• Sonuç bulunamadı

Laplasyen Büyümesi (Laplacian Growth)

Como tipificar o regime de Hugo Chávez? Uma ortodoxia populista e manipulatória. Uma soma de doutrinas edificadas a partir de crenças assumidas definitivamente, através de dogmas concludentes de manipulação do povo. A ortodoxia crê com segurança absoluta em sua própria fé: só ela é verdadeira e não existe nenhuma outra. Essa exclusão omite tudo aquilo que permanece fora dos limites da ortodoxia. Na acepção de Fauquié,

Ortodoxia es convencionalismo y conservantismo. Dentro de ella siempre hay alguien que encarna la razón suprema: un jefe, una iglesia, una minoría, una mayoría, una tradición. La ortodoxia, invariablemente, termina por burocratizarse, por hacerse torpe y apoyar la torpeza de su supervivencia sobre ritos y estructuras inmodificables. [… La ortodoxia no acepta críticas: fomenta el silencio y el desprecio ante todo cuanto le es extraño29.

A ortodoxia sobrevive em razão da apatia dos cidadãos, da imobilidade do indivíduo, e na ritualização de usos, na repetição dos dogmas, infinitamente repetidos. Karl Deutsch já levantou estas indagações: “Que percepção tem os cidadãos quanto às suas próprias nações e de que forma consideram outras nações e seus atos? Em que condições eleitores se mostram conscientes e a respeito de que assuntos se mostram alienados?30” É nesse vácuo de dúvidas e apatia que os governantes, manipulando as massas, lançando ideologias e dúvidas; criticando

29 FAUQUIÉ, Rafael. Ortodoxia y Herejía de América. Universidad Simon Bolívar, Instituto de Altos Estudios de America Latina, Caracas: Mundo Nuevo Revista de Estudios Latinoamericanos, Año XV – Nº 4 – Octubre- Diciembre 1992[58], p. 533.

30 DEUTSCH, Karl. Análise das Relações Internacionais. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1982, 2ª edição, p. 19.

os países de democracia liberal, mobilizam os oprimidos e miseráveis. O modelo liberal norte- americano passou a ser alvo de críticas em face do bolivarianismo venezuelano.

Apesar dos últimos anos terem sido marcados por diversos embates envolvendo Washington e Caracas, a história recente desses dois países mostra que eles estão intimamente ligados, em uma relação de cooperação e interdependência, ainda que no plano político dos últimos 15 anos, não tenham chegado a um consenso.

Desde 1951 os Estados Unidos e Venezuela possuíam acordo militar, acordado em meio às tensões da Guerra Fria, com o interesse norte americano de garantir reservas de petróleo suficientes em caso de confronto entre as duas potências da época, EUA e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Durante 50 anos este acordo perdurou e foi a partir do seu rompimento, no ano de 2001, que as relações diplomáticas entre esses países estremeceram, sem, contudo, alterar substancialmente o quadro da balança comercial entre eles.

A partir desse ponto (rompimento do acordo militar) não houve mais concertação no plano político, entre ambos os países. Em 2002, após a tentativa fracassada de golpe31 contra o governo Chávez, a relação EUA e Venezuela definhou, sob a acusação do então presidente venezuelano de que os Estados Unidos teriam apoiado de forma direta o levante.

Paralelo a isso, nos últimos anos houve um aumento significativo dos investimentos venezuelanos em material bélico, importado principalmente da Rússia, China e Israel. Do ano de 2002 para o ano de 2007 a Venezuela saltou da 56ª posição para a 24ª em receptor mundial de material bélico32. Essa mudança se deu, em grande parte, ao plano estratégico adotado pelo governo venezuelano no ano de 2005 com vistas à defesa integral do país, fronteiras, crime organizado e narcotráfico, substituindo gradativamente os EUA pela Rússia em termos de cooperação e comércio na área militar. Somado a este fato, a política externa da Venezuela nunca viu com bons olhos o modelo de hegemonia proposto pelos Estados Unidos e a política da “guerra ao terror”33.

31 No ano de 2002, com o apoio político de militares opositores ao governo de Chávez e em meios às tensões internas, o presidente da Federação de Câmaras do Comércio (Fedecâmaras), Pedro Carmona, foi instalado presidente de fato. Embora reconhecido imediatamente por Estados Unidos e Espanha, o golpe de Estado sofreu duras críticas da comunidade internacional, sendo dissolvido em menos de 48 horas após seu início. A história indica a participação norte americana no caso principalmente em razão do descontentamento de Washington com as novas políticas impetradas por Hugo Chávez, principalmente as relativas ao petróleo.

