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3.2. GÜNEY KAFKASYA’NIN MİMARİ YAPILARI

3.2.4. Manastır ve Kiliseler

3.2.4.5. Kutaisi Kilisesi

Em paralelo às “tentativas” por parte do Estado em solver o déficit habitacional no Brasil, desde a década de 1930, uma marcha silenciosa de promotores privados passou a oferecer alternativas à população mais carente. Os loteamentos, ou parcelamento do solo para fins residenciais, surgem como esta opção, apoiados na expansão periférica das cidades. Esta alternativa terá uma profunda importância na configuração urbana destas cidades por estar baseada primordialmente em outra “questão” não menos importante que é a propriedade do solo no Brasil. Este sub-capítulo tem por objetivo, além de historiar esse processo, apontar a correlação entre os loteamentos e a segregação espacial nas cidades brasileiras e evidenciar a relação de dualidade entre o legal e o ilegal ou, no dizer de Maricato (1996) a “cidade real e a legal”.

Bonduki (1998) registra que foi a partir da década de 1940, em São Paulo, que a solução de loteamentos periféricos e autoconstrução da moradia passa a fazer cada vez mais parte da paisagem da cidade. A crise habitacional, a pouca capacidade do Estado em oferecer

33 Nesse sentido, são muitos os estudos que chamam a atenção entre a distância do Legal para o Real, como

moradia às camadas de baixa renda, o impacto da Lei de Inquilinato34 e a reestruturação da economia brasileira modificaram a configuração urbana da cidade, expandindo a sua malha urbana.

A perda de lucratividade com os aluguéis e a presença de uma demanda pela casa própria, fez surgir a figura do loteador como o agente responsável pelo parcelamento, comercialização e venda de lotes, na maioria das vezes, à prestação.

As terras destes loteamentos eram inicialmente glebas rurais na periferia da cidade e de difícil acesso ao centro; distante de qualquer fiscalização por parte do poder público, a periferia aos poucos foi se transformando em uma nova “fronteira” onde os moradores desbravavam aqueles espaços, sem água encanada ou luz elétrica, sem pavimentação nas vias ou sistema de esgoto.

A omissão do poder público na expansão dos loteamentos clandestinos fazia parte de uma estratégia de facilitar a construção da casa própria pelo próprio morador que, embora não tivesse sido planejada, foi se definindo na prática, como um modo de viabilizar a solução habitacional compatível com a baixa remuneração dos trabalhadores e que, ainda, lhes desse a sensação, falsa ou verdadeira, de realizar o sonho de tornarem-se proprietários (BONDUKI, 1998, p.288).

A crescente procura por este tipo de moradia fez, como visto acima, o governo de Getúlio Vargas criar a primeira Lei Federal relacionada com o parcelamento do solo, sem, entretanto, dar resultados. Os loteamentos tanto regulares quanto clandestinos passaram a fazer parte do mercado habitacional, contrastando com os conjuntos residenciais dos programas do governo. Estes, de orientação modernista, incorporaram ao seu preço final a casa e o lote urbano corroborando para que suas prestações não fossem acessíveis a todas as classes sociais. Àqueles que não podiam adquirir estas casas padronizadas, em áreas melhor localizadas, restava o mercado de terras na periferia que permitia o acesso à propriedade privada, sem grandes restrições de comprovação de renda, documentação e com baixas prestações. O fato da moradia não estar construída diminuía ainda mais o preço final e permitia aos poucos os moradores erguerem, de acordo com suas posses, a casa própria pois esta,

[...] dava consistência à formação do lar, território da vivência cotidiana da família como unidade de sociabilidade básica. Nesse espaço era possível

34 “As diversas versões da Lei do Inquilinato promulgadas entre 1942 e 1964, todas restringindo a livre

negociação dos aluguéis, tiveram conseqüências tão amplas que modificaram por completo não só o realacionamento entre o proprietário e inquilinos como a própria produção de moradias para os segmentos de baixa e média renda” (BONDUKI, 1998, p.210).

gerar e criar filhos aconchegá-los e mantê-los longe das ruas; guardar os bens que a sociedade de consumo em formação começava a impingir através da criação de novas necessidades [...]; uma casa própria nasce por etapas, como crescia a família na medida em que a situação econômica fosse mais confortável e, além disso, com a expansão urbana ficava cada vez mais ‘perto’ da cidade e se valorizava (BONDUKI, 1998, p.310).

