No tocante aos estudos do texto, a noção de contexto segue o mesmo percurso evolutivo e interdisciplinar que observamos em relação à noção de interação. Nessa direção, Koch (2003, p. 21) afirma que “as concepções de contexto variam não só no tempo como também de um autor para outro”. Vale lembrar que a relevância da noção de contexto para os estudos da linguagem foi destacada por Malinowski, ainda em 1923, quando cunhou os termos “contexto de situação” e “contexto de cultura”. Para esse autor,
um enunciado só se torna inteligível quando colocado dentro de seu contexto de situação, se me é permitido cunhar uma expressão que indique, por um lado, que a concepção de contexto precisa ser ampliada e por outro que a situação em que as palavras são usadas jamais poderá ser descartada como irrelevante para a expressão linguística. [...] De fato, ela [a noção de contexto] deve ultrapassar os limites da mera linguística e ser alçada à análise das condições gerais sob as quais uma língua é falada (MALINOWSKI, apud KOCH, 2003, p. 21, grifos nossos).
Essa ampliação da noção de contexto que Malinowski indica como necessária vem sendo desenvolvida tanto pela LT quanto por outros campos de estudo que se
dedicam à linguagem e à análise de textos. A elaboração da noção de contexto, como a entendemos atualmente, demanda um esforço interdisciplinar.
A partir do período das análises transfrásticas, em que apenas o entorno verbal era considerado contexto − o que hoje entendemos como cotexto −, vários aspectos foram sendo incorporados e reconhecidos como fatores que interferiam no processo de produção e recepção de textos, isto é, no uso efetivo da língua(gem).
Na perspectiva da pragmática, conforme atesta Koch (2003), destaca-se a necessidade de se considerar a situação comunicativa para a atribuição de sentidos a determinados elementos textuais, como os dêiticos; já na teoria dos atos de fala e na teoria da atividade verbal, a ênfase recai sobre os interlocutores, suas intenções, ações situadas socialmente e realizadas por meio da linguagem. Mais amplamente, passa-se a considerar que os interlocutores obedecem a convenções e normas de conduta, sendo-lhes, portanto, impostas restrições e deveres.
Além disso, torna-se evidente que toda manifestação de linguagem está inserida em uma dada cultura e obedece a tradições, usos e costumes. Com as contribuições dos estudos da cognição, os conhecimentos prévios – enciclopédico, textual, linguístico, entre outros –, partilhados entre os interlocutores em uma situação de interação, passam a figurar também como contexto (KOCH, 2003).
A nosso ver, o contexto é entendido não só como algo externo e dado a priori (entorno circunstante, ambiente ou situação comunicativa, circunstância histórico- cultural), mas também como algo que vai sendo construído no momento da interação, “sendo continuamente alterado e ampliado, concorrendo para isso o cotexto, a situação comunicativa, as ações interacionais e determinações socioculturais e históricas que passam a fazer parte do domínio cognitivo de cada um dos interlocutores” (KOCH, 2003, p. 24). Dessa perspectiva, a relação entre contexto e linguagem “[...] é de mútua constitutividade”,27 isto é, tanto o contexto determina o uso da linguagem como o uso da linguagem determina e estabelece o contexto.
Nesta pesquisa, buscamos nos amparar em autores cujas contribuições são essenciais para a compreensão da noção de contexto. De modo a tratarmos dessa noção segundo a abordagem sociocognitiva e interacional, valemo-nos principalmente dos trabalhos de van Dijk (2012); já as pesquisas de Hanks (2008)
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27A expressão “mútua constitutividade”, presente no texto de Koch, Morato e Bentes (2011, p. 86),
permitem que tratemos da noção de contexto segundo a abordagem da linguística antropológica. Nos postulados teóricos desses autores, encontramos pressupostos, determinações e categorias que subjazem ao que definem como contexto e sua relação com a produção de sentidos, no âmbito da produção e recepção de textos.
Pioneiro no estudo do texto/discurso no que se refere à compreensão e à produção de textos, van Djik, nas décadas de 1970 e 1980, voltou-se para questões sociocognitivas com base no pressuposto de que as “dimensões sociais do discurso interagem com as dimensões cognitivas” (VAN DIJK, 2011, p. 17).
