Como enfatizamos anteriormente, o final do século XX e o início do XXI seria um momento marcado pela valorização da cultura e dos recursos naturais, por diversas razões, entre as quais a possibilidade de eles serem explorados como negócios no ramo do turismo.
Por ser uma “cidade universitária” e contar ainda com o Colégio de Aplicação da UFV – COLUNI, que até hoje, atrai alunos de todas as regiões do país para cursarem o Ensino Médio, além das diversas escolas particulares e faculdades, Viçosa tornou-se um polo captador de contingentes de trabalhadores, vindos da região, em busca de empregos voltados direta ou indiretamente àquelas instituições. Além disso, o fato de ter seu nome relacionado ao período da Primeira República, devido aos políticos que se destacaram no cenário nacional
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– principalmente o ex-presidente da República Arthur da Silva Bernardes – poderia significar um atrativo a mais para a atividade turística no município.
É interessante observar o processo de discussões promovidas por políticos, intelectuais ou por cidadãos comuns, no que tange à questão do desenvolvimento do turismo em Viçosa, e destacar os argumentos utilizados para selecionar as atividades, os lugares, as paisagens, a serem valorizados. Diversos grupos reivindicariam espaço para suas atividades na cidade e mobilizariam discursos que justifiquem a lista de elementos culturais e naturais que, na sua opinião, representam a identidade local. Como não se trata apenas de uma questão social e, consequentemente, política, mas, também econômica, as discussões seriam bastante acirradas e interesses variados comporão um cenário de luta pela territorialização das referências que melhor se relacionarem àqueles interesses.
Evidentemente, a luta pelo estabelecimento de elementos que representem a cidade e sua população, é, ao fim e ao cabo, a definição de uma identidade. Portanto, a questão central que ora discutimos é: qual é a identidade que Viçosa assumirá perante aos turistas? Qual o público alvo deste turismo? Quais atividades turísticas a cidade ofereceria? Nesse caso, questões de peso estão em jogo, posto que tais definições garantirão importância social, política e econômica aos grupos que estavam relacionados à indústria turística.
Pierre Bourdieu analisa com profundidade essa questão das diferenças expressas entre grupos sociais, como elementos simbólicos de distinção social, na luta pelo poder. O autor ressalta a necessidade de o pesquisador se interessar pelos personagens que aparecem no jogo da distinção e pelos lugares sociais que estes ocupam, visto que a pessoa que profere o discurso e o lugar social do qual ela o profere, são partes fundamentais do próprio discurso, na disputa pelo poder11. Ainda segundo Bourdieu, quando um indivíduo ou grupo social faz certas escolhas, manifestando o que afirma ser o “seu gosto”, ele está, na verdade, criando, a partir de elementos que recebeu ao longo de sua trajetória de vida – aquilo a que Bourdieu denomina “capital cultural” – uma estrutura simbólica através da qual se distinguirá socialmente. Os “gostos” são compartilhados por alguns, e, ao mesmo tempo, os distingue dos “outros”, os quais possuem outro “gosto”12. Segundo o autor:
De fato, basta abolir a barreira mágica que transforma a cultura legítima em um universo
separado para perceber relações inteligíveis entre ‘escolhas’, aparentemente,
incomensuráveis [...]. O consumo de bens pressupõe [...] um trabalho de apropriação; ou,
11 BOURDIEU, Pierre. A Distinção: crítica social do julgamento. Trad. Daniela Kern; Guilherme J. F. Teixeira. 1ª reimp. São Paulo: Edusp; Porto Alegre, RS: Zouk, 2008. P.18.
100 mais exatamente, que o consumidor contribui para produzir o produto que ele consome mediante um trabalho de identificação e decifração [...]13.
E isso, por sua vez, nos remete novamente, ao dualismo entre a luta por identidade, da parte de alguns grupos sociais e a cultura globalizada. A análise de Bourdieu sobre as condições que nos propiciam o estabelecimento de nossos modos de vida permite uma constatação importante, no caso específico da relação entre identidade e turismo. A definição de um “cardápio turístico”, o qual tenta balizar tanto o que a cidade pode e quer oferecer, quanto aquilo que ela imagina ser o interesse de seu turista em potencial, é um processo no qual os protagonistas mobilizam discursos pautados nos “gostos”, mas, que na realidade, demonstram seus ideias de “distinção”, na luta pelo poder. Em outras palavras, aquilo que será apresentado ao final, como uma espécie de “vocação turística da cidade” é o resultado de uma disputa, na qual alguns discursos sobressaíram e outros não. Cada um tentará demonstrar, mediante justificativas diversas, por que suas referências – seus “gostos” – devem ser priorizados como representações para a cidade.
