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Ainda que nenhum dos argumentos acima explanados fosse suficiente para sustentar o posicionamento aqui defendido, o fato é que a Lei nº 12.527/2011, em nenhum dos seus dispositivos, prevê a divulgação da remuneração individualizada dos servidores públicos. Essa imposição veio por meio do seu decreto regulamentador.

Aliás, a lei, ao mesmo tempo em que traz o dever de transparência pública, também respeita os valores da intimidade, vida privada, honra e imagem das pessoas, dentro dos mandamentos constitucionais que visa regulamentar, pois como disposto no art. 37, §3º, II da CF, a participação dos usuários na Administração Pública, como a acesso a registros administrativos e informações sobre atos do governo, deverá observar o art. 5º, X da Constituição, o qual trata da inviolabilidade dos valores acima mencionados.

O art. 4º, IV da lei considera como informação pessoal aquela relacionada à pessoa natural identificada ou identificável. Ora, a divulgação individualizada da remuneração dos servidores públicos se encaixa perfeitamente nesse conceito.

Como visto anteriormente, o art. 31 dispõe que o tratamento das informações pessoais deve ser feito de forma transparente, mas se respeitando a intimidade, vida privada, honra e imagem das pessoas, além das liberdades e garantias individuais.

Assim, embora tenha sido um grande avanço determinado pela lei a divulgação proativa pela Administração Pública de informações de interesse público, há de se considerar que a transparência ativa possui limites inclusos pela própria LAI, entre eles, justamente, o respeito às informações pessoais.

Na medida em que a divulgação das remunerações passou a ser feita de forma vinculada ao nome do servidor, houve um desvirtuamento do fim almejado pela norma, que era o controle social da Administração, para adentrar-se indevidamente na esfera de privacidade do agente público.

Há uma enorme diferença entre a divulgação da remuneração dos cargos públicos (já definido em lei), a divulgação individualizada da remuneração dos servidores (com descontos tributários e acréscimos legalmente alcançados) e a divulgação do nome do servidor público ligado a essas informações, que só serve para expô-lo perante a curiosidade alheia.

Ressalte-se que a Lei de Acesso à Informação não traz essa obrigação de exposição do servidor público e, se a Administração assim o faz, está desrespeitando a própria lei, extrapolando seu poder regulamentador.

Com efeito, importante fazer menção ao princípio da legalidade que rege o funcionamento da Administração Pública, que se constitui como uma das principais garantias de respeito aos direitos individuais. Nesse sentido, explica Maria Sylvia Di Pietro, a Administração Pública somente pode fazer o que a lei permite, sendo-lhe vedado, por simples ato administrativo, conceder direitos, criar obrigações ou impor vedações aos administrados.83

Por fim, vale ressaltar que inúmeras outras informações realmente de interesse público deveriam ser divulgadas de forma proativa e com fácil identificação pelos cidadãos. Valores de contratos, licitações, pagamento a empresas de terceirização, convênios, e outras tantas formas em que são gastas as verbas públicas, que na maioria das vezes passam despercebidas pela população, é que deveriam ser o foco de atenção da mudança de cultura do segredo para a transparência proposta pela nova lei.

Acompanhar como são arrecadados os recursos públicos e em que eles são empregados, saber quais são as ações realizadas pelos órgãos públicos, informar-se como as obras públicas estão sendo executadas fazem parte do verdadeiro controle e participação sociais tão necessários em um Estado democrático de Direito. Entretanto, muitos se contentam apenas em saber quanto recebe o seu vizinho que é servidor público.

A consolidação do direito de acesso à informação que a LAI propõe precisa ser bem entendida e aplicada tanto pela Administração Pública, que deve promover a cultura de transparência e facilitação do acesso às informações de interesse público, respeitando-se a vida privada, quanto pela população, que deve buscar participar ativamente da política e da administração do país.

O texto da lei é muito bom, mas não é suficiente, por si só, para transformar a realidade da nação, e a medida do Poder Executivo Federal de divulgar nominalmente a remuneração dos servidores públicos serve apenas para desviar do verdadeiro enfoque da lei.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

A garantia do direito de acesso à informação é imprescindível em um Estado democrático. Deve haver o fomento da divulgação das informações de interesse público, para que se formem cidadãos conscientes e se tenha um governo probo, que realmente atue como representante do povo.

Aos poucos, foi-se desenvolvendo essa noção e efetivando-se o direito à informação nas legislações dos países.

No Brasil, a Lei nº 12.527/2011 regula o direito de acesso às informações públicas previsto na Constituição Federal, prevendo procedimentos ágeis e simplificados para promover a cultura de transparência.

A importância de tal norma é indubitável para o desenvolvimento e consolidação da democracia no país, bem como para o combate à corrupção e aos desvios de conduta, infelizmente, ainda tão presentes na Administração Pública.

A lei tem grande abrangência, traz procedimentos simples para que se tenha acesso às informações, propõe o sigilo apenas em casos excepcionais, estabelece responsabilidades para os casos em que as informações não forem prestadas no prazo legal, entre outras tantas disposições que buscam efetivar a participação dos cidadãos para o regular funcionamento das instituições públicas.

Mesmo assim, uma das medidas que mais tem ganhado destaque está contida em seu decreto regulamentador, que cria a obrigação de divulgação dos rendimentos mensais dos servidores públicos de maneira individualizada, como forma, segundo o Poder Executivo Federal, de os cidadãos fiscalizarem os gastos públicos.

O Supremo Tribunal Federal tem se mostrado favorável à medida, indeferindo os pedidos dos servidores públicos de retirada dessas informações da Internet. Aliás, o próprio órgão tem divulgado os nomes de seus servidores e membros ao lado dos ganhos mensais de cada um.

Entretanto, não se pode olvidar que o mesmo Estado que deve garantir a transparência pública também deve respeitar a vida privada dos seus cidadãos, entre os quais se incluem os servidores públicos.

Desse modo, o que se pode perceber no decorrer do trabalho, é que essa transparência ativa proposta pela Administração Pública viola o direito à privacidade resguardado pela Constituição Federal.

A maioria dos servidores públicos recebe sua remuneração, a qual, destaque-se, já está prevista por lei, regularmente. E essa exposição só serve aos olhares curiosos de quem os conhece, ou pior, a quem esteja mal intencionado, significando um risco a outro valor constitucionalmente protegido, sua segurança.

Além disso, tal determinação não encontra respaldo nem mesmo na Lei de Acesso à Informação, que contém dispositivos acerca dos dados pessoais, garantindo o respeito à intimidade e à vida privada.

A Administração Pública, portanto, está violando o princípio da legalidade, que deve pautar toda a sua atuação. Além desse, está desrespeitando também, com essa medida, o princípio da impessoalidade, pois o servidor público, nessa qualidade, não necessita de identificação.

Propõe-se, portanto, como forma de garantir o necessário controle social das verbas públicas a divulgação das remunerações, mas sem sua vinculação ao nome dos servidores, apenas com o nome do cargo ou parte da matrícula funcional, como forma de atender tanto ao interesse público como de resguardar a privacidade dos servidores.

Sua identificação seria imprescindível apenas nos casos de serem constatadas ilegalidades, como quando a remuneração não estivesse de acordo com o cargo exercido, o tempo, as funções desempenhadas, e todos os outros fatores que compõem os ganhos mensais de um trabalhador.

Essa é uma solução simples, mas que parece não atender aos anseios da Administração Pública, que tão rapidamente abriu a folha de pagamento de seus servidores, mas em outros tantos gastos de verbas públicas, não é tão ágil em prestar contas à população.

A Lei de Acesso à Informação representa um importante avanço, mas precisa ser bem utilizada por todos, para que se compartilhem as informações que, de fato, são de interesse público e que poderão influenciar na boa gestão da coisa pública, caso contrário, corre-se o risco de essa transparência ser apenas aparente.

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