Ao trabalhar com modelos cognitivos, o autor considera os processamentos de produção e compreensão de textos como processos funcionais dentro do contexto social (VAN DIJK, 2011). A partir daí, o autor incorpora, cada vez mais, o estudo do contexto nas análises do funcionamento textual no que diz respeito aos processos linguísticos e sociocognitivos envolvidos. De acordo com Koch, Morato e Bentes (2011), ao final da década de 1990, van Dijk passa a considerar o contexto em termos de modelos contextuais e os define como “a interpretação subjetiva do contexto que os participantes de uma situação comunicativa constroem dos traços dessa situação” (VAN DJIK, 1997 apud KOCH; MORATO; BENTES, 2011, p. 80).
Na obra Discurso e contexto, uma abordagem sociocognitiva (2012), van Dijk propõe-se a fazer um estudo teórico de caráter exploratório sobre o conceito de contexto. O objetivo do autor não é apenas explorar e resenhar trabalhos anteriores, mas, sobretudo, apresentar e defender a tese que acredita ser crucial para compreender o que é contexto e como ele se relaciona com o discurso: “não é a situação social que influencia o discurso ou é influenciada por ele, mas a maneira como os participantes definem essa situação” (VAN DIJK, 2012, p. 11).
Vale ressaltar que na tese defendida pelo linguista estão implicadas as noções de cognição social e de interação, que permeiam a sua concepção de contexto, impingindo-lhe uma característica dinâmica de processo, e não estática de pano de fundo. Desse modo, de acordo van Djik (2012, p. 11), os “contextos não são uma condição objetiva ou de causa direta, mas antes construtos (inter)subjetivos concebidos passo a passo e atualizados na interação pelos participantes enquanto membros de grupos e comunidades”.
A concepção de van Dijk abarca, pois, tanto o caráter de unicidade de cada texto/conversa quanto a base comum e social de conhecimentos/representações sociais compartilhados dos interlocutores. O autor defende que “se os contextos
fossem condições ou restrições sociais objetivas, todas as pessoas que estão na mesma situação social falariam do mesmo modo” (VAN DJIK, 2012, p. 11).
Vale observar que, no âmbito escolar, muitas vezes os professores têm essa expectativa em relação à produção escrita de seus alunos. Assim, entendemos que ampliar a noção de contexto e assimilá-lo como processo significa ampliar as possibilidades de atribuir sentidos aos textos dos alunos, de compreender as suas especificidades e de interagir com o produtor do texto de maneira mais cooperativa.
Van Dijk (2012) destaca que sua perspectiva é sociocognitiva, pois seu propósito é integrar as abordagens cognitivas do texto e da fala em um único quadro teórico coerente, considerando tanto as estruturas sociais e as situações sociais (teoria social do discurso), quanto os componentes cognitivos, não só os relativos às condições sociais compartilhadas (conhecimentos, ideologia, normas, valores, crenças), como também os modelos mentais únicos dos sujeitos sociais.
Para defender tal abordagem de contexto, o linguista apoia-se em alguns pressupostos, entre os quais destacamos cinco, por considerá-los relevantes para que possamos compreender as bases que sustentam essa dupla abordagem e a ampliação da noção de contexto.
Um pressuposto essencial para o entendimento da noção de contexto proposta por van Dijk (2012) é o fato de o autor considerar o contexto como um tipo específico de modelo mental – por ser um construto (inter)subjetivo –, isto é, por constituir representações das próprias situações comunicativas feitas subjetivamente pelos interlocutores, e não a situação comunicativa propriamente dita (i). Assim, enfatiza que não se trata de considerar o contexto apenas como uma influência externa.
Esse pressuposto é a base para outros dois, a saber: (ii) “os contextos são dinâmicos, isto é, são construídos para cada situação comunicativa, sendo atualizados e adaptados online, em paralelo com a interação e outros pensamentos” e (iii) “contextos controlam a situação de produção e compreensão dos discursos, o que permite aos usuários da língua moldar seu discurso apropriadamente” (VAN DIJK, 2012, p. 34-45). Esses dois últimos pressupostos enfatizam a importância da interação e da bagagem cognitiva dos participantes na produção de sentidos, na produção e recepção de textos, além do que ressaltam a dinamicidade do processo e explicitam os aspectos cognitivos envolvidos na concepção de contexto.