Entretanto, esse desejo de distinção deve explicitar aos olhos do pesquisador, o jogo de interesse e poder que mantem tais discursos: quem fala, de onde fala e quais os seus possíveis interesses. No caso do turismo, os interesses envolverão poder político, status social, mas, também ganhos financeiros e, por essa razão, é fundamental analisar essa relação mencionada por Bourdieu, entre produto e consumidor. Vejamos, a seguir, como isso pode auxiliar na compreensão do processo ocorrido em Viçosa.
***
Ainda no final da década de 1980 a Folha da Mata publicava diversas notícias que demonstram direta ou indiretamente, a preocupação e/ou o desejo por parte de alguns grupos da sociedade viçosense, em desenvolver atividades turísticas no município. É o caso do artigo a seguir, publicado em 1987:
A partir do ano que vem, Viçosa deverá ser incluída no roteiro turístico de MG, passando a integrar o calendário de cidades turísticas divulgado pela Turminas. Trabalho neste sentido vem sendo realizado pelo vereador Joaquim Rocha Filho, juntamente com o ex-prefeito viçosense e diretor da Hidrominas, Antônio Chequer, que já tiveram audiência com o presidente da Turminas em BH, Pedro Nassis, apresentando e discutindo o potencial turístico do município, com ênfase, segundo o vereador, para a Semana do Fazendeiro promovida pela UFV [...], a festa da Padroeira (Santa Rita) e a Semana Santa ao vivo,
13Ibidem. Loc. Cit.
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já uma tradição do município com 15 anos de apresentação consecutiva, com apenas uma interrupção neste período. [...]14.
Por ser essa a primeira iniciativa para se estabelecer um “pacote turístico” de Viçosa, a que tivemos acesso, vamos toma-la como referência e confrontá-la com novas propostas que serão feitas ao longo da década de 1990. Neste primeiro caso, já destacamos, como indica Pierre Bourdieu, quem são os enunciadores do discurso: em primeiro lugar, é a própria Folha
da Mata, a qual como meio de comunicação de massa e formador de opinião, adquire uma
participação importante no processo, no momento em que escolhe noticiar o fato, dando-lhe ainda, grande destaque, em sua primeira página. Em segundo lugar, são os próprios indivíduos mencionados pelo articulista, sobretudo pelos lugares sociais que ocupavam naquele momento: vereador, ex-prefeito e diretor da “Hidrominas” e presidente da “Turminas”. Fica evidente que se trata de uma estratégia política, com vistas à interesses que podem ir desde a ocupação do poder público municipal até o atendimento de demandas de grupos econômicos locais e/ou regionais.
Em fevereiro de 1991, também na primeira página da Folha da Mata, estampava-se a seguinte notícia:
Será inaugurado, no próximo dia 22 de abril, o “Espaço Cultura” de Viçosa. A idealização é
do Vídeo-Cine e o local de funcionamento será no prédio do antigo Cine Odeon, na Praça Silviano Brandão. [...] O objetivo maior do investimento é o de atender a lacuna de falta de eventos culturais na cidade, principalmente em relação aos estudantes de 1º e 2º graus. [...]15.
Em seguida, na página 4 da mesma edição, o colunista Tony Mello emitia a seguinte opinião a respeito da iniciativa de um empresário do ramo imobiliário de Viçosa, em relação ao mesmo prédio mencionado no artigo anterior, onde funcionaria o “Espaço Cultura” de Viçosa:
Partiu da visão progressista do empresário Nelson Maciel a preservação do prédio onde funcionou durante mais de 60 anos o Cine Odeon – Praça Silviano Brandão, mantendo todas as suas características encontradas. Sua remodelação interior foi toda custeada pelo empresário, que ali vai inaugurar, no próximo mês, o Espaço Cultura, sem fins lucrativos. [...] Projeto idealizado pelo empresário Nelson Maciel que, conhecedor das deficiências do espaço físico para promoções na área cultural viçosense, procura dar sua colaboração, pois acredita no potencial desta cidade e região. São
14 “Viçosa no roteiro turístico de MG”. Folha da Mata. Viçosa, MG. Nº 985, 19 de dezembro de 1987. p.1. Grifos nossos.
