apresentou uma abordagem pautada numa utilização poética da linguagem.
Guerra Filho sugere uma “Teoria Imaginária do Direito” tanto para a Teoria do Direito (epistemologia – teoria do conhecimento) quanto para a natureza do próprio Direito (ontologia – teoria do ser).
Em sua postulação epistemológica, Guerra Filho se contrapõe à tradicional filosofia cartesiana, pautada num racionalismo exacerbado e, em decorrência, se opõe
86 Willis Santiago Guerra Filho. Por uma Poética do Direito: introdução a uma teoria imaginária do Direito (e da totalidade). In: Revista Panóptica, ano 3, número 19, julho-outubro 2010, p. 19/68.
também ao pensamento mais contemporâneo, que se baseia no pensamento racionalista como, por exemplo, o existencialismo estéril de Sartre e sua concepção sobre o imaginário.
Guerra Filho também ressalta que o pensamento lógico formal apresenta-se ultrapassado, sobretudo por conta do avanço nos estudos matemáticos, que são pura imaginação humana, e que acabaram por influenciar o desenvolvimento da investigação da matéria e dos espaços físicos, levando à elaboração da microfísica quântica, na qual, já se sabe, por exemplo, que o átomo é uma abstração. Veremos no Capítulo 4 desta tese que os estudos atômicos têm nos obrigado a ampliar a nossa visão de mundo. Não mais podemos aceitá-lo, tão somente, dentro dos padrões lineares, cartesianos, impostos pelo cientificismo racionalista.
No que tange ao caráter imaginário do próprio Direito (ontologia), Guerra Filho pede para atentar para o fato de que “o direito é também uma forma de conhecimento, sendo um modo como, numa sociedade, se dá a conhecer aos seus membros o comportamento que é esperado de cada um, pelos demais”.87
Vê-se que a postulação epistemológica e a ontológica convergem, e o que pretende Guerra Filho é destacar “o caráter fundamentalmente ‘po(i)ético’, criativo, imaginativo de toda obra humana, aí incluídos tanto o direito como o conhecimento que se produz, a seu respeito, e também em geral, a totalidade do que se conhece, enquanto dependente de alguma forma de decodificação (...)”.88
Quanto à natureza do Direito, Guerra Filho explica que o Direito é uma criação humana coletiva e, enquanto criação cultural humana, tem sido proposta sua análise como ficção. Ronald Dworkin propõe uma aproximação do direito com a literatura. Richard Posner e Martha Nusbaum estão na origem do movimento do direito e literatura. Mas Guerra Filho afirma que não precisamos ir nessa raiz anglo-saxônica para sustentar a tese do Direito como ficção. Já em Kelsen, que é de nossa tradição continental, encontramos esse elemento. Em sua Teoria Pura do Direito, Kelsen cria uma ficção para fechar sua teoria científica.
87 Id. Ibid., p. 21. 88 Id. Ibid., p. 21.
Guerra Filho destaca que a chamada “norma hipotética fundamental”, que sustenta toda a teoria científica de Kelsen, não é uma hipótese, pois hipóteses são juízos lógicos aos quais cabe empiricamente ser comprovada sua veracidade ou falsidade. A norma fundamental de Kelsen nunca irá existir no mundo real, e por isso mesmo ela não pode ser considerada nem verdadeira, nem falsa. Ela é uma típica ficção, algo que nunca irá acontecer no mundo fático, mas tão somente no mundo das ideias.
Guerra Filho sustenta que as ficções “devem ser úteis para fazer avançar o conhecimento, dando como resolvidas questões que se apresentam como obstáculos para esse avanço”.89 Exemplo típico de ficção, destaca ele, são os dogmas religiosos.
Guerra Filho ensina que “o mundo da ficção é um mundo de possibilidades reduzidas... Existir como uma ficção é existir menos do que existe realmente (...)”.90 Apenas se conhece de uma ficção o que foi dado por seu criador. Trata-se de uma “incompletude ontológica” do universo ficcional, como diz Roman Ingarden.91 Daí porque os juízos elaborados sobre uma ficção são diferentes dos juízos elaborados sobre as coisas reais. Os juízos que partem de uma ficção não podem ser verdadeiros ou falsos, pois a “realidade” da ficção é uma simulação da realidade. Mas, ressalta Guerra Filho, o mesmo não se pode falar no que tange ao Direito. O Direito não é uma simulação da realidade, ele é uma nova realidade, ele é a realidade do “dever ser” (deontológica), construída pelos homens como uma ficção, mas uma ficção coletiva e de um caráter vinculante que se impõe a todos como se realidade fosse. Dessa forma, o Direito disponibiliza aos sujeitos que atinge meios de produzir uma história.
