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Como expusemos anteriormente, a dinamicidade do processo de referenciação ocorre, sobretudo, pela contínua reconstrução do objeto de discurso ao longo do texto, processo denominado recategorização, uma importante estratégia para a produção de sentidos.

Nas palavras de Cavalcante (2011, p. 90), a recategorização é o fenômeno cognitivo-discursivo que corresponde à evolução natural que todo referente sofre ao longo do desenvolvimento do texto; ele se dá de forma abstrata na mente dos interlocutores e pode não se realizar no cotexto, isto é, não se limita à superfície textual, portanto, não se prende à menção de uma âncora no cotexto.

Essa evolução depende não só de expressões referenciais39, manifestações explícitas das transformações do objeto de discurso, mas também, como observa Cavalcante (2011), de toda sorte de pistas contextuais, dos conhecimentos prévios dos interlocutores às informações compartilhadas, social e historicamente, por eles.

Há duas maneiras de abordar a transformação dos objetos de discurso no texto. Mesmo que em ambas o objetivo seja analisar como a representação mental do objeto de discurso vai se configurando, a diferença está no fato de que em uma, prioriza-se a construção sociodiscursiva do objeto de discurso, sem se considerar a explicitação das expressões referenciais como critério essencial para distinção dos processos referenciais; na outra, enfatiza-se a manifestação das expressões referenciais para descrever diferentes processos referenciais de introdução, de anáfora e de dêixis (CAVALCANTE, 2011).

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39 A expressão referencial é uma estrutura linguística utilizada para manifestar formalmente, na

superfície do texto (cotexto), a representação de um objeto de discurso. Essa estrutura é, na maioria dos casos, de natureza substantiva, ou seja, em geral é formada por um substantivo (com ou sem determinantes e modificadores) ou por um pronome em função substantiva (CAVALCANTE; CUSTÓDIO FILHO; BRITO, 2014).

Nessas duas abordagens não está em discussão a importância das expressões lexicais para a construção do objeto de discurso, mas, sim, a necessidade ou não da explicitação de uma dada expressão referencial para distinguir os processos referenciais .

Com base no aporte teórico desta pesquisa, afirmamos que não se faz necessário recorrer a uma expressão referencial para a caracterização/classificação de processos referenciais, como as anáforas. Relacionar a transformação do objeto de discurso apenas a elementos do cotexto caracterizaria o processo como recategorizações lexicais quando, na verdade, os limites do processo da recategorização vão além da superfície do texto e não se prendem à menção de uma âncora no cotexto (Lima, 2008 apud Cavalcante 2011).

A recategorização não é fenômeno específico de um processo referencial, uma vez que perpassa todos os processos referenciais, auxiliando na constituição das retomadas e das remissões anafóricas, diretas, indiretas e encapsuladoras (CAVALCANTE; CUSTÓDIO FILHO; BRITO, 2014). Tal formulação implica dizer que os atos referenciais envolvem algum tipo de inferência, pois, mesmo as anáforas diretas, correferenciais, na medida em que podem transformar o objeto de discurso, (re)categorizando-os, não operam uma recuperação direta sem apelo à memória compartilhada (COSTA, 2007 apud CAVALCANTE, 2011).

Entendemos, então, que o fenômeno da recategorização e os processos referenciais dependem da inferência para a produção de sentidos no texto. Marcuschi (2007, p.40) observa que “referir é, em certos casos, inferir”, o que demonstra a estreita relação entre referência e inferência. Para esse autor, a referência é um ato criativo, complexo, em que o processo inferencial é crucial para realizá-lo. Assim, o linguista também considera o processo inferencial como uma atividade construtiva, e não como uma atividade de simples processamento ou solução de problemas na compreensão (MARCUSCHI, 2007).

Assumimos, respaldados em Marcuschi (2007), que a inferência é um procedimento de que lançamos mão para criar e construir significações, ou melhor, sentidos40, bem como para transformar objetos de discurso, e não apenas para

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Sentido aqui entendido como “um efeito produzido mediante uma série de operações linguísticas e

cognitivas, fruto de um processo desenvolvido na atividade inferencial colaborativa realizada local e globalmente” (MARCUSCHI , 2007, p.21).

processar textos, como se ela fosse um conjunto de regras de procedimentos mecânicos41.