15“Espaço Cultura será inaugurado em abril”. Folha da Mata. Viçosa, MG. Nº 1152, 16 de fevereiro de 1991. p.1. Grifos nossos.
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atitudes nobres como esta que vão manter a cultura de Viçosa no lugar de destaque que sempre ocupou em Minas Gerais16.
Nada pode ser mais contraditório que as expressões “progressista” e “preservação de todas as características encontradas”, na mesma frase! Percebe-se que há o interesse em apresentar o empresário como um “benfeitor da cultura de Viçosa” que, naquele momento, quando o Poder Público Municipal demonstrava interesse em desenvolver o turismo local, o empresário não escolheu o referido prédio ao acaso e nem agiu “sem fins lucrativos”.
Ao longo da década de 1990, percebe-se uma valorização de diversas atividades culturais em Viçosa e um desejo manifesto por parte de algumas pessoas, de que muitas dessas atividades fossem mais estimuladas pelo poder público local e até pudessem ser transformadas em tradições locais. Eric Hobsbawm e Terence Ranger analisam o processo de elaboração e as funções políticas e sociais que podem ser atribuídas às práticas culturais consideradas “tradições” 17. Segundo os autores, muitas vezes, tomam-se como muito antigas,
práticas que são bastante recentes e que, portanto, foram inventadas como tradições, para atender a alguma necessidade de certo grupo social. De acordo com Hobsbawm e Ranger tal processo, que é um exercício de poder, ocorreria
Quando uma transformação rápida da sociedade debilita ou destrói os padrões sociais para
os quais as ‘velhas’ tradições foram feitas, produzindo novos padrões com os quais essas
tradições são incompatíveis; quando as velhas tradições, juntamente com seus promotores e divulgadores institucionais, dão mostras de haver perdido grande parte da capacidade de adaptação e da flexibilidade; ou quando são eliminadas de outras formas. Em suma, inventam-se novas tradições quando ocorrem transformações suficientemente amplas e rápidas tanto do lado da demanda quanto da oferta18.
Desta forma, tem-se que as tradições são selecionadas e podem mudar sempre que se tornam caducas ou serem modificadas de forma a atender às necessidades do grupo social a elas relacionado. Além disso, momentos de mudanças aceleradas são especiais para que novas tradições sejam forjadas. Mais do que a busca por suas origens, o historiador deve buscar compreender o processo de elaboração e as funções que as tradições poderão exercer num determinado contexto histórico.
Para citar alguns exemplos, apresentaremos chamadas de artigos publicados no jornal
Folha da Mata ao longo de diversos anos, relacionados a acontecimentos culturais da cidade.
16MELLO, Antônio. “Espaço preservado”. Folha da Mata. nº 1152. Viçosa – MG, 16 de fevereiro de 1991.Coluna Social Tony Mello. p.4.
17 HOBSBAWN, Eric; & RANGER, T. A invenção das tradições. São Paulo: Paz e Terra, 1997. 18 Ibidem. P.12.
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Assim, vemos, por exemplo, na edição de 16 de fevereiro de 1991, as publicações de três artigos referentes a eventos que ocorreriam na cidade naquele mês. O primeiro, publicado na página 4, intitulado “Seara/91: 3 mil pessoas louvam a Jesus Cristo durante o Carnaval”19, é uma menção ao evento promovido pela Renovação Carismática Católica de Viçosa, durante o feriado do Carnaval. Esse encontro é realizado no campus da UFV e continua ocorrendo, sendo já considerado tradicional em Viçosa. Nas páginas 5 e 6 da mesma edição, o jornal trazia notas sobre o “carnaval de rua” de Viçosa, fazendo menção à uma escola de samba e à retomada da festa na cidade. O primeiro artigo foi intitulado “Carnaval 91: os bons tempos voltaram”20 e o segundo noticia: “A avenida foi verde e rosa: Unidos dos Passos é a grande
campeã de 91”21.
Em setembro de 1991 observa-se uma queixa do Folha da Mata ao mencionar o feriado do dia 07 de setembro. A impressão é de que os articulistas consideraram que a festividade não recebeu a devida importância em Viçosa. Desta forma, na primeira página do jornal publicou-se a chamada “7 de setembro salvo pela banda”22 e na página 6 há outro artigo,
intitulado “Viçosense perde a tradição e não comemora 07 de setembro”23. Chama a atenção,
a importância que o jornal atribui ao feriado e ao que denomina “perda de tradição”.