Já os dois pressupostos que elencamos a seguir evidenciam a influência das determinações advindas das estruturas e das situações sociais que estão implicadas no que o autor procurar definir como contexto: (iv) “os contextos embora sejam definições únicas e subjetivas, possuem em sua estrutura e construção uma base social ampla em termos de cognições sociais (conhecimentos, atitudes, ideologias, gramática, regras, normas e valores) de uma comunidade discursiva” e (v) “os modelos de contexto representam aquilo que é relevante para os participantes numa dada situação comunicativa, isto é, o tipo de informação que se ajusta ao modelo de contexto e suas categorias social e culturalmente compartilhadas” (VAN DIJK, 2012 p. 34-45).
Esses pressupostos indicam o quanto a noção de contexto, da perspectiva sociocognitiva, agrega tanto a ideia de entorno, de situação imediata e das determinações e condições socioculturais e históricas, quanto a de modelos mentais, de representações sociais compartilhadas e de situação mediata (cotexto).
Nas palavras de Koch, Morato e Bentes (2011, p. 85), essa noção mais atual do conceito de contexto dilui “as dicotomias linguístico/extralinguístico, cognição individual/social, memória semântica/episódica” e permite “evidenciar os fatores condicionantes socioculturais e ideológicos articulados de maneira constitutiva às situações interacionais concretas”.
Assim, ultrapassada a ideia dicotômica de interioridade e exterioridade, antes correlacionada a contexto, temos a ideia plural de contextos que dependem, para serem construídos, da inter-relação entre situações comunicativas sociais e da atuação dos interlocutores, tendo em vista seus conhecimentos compartilhados, suas intenções, propósitos e objetivos.
Tanto é assim que, conforme observa Koch (2003), os interlocutores podem desenvolver estratégias para o processamento eficaz do texto e para a seleção apropriada do contexto. Para van Dijk (2012), os contextos, com frequência, são amplamente planejados, não são construídos do zero no momento da interação – ou seja, os participantes conhecem previamente e planejam prospectivamente muitas das propriedades da situação comunicativa, sabem com quem, quando e onde vão se comunicar e com que objetivos. Esse aspecto é relevante para textos escritos e formais, por isso, de acordo com o autor, da mesma forma que é possível aprender gêneros discursivos é possível aprender tipos de contexto.
O autor defende que os contextos podem ser classificados em tipos diferentes, por exemplo, conforme as esferas (público e privado), os modos (falado, escrito, multimedial), os domínios sociais (política, mídia, educação), os papéis e as relações dos participantes (médico e paciente, primeiro-ministro e membros do parlamento), os objetivos (transferir ou buscar conhecimento, atendimento, aconselhamento) etc. Como esclarece, todos esses tipos são potenciais candidatos a categorias de esquemas contextuais (VAN DIJK, 2012, p. 42).
Concorre para o desenvolvimento da ideia de classificar os contextos o fato de van Dijk (2012) asseverar que os modelos de contextos são esquemáticos. Como modelos mentais, os contextos consistem em esquemas de categorias compartilhadas, convencionais e dotadas de uma base cultural. Assim, é permitido aos falantes entenderem, representarem e atualizarem situações sociais complexas em segundos. São exemplos de categorias o tempo, o lugar, os participantes (diferentes identidades e papéis), a ação, os propósitos e conhecimentos (VAN DIJK, 2012, p. 35). As categorias que o autor propõe em sua teoria sociocognitiva de contexto permitem, pois, que ao se depararem com o texto, seja na produção, seja na recepção, os participantes elaborem estratégias para produzir sentidos.
Tal concepção de contexto permite, no caso da produção de redações em situações formais de avaliação, como em exames de vestibular, levar em consideração, nas análises das estratégias utilizadas nos textos para a produção de sentidos, a mútua influência entre a situação comunicativa e social, formal e institucionalizada, e as ações dos interlocutores, dadas suas características e a posição que ocupam nessa situação.
A ideia formulada pelo autor de que é possível propor o ensino e a aprendizagem de tipos de contexto como já se faz com gêneros, a nosso ver, é uma proposta a ser considerada e aplicada ao ensino e à aprendizagem da escrita, pois conceber o contexto do ponto de vista sociocognitivo enfatiza o papel atuante do produtor de texto como sujeito social, além do que, oferece instrumentos e estratégias para a ação reflexiva sobre a situação de comunicação, sobre os propósitos comunicativos e sobre a adequação do uso da linguagem, fomentando, assim, o desenvolvimento do estudante como produtor de texto proficiente.
