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Ademais a fixação das dunas, fazia-se necessário também a consolidação das margens do rio Potengi. Os relatórios ministeriais informam que tal serviço era imprescindível, pois, com a dragagem as margens começaram a desmoronar. A solução empregada consistiu na construção de paliçadas de madeira, para a sua contenção, que serviriam também para reter o material retirado do fundo do rio. Após a conclusão desses trabalhos, a intenção se tornava clara: utilizar o espaço conquistado para expansão física da cidade, sendo que já havia algumas construções no local, pertencentes à comissão de melhoramentos, como armazéns e casas para vigias (ALMEIDA, 1908). Pode-se detectar, nesse momento, um aparente paradoxo nos atos da comissão: o incentivo à construção de casas de taipa pela população de baixo poder aquisitivo da cidade. Tal ação acarretaria ou na destruição da vegetação rasteira nas áreas em construção e de circulação ou na inviabilização dos desejos das elites de e eleza e to do lo al o a i trodução desse tipo de moradia já condenado, na época, pelos princípios higienistas, além de questões de ordem humanitária.

Porém, a principal justificativa residia numa questão de técnica e de redução de custos, uma vez que as edificações serviriam como um muro de proteção aos ventos e, assim, evitaria o dispêndio de recursos para erguer novas barreiras de fachina (GONÇALVES, 1912a). Para tanto, encarregava-se a comissão de uma fiscalização constante nessa área de ocupação, para evitar que animais e/ou pessoas danificassem as pla taç es e, ao es o te po, fa ilita a o st uç o de asas de palha população pobre, segundo alinhamento determinado, as quais constituem excelente a pa o a ha das a eias to adas pelos ve tos LYRA, , p. . Al desse

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O relatório informava também da tentativa da introdução de pinheiros, infrutífera dada a sua incompatibilidade com o clima nordestino.

incentivo, a comissão lançava mão de alugar pequenas casas ali instaladas e de repassar a renda arrecadada à Delegacia Fiscal (LYRA, 1918).

Graças às obras de modernização/reestruturação do porto, a Ribeira assim se configurou numa nova área ao se transformar de um local que servia de porto secundário ao principal centro econômico da capital, com a concentração de diversos e importantes estabelecimentos comerciais – a maioria voltada para as atividades de exportação e importação de gêneros alimentícios. Sua importância crescia ao mesmo tempo em que os serviços da Comissão de Melhoramento do Porto avançavam, e mesmo a perda da sede do governo, em 1902, para a Cidade Alta não demoveu a sua importância, conforme se pode ver num artigo sobre a petição dos comerciantes de Natal para a mudança do correio:

Sabemos que o commercio desta capital telegraphou para a capital federal (...) solicitando a mudança do correio geral deste Estado do bairro da Cidade Alta para o bairro da Ribeira.

Em todas as cidades de grande movimento, colloca-se o edifício central do correio o mais próximo possível do porto e dos pontos em que mais se concentra a actividade commercial.

Aqui são patentes os inconvenientes do correio da Cidade Alta, não só pela maior conducção de malas, como pela demora nas transações commerciais. (A REPÚBLICA, 1902, p.1).

Contudo, a Ribeira necessitava de outras obras que complementariam os serviços de melhoramento do porto. Isolado, o porto resolvia o problema da carência de meios de circulação, necessário ao arranque econômico almejado pelas suas elites. Mas, o projeto de modernização abarcava outras medidas de melhoramentos que se faziam necessário a uma cidade ainda fragmentada e separada por dois obstáculos: um íngreme elevado e um alagado cujas águas estagnadas e alagamentos constantes provocavam diversos problemas. Assim, em paralelo aos serviços de dragagem e fixação das dunas, duas outras obras exigiam a atenção dos governantes: a ligação da Cidade Alta com a Ribeira e o aterro da Praça Augusto Severo.