Também a Coluna Social do Folha da Mata, então assinada por Antônio Mello, propunha ideias para essa “vocação turística” que se pretendia estabelecer para Viçosa. É o que se percebe em seu texto publicado em maio de 1993, no qual comentava as festividades católicas em honra à Padroeira de Viçosa, Santa Rita de Cássia:
A população viçosense viveu mais um dia glorioso, no último sábado – dia 22 de maio – festejando com muita religiosidade o dia de sua padroeira, Santa Rita de Cássia. Além das missas celebradas com a bênção das rosas, a procissão, contornando a Avenida Santa Rita e retornando ao Santuário, onde a imagem foi recebida com fogos, preces, aplausos, lágrimas e muita emoção, foi mais uma vez o ponto alto das festividades. A bem da verdade, o número reduzido de fogos deixou a imensa massa humana que se concentrou na Praça Silviano Brandão, um tanto frustrada. Será a crise? Outro ponto a lamentar foi a falta de festividades durante o dia – feriado municipal – que poderia ser melhor explorado como convém a uma grande festa. O grande número de festeiros e festeiras poderia transformar o Dia de Santa Rita, em atração turística – religiosa para a cidade, atraindo para Viçosa, toda a região. Basta associar a festa com a Secretaria de Esporte, Lazer e Turismo da Prefeitura24.
19 Folha da Mata. Viçosa – MG, nº. 1148, 16 de fevereiro de 1991. p.4. 20 Ibidem. P.5.
21 Ibidem. P.6.
22 Folha da Mata. Viçosa – MG, nº. 1178, 14 de setembro de 1991. P.1.
23“Viçosense perde a tradição e não comemora 07 de setembro”. Folha da Mata. Viçosa – MG, nº 1178, 14 de setembro de 1991. P.6.
24MELLO, Antônio. “Santa Rita”. Folha da Mata. Nº 1267, Viçosa – MG, 29 de maio de 1993. Coluna Social Tony Mello. p.7.
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No entanto, é imperativo mencionar os diversos artigos publicados pelo arquiteto Aguinaldo Pacheco na coluna que em determinados períodos dividiu com o viçosense Dionísio Ladeira. Essa coluna intitulada “Cidade Aberta” veiculou, sobretudo, críticas, opiniões, sugestões do arquiteto Aguinaldo Pacheco e crônicas sobre Viçosa, de autoria de Dionísio Ladeira25. Posteriormente, as crônicas foram publicadas em formato de livros e a coluna “Cidade Aberta” deixou as páginas do Folha da Mata e tornou-se em 2010, um blog26,
mantido pelo arquiteto Aguinaldo Pacheco e que já mencionamos em passagens anteriores. No início da década de 1990, quando estava vinculada à Folha da Mata, a coluna teve importante papel de divulgar as ideias políticas do arquiteto, as quais interessam muito à discussão que estamos realizando.
Como político e arquiteto, Aguinaldo Pacheco discutiu amplamente questões relacionadas à infraestrutura urbana de Viçosa, defendendo, por exemplo, a criação do PDV e sendo agente direto nesse processo. Além disso, Aguinaldo também discutiu questões relacionadas ao patrimônio histórico-cultural de Viçosa, relacionando-o tanto ao turismo quanto à sua importância social.
Em 1992, Aguinaldo Pacheco publicou diversos artigos em sua coluna do jornal Folha
da Mata, discutindo a importância do desenvolvimento do turismo como recurso econômico
para o município de Viçosa. Suas ideias se destacam pela maneira como ele elenca as atividades culturais e os locais que poderiam - segundo a sua opinião – trazer recursos para a cidade, desde que se tornassem tradições. É o caso dos artigos que transcrevemos a seguir.