Nessa síntese da teoria do contexto de van Dijk (2012), destacamos não só a perspectiva sociocognitiva, em uma abordagem multidisciplinar mais ampla, como também as contribuições para a análise da produção de sentidos em relação à
produção e recepção de textos, e as contribuições para o ensino e a aprendizagem da escrita.
Na mesma direção de van Dijk (2012), só que da perspectiva da linguística antropológica, Hanks (2008, p.169) sublinha a relação entre linguagem e contexto como um dos focos centrais da pesquisa sobre linguagem nas últimas décadas.
O autor destaca trabalhos, em vários campos de estudos linguísticos, que apontaram para o fato de que há mútua influência entre linguagem e contexto: por um lado, os estudos da antropologia linguística, sociolinguística, pragmática, psicolinguística e filosofia da linguagem evidenciaram que a língua e seu uso em vários tipos de comunicação verbal são moldados pelos contextos sociais e interpessoais em que ocorrem; por outro, as contribuições de estudos citados por Hanks (2008), como a teoria dos atos de fala, a teoria da relevância (GRICE, 1989; LEVINSON, 2000; SPERBER e WILSON, 1996) e o “uso criativo” de termos indiciais (SILVERSTEIN, 1976), demonstraram como a linguagem constitui o contexto.28
Hanks (2008, p. 169) destaca a importância do contexto “tanto como fator restritivo quanto como produto do discurso conduz a um refinamento das abordagens da fala, pois é principalmente na elaboração de enunciados falados ou escritos que linguagem e contexto são articulados”. Essa visão ratifica a importância da noção de contexto para nosso estudo, na medida em que considerar a articulação entre linguagem e contexto subsidia a análise do corpus, redações concebidas como exemplares de textos autênticos situados em um contexto educacional e institucional de avaliação.
O autor trata também das contribuições da etnometodologia e da análise da conversação de uma perspectiva social, segundo a qual a interação face a face é o contexto primordial para a socialização humana, além disso, aborda as contribuições da psicolinguística e da linguística cognitiva no que se refere ao contexto como uma questão de conhecimento partilhado e de representações mentais (HANKS, 2008).
O resultado, ou melhor, o significado do desenvolvimento desses estudos para a linguística, conforme avalia Hanks (2008), na qual os sistemas linguísticos, os processos cognitivos e o uso da língua são coarticulados. Para a antropologia, esse
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28 De acordo com Hanks (2008), os atos de fala (teoria dos atos de fala), as implicaturas (abordagem
griceana) e a teoria da relevância estão intimamente ligados à linguística e têm em comum o fato de tratarem o contexto como algo construído pela enunciação e pela enunciação no curso da conversação. A ideia de “construção do contexto no curso da conversação” está relacionada à ideia de dinamicidade dos contextos como modelos mentais especiais que se desenvolvem on-line, como propõe van Dijk (2012).
desenvolvimento reitera que a prática comunicativa integra a prática social mais geral. De acordo com o autor, “as ideias sobre linguagem têm tido um impacto fundamental sobre a teoria social no último século” (HANKS, 2008, p.170).
Essas considerações estão intimamente relacionadas com a proposta teórica de van Dijk (2012), na medida em que o linguista também vincula aspectos cognitivos e sociais a seus pressupostos e propõe uma abordagem interdisciplinar para tratar da concepção de contexto. Hanks (2008), no entanto, aborda outros aspectos que caracterizam as diferentes perspectivas e campos teóricos que se dedicam à noção de contexto.
De um lado, estão as abordagens relacionadas ao campo da linguística, psicologia e microssociologia, as quais partilham a ideia de que o enunciado é um ponto central e o contexto, uma estrutura radial, um concomitante local da conversação e interação, centrado sobre o processo emergente de fala e, por isso mesmo, mais efêmero. Nesse sentido, essas abordagens estão comprometidas com o individualismo metodológico, que prioriza o individual sobre o coletivo. Tais perspectivas teóricas consideram o contexto de dentro do enunciado para fora, partem da perspectiva dos participantes, de suas representações mentais, dos aspectos de relevância discretizados por eles, aproximando-se da noção de contexto de situação (HANKS, 2008).
