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No final da década de 1980, observa-se o surgimento ou a intensificação das políticas públicas voltadas à proteção da memória, do meio ambiente, do patrimônio histórico e cultural, das tradições e festas típicas da cidade de Viçosa. O Poder Público Municipal, criaria novos órgãos e estabeleceria normatizações que regulamentariam as questões relacionadas à cultura no município.

Pode-se considerar que parte da responsabilidade pelo fenômeno