Nesta seção, tratamos das noções de coesão e coerência, como critérios de textualização 31 para a construção de sentidos, consoante a perspectiva sociocognitiva e interacional. De nosso ponto de vista, a construção da coesão e da coerência se dá, também, na interação entre interlocutores, por meio do compartilhamento de conhecimentos prévios, sob as determinações socioculturais e históricas do contexto.
Não é nosso objetivo explorar os aspectos particulares de cada um desses critérios para diferenciá-los nem mostrar como operam nos textos, antes, buscamos assinalar sua interdependência e a sua relação de codeterminação com o processo de referenciação.
Tal interdependência entre coesão e coerência foi percebida por vários estudiosos da linguística de texto. Atualmente, da perspectiva sociocognitiva e interacional, pesquisadores e linguistas brasileiros (Koch, Cavalcante, Marcuschi, Bentes, Antunes, entre outros) assumem a interdependência entre esses dois critérios em seus trabalhos e empreendimentos analíticos.
Ressaltamos que considerar a coesão e a coerência como interdependentes não significa confundi-los ou não conseguir defini-los. De acordo com Antunes (2005), não parece produtivo demarcar com precisão a fronteira em que acaba um e começa o outro. Nas palavras da autora, “[..] parece mais produtivo não se prender a essa diferenciação entre propriedades tão interligadas e tão intercondicionantes.
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31 Adotamos o termo textualização, respaldados em Marcuschi (2007). Para o autor,
“a coerência afigura-se como um critério de processamento textual, seja na fala ou na escrita. Resumidamente, poder-se-ia dizer que a coerência é um critério de textualização e não um princípio de textualidade enquanto unidade empiricamente realizada. A coerência não é um pré-requisito a ser preenchido pelo texto e sim uma atividade desenvolvida num movimento de colaboração” (MARCUSCHI, 2007, p.14). Como estamos abordando a coesão e a coerência imbricadas, estendemos a mesma explicação para a coesão.
Cuidemos, isso sim, para que façam sentido as coisas que dizemos ou escrevemos” (ANTUNES, 2005, p.179). É no esteio dessa orientação que concebemos a coesão e a coerência como critérios de textualização indissociáveis.
As noções de coesão e de coerência são elementos balizadores para se distinguir o que é texto do que não é. Na escola, sobretudo no ensino e na aprendizagem da produção de texto, notadamente de textos escritos, coesão e coerência são critérios para avaliar o sucesso ou insucesso de um texto. Não atentar para esses critérios leva os alunos a incorrerem em falhas recorrentes em suas redações, conforme observamos na introdução de nosso trabalho.
A construção desses dois critérios no texto, se bem observada, permite a produção de sentidos e garante, em boa parte, o sucesso na explicitação das intenções e propósitos do produtor no texto. Podemos afirmar, então, que ambos são determinantes do processo de textualização e determinados por ele e que a forma de abordá-los depende de como concebemos a própria noção de texto e de textualidade.
A definição de texto que norteia nosso trabalho, qual seja, “um evento comunicativo em que convergem ações linguísticas, culturais, sociais e cognitivas” (BEAUGRANDE, 1997, p.15), abarca o caráter duplo do texto como artefato linguístico e processo sociocultural, de acordo com Bentes e Rezende (2010).
Nesse sentido, podemos compreender que Beaugrande (1997) concebe a textualidade como um princípio de duplo alcance: como “qualidade essencial a todos os textos” e como “uma condição de um empreendimento humano, quando o texto é textualizado”, ou seja, quando o artefato é produzido ou recebido como texto. Para esse autor, “um texto não existe como texto a menos que alguém o processe como tal” (BEAUGRANDE,1997, p. 18).
Esses postulados teóricos, a nosso ver, enfatizam não só a participação ativa dos sujeitos para a atualização da textualidade, tanto na produção quanto na recepção de textos, como também evidenciam o caráter dinâmico e interacional do texto, condicionado às influências do contexto, tomado aqui na concepção que adotamos neste trabalho.
