7. BULGULAR VE YORUMLARI
7.2. FREKANS ANALİZLERİ
7.2.4. Şikayet Etmeme Nedenleri İle İlgili Soruların Frekans Analizleri 80
A função da Teoria é conhecer o mundo que nos cerca. Em grego, “Theoria, ‘to
theion’ ou ‘ta theia orao’, significa eu vejo (orao) o divino (Theion); “Eu vejo as coisas divinas (Theia)”.110
109 Fábio Konder Comparato, Ética: direito, moral e religião no mundo moderno. − São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 109.
110
Para os estoicos, Teoria significava contemplar o que é divino no real; ver o essencial do mundo. Pela tradição dos estoicos, a essência do mundo é a harmonia, a ordem, ao mesmo tempo justa e bela, à qual os gregos denominam de cosmos.
Os estoicos defendiam o cosmos como um universo organizado e animado. Para eles a estrutura do mundo não era apenas uma organização magnífica, mas era também análoga à de um ser vivo.
O mundo material, o universo todo, é, no fundo, como um gigantesco animal do qual cada elemento – cada órgão – seria admiravelmente concebido e agenciado em harmonia com o conjunto. Cada parte do todo, cada membro desse corpo imenso está perfeitamente ordenado e, salvo catástrofe (às vezes elas acontecem, mas duram pouco e logo tudo volta à ordem), funciona de maneira impecável, no sentido próprio da palavra, sem defeito, em harmonia com os outros: é o que a teoria deve nos ajudar a desvendar e conhecer.111
Para os estoicos, o mundo, o universo é divino. Diferentemente dos judeus e dos cristãos, que colocam o divino em algo transcendente ao mundo.
Comparato explica que
a primeira e mais importante dessas idéias gerais do estoicismo é a exaltação da natureza, considerada a grande ordem universal, animada pela divindade. O contraste com o platonismo foi, nesse ponto, bem marcado. A separação entre o natural e o sobrenatural, a dicotomia entre razão espiritual e realidade sensível, a divisão do ser humano em alma e corpo, foram claramente rejeitadas. Para os estóicos, a natureza (physis) se confunde com a razão (logos). A natureza é o princípio racional que, ao mesmo tempo, ordena dialeticamente as idéias, estabelece as leis do pensamento, do mundo físico e da vida ética. (...)112
111 Luc Ferry, Aprender a Viver, p. 38/39. 112 Fábio Konder Comparato, Ética, p. 109.
Os estoicos nos convidam a contemplar o mundo (teoria) com a ajuda das ciências específicas, como, por exemplo, a física, a astronomia ou a biologia. Com isso, multiplicam-se as
observações que nos mostram como o universo todo (e não apenas esta ou aquela parte) é ‘bem-feito’: o movimento regular dos planetas, a estrutura do menor organismo vivo, do mais ínfimo inseto, provam ao observador atento, àquele que pratica inteligentemente a ‘teoria’, como a idéia de cosmos, de ordem justa e bela, descreve de maneira adequada a realidade que nos cerca, desde que saibamos contemplá-la como convém.113
A partir do que escrevem Comparato e Ferry, concluímos que a estrutura do universo para os estóicos não é somente divina e perfeita. Ela é também racional.
Comte-Sponville afirma que o estoicismo “é quase uma religião: o mundo é pleno, contínuo, único, animado, inteligente, submetido a uma ordem providencial imanente – o Mundo é Deus. Daí uma sabedoria ao mesmo tempo cosmológica e racionalista”.114
Os gregos chamam a razão de logos, termo que origina tanto no francês quanto no português a palavra “lógica”, que significa exatamente a ordem das coisas.115
Ferry lembra, ainda, que Cícero, em um ensaio dedicado à natureza dos deuses (I, 425), critica aqueles – por exemplo, Epicuro − que defendem que o cosmos é um caos e não uma ordem: “Que Epicuro caçoe tanto quanto quiser [...] não deixa de ser verdade que nada é mais perfeito que o mundo... O mundo é um ser animado116, dotado de consciência, inteligência e razão”.117
Para Epicuro, o cosmos não é harmônico, é um caos. Para ele, as leis da natureza não servem de parâmetro para as ações humanas, e a razão é uma convenção. Daí
113 Luc Ferry, Aprender a Viver, p. 39.
114 André Comte-Sponville, A Filosofia, tradução Joana Angélica D’Ávila Melo. – São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 44.