Guerra Filho se utiliza da analogia com o jogo para explicar melhor essa questão. Ele compara o Direito ao jogo de xadrez, como Wittgenstein já havia feito. O xadrez é um jogo que traz uma infinidade de possibilidades de jogadas, com base nas regras de como podem se mover as peças no tabuleiro. A dependência do jogo às regras preestabelecidas pode ser comparada ao Direito. O Direito, assim como um jogo, é uma ficção. Ele estabelece as regras que nortearão a vida em sociedade. Sendo assim, Guerra Filho, acompanhando e acrescentando a ideias de Giorgio Agamben, postula que aos
89 Id. Ibid., p. 24. 90 Id. Ibid., p. 25. 91 Apud Id. Ibid., p. 25.
filósofos, assim como às crianças − e Guerra Filho acrescenta a eles os poetas −, cabe descobrir novas jogadas dentro das regras estabelecidas para o jogo, ou seja, caberia a eles “a descoberta de novas dimensões para os usos comuns dos meios que se encontram à disposição para atingir certos fins – jurídicos, econômicos, políticos, etc.(...)”.92 Daí porque Guerra Filho defende a tese de que o Direito é parte do mundo criado pelo desejo. “O direito é, portanto, parte desse universo lúdico, criação do desejo humano, um modo de imaginar o real em descrições que façam sentido, como diria o antropólogo Cliford Geertz”.93
Ao propor que o Direito é da ordem do desejo, e não da ordem das necessidades, ele se opõe aos chamados utilitaristas.
A proposta que aqui se avança é a de que ele [o Direito] é da ordem do desejo, considerando-se a expressão como formulada utilizando o genitivo em sentido subjectivus e também
objectivus, ou seja, como sendo o mundo ao mesmo tempo causa e efeito, ou função, do desejo, do que é mais propriamente humano, e não da vontade ou de necessidades, que geram interesses, como defende o utilitarismo tecnicista hoje predominante.94
Sendo o Direito fruto dos desejos e não das necessidades, segundo Guerra Filho, lhes damos o mesmo estatuto dos sonhos. Um caráter imaginativo.
Ao considerarmos o mundo, tal como o concebemos, representamos, imaginamos, como um produto do desejo lhe conferimos o mesmo estatuto dos sonhos, isto é, um caráter onírico, imaginário. Tratar-se-ia, então, de algo como um sonho coletivo, construído a partir do que já é dado como sendo o mundo, a realidade, sim, mas sempre in fieri, nunca devendo ser tido como já pronto e acabado, ou seja, objetivo, pois, além de depender de sujeitos, desejantes, que o tenham posto, no passado, visando uma previsão e controle do futuro, contingente, depende também de sujeitos que o “re-ponham”, no presente, atualizando o que há de ser visto como potencialidades, realizando possibilidades.
92 Id. Ibid., p. 27. 93 Id. Ibid., p. 27. 94 Id. Ibid., p. 27.
Nesse contexto, é de um saber prático que se trata, mas do tipo pó(i)ético, “criador” de mundo, produtivo, ao invés daquele seu outro tipo, o técnico, reprodutivo, “explorador” de mundo (...).95
Dentro dessa óptica de Guerra Filho, enxergamos um Direito vivo, em constante movimento, sempre fecundo e prenhe de novas interpretações. Diferente, portanto, do Direito positivista estático, pautado nas necessidades. Para nós, a visão onírica do Direito de Guerra Filho coaduna-se com a visão holística tanto da física quântica, quanto das antigas mitologias gregas. Ao passo que a visão positivista estampa, tão somente, o mundo estático de Descartes e Newton.
A Liberdade que propomos nesta tese, que se pretende um conceito válido na hermenêutica do jus-humanismo normativo, é a liberdade que habilita o homem para ser do tipo po(i)ético – criador do mundo, e não meramente técnico. Daí porque acreditamos que só a educação técnica não é suficiente para capacitar o homem para o exercício de sua liberdade. Daí porque, também, não acreditamos em uma hermenêutica do Direito que seja somente técnica para garantir a liberdade real.
Para nós, a visão dos utilitaristas está mais ligada à figura de Apolo, enquanto a teoria de Guerra Filho identifica-se mais com Dioniso. Sabemos que o mundo antigo era visto como um grande ser vivo, harmônico e perfeito. Daí porque cabia aos homens contemplá-lo e seguir as leis da natureza como leis éticas entre eles. Com o avanço da ciência, o mundo foi desencantado. Passou-se a ver o mundo como um caos, que carece de leis racionais para explicá-lo e desvendá-lo. O mundo deixou de ser visto como um ser vivo harmônico e perfeito, para ser visto como uma grande máquina, da qual podem- se retirar as partes, estudá-las, para então compreender o todo, através das leis da física mecânica. Daí decorre que a ética, desde então, deveria ser construída racionalmente pelo homem, assim como racionalmente as leis da física descrevem o mundo. Essa visão de mundo tecnicista tem prevalecido nos últimos mais de 300 anos. Desde que o pensamento científico ganhou força com o método de Descartes e as leis descritas por Newton, o homem tem explorado o mundo a fim de descobrir seus segredos, as leis que o regem.