Os sete critérios de textualidade propostos por Beaugrande e Dressler (1981)32 foram retomados em Beaugrande (1997) de uma perspectiva diversa
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32 Como esclarecemos anteriormente, Beaugrande e Dressler (1981 apud KOCH, 2006) apresentam
daquela e com a denominação de princípios. Nas palavras de Koch (2006, p. 170), trata-se de “um conjunto de condições que orienta cognitivamente um evento interacionalmente comunicativo”.
Ao optar pela expressão “critérios de textualização”, Marcuschi (2007) corrobora a visão de Koch (2006) por não admitir que eles funcionem como “leis linguísticas” e, sim, como condições orientadoras e promotoras de sentido. O autor ressalta que a ausência desses critérios não impede que se tenha um texto, já que considera este último como unidade de sentido, e não como unidade linguística (MARCUSCHI, 2008, p.97).
Assim como Marcuschi (2008), entendemos que os sete critérios de textualização são mais critérios de acesso à construção de sentidos do que princípios de boa formação textual. Para o autor, a textualização depende, de modo geral, de sua condição de processabilidade cognitiva e discursiva. Em relação à coerência, o linguista enfatiza ser ela um aspecto fundante da textualização, e não resultante dela. Assim, a coerência está mais na mente do leitor e no ponto de vista do produtor do que nas formas textuais (MARCUSCHI, 2008, p. 122).
Nesta pesquisa, consideramos a coesão e a coerência, como dois importantes critérios de textualização que se atualizam no texto de forma interdependente e intercondicionante para viabilizar a produção de sentidos, tanto na produção quanto na recepção de textos (ANTUNES, 2005).
Respaldamo-nos em Koch (2006), Marcuschi (2008), Bentes (2012), Antunes (2005) entre outros, por abordarem os critérios de coesão e coerência de forma mais ampliada, redimensionando-os. Nos estudos que apresentamos, as noções de coesão e de coerência não estão atreladas à superfície textual ou às relações lógico-semânticas do texto, como proposto por vertentes teóricas anteriores à década de 1980. Da perspectiva que adotamos neste estudo, a coesão não se restringe à organização sequencial no nível do cotexto, já que ela não está presente apenas no texto e não é condição necessária nem suficiente para a construção da coerência; já a coerência engloba não apenas a unidade semântica, mas também os
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situacionalidade, informatividade, intertextualidade, intencionalidade e aceitabilidade, centrados no usuário. Koch (2006, p. 43) questiona o fato de coesão e coerência serem mais centrados no texto. Para a linguista, todos os critérios estão situados no texto e no usuário, nos quais incidem fatores de ordem pragmático-cognitiva. Esses apontamentos já aparecem reformulados em New foundations for
a science of text and discourse: cognition, communication and freedom of access to knowledge and
processos cognitivos, desencadeados pelo texto e seu contexto, que operam na mente dos sujeitos.
Essa concepção de coesão e de coerência como critérios de textualização convocam os papéis ativos e atuantes dos interlocutores para que, no jogo da linguagem, interajam de maneira planejada e cooperativa para o sucesso de sua ação comunicativa em relação à produção de sentidos, seja na produção, seja na recepção de um dado texto, em um dado contexto.
Essa nova visada desses dois critérios de textualização, a nosso ver, contribui para um novo posicionamento frente à orientação do processamento textual, ao evidenciar que aspectos sociocognitivos e interacionais interferem e, algumas vezes são decisivos, tanto na produção quanto na recepção de textos, no que se refere à produção de sentidos.
De acordo com a visão de Koch (2006), uma mudança significativa em relação à coesão e coerência envolve o fato de que não se pode distingui-las de maneira absoluta, pois, por um lado, nem sempre a coesão pode ser estabelecida na materialidade do texto. Nesse caso, faz-se necessário recorrer a elementos do contexto para realizar um cálculo de sentido e, quando isso acontece, estamos no domínio da coerência. Por outro lado, “muitos autores passaram a reivindicar que a coerência se constrói por meio de processos cognitivos operantes na mente dos usuários, razão pela qual a ausência de elementos coesivos não é necessariamente um obstáculo para essa construção” (KOCH, 2006, p.46).