De outro lado, estão as abordagens que se fundam em uma teoria social mais ampla e na história – Foucault, Bourdier, Análise Crítica do Discurso –, em que o contexto é mais global e duradouro, de escopo social e histórico maior que qualquer ato localizado. Assim, nesse viés teórico, os sistemas de referência explicativos são as condições sociais e históricas anteriores à produção do discurso, as quais o restringem. Tais perspectivas teóricas tratam a produção do discurso como um todo e suas unidades relevantes são abstrações analíticas (como o falante idealizado) ou coletividades (comunidades, classes, redes sociais etc.) que têm como ponto de partida fatos coletivos, o que prioriza o coletivo em relação ao individual (HANKS, 2008).
O autor discorda dessa polarização. Ele alega que ela deixa escapar oportunidades de pesquisa produtiva e impede a articulação de diferentes níveis de contexto analiticamente. Na visão de Hanks (2008, p. 174), a linguística antropológica tenta integrar esses níveis, pois “nenhum estudo de contexto que procure dar conta de especificidades formais das práticas enunciativas e de seu
encaixamento social deve rejeitar as divisões rotineiras entre fenômenos de micro e macro nível”. A necessidade está em articulá-los.
Na análise do corpus que compõe esta pesquisa, procuramos evidenciar a articulação entre esses níveis no intuito de descrever e interpretar as estratégias utilizadas pelo produtor de texto (contexto de situação) que possibilitam a produção de sentidos, com o objetivo de atender à proposta de escrita no âmbito do exame de vestibular (contexto de cultura), de maneira bem-sucedida ou não.
De acordo com Hanks (2008), é necessário entender que o conceito de contexto é baseado em relações, e saber como é tratado esse conceito depende de como são construídos elementos fundamentais, como língua(gem), discurso, produção e recepção de enunciados, práticas sociais, entre outros.
Assim, para lidar tanto com as especificidades semióticas das práticas discursivas quanto com seu encaixamento social e histórico, Hanks (2008) propõe duas dimensões abrangentes do contexto, as quais o autor denomina emergência e incorporação/encaixamento.
A primeira dimensão (emergência) diz respeito a aspectos do discurso que surgem da produção e recepção como processos em curso. Refere-se, portanto, à atividade mediada verbalmente, à interação, à copresença, à temporalidade, em contexto restrito, mas marcado em termos fenomenológicos, sociais e históricos. Já a incorporação/encaixamento designa a relação entre aspectos contextuais relacionados ao enquadramento do discurso, sua centração em quadros teóricos socio-históricos mais amplos (HANKS, 2008).
Para compreender melhor essas duas dimensões, apoiamo-nos em Bentes e Rezende (2010). Para os autores, compreender essas duas dimensões requer apropriar-se de uma primeira diferenciação que Hanks (2008) faz entre dois níveis contextuais: situação e cenário. O primeiro nível é um espaço de monitoramento mútuo entre indivíduos copresentes, que existe como potencialidade, minimamente estruturado e naturalmente anterior a qualquer enunciado. A situação é um tipo de “exterior a priori” no interior do qual a fala e a linguagem são projetadas. Mas é necessário acrescentar à situação social os julgamentos dos participantes sobre o que é relevante e sobre o que está acontecendo no “aqui e agora” estabelecidos. Isso define a passagem de situação a cenário, o segundo nível (BENTES; REZENDE, 2010, p. 38).
No caso do primeiro nível, a situação, por estar definido “a priori”, é possível ao sujeito produtor de texto analisá-la e adaptar-se a ela para adequar suas escolhas, planejar suas estratégias, no intuito de atender às expectativas do leitor e da própria situação comunicativa. No nível do cenário, é exigido do produtor do texto que ele se preocupe em compartilhar com o interlocutor seus conhecimentos prévios, suas representações sociais, em esclarecer suas intenções e propósitos, oferecendo sinalizações (pistas contextuais) suficientes para que o leitor realize as inferências de maneira satisfatória com vistas à produção de sentidos.
Desse modo, temos aí introduzido o conceito de relevância, como vimos em van Dijk (2012). Para Hanks (2008), esse é o conceito responsável por transformar a ideia de contexto ao incorporar as experiências prévias dos sujeitos, instituindo, desse modo, que qualquer contexto é uma estrutura em dois níveis: um temático e um de conhecimento prévio.
O conceito de relevância está diretamente ligado às estratégias das quais lança mão o produtor para produzir sentidos e para alcançar a interação que pretende estabelecer com o interlocutor considerando pressuposições sobre conhecimentos partilhados e marcas linguísticas expressas na superfície do texto,