A característica de precariedade do ambiente construído, em determinadas localidades, firmou o termo usual de periferia para designar os espaços de pobreza35. Embora possibilite o acesso à casa própria, e a posse de uma fração da cidade, a ocupação periférica na forma de loteamentos revela certas práticas que corroboram para a formação e acirramento dos espaços de pobreza, ou melhor, a espoliação urbana:

Irregularidade, ilegalidade ou clandestinidade em face de um ordenamento jurídico-institucional que ao desconhecer a realidade socioeconômica da maioria, nega o acesso a benefícios básicos para a vida nas cidades. Trata-se de um processo político que produz uma concepção de ordem estreita e ao fazê-lo, decreta uma vasta condição de subcidadania urbana. Essa discriminação e segregação não são importantes apenas por impulsionar a acumulação capitalista por uma espécie de mais valia absoluta urbana. [...] é importante [também] para fundamentar uma forma de controle social pela vistoria da vida privada das pessoas [...] (KOWARICK, 2000, p.54).

Assim, os loteamentos cada vez mais “consomem” o espaço periférico da cidade, com prejuízo para os moradores mais pobres. A horizontalidade passa a ser um padrão usual destes espaços, fundamentado na apropriação individual do lote. O padrão de “urbanização extensiva” e periférica, eleva o custo com transportes e desperdiça o tempo do trabalhador neste deslocamento periferia-centro, ademais é caracterizado pela inexistência dos equipamentos e serviços públicos, conseguidos após a organização e luta dos próprios moradores. Sendo o “ônus” exclusivo dos moradores, e da cidade, com quem fica o “bônus” de todo esse processo? Com os loteadores, que comercializam o solo com baixo custo de operação e alto lucro final; com os proprietários de terras, que “se livram” de propriedades rurais improdutivas, aumentando o valor do solo através do parcelamento urbano; com os políticos locais, que tecem uma rede de clientelismo, formando suas “bases” eleitorais; e com o Estado, na medida em que deixa de solver o problema de fornecer habitação barata para esta população, se livrando das indesejáveis favelas.

35 Maricato (1982,82-83) define periferia como: “[...] espaço de resistência da classe trabalhadora ou das

camadas populares que se estende por vastas áreas ocupadas por pequenas casas em pequenos lotes, longe dos centros de comércio ou negócios, sem equipamento ou infra-estrutura urbanos, onde o comércio e os serviços populares também são insignificantes enquanto forma de uso do solo”.

Embora parte da literatura da década de 1960 e 1970 tenha visto tais áreas como fruto de uma marginalização do indivíduo, o mais certo seria considerar tal periferia amplamente integrada no sistema de (re)produção do espaço urbano e, mais, na exploração da força de trabalho assalariado; um processo também de acumulação capitalista, embora envolva lucratividades diferenciadas. O “marginal”36 é partícipe do sistema econômico e social que produz os espaços da cidade, sendo tal participação inserida nas áreas menos valorizadas, longe das classes de maior poder aquisitivo, ou melhor, o aumento no número de proprietários não significa que estes tenham acesso a todos os benefícios urbanos e nem o controle sobre estes, muito ao contrário, pois serão absorvidos de modo diferenciado conforme as classes sociais existentes.

Como reflete Alvarez (1984), o fato dos moradores aturarem apenas como consumidores do produto que é a cidade, leva a uma concentração de poder na mão dos produtores, pois serão estes a controlar o acesso, ou permiti-lo, à propriedade privada37: “se trata de apropiase de los beneficios que derivan del valor de cambio derejando en segundo plano los generados por el valor de uso” (ALVAREZ, 1984, p.6). Os “produtores” do espaço periférico não interferem apenas sobre o solo consumido, mas também sobre a direção deste consumo, antevendo a valorização futura de novas áreas ainda mais distantes. Como a terra não é um objeto de produção mercantil convencional, no sentido de não ter valor por não ser fruto do trabalho38, o loteador precisa sempre de novas áreas para conseguir a acumulação do capital; sendo assim, o movimento de expansão da cidade é também a expansão das desigualdades urbanas e crescimento dos espaços de pobreza. Mesmo que as periferias mais antigas tenham ganhado serviços e equipamentos, conforme estas passam a fazer parte da cidade, novas áreas habitacionais surgem reproduzindo as mesmas práticas de parcelamento do solo. Deste movimento depende a sobrevivência das atividades do loteador.