A constatação de que a coesão não é condição necessária nem suficiente para a coerência aponta para mais uma mudança: a coerência não está no texto, mas se constrói a partir dele, na situação interativa (KOCH, 2006, p.46). Dessa maneira, conforme atesta Marcuschi (2008), a coerência não é uma propriedade imanente do texto, ou seja, algo observável no texto e definido a priori.
Tanto assim que, de acordo com o autor, passamos a considerar a coerência como uma relação de sentido que se atualiza nos textos de maneira mais global, constituindo-se como um mecanismo responsável pela continuidade de sentido no texto (MARCUSCHI, 2008). Essa continuidade de sentido que a coerência providencia no texto ratifica a importante mudança na concepção desses dois critérios de textualização: a interdependência entre eles.
A interdependência entre os dois critérios e a assunção de que não correspondem a propriedades do cotexto, de forma imanente, e são dependentes
apenas de determinações linguísticas, redimensionam as noções de coesão e de coerência.
Nessa mesma direção, seguem os estudos de Cavalcante et al. (2010). Os autores asseveram que a coerência é estabelecida por um processo de inferência, para o qual concorrem as marcas linguísticas, a interação entre os coparticipantes da enunciação e o contexto.
Esses autores reiteram que o estabelecimento da coerência se dá, portanto, de forma dinâmica, não estando ela instalada a priori no texto. Essa noção de coerência ajusta-se à afirmação de que o aspecto interacional é inerente ao texto, desde que nele sejam introjetados dados pragmático-situacionais (CAVALCANTE et al., 2010). O texto constitui-se, desse modo, como um jogo de atuação comunicativa que se projeta na materialidade linguística.
Cavalcante et al. (2010) afirmam, ainda, que o redimensionamento dos processos de progressão referencial33 e da noção de tópico discursivo34 amplia a noção de coesão. Muito mais do que o mero emprego de elos na superfície textual, a coesão constitui a “articulação de todos os indícios cotextuais, e ao mesmo tempo, das inferências engatilhadas por eles” (CAVALCANTE et al., 2010, p.255).
Ao tratar da coesão como critério de textualização, Marcuschi (2008) considera que os processos coesivos estruturam a sequência [superficial] do texto, mas ressalta que esses processos não são simplesmente princípios sintáticos. De acordo com o autor, eles constituem os padrões formais para transmitir conhecimentos e sentidos. É por isso, explica o linguista, que em alguns textos a coesão superficial não é necessária para a textualização, embora ela não seja irrelevante. Nesses casos, assevera o autor, “há um imenso investimento de conhecimentos partilhados que supre a ausência de outros critérios” (MARCUSCHI, 2008, p.106) e, nesse sentido, podemos dizer que a coesão é inferida com base na coerência. Mais uma vez, percebemos a interdependência entre as duas noções para a construção de sentidos do texto.
Essa possibilidade de ausência de marcas linguísticas para o estabelecimento da coesão também ocorre com as relações de coerência que devem ser concebidas
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33 Abordaremos a referenciação no Capítulo 3, em que tratamos dos processos de progressão
referencial e dos processos referenciais, relacionando-os à construção da coesão e da coerência.
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Marcuschi (2006, p.10) define tópico discursivo como “produção enunciativa dos objetos de discurso mediante modelos de enunciação sociocognitivamente situados”. Nesta pesquisa, nos atemos à referenciação e não abordamos a noção de tópico discursivo.
como uma entidade cognitiva, que não tem um “tipo de explicitude imediatamente visível” (MARCUSCHI, 2008, p. 122-123). Para o autor, a coerência não se dá como um movimento sucessivo de enunciado para enunciado, daí sua característica de ser uma realização mais global do que local, embora ela possa ter um desenvolvimento local.
Como forma de sistematizar essas duas possibilidades de realização da coerência (local e global), Marcuschi (2008) sugere três planos de conservação da coerência: na relação microestrutural imediata (sequência dos enunciados); na relação macroestrutural ou ampla (significação global) e nas relações interlocutivas (processos sociointerativos). Os dois últimos planos evidenciam a perspectiva sociocognitiva e interacional presente nos estudos atuais da LT.