115 Luc Ferry, Ibid., p. 40.
116 Animado (de anima, no latim; = alma, no português, aquele que tem alma, energia, essência.) 117 Apud Luc Ferry, Ibid., p. 41.
porque Cícero o ataca com tanta veemência. Para Cícero, que segue o estoicismo, os homens devem guiar suas ações tendo por base a lei da natureza, que é harmônica, bela e justa. Portanto, a razão corresponde à universalidade da natureza. Miguel Reale explica essas posições antagônicas:
Os estoicos, em verdade, repudiam o relativismo utilitário de Epicuro e proclamam que a justiça não nasce da conclusão de um acordo entre os homens, não resulta de um pacto entre homens desejosos de não se prejudicarem mutuamente, mas é, ao contrário, anterior às leis positivas. A justiça apresentam-na como virtude que nos dirige segundo a razão natural, no sentido de uma vida segundo a natureza. A distinção entre justo e injusto é anterior e superior aos vários e múltiplos dispositivos da lei escrita, ou, como disse Cícero, consubstanciando ensinamentos estoicos, ubi non este justitia, ibi non poteste esse
jus.118
Esse pensamento estoico se afasta bastante do pensamento dos modernos, como veremos no próximo capítulo desta tese. Mas, como explica Ferry, “(...) se compreendermos bem os Antigos, o que queriam dizer não tem nada de absurdo: ao afirmar o caráter divino do universo todo, eles exprimiam sua convicção de que uma ordem ‘lógica’ operava por trás do caos aparente das coisas, e que a razão humana poderia trazê-lo à luz”.119
Como para os estoicos a natureza inteira é harmoniosa, justa e boa, ela servirá de modelo para a conduta dos homens. Assim, a harmonia do cosmos servirá de modelo estético para as artes, bem como para a moral e a política.
Senão, vejamos as palavras de Marco Aurélio (discípulo de Sêneca) nas suas
Meditações: “Tudo o que acontece, acontece justamente; é o que descobrirás se observares as coisas com exatidão [...] como se alguém vos concedesse vossa parte segundo o que mereceis”.120 Ferry explica que, para Marco Aurélio, cada um recebe da natureza o que lhe é devido. Recebe um corpo (que permite mover-se no mundo), uma inteligência (que permite adaptar-se ao mundo) e riquezas naturais (que bastam para
118 Miguel Reale, Horizontes do direito e da história – São Paulo: Saraiva, 2000, p. 42. 119 Aprender a Viver, p. 41.
viver no mundo). Essa teoria do justo anuncia a fórmula que servirá de princípio a todo o direito romano: “Dar a cada um o que é seu”. Cada um no lugar que é seu por natureza. Como alerta Ferry: “(...) sob essa ótica, uma das finalidades últimas da vida humana será encontrar seu justo lugar no seio da ordem cósmica”.121
Exceto os epicuristas, a maioria dos filósofos gregos entende que é na busca do justo lugar no cosmos que se encontra a felicidade e a vida boa.
A harmonia do cosmos é uma premissa no mundo antigo e serve de modelo de beleza para os humanos – dimensão estética. Mas e as catástrofes e as coisas feias? As catástrofes, como dizem os estoicos, são temporárias; e o feio pode ser horripilante à primeira vista, mas, com reflexão, é possível encontrar o belo no feio.
A ideia do belo, porque feito pela natureza, já existia em Aristóteles, que foi um dos grandes inspiradores dos estoicos. Para Aristóteles, aqueles que veem o mundo como feio, mau ou desordenado estão iludidos. Não são capazes de atingir a inteligência do todo, limitam-se a olhar para o detalhe.
O mundo tem um caráter divino para os antigos gregos. Ele é ao mesmo tempo imanente e transcendente. Como sabemos, coisas imanentes são situadas no mundo, coisas transcendentes situam-se fora do mundo. O Deus dos cristãos é transcendente, ao passo que o divino dos estoicos é a própria harmonia do cosmos, portanto, para eles, o divino é imanente ao mundo.