Se as obras de infra-estrutura e instalações portuárias da cidade se configuravam, paulatinamente, num dos principais serviços realizados pelo Poder Público, concomitantemente verifica-se outras intervenções no espaço intra-urbano de Natal. Assim, o início do século XX foi marcado por uma série de ações de aformoseamentos cuja intenção consistia em dar uma nova roupagem para a velha cidade. Entretanto, como o objeto de atenção deste trabalho consiste na idéia central da transformação do meio físico natural da cidade, com o delineamento de um p ojeto de ode izaç o elaborado pelas elites natalenses, analisou-se a ação humana em áreas ainda ínvias dentro da cidade, causando uma transformação em um meio construído. 168

Convém destacar que essa ânsia pela modernidade não traduzia necessariamente os desejos da população em geral. Numa escala proporcionalmente menor, Natal acompanhava as ações de outras cidades do país, cuja tônica se dava numa idéia de modernização forçada e marcada por um caráter não-includente. De maneira geral, as tentativas de afastamento das camadas sociais nas áreas a serem remodeladas a partir:

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Sobre as obras de aformoseamento e melhoramentos promovidas pelo Governo, ver, e.g., OLIVEIRA, Giovana Paiva. De cidade a Cidade. Natal: EDFURN, 2000; LIMA, Pedro. Natal Século 20: do urbanismo ao planejamento urbano. Natal: EDFURN, 2001; FERREIRA, Angela et al. Cidade Sã e Bela: a história do saneamento de Natal (1850 – 1969). Natal: IAB, 2008.

Quer dizer que, das 6 horas da tarde às 10 horas da noite, ninguém poderia mais se locomover de um para outro bairro, a não ser se fosse autoridade ou figura de destaque social.

Quem passasse por ali ouviria os gritos constantes cortando as noites escuras ou enluaradas:

- Xaria frouxo, se for homem, desça...

- Canguleiro covarde, se quiser apanhar suba...

De padrões de referência já estabelecidos: as largas avenidas, os viadutos ou sa ea e to u a o, o a va ida dos po es do centro da cidade, eram práticas sociais ligadas ao conceito de cidade moderna e civilização. Exigências morais, higiênicas e estéticas i pe iosas se i pu ha dia te da e essidade de se e pa e e moderno (PESAVENTO, 1995, p.7).

A afirmação de Sandra Jatahy Pesavento, sobre esta faceta da modernização das cidades brasileiras, encontra igual vazão na prerrogativa de Luiz César de Queiroz Ribeiro e Adauto Lúcio Cardoso (1996), ao apregoarem que as melhorias tinham como objetivo a construção de uma nova cidade, dita moderna, aos olhos de uma elite que almejava uma aproximação aos modelos estrangeiros. Dessa maneira, o abismo social e econômico também se tornaria espacial. Os pobres, considerados incultos, não participariam diretamente desse processo e teriam que ser removidos das áreas a serem modificadas.

Criava-se, dessa forma, um espaço urbano específico e voltado para o usufruto das elites, que moldariam a cidade a partir de um pensamento idealizado, tornando-a moderna, pronta para adentrar ao universo que consideravam como modelo de civilização. Logo, as intervenções urbanas não tinham um caráter totalizante, ou seja, nem todas as áreas da cidade sofreriam remodelações. No tocante aos locais de socialização das elites, percebe-se a criação de áreas seg egadas dentro da cidade, uma vez que remanejaria para as áreas periféricas, aquilo que não deveria ser exposto – como a miséria da grande parcela da população e as atividades consideradas indesejadas, como por exemplo, o matadouro, o leprosário, entre outros.

Com relação à Natal, as motivações por parte da Intendência e do Governo Provincial / Estadual em construir espaços públicos de uso coletivo se deram mais para atender aos grupos de maior poder aquisitivo do que à população de modo geral, embora todos os usufruissem. Dentre eles, dois lugares possuíam uma característica em comum: ambos esbarrava e o st ulos atu ais ue p e isava se transpostos para se tornarem locais de integração urbana e prática de sociabilidade. Esses lugares, a Avenida Tavares de Lyra e a Praça Augusto Severo, serão objetos de análise do presente capítulo.