Cabe explicitar que estamos falando de estratégias inferenciais relativas à produção de sentidos tanto na produção quanto na recepção dos textos. O sucesso maior ou menor da atividade inferencial para a produção de sentidos depende da atitude colaborativa dos interlocutores na interação, isto é, tanto da projeção e antecipação que o produtor do texto precisa fazer para deixar pistas para o interlocutor quanto da colaboração que o leitor precisa ter para encontrá-las, trazendo para a interação seus conhecimentos e vivências.

Confirmamos, assim, a importância do processo de ancoragem para que se efetive a recategorização dos objetos de discurso, a ser confirmada por processos referenciais anafóricos. Consideramos que entre as várias decisões que o produtor deve tomar para construir a representação dos objetos de discurso está a natureza das âncoras e o balizamento que faz sobre o que deixar implícito ou não em relação ao processo de ancoragem.

Consoantes com o ponto de vista de que na recategorização e nos processos referenciais nada está totalmente explícito e dado no texto, Ciulla e Silva (2008 apud CAVALCANTE, 2011) afirmam que anáforas diretas e indiretas são igualmente configuradas, como um amálgama cognitivo, pois, mesmo tomados correferencialmente, os objetos de discurso vão sendo reapresentados com pequenas, médias ou grandes alterações, com base nas quais novas referências podem ser realizadas.

Nas palavras de Cavalcante (2011), as anáforas diretas ou indiretas constituem núcleos dos quais é possível recuperar, reformular e homologar novos referentes/objetos de discurso, ainda não explicitados no cotexto. Esse mesmo processo se dá em relação às anáforas encapsuladoras que, definidas comumente como aquelas que têm a propriedade de resumir porções do cotexto, podem, na verdade, remeter a informações não explicitadas no cotexto, o que põe em evidência

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41Tomamos a noção de inferência de Gumperz (1982 apud MARCUSCHI, 2007) que se preocupa com as estratégias que governam o uso que os atores sociais fazem dos conhecimentos lexicais, gramaticais, sociolinguísticos e outros na produção e interpretação de mensagens situadas em contextos autênticos. Para Gumperz, a inferência é, sobretudo, fruto de raciocínios interpretativos baseados em conhecimentos sociais e linguísticos, sendo a própria inferência situada.

os aspectos cognitivo-discursivos do fenômeno referencial e também, a nosso ver, da atividade inferencial.

É, pois, a combinação de expressões referenciais com outras pistas contextuais que ajusta o foco do leitor. Cavalcante (2011), postula que “o objeto do discurso emerge do modo como os participantes ajustam suas ações na enunciação”, ao retomar Apothéloz (2001). A nosso ver, esta perspectiva destaca o caráter intersubjetivo da recategorização e da construção de objetos de discurso.

Por essa razão, é importante considerar a referência essencialmente como um processo de atenção e de interação, conforme observa Cavalcante (2011). Processo de interação porque só se pode tratar da referência em situações efetivas de comunicação, não necessariamente face a face. Processo de atenção conjunta porque os participantes da comunicação se voltam por meios diversos, linguísticos e não linguísticos, para cada entidade que estiverem focalizando durante a interação (CAVALCANTE, 2011).

De nosso ponto de vista, Cavalcante (2011) ressalta dois aspectos para a construção do objeto de discurso e, consequentemente, para a produção de sentidos no texto: a participação colaborativa dos interlocutores e a noção de acessibilidade.

Os objetos de discurso introduzidos no texto, segundo Cavalcante (2011), estão respaldados por um contrato tácito de coparticipação do interlocutor, mesmo que sejam introduzidos por expressões referenciais. Dessa forma, toda entidade referida é construída com a pressuposição de que, de algum modo, vai se tornar acessível na interação.

A noção de acessibilidade, dessa perspectiva, é vista de maneira mais ampla. Como destaca Cavalcante (2011), trata-se de como os referentes, mesmo quando não foram ainda designados no cotexto, já estão acessíveis no mundo do discurso até irem estabilizando-se e desestabilizando-se em um jogo de coconstrução. O que determina o final da partida é a chegada a algum tipo de consenso para cada circunstância.