Na edição de 21 de março de 1992, Aguinaldo Pacheco publicou o seguinte texto:
Em artigos anteriores, conceituamos Viçosa como uma cidade prestadora de serviços, mais que uma cidade industrial. Dentre estes serviços, abordamos a questão do “Vale das
Ideias” e de um “Espaço Cultural” mas faltou-nos destacar as Festas Populares e seu
aspecto turístico. E turismo, além de cultura é, numa visão pragmática, indústria, e como tal significa circulação de dinheiro. Falar de turismo em Viçosa pode parecer, a priori, uma questão sem sentido. Não temos um acervo arquitetônico de grande significado histórico, não temos belezas naturais de destaque e nem eventos culturais de relevo e consolidados. Mas, se prestarmos atenção em nosso calendário anual, percebemos a existência de eventos que, se estimulados e divulgados, poderão se tornar grandes acontecimentos culturais e turísticos. Comecemos pela Universidade que, com seu Campus bem cuidado e suas atividades acadêmicas e científicas, já é, por si só, um grande atrativo e razão de muitas visitas à nossa cidade. [...] O Museu Arthur Bernardes, se bem montado, e com caráter histórico que extrapole o culto à personalidade, suscitará a vinda de pesquisadores e também de visitantes curiosos. No entanto, vejo como grande potencial turístico de Viçosa, suas Festas Populares. Primeiramente, a
25 Conferir: LADEIRA, José Dionísio. Viçosa é terna. Viçosa: Folha de Viçosa, 2003; Gente Viçosa. Viçosa: Editora UFV, 2004; Viçosa: uma saudade. Viçosa: Folha de Viçosa, 2004; Sempre Viçosa. Viçosa: Folha, 2009. 26 PACHECO, Aguinaldo. “Viçosa: Cidade aberta”. Conferir: http://vicosacidadeaberta.blogspot.com.br/. Consulta em 4 de dezembro de 2015.
105 grande festa popular, a sexagenária Marcha Nico Lopes. [...] Esta manifestação, que é exclusiva daqui, pode e deve se tornar uma festa de toda a comunidade e não apenas dos estudantes. A organização deve permanecer com ele – é um direito histórico – mas com a participação geral, esta festa integrará toda a população de Viçosa. [...] A Festa de Santa Rita. Só quem já viu a chegada apoteótica da Santa na Praça Silviano Brandão lotada e com os fogos (mesmo que pagos pela contravenção), pôde sentir a emoção de uma festa popular autêntica. Esta já está pronta. É só propagandear. Neste meio, temos a Semana Santa, já divulgada pela T.V. A representação teatral, ao longo da semana é um atrativo excepcional. A praça, hoje adequada a este tipo de expressão popular, comporta um grande público e poderá ser melhorada com a criação de um átrio na frente da Igreja, com balaustrada e iluminação [...]. A festa da cidade. Além das comemorações cívicas, encamparia a idéia da Feira de Exposição Agropecuária, como evento coincidente e até mesmo Grande Bolo feito por toda a comunidade, poderia se tornar uma tradição. O carnaval, que tem perambulado, sem destino, por todas as vias da cidade, merece mais atenção. [...] Até mesmo o Retiro Espiritual, contrapondo às folias, deve ser apoiado e divulgado. Estas festas e atividades carrearão dinheiro e prestígio para Viçosa, por exigirão hospedagem, restaurantes [...]. Outras festas surgirão ou ressurgirão: A Cavalhada, o Congado, a Folia de Reis. Os folcloristas nos orientarão melhor. Até
mesmo a “desativada” Estrada de Ferro poderá virar atrativo turístico. A
EMBRATUR tem firmado acordos com a RFFSA [...] A Serra de São Geraldo é belíssima e poderia ser incluída em um roteiro turístico que passe por Viçosa. Tudo isso é Cultura Popular e portanto importante de se preservar. Estas coisas existem e estão latentes. Basta provocar, estimular e investir. Os empresários locais [...] poderiam
“adotar” uma festa e usá-la como veículo de propaganda e mesmo contribuição social.
Poderíamos começar ainda este ano, no próximo mês de abril, com a de maior potencial que, repito, na nossa opinião, é a Marcha Nico Lopes, e irmos gradualmente organizando as outras. Com isto, todos nós ganhamos, principalmente Viçosa, que já é conhecida pelo seu passado e se verá revigorada no seu presente. Turismo, uma indústria que não polui e dá dinheiro para todos27.
Neste texto percebe-se como o arquiteto identifica as práticas culturais já existentes em Viçosa, aquelas que, segundo ele, poderiam ser elencadas como suas tradições e, além disso, indica outras atividades nas quais a cidade poderia investir para que viessem a se tornar parte de suas tradições culturais. Poderíamos dizer que Aguinaldo Pacheco se coloca no papel de um “arquiteto de ideias” ou um “promotor cultural”, visando, sobretudo, ao desenvolvimento do turismo local. Nosso intuito não é criticar os projetos de Aguinaldo Pacheco, mas, demonstrar como vai haver uma conjunção de interesses entre a necessidade de desenvolvimento econômico e as perspectivas de alguns intelectuais. Isso implica em corroborar a tese de Hobsbawn e Ranger acerca de uma “invenção das tradições”28.