A visão de que o mundo podia ser explorado e desvendado pelo homem teve também grande força por conta da visão antropocêntrica que se foi desenvolvendo desde o renascimento cultural, e que se tornou uma máxima com o iluminismo do século XVIII. Na visão antropocêntrica, o homem está no centro de tudo, e todo o resto somente existe em prol desse homem. Essa visão de que o homem é superior às demais coisas do mundo é que o levou a essa tamanha falta de respeito do homem para com todo o resto, com os demais seres do Planeta e com o próprio Planeta.
Neste ponto, frisamos mais uma vez que, nesta tese, temos como pressuposto o novo Iluminismo proposto com o Humanismo integral da doutrina do Capitalismo Humanista. O Humanismo integral pregado por Balera e Sayeg tem como máxima uma visão antropofilíaca do homem que, diferentemente da visão antropocêntrica iluminista, considera que o homem se encontra sim no centro de tudo, mas não está só no centro. No centro também está, por exemplo, o Planeta. Nessa nova visão do homem ele ocupa o centro difuso das coisas. E o Planeta, por sua vez, é considerado ele mesmo sujeito de direitos.
Não obstante o predomínio da visão de mundo tecnicista, Guerra Filho lembra que foi o desenvolvimento dos estudos matemáticos que levou ao desenvolvimento da física quântica. E vimos que o desenvolvimento dos estudos no nível subatômico levou- nos à descoberta de um universo bem mais amplo que o universo estático descrito por Newton.
Guerra Filho ressalta, ainda, que, em Deus “coincidem a essência e a existência, ser e realidade, enquanto nossa essência de entes humanos é a possibilidade – de ser, e também de não ser”.96 Isso nos remete à ideia de re-ligar-se com o todo, com o cosmos. Trata-se da possibilidade de ser!
Numa visão de homem integral (onda – partícula)97, a possibilidade de ser não é meramente estática, como a visão exclusiva de partícula, do método científico clássico. Para nós, o reconhecimento do aspecto onda garante a fecundidade e o novo para as possibilidades do ser, que podem ser infinitas. Apenas uma Liberdade que leve em
96 Id. Ibid., p. 29.
conta ambos os aspectos do homem pode garantir a possibilidade de ser. Cabe ao Direito, a nosso ver, comprometer-se com a garantia da existência de escolhas. Cabe ao Direito manter a porta das possibilidades aberta, garantindo que ambos os aspectos estejam presentes. Por isso concordamos com Guerra Filho quando afirma que,
(...) O direito, então, ao invés de positivo, positum, dado, objetivamente, há de ser concebido antes como possível, imaginário, pois a ficção é a verdade do direito, e o direito é a camuflagem do poder, apropriado e exercido pelos “autores- intérpretes” desta grande montagem, que é a sociedade. Isso porque o que é verdadeiro e falso, em direito, como na política e setores afins, se determina pela “coerência da narrativa” (Dworkin, MacCormick), tendo toda verdade a estrutura de uma ficção, de montagem teatral (...).98
Guerra Filho explica que,
Do que se trata, então, é verdadeiramente de realizar um trabalho imaginativo, conscientemente ficcional, que se avalia – e avaliza – por seus efeitos. É assim que, dessa perspectiva, mitologia, filosofia, direito ou religião e mesmo as ciências são literatura, ficções, pois o que se pretende fazer é contar uma história o melhor possível, para torná-la verossímil, dando um sentido às nossas vidas (...).99
Visto a problematização, a metodologia e o marco teórico desta tese, passamos a estudar, no próximo capítulo, as diferentes visões de mundo que marcaram a nossa história ocidental. É com base na visão de mundo, de cada período histórico, que diferentes conceitos de liberdade foram sendo cunhados. Como nossa proposta é apresentar um novo conceito de Liberdade, e esse conceito depende, necessariamente, de uma nova visão de mundo, será preciso percorrer a história para entender quais foram as outras visões de mundo que prevaleceram em tempos anteriores, bem como quais foram os diferentes conceitos de liberdade decorrentes dessas visões de mundo.
98 Id. Ibid., p. 30. 99 Id. Ibid., p. 32.
CAPÍTULO 2
A LIBERDADE E OS ANTECEDENTES DO ILUMINISMO