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Para compreender a visão de mundo dos antigos e daí extrair o que eles entendiam por liberdade, é preciso analisar a filosofia em seus três eixos – teoria, ética e sabedoria. Tendo visto a teoria e a ética estoicas, resta-nos uma questão: a da salvação para os antigos.

Vimos que a salvação depende de uma prévia teoria e uma ética que decorra desta teoria. Mas para que se salvar? Salvar-se senão da morte, pelo menos das angústias que ela gera, para quê?

Hannah Arendt, na obra A Crise da Cultura (“Entre o Passado e o Futuro”)132,

explica que, para os Antigos, há duas formas de tentar uma vitória sobre a morte. A primeira é através da procriação. Entretanto, ter filhos não impede a morte nem de quem teve os filhos, tampouco dos próprios filhos. A segunda forma de tentar vitória sobre a morte é através de realização de ações heroicas e gloriosas, que sejam objeto de narrativas.

Ela explica que a escrita tem a virtude de vencer a efemeridade do tempo. Na Grécia antiga já existiam grandes historiadores – Tucídides e Heródoto, por exemplo. Quando eles narram os feitos excepcionais realizados por certos homens, os salvam do esquecimento.

O mundo natural é de certa forma imortal. Isso porque os fenômenos naturais são cíclicos. Repetem-se indefinidamente. Depois do dia vem a noite. Depois do outono vem o inverno. Depois da tempestade vem a bonança. Essa repetição é que faz com que ninguém os esqueça, donde brota sua imortalidade. Já no que se refere ao homem, como afirma Hannah Arendt, todas as coisas que dependem da existência dele são perecíveis, sejam eles próprios, sejam suas obras, suas palavras ou suas ações.

O principal objetivo dos livros de história na Antiguidade era retirar os homens da esfera do perecível igualando-os à natureza. De certa forma, Aquiles não está morto. É um herói que sobrevive até hoje, posto que é conhecido e lembrado pelos homens. Sua vida foi narrada, e com isso imortalizada.

Com o surgimento da filosofia, entra em cena um terceiro modo de driblar a finitude e aceitar seus desafios: a salvação pela razão.133

Segundo os estóicos, o sábio poderá, graças a um justo exercício do pensamento e da ação, alcançar certa forma humana, se não de imortalidade, pelo menos de eternidade. Com certeza ele vai morrer, mas a morte não será para ele o fim absoluto de todas as coisas, mas antes uma transformação, uma “passagem”, caso se

132 Hannah Arendt, Entre o passado e o futuro. Tradução de Mauro W. Barbosa, 6ª. ed. – São Paulo: Perspectiva, 2009.

133 É neste ponto que a filosofia, como já vimos, aproxima-se da religião. Com uma única diferença: na filosofia a salvação vem do próprio indivíduo, enquanto na religião a salvação vem de outro – Deus.

queira, de um estado a outro no seio de um universo cuja perfeição global possui uma estabilidade absoluta, e por isso mesmo divina.134

Com os estoicos aprende-se que a morte não é um fim, mas uma passagem de um estado para outro dentro da natureza, do cosmos. É importante perceber que os estoicos remontam a coisas já ditas por Platão e Aristóteles, sobretudo sobre a salvação pela inteligência, pela sabedoria, pela razão. A filosofia é a doutrina da salvação fundada no exercício da razão. Mas a filosofia ainda não é a sabedoria, é apenas o amor (Philo) à sabedoria (Sophia). É através de exercícios práticos que se vai atingir a sabedoria.

Para os estoicos, os maiores corruptores da felicidade encontram-se no passado e no futuro. Assim como a nostalgia é ruim, também a esperança é perniciosa. Para os estoicos o importante é “esperar um pouco menos, amar um pouco mais”.135 Nesse aspecto, aproximam-se bastante dos budistas. Tanto os estoicos quanto os budistas entendem que, quando se vive na esperança do que se deseja, não se vive a alegria do único tempo que existe, o presente. Não importa quais sejam os desejos ou sonhos, projeta-se que a felicidade somente será alcançada quando atingido o objetivo esperado. E aí, qual não será a surpresa ao se constatar que, quando finalmente se atinge o objetivo desejado, aquilo em si não traz felicidade, pois ela já foi projetada para algo mais! A partir do momento em que se atinge um objetivo desejado, perde-se o interesse por ele, e projeta-se a felicidade para outro objetivo, no futuro. Contudo, a felicidade nunca é encontrada, pois não é procurada no tempo correto: o presente.