Nessa direção, considerando o texto como uma unidade significativa global, temos em Bentes (2012), respaldada pelos postulados teóricos de Charolles (1989), a noção de coerência como um princípio de interpretabilidade. Para o linguista, observa a autora, a princípio, todos os textos seriam aceitáveis, admitindo-se apenas que um texto pode ser incoerente em/para determinada situação comunicativa. A abordagem de Charolles nos conduz a tomarmos a coerência como uma atividade realizada também pelo receptor de um texto que atua com base nas pistas deixadas pelo autor, pelos mecanismos de coesão textual. Essa perspectiva reforça a interdependência entre os dois critérios (MARCUSCHI, 2008)
A ideia de interpretabilidade faz emergir o questionamento sobre a aceitabilidade do texto35. Nesse sentido, a questão que se coloca é em relação aos os limites da coesão e da coerência como determinantes para a produção/recepção de sentidos, de forma que, com base nesses desses dois critérios possamos reconhecer um texto como tal (BEAUGRANDE, 1997).
Do ponto de vista de Antunes (2005), todo falante tem uma consciência intuitiva e uma prática sobre as prescrições imperativas da língua a ponto de
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35 Segundo Koch (2006), o princípio de aceitabilidade, proposto por Beaugrande (1997), é a
contraparte do princípio de intencionalidade. Para a autora, a intencionalidade refere-se à intenção do produtor de perseguir e realizar suas intenções comunicativas; em sentido restrito, refere-se à intenção de produzir uma manifestação linguística coesa e coerente, mesmo que essa intenção não se realize integralmente. A aceitabilidade refere-se à concordância do interlocutor de entrar “num jogo de atuação comunicativa” e agir de acordo com suas regras, fazendo o possível para levá-lo a bom termo; em sentido restrito, refere-se à atitude do interlocutor de aceitar a manifestação linguística do produtor como um texto coeso e coerente, que tenha para ele alguma relevância, fazendo o possível para atribuir-lhe sentido (KOCH, 2006, p.42). Koch (2006) ressalta que todos os critérios de textualidade contribuem para a coerência, que resulta de uma construção dos usuários do texto, em uma dada situação comunicativa.
reconhecer se um enunciado pertence ou não à sua língua materna. Na mesma direção, em uma comunidade linguística, é previsível que os sujeitos tenham um domínio mínimo de regras para a boa formação de textos.
Assim, espera-se que as pessoas “digam coisas que têm sentido” e por isso “alimentamos a expectativa de que há sentido no que o outro diz”. Mesmo quando há uma quebra nessa expectativa, “insistimos em encontrar esse sentido”. Essa constatação reafirma a condição necessária da interação entre os interlocutores para a construção da coesão e da coerência e, consequentemente, de sua participação ativa na produção de sentidos (ANTUNES, 2005, p.179-180).
No esteio dessas considerações, concordamos com Koch e Travaglia (1995, p. 37) quando afirmam que “o texto será incoerente se seu produtor não souber adequá-lo à situação, levando em conta intenção comunicativa, objetivos, destinatário, regras socioculturais, outros elementos da situação, recursos linguísticos etc. Caso contrário, será coerente”.
Nessa direção, estabelecemos um sentido global aos textos com que lidamos cotidianamente, não pela decodificação linguística, em particular, mas porque estamos imersos, inseridos na sociedade (BENTES, 2012, p. 277). Disso podemos concluir, de acordo com a pesquisadora, que o conhecimento da situação comunicativa pode contribuir fortemente para a construção de um ou mais de um sentido global para o texto.
Esse é um dado que está relacionado à concepção de contexto, conforme já observamos anteriormente. No caso das redações de vestibular, quanto mais informações e conhecimento o estudante tiver da situação de produção escrita, do tema concernente à proposta do exame e do gênero solicitado, melhor ele poderá planejar as estratégias que deve utilizar a fim de ser bem-sucedido no atendimento à proposta, que demanda a exposição de seu posicionamento frente ao tema proposto.
Com base no que expusemos, podemos perceber que indícios contextuais implícitos e não expressos na superfície do texto concorrem para o estabelecimento da coesão e da coerência. Dessa perspectiva, não só ocorre o redimensionamento dessas noções, como também se evidencia a complexidade do trabalho do produtor de textos escritos, o qual deve inscrever na materialidade linguística tanto conhecimentos de diversas ordens quanto vivências carregadas de suas experiências socioculturais e historicamente situadas, de modo a prever e calcular o
que seu interlocutor traz como bagagem e quais expectativas possui, a fim de conseguir atribuir sentidos ao que lê.
