• Sonuç bulunamadı

No geral, é dentro de um contexto amplo e complexo que se tem o desenvolvimento do movimento indígena equatoriano, fomentado por conflitos advindos de demandas diversas, seja de caráter cultural, histórico-social, econômico e também político, que vem trilhando um percurso de grandes conturbações, de derrotas, mas também de muita resistência. Um movimento que, apesar das semelhanças de fundo cultural, não pode ser visto como homogêneo, pois, apesar de centrado em um forte cunho identitário e de lutar, principalmente, pelo direito a expressar livremente as suas tradições culturais e históricas, o que representa entre outras coisas a defesa dos seus territórios, está situado em diferentes regiões do país, tendo desenvolvido relações igualmente distintas com o conjunto da sociedade e apresentado, no plano concreto, demandas diversas. Portanto, para um entendimento mais preciso do processo de organização e das formas de expressão do movimento indígena equatoriano, é necessário termos, inicialmente, uma compreensão mínima das diferentes regiões e das respectivas populações indígenas atualmente estruturadas nesse país, o que tem levado conseqüentemente – apesar das reivindicações comuns – à formação de demandas e mecanismos de lutas, muitas vezes, distintos entre as comunidades indígenas.

O Equador apresenta, do ponto de vista geográfico e ecológico, três regiões distintas.74

A região da Costa, local de maior concentração populacional, abriga cerca de metade da população do Equador e possui os maiores centros urbanos e financeiros do país. Conta com uma economia baseada, principalmente, na

produção de artigos voltados para a exportação, especialmente, o cacau, a banana e o café, cultivados sob a lógica do sistema monocultor e do sistema do trabalho assalariado, usado em larga escala, caracterizando-se ainda pelo predomínio, no sistema fundiário, de grandes e modernas empresas agrícolas.

A região serrana, local de maior densidade da população rural e

concentração indígena do país, situada entre duas cadeias das cordilheiras dos Andes, cujas características geoclimáticas, impróprias para a produção de mercadorias tropicais, de maior interesse para a exportação, teve o seu

desenvolvimento econômico voltado para a produção de artigos destinados ao abastecimento do mercado interno, tendo na mão-de-obra indígena a principal força de trabalho, utilizada, durante muito tempo, em diversos sistemas de trabalho. Esta região apresenta uma organização fundiária dividida entre terras comunais, pertencentes às comunidades indígenas, utilizadas, em grande parte de forma coletiva, constituindo-se, atualmente, como insuficientes para comportar o conjunto da população nativa da região, e áreas pertencentes aos terratenentes (latifundiários) que controlam as maiores extensões e as melhores terras da região. A Serra se constitui, historicamente, em uma área de grande tensão social, situação que tem provocando, ao longo dos anos, inúmeros conflitos, sobretudo pela disputa agrária.

A região Oriental, formada pela Amazônia, apesar de representar cerca de 46% da superfície total do país, abriga baixos índices populacionais. Caracteriza- se por uma economia extrativista, cujos principais produtos explorados são: o petróleo, a borracha, a madeira e a Palma Africana.75 Diferente das demais regiões que rapidamente foram incorporadas ao sistema econômico ocidental, a região oriental se manteve, até pouco tempo, parcialmente isolada do restante do país, modificando-se a partir da década de 60, com a descoberta de ricas jazidas de petróleo, que, com o início da sua exploração, provocou uma rápida e danosa integração à economia nacional. Esta situação tem trazido, desde então, profundas modificações para as populações nativas, causando a perda de parte dos seus territórios e, com isso, a modificação e/ou destruição dos valores culturais, das suas tradições históricas e das suas relações sociais e econômicas.

74 Conforme informações baseadas nos estudos de: GÓMEZ, E. Nelson. Transformacion del espacio

nacional: pasado y presente del Ecuador. Quito: Ediguias, 1999 e ENCICLOPÉDIA DO MUNDO CONTEMPORÂNEO. São Paulo: Terceiro Mundo, 2000.

75 Planta originária da África Oriental, de grande valor comercial, especialmente utilizada na produção de alimentos e

produtos medicinais, entre outros. Introduzida na América no final da década de 1970 e explorada por grandes empresas transnacionais, foi apresentada como solução para o endividamento de muitos países americanos, entre os quais o Equador. Apesar da grande utilidade em diversas áreas, a Palma Africana tem provocado graves problemas sociais e ecológicos, pois, para ser viável economicamente, exige que o plantio seja feita em grandes áreas e de forma extensiva, provocando o desflorestamento de grandes regiões, utilização de produtos químicos, contaminação do solo e, principalmente, desalojamento dos camponeses e indígenas, expulsos de suas terras ou obrigados a abandonar sua produção diversificada e ecologicamente equilibrada em favor do plantio baseado na monocultura. Tal plantio tem gerado inúmeros protestos e contestações dos grupos indígenas e campesinos através de suas organizações.