Apoiados em Marcuschi (2007), atestamos que criar condições de acesso equivaleria a explicitar, não no sentido de dizer tudo “e de maneira unívoca, mas sim dizer de forma interpretável a partir das condições presentes ou inferíveis no universo discursivo em andamento, seja oral ou escrito”. Para esse autor, “a

explicitude comunicativa é uma atividade realizada por habilidades referenciais e inferenciais em situações socioculturais específicas” (MARCUSCHI, 2007 p. 40).

É a tentativa de ressignificar, ou seja, de reconstruir os objetos de discurso que torna o interlocutor cooperativo. De acordo com Leite (2007 apud CAVALCANTE, 2011), a cooperação dos participantes da enunciação é fator decisivo para a coconstrução dos sentidos e da referência a que alude Cavalcante (2011). Nesse sentido, as expressões referenciais constituem-se como trilhas das quais o interlocutor, imbuído de espírito cooperativo, se serve para elaborar, por meio de tentativas e inferências, caminhos interpretativos de atribuição de sentidos42.

Em relação ao caminho que o locutor propõe e o interlocutor percorre para a atribuição de sentidos, há outro aspecto a ser evidenciado: a noção de saliência. Essa noção, proposta por Ariel (2001 apud CAVALCANTE, 2011, p. 137), diz respeito ao modo como o locutor nomeia os objetos de discurso, o qual não depende, exclusivamente, de eles serem mencionados no cotexto pela primeira vez, mas do quanto são salientes e acessíveis a cada etapa do texto. De acordo com Apothéloz (2001 apud CAVALCANTE, 2011, p.146-147), o nível de saliência discursiva dos referentes, mesmo que haja outras motivações, é fundamental para a escolha das formas e até mesmo para o não uso delas.

Ainda no sentido da cooperação e da atuação conjunta dos interlocutores para a construção de objetos de discurso e, portanto, para a produção de sentidos, Cavalcante; Custódio Filho; Brito (2014, p. 31-32) reiteram que “em qualquer interação de que participemos (oral, escrita, hipertextual ou multimodal) estamos sempre (re)elaborando os objetos da realidade e os referentes a eles correspondentes. Por isso, estamos sempre envolvidos num trabalho ativo de (re)elaboração e (re)interpretação”. A referenciação, assim, consiste em uma construção sociocognitiva de objetos de discurso reveladores de versões da realidade e estabelecidos mediante processos de negociação (CAVALCANTE; CUSTÓDIO FILHO; BRITO, 2014).

A negociação entre os interlocutores é fundamental para a referenciação, seja para confirmar caracterizações e propor reformulação, seja para mostrar mais de

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42 Um dos fatores que Leite (2007 apud CAVALCANTE, 2011, p.130) elege como indispensável para

a construção da interpretação e da coerência de qualquer texto é a abdução, que consiste em um método inferencial, probabilístico, que começa por um momento heurístico de hipóteses, de tentativas com base em intuições, erros e acertos, não obedece a fórmulas e permite a criatividade.

uma possibilidade de elaboração de um referente, às vezes discordantes entre si. O trabalho de construção dos referentes é, pois, uma atividade partilhada, intersubjetiva. Trata-se, como ressaltam Cavalcante, Custódio Filho e Brito (2014), de submeter uma versão da realidade à aceitação do outro, ou seja, a ação de referir é inerentemente social.

Como princípio constitutivo da linguagem, a negociação faz parte de qualquer situação de interação por meio de textos; não se trata de uma característica das interações face a face, como bem pontuam os linguistas. No caso da modalidade escrita, a negociação ocorre como antecipação ou projeção pelo produtor do texto das atitudes dos prováveis interlocutores.

Os referentes estão, assim, sujeitos às “artimanhas” das negociações intersubjetivas. Esse ponto de vista corrobora a ideia de que as recategorizações não precisam estar presentes no texto, isto é, não precisam ser, necessariamente, designadas por expressões referenciais no cotexto, dado que elas podem ser recuperadas. Isso ocorre porque trabalhamos mentalmente para interpretar os textos de modo que aquilo que falta para completar os sentidos é captado considerando-se os conhecimentos prévios (originados na mente) (CAVALCANTE; CUSTÓDIO FILHO; BRITO, 2014, p. 40).