Ratificamos a ideia de que a existência de um texto está atrelada à possibilidade de lhe atribuir coerência, conforme postulam Cavalcante, Custódio Filho e Brito (2014). Esses autores definem a coerência como “uma construção sociocognitiva, manifestada na interação e dependente do contexto” (CAVALCANTE; CUSTÓDIO FILHO; BRITO, 2014, p. 23). A nosso ver, a construção da coesão e da coerência, como processos interdependentes, se dá na interação entre interlocutores, o que implica o compartilhamento dos conhecimentos e as determinações dos contextos para a produção de sentidos na produção e recepção de textos.
Atestamos, assim, que o contexto e a especificidade da interação entre os participantes interferem nas escolhas do produtor tendo em vista seu desejo de atender a uma proposta de produção escrita. Quanto mais ciência e consciência o produtor tiver das propriedades do contexto e das especificidades da interação com seu interlocutor, além da compreensão da mútua influência que sofrem e exercem esses três elementos – texto, contexto e sujeitos em interação –, mais chances ele terá de adequar a sua ação para atender às expectativas da situação de produção escrita.
De acordo com Marcuschi (2006), ainda que a coerência seja construída em virtude de relações de sentido internas e externas ao discurso, estas seriam sempre mediadas por elos representados por proposições, fatos etc., em que a atividade referencial constituiria uma espécie de base. Para o linguista, “a referência providencia as pistas sugestivas para a produção de sentidos e a coerência é o aproveitamento dessas sugestões para a elaboração de sentidos” (MARCUSCHI, 2006, p. 19). Dessa forma, coerência e referenciação são atividades imbricadas e codeterminadas que se realizam tanto global quanto localmente. Nessa direção, Cavalcante, Custódio Filho e Brito (2014, p. 43) caracterizarem a referenciação “como um processo importantíssimo para a manifestação da coerência”.
Assim, tomamos a coesão e a coerência como critérios de textualização interdependentes, construídos por meio de relações cotextuais (relações léxico- gramaticais) e de relações contextuais (compartilhamento de conhecimentos, bagagem sociocultural dos interlocutores e determinações dos contextos imediato e mais amplo), em um processo de codeterminação com a referenciação.
Nesse capítulo, além de tratar do redimensionamento dos critérios de textualização da coesão e da coerência, apresentamos um panorama em que retomamos os três momentos da LT que resultaram em diferentes definições do objeto texto. Adotamos neste trabalho, a concepção de texto da perspectiva sociocognitiva e interacional, expressa por Beaugrande(1997) como “um evento comunicativo em que convergem ações linguísticas, culturais, sociais e cognitivas.”
O texto constitui-se também como o lugar da interação capaz de viabilizar representações do mundo, em um movimento ao mesmo tempo de transformação do que está sendo representado e de reconstrução do próprio dizer. Nesse sentido, transforma-se também a relação entre texto e contexto, que se constituem como entidades inseparáveis, intrinsecamente ligadas, que estabelecem uma relação de mútua constitutividade.
Abordamos a noção de contexto, respaldados em Hanks (2008) e van Dijk (2012). Hanks, de uma perspectiva da linguística antropológica, incorpora duas dimensões, emergência e incorporação/encaixamento, e estabelece três níveis contextuais, situação, cenário e campo semiótico à concepção de contexto, incorporando aspectos cognitivos e sociais ao conceito. Já van Dijk, da perspectiva sociocognitiva, concebe contexto tanto como ideia de entorno e condições socioculturais e históricas quanto de modelos mentais e representações sociais compartilhadas.
No desenvolvimento da fundamentação teórica deste trabalho, tratamos da noção de referenciação, da perspectiva sociocognitiva e interacional, em seu aspecto dinâmico, ligada às situações concretas de uso, como um processo contínuo de construção e reconstrução de objetos de discurso que ocorre na interação colaborativa entre interlocutores sociocognitivamente situados.