Com uma população estimada em 12 milhões76 de pessoas, acredita-se, embora de difícil precisão, que entre 25% e 40% da população total seja composta por indígenas, o que torna o Equador, em termos proporcionais, – juntamente com a Bolívia (50,51% ou 4.141.000), a Guatemala (48,01% ou cerca de

4.945.000)e o Peru (38,39% ou 8.800.000 índios) – um dos países de maior população indígena da América (ver anexo nº 2).

Com base em critérios antropológicos, nem sempre isentos de críticas, os pesquisadores defendem a existência, hoje, no Equador, de nove77 nacionalidades indígenas que, de acordo com dados apresentados pelas organizações indígenas, estão distribuídos da seguinte maneira (conforme anexo nº 3): a região costeira – área que desde os primórdios da colonização assumiu lugar de grande

importância econômica, o que ocasionou conseqüências diretas, negativas e imediatas paras os distintos grupos indígenas – constitui-se na área de menor população indígena do país, com cerca de 12.000 indivíduos, divididos em três grupos: os Chachi/Cayapa (7.000); os Tsachil/Colorado (1.400) e os Awa-Coaquier (3.500). Na região da Amazônia, atualmente, seis são os grupos indígenas

identificados: os Shuar; os Achuar-Shiwiar; os Sionas-secoyas; os Cofan e os Huaoranis, além dos Quíchuas, perfazendo uma população estimada em 122.000 pessoas, o que corresponde a cerca de 50% da população total da região, com o predomínio dos Shuar (40.000) e os Quíchuas do “Oriente” (60.000),

nacionalidade que também se constitui no principal grupo indígena da região serrana, local que, por sua vez concentra a maior população indígena do Equador, com cerca de 2.500.000 a 3.000.000 de pessoas. Embora pertencentes ao Quíchua estão distribuídos em onze sub-grupos, localizados em quatro sub-regiões

distintas, demonstrando assim a complexidade étnica não só no interior da família quíchua como entre as distintas regiões do país.78

É importante destacar que as diferenças quanto ao número da população indígena no Equador se devem tanto a falta de censos mais precisos, quanto aos diferentes critérios utilizados para classificar ou distinguir o índio de outros grupos étnicos – especialmente em relação aos mestiços –, além da discriminação racial que “incentiva” um considerável número de pessoas a esconder ou negar sua herança étnica. No entanto, sejam quais forem os motivos das divergências e

imprecisões numéricas, não se pode negar que a população indígena do Equador é muito expressiva e vem ao longo dos anos mantendo, em algumas regiões, um índice de aumento e fortalecimento considerável, seja em função do crescimento biológico, seja em função do resgate e da afirmação dos valores identitários. Vale ressaltar também que as diferenças quanto aos dados expressam uma disputa por legitimação entre os pólos antagônicos do conflito atual, ou seja, entre os órgãos oficiais do governo que buscam minimizar a presença étnica e os dados das

76

Conforme dados da ENCICLOPÉDIA DO MUNDO CONTEMPORÂNEO. São Paulo: Terceiro Mundo, 2000, p. 252.

77Alguns pesquisadores apontam para a existência de doze grupos indígenas, em função de optarem por

dividir os Quíchuas da Serra em quatro grupos distintos. A Conaie, conforme estudos realizados pela sua Equipe de Investigação, admite a existência de alguns membros das nacionalidades Embera, situados na região de Esmeraldas e membros da nacionalidade Zaparo em Pastaza. In: CONAIE. Las nacionalidades indígenas en el Ecuador. Nuestro proceso organizativo. Quito: Tincui; Abya-Yala, 1989, p. 283.

78 Informações coletadas nos seguintes trabalhos e publicações: SANTANA, Roberto. Ciudadanos en la

etnicidade. Los indios en la política o la política de los indios. Quito: Abya-Yala, 1995, p. 10-18; e CONAIE, op. cit., p. 283-284.

organizações indígenas que, por outro lado, buscam valorizar quantitativamente a presença indígena no país.

Podemos, diante dessa breve descrição das distintas regiões que formam o Equador, melhor compreender o desenvolvimento dos povos indígenas, suas diferenças históricas e culturais, e entender as diferentes formas de resistência e organização frente à presença européia, o que dá um caráter diversificado na construção do movimento étnico nacional no período recente.