De outro ângulo, o divino dos estoicos também pode ser visto como transcendente. Transcendente com relação ao homem, já que o mundo lhe é “radicalmente superior e exterior a eles”.122
Assim, pois, a Teoria dos estoicos desvela o divino (o real) do mundo; e o mais real e mais divino do mundo é sua harmonia. Essa lógica harmônica é que servirá de
121 Aprender a Viver, p. 43.
122 Luc Ferry, Aprender a Viver, p. 45.
“Podemos, pois, segundo os estóicos, dizer que o divino é ‘transcendência na imanência’, para melhor se perceber em que a theoria é uma contemplação de ‘coisas divinas’ que, embora não escritas em nenhum lugar a não ser no real, não deixam de ser inteiramente estranhas à atividade humana” (Id. Ibid., mesma página).
modelo para tudo: a arte, a política e a moral. Trata-se, pois, de uma teoria dos direitos naturais e que influenciou fortemente o direito romano e a filosofia do direito.
Na visão estoica há uma razão universal que comanda todo o cosmos, e esta razão se estende aos deveres e às ações de todos os indivíduos. Se a razão de todo o cosmos é una e é ela quem deve orientar a conduta de todos os seres humanos, o justo não tem fronteiras, é o mesmo para todos os seres humanos enquanto partes do cosmos logicamente perfeito e harmônico. Diz Cícero em Da República:
A razão reta, conforme à natureza, gravada em todos os corações, imutável, eterna, cuja voz ensina e prescreve o bem, afasta do mal que proíbe e, ora com seus mandados, ora com suas proibições, jamais se dirige inutilmente aos bons, nem fica impotente ante os maus. Essa lei não pode ser contestada, nem derrogada em parte, nem anulada; não podemos ser isentos de seu cumprimento pelo povo nem pelo Senado; não há que procurar para ela outro comentador nem intérprete; não é uma lei em Roma e outra em Atenas, uma antes e outra depois, mas uma, sempre eterna e imutável, entre todos os povos e em todos os tempos; uno será o seu imperador e mestre, que é Deus, seu inventor, sancionador e publicador, não podendo o homem desconhecê-la sem renegar-se a si mesmo, sem despojar-se do seu caráter humano e sem atrair sobre si a mais cruel expiação, embora tenha conseguido evitar todos os outros suplícios.123
E confirmando essa visão cosmopolita de justiça e direito com base na razão natural do universo, Cícero escreve no Tratado das Leis:
E que pode haver, não direito no homem, mas em todo o céu e na terra, de mais sublime que a razão, a qual, quando cresce e se aperfeiçoa denomina-se acertadamente de sabedoria? E se nada há de superior à razão e que esta é encontrada no homem e em Deus, resulta, então, que a razão é o vínculo da primeira associação que se estabelece entre o homem e deus. E aqueles que possuem a razão em comum, também participam da reta
razão: sendo essa a Lei, a Lei é outro vínculo existente entre os homens e os deuses. Os que possuem a Lei em comum também participam em comum do Direito, e os que compartilham da
mesma Lei e do mesmo direito devem ser tidos como membros da mesma sociedade. E isso é mais evidente quando obedecem às mesmas autoridades e se submetem ao mesmo poder; submetem-se à existente ordem celestial, à vontade divina e à potestade de Deus Onipotente. Logo, devemos reconhecer que nosso universo é uma comunidade única, constituída pelos deuses e pelos homens.124
Note-se que esta visão de direito natural universalista de Cícero, não obstante comunicar-se com o pensamento de Aristóteles, deste se diferencia. Aristóteles observa a natureza como uma fonte de possibilidades do justo e trata da distribuição. Em Aristóteles, o justo é prudência, é o uso da equidade em cada caso específico. Para Cícero, o direito natural é uma razão universal e, como tal, tem uma natureza moral. Em Aristóteles, por outro lado, o campo de aplicação do justo é diferente do campo da moral, ao passo que o justo trata da proporção na distribuição.
Por fim, cabe ressaltar que, como bem coloca Comparato, o Direito não escapou da visão de mundo estoica:
(...) aceitando a visão de mundo dos estóicos, os grandes jurisconsultos de Roma reconheceram que o fundamento de legitimidade de toda a ordem jurídica encontra-se muito além da vontade humana; situa-se na natureza, considerada o princípio supremo de toda a vida no orbe terrestre, unindo o divino ao humano.125
Visto a teoria estoica, passamos a estudar, agora, a ética que decorre desta teoria da Antiguidade. O intuito é saber qual era a visão de mundo antiga que cunhou o antigo conceito de liberdade, que difere, e muito, do conceito moderno de liberdade.
124 Marco Túlio Cícero, Tratado das Leis, − Caxias do Sul: Edusc, 2004, p. 49. 125 Fábio Konder Comparato, Ética, p. 122.