A grande mensagem do estoicismo – “enfrentar a adversidade sem se queixar”136 − acabou por dar significado ao seu próprio nome. Comparato explica a sabedoria estoica num longo trecho que transcrevemos por causa de suas ponderações:

Viver em harmonia com a natureza consiste, portanto, em última análise, em viver em harmonia consigo mesmo. Ora, essa

134 Luc Ferry, Aprender a Viver, p. 55.

135 Lembremos que, na mitologia grega, o vaso de Pandora guardava em seu interior todos os males do mundo, e o único que não escapou da imprudência de Epimeteu foi a esperança. É de se refletir sobre isso: Será mesmo a esperança algo bom como os modernos a têm colocado, ou seria ela um mal terrível ao homem?

definição do sujeito com a sua própria natureza só se pode dar quando a pessoa consegue viver longe das paixões, em um estado propriamente dito de apatia (apathéia), pois as paixões provocam a dilaceração da alma, que é a suprema infelicidade. Uma das tradições da filosofia estóica, aliás, consistiu na enumeração das paixões, como uma espécie de catálogo dos diferentes estados mórbidos da alma. Em geral, os autores apontam quatro paixões fundamentais: a dor, o medo, o desejo sensual e o prazer.

A dor, com impulso descontrolado da alma, compreende a piedade, a inveja, o ciúme, o despeito, o desgosto, a aflição, o tormento. O medo é a expectativa do mal, físico ou moral. O desejo é um pendor irracional, que abarca a cobiça, o ódio, a rivalidade, a cólera, o amor não realizado, o ressentimento, o arrebatamento. O prazer é um ardor insensato, que se apresenta sob a forma de sedução, de alegria com a infelicidade alheia, de volúpia ou devassidão.

O verdadeiro sábio é aquele que não se deixa escravizar pelas coisas ou fatos exteriores à sua natureza pessoal, sobre os quais não tem poder algum, tais como a morte, a saúde ou a doença, o prazer ou a dor, a beleza ou a feiúra, a força ou a fraqueza física, a riqueza ou a pobreza, a glória ou a obscuridade, a nobreza ou a baixa condição social. Diante de tudo isso, ele deve ser indiferente (adiáphoros), procurando alcançar um estado de tranqüilidade de alma que, desde os céticos e epicuristas, passou-se a denominar ataraxia.

Essa atitude, que rejeita inteiramente a técnica, e se apresenta, por conseguinte, como antípoda da mentalidade moderna, o estoicismo sempre a considerou como a verdadeira liberdade humana. Para Epicteto, por exemplo, nem os homens maus, nem os poderosos, nem os bajuladores, nem os ambiciosos são livres. O crime só é um mal para aquele que o comete. E, em qualquer hipótese, o mundo é uma festa, da qual se deve saber quando e como se retirar.

Não é preciso salientar a coincidência dessa visão de mundo com a do budismo, que os estóicos ignoravam completamente; ou aquela vivida, poucos séculos depois, pelos diversos movimentos do ascetismo cristão.

Mas a sabedoria, para os estóicos, não consiste apenas na identificação do indivíduo com a sua própria natureza. Na vida social, a inserção do homem na natureza universal implica também a necessária admissão da unidade do gênero humano,

princípio ético que os estóicos foram os primeiros na História a afirmar.137

Assim, pois, a sabedoria estoica difere bastante da sabedoria que a nossa visão de mundo nos apresenta e que veremos mais à frente, em detalhes. E foi essa sabedoria que cunhou o conceito de liberdade predominante na Antiguidade helênica.