Podemos afirmar que, uma vez introduzido no texto/discurso, um referente tende a sofrer sucessivas recategorizações na mente dos participantes da enunciação. De acordo com Cavalcante, Custódio Filho e Brito (2014), as recategorizações seguem tanto as restrições das pistas cotextuais quanto dados dos conhecimentos que possam ser partilhados pelos participantes no contexto único da enunciação.

Nesta pesquisa, abordamos a recategorização não apenas da perspectiva do processamento cognitivo, relacionado à construção dos conceitos na mente humana e à produção de sentidos pela linguagem, mas também da perspectiva discursiva, para ressaltar a importância da transformação dos referentes no desenvolvimento argumentativo do texto (CAVALCANTE, 2011 p. 152).

Dada a natureza do corpus que compõe nosso estudo, destacamos a orientação argumentativa entre os vários processos de organização textual e de produção de sentidos engendrados pela referenciação, em vários níveis. Em consonância com Cavalcante, Custódio Filho e Brito (2014), entendemos que os

processos referenciais cumprem uma função eminentemente argumentativa ou avaliativa, embora não exclusiva, no desenvolvimento da argumentação nos textos.

Relacionamos essa abordagem ao que preconiza Koch (2005). Para a autora, a remissão textual, quando realizada por meio de descrições ou formas nominais, como uma atividade de linguagem por meio da qual se reconstroem os objetos de discurso, tem como uma das funções textual-interativas específicas imprimir nos enunciados em que se inserem, bem como no próprio texto, orientações argumentativas conformes com a proposta enunciativa do produtor.

Para abordar a concepção de orientação argumentativa, consideramos necessário delimitá-la no âmbito da argumentação, tendo em vista a amplitude desse conceito e os diferentes estudos e perspectivas que o tomam como objeto de pesquisa. Em nosso trabalho, a noção de argumentação diz respeito a “uma troca de ideias que o sujeito utiliza para defender um ponto de vista43, com argumentos fundamentados ou com fins manipulatórios” (CAVALCANTE; CUSTÓDIO FILHO; BRITO, 2014, p.112).

A argumentatividade, a nosso ver, está relacionada ao pressuposto da não neutralidade no uso da linguagem. Em outras palavras, toda vez que no processo de referir o mundo, de construir objetos de discurso, o locutor faz uma escolha entre diferentes possibilidades de que a linguagem dispõe, ele imprime uma direção argumentativa a seu dizer, posiciona-se em relação a um “objeto do mundo”. Nessa direção, podemos afirmar, então, que os objetos de discurso são argumentativamente construídos no texto.

Koch (2005) ressalta que o emprego de uma descrição nominal com função de categorização ou de recategorização de referentes implica sempre uma escolha entre uma multiplicidade de formas que a língua oferece para caracterizar o objeto de discurso. De acordo com a autora, essa escolha é feita conforme a proposta de sentidos do produtor do texto.

Dessa forma, atestamos como recurso para orientar a argumentação no texto, o uso de avaliadores nas expressões referenciais para a recategorização dos objetos de discurso. A escolha de determinados avaliadores pode lhes intensificar ou

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No âmbito da argumentação, entendemos ponto de vista como o posicionamento que o produtor de texto deve tomar frente a um dado tema, como ocorre no caso de redações de vestibular, em que o candidato deve manifestar uma opinião, favorável ou não, em relação à questão apresentada. Não se trata de ponto de vista (PdV) relacionado à responsabilidade enunciativa (ADAM, 2008) nem à polifonia (conceito bakhtiniano).

enfraquecer o sentido. Podemos observar esse uso na evolução e recategorizações dos objetos de discurso no texto, conferindo-lhe um viés argumentativo. As escolhas lexicais pontuais, e veremos isso mais claramente em relação às anáforas encapsuladoras, são também muitas vezes determinantes para evidenciar a representação do objeto de discurso que o produtor pretende construir no texto.

Evidenciamos, assim, que os processos referenciais, no processo de construção dos objetos de discurso, são também norteadores da orientação argumentativa e submetem-se aos propósitos do produtor, os quais estão relacionados à situação comunicativa em que o sujeito está inserido e às determinações do gênero de texto.

Acessibilidade, saliência, cooperação, inferência, compartilhamento de conhecimentos e vivências e argumentatividade são aspectos que estão implicados na recategorização, fenômeno essencial para a construção de objetos de discurso, que se realiza nos processos referenciais anafóricos.