32 PAGLIARI, Graciela De Conti; FONTES, Peterson Wilson. Gastos Militares na América do Sul: considerações acerca dos investimentos no período pós-Guerra Fria. Revista Atualidade Econômica, Universidade Federal de Santa Catarina, Centro Socioeconômico, Departamento de Ciências Econômicas. Ano 21, n 56, Out/Dez 2010.

33 Guerra ao terror ou Guerra ao terrorismo foi uma expressão muito utilizada após os ataques de 11 de setembro para ilustrar a nova política implantada pelo então presidente Bush, de combate ao terrorismo em escala global.

Na segunda metade dos anos 2000, principalmente a partir de 2005, diversos outros tratados com a Rússia foram assinados, como a criação de um sistema integral de defesa antiaérea, acordado entre os presidentes Medvedev e Chávez, sob a justificativa, deste último, de defender os recursos naturais venezuelanos do “expansionismo” norte americano. Também foram enviados aviões militares russos para missões de reconhecimento e combate ao narcotráfico além de navios e submarinos de propulsão nuclear.

Em setembro de 2008, em decorrência dos conflitos existentes na Bolívia entre o governo Morales e seus opositores, o regime do então presidente Chávez se indispôs novamente com os Estados Unidos. Naquela ocasião, o embaixador norte-americano na Bolívia, Philip S. Goldberg, foi considerado culpado pelo governo Morales de amparar e incentivar a oposição em um movimento com características separatistas. Em apoio, o governo venezuelano também expulsou o embaixador americano Patrick Duddy e pediu o retorno imediato do embaixador venezuelano Bernardo Alvarez de Washington. Além da alegada generosidade para com o povo bolivariano, Chávez declarou, à época, que o embaixador e o governo norte-americano estariam envolvidos em um plano elaborado por determinado setor do exército venezuelano para tirar sua vida34.

A essa época, a instabilidade no plano político acabou por refletir no plano econômico, e a balança comercial entre Estados Unidos e Venezuela sofreu os desgastes causados pelos embates ideológicos, conforme explicitado no Gráfico I que se segue:

Como parte das operações militares da “Guerra ao Terror” estão as invasões de países como Afeganistão e Iraque.

34 OLIVEIRA, Renata de. (2013). Venezuela, Estados Unidos e Colômbia: Entre crises diplomáticas e uma forte interdependência econômica. Revista Andina de Estudios Políticos. Vol. III, n 1, pp. 17-32.

Gráfico I

Balança comercial entre EUA e VENEZUELA no período de 1995-2009

Fonte: Renata de Oliveira. Venezuela, Estados Unidos e Colômbia: Entre crises diplomáticas e

uma forte interdependência econômica. Revista Andina de Estúdios Políticos (2013), Vol. III, nº 1, p. 30.

O Gráfico I mostra a oscilação da balança comercial entre Estados Unidos e Venezuela, causada dentre outros motivos: a) pelos embates ideológicos entre os governos a partir do ano de 2001 [nota-se que o declínio da balança comercial tem início no ano de 2001]; b) pela maior produção de petróleo por parte do EUA; c) pela busca incessante dos Estados Unidos em encontrar fontes renováveis de energia e outros parceiros comerciais para o petróleo, como o Oriente Médio.

Em outra via, mesmo em meio aos desentendimentos políticos, o crescimento econômico e as necessidades do complexo bélico fizeram com que o consumo de petróleo nos Estados Unidos só aumentasse ao longo dos últimos anos, ampliando consequentemente a dependência35 para com a Venezuela, principal fornecedor do petróleo bruto daquele país. O Gráfico II ilustra o destino das exportações venezuelanas no ano de 2013

35 Dados do Departamento de Energia do governo dos Estados Unidos publicou recentemente gráfico onde mostra pela primeira vez que a produção de petróleo bruto em território norte americano superou a importação deste hidrocarboneto (2013). Todavia o consumo tem aumentado consideravelmente, o que ainda faz com que os EUA dependa do óleo não refinado importado da Venezuela. Gráfico Importação x Produção interna de petróleo bruto dos EUA disponível em < http://www.energy.gov/science-innovation/energy-sources/fossil>. Acesso em 15/11/2014.

Gráfico II

Direção das exportações venezuelanas em bilhões de dólares

Fonte: Venezuela – Comércio Exterior. Ministério das Relações Exteriores, Departamento de

Promoção Comercial e Investimentos (DPR), Divisão de Inteligência Comercial (DIC), 201436.

O Gráfico II ratifica a interdependência entre esses dois países. No ano de 2013, a título de exemplo, segundo dados do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, as exportações venezuelanas destinadas aos Estados Unidos superaram a marca de 42% do total do comércio entre os dois países, quase em sua totalidade de petróleo na forma bruta.

Apesar da instabilidade no plano político, com reflexos no plano econômico, conclui-se que Venezuela e Estados Unidos são parceiros comerciais interdependentes. A frágil economia venezuelana necessita dos recursos provenientes do comércio petroleiro via EUA para manter a estrutura mínima de governabilidade, assim como a estrutura atual norte- americana necessita do petróleo originado da Venezuela. Ainda que não haja a concertação política entre os representantes chefes desses dois países, inegável é a importância da inter- relação comercial para o bom funcionamento de ambos os Estados.

36 MRE - Ministério das Relações Exteriores. Venezuela–Comércio Exterior, Departamento de Promoção Comercial e Investimentos (DPR), Divisão de Inteligência Comercial (DIC), 2014.

Acesso em 17/11/2014.

Disponível eletronicamente em:

http://www.brasilglobalnet.gov.br/ARQUIVOS/IndicadoresEconomicos/INDVenezuela.pdf

A Venezuela ressalta, continuamente, o poder hegemônico dos Estados Unidos, e enfatiza seu imperialismo, para explicar sua dominação como potência, criticando-o por sua coerção, como uma liderança negativa, por imposição do poder e subordinação frente aos países menos desenvolvidos. Os termos “império” e “imperialismo” econômico, militar ou cultural37, são retomados pela mídia na Venezuela, que evita mencionar os acordos comerciais com aquele país e a necessidade de exportação do petróleo. A ênfase recai no imperialismo econômico norte-americano, num contexto de assimetria particular – a assimetria da dominação e dependência. Como nação desigual economicamente sem poderio bélico ou supremacia governamental na América do Sul, a Venezuela valeu-se de suas relações particulares com os países vizinhos, que perfilam a mesma ideologia, para adentrar um vácuo de poder frente à Bolívia e Peru. Hugo Chávez na busca da maximização de sua posição de poder individual manipula a mídia para assegurar sua segurança nacional. Seu comportamento reflete o paradigma realista do sistema internacional, e sua utopia de expansão de poder na região, escolhendo racionalmente alianças que contradiziam o modelo dos EUA. A crítica ao imperialismo de mercado norte-americano, a capacidade de controle da economia de toda a sociedade, a centralização do capital-dinheiro, a manipulação dos banqueiros e industriais internacionais, torna-se o cerne dos discursos do presidente Hugo Chávez.

As contradições revelam-se nas trocas comerciais, especialmente o petróleo, que é vendido aos Estados Unidos. A pergunta que se faz é “como podem resolver-se as contradições, sob o capitalismo, a não ser pela força?” 38. Como estabelecer uma aliança pacífica com a potência hegemônica a não ser através de uma mesma base de vínculos imperialistas? Como desabafos, agressões verbais, mas gerando um ciclo de formas de luta pacífica através do recebimento de dividendos norte-americanos.

O enfoque de um governo mundial dirigido pelos Estados Unidos39, como única resposta diante dos desafios impostos por uma explosão demográfica, por guerras generalizadas, e ao desenvolvimento científico, tecnológico, econômico e militar superior a todas as outras nações, transformou-se num argumento central de embate do governante populista Hugo Chávez.

37 GARCIA, Ana Saggioro. Hegemonia e Imperialismo: Caracterizações da Ordem Mundial Capitalista após a Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Contexto Internacional, vol. 32, no. 1, janeiro/junho 2010, p. 156. 38 Idem, p. 160. Ressalte-se a obra de Lênin, V. O imperialismo fase superior do capitalismo. 3ª edição, São Paulo: Centauro, 2005, p. 97 (grifo no original).

39 RUSSEL, Bertrand. Has Man a Future? New York: Pinguin Books, 1967.

As oportunidades de negócio com os EUA, as tendências direcionadas a uma globalização concebida em função dos interesses de trocas comerciais, arrefeceram o comportamento beligerante do líder venezuelano em prol de sua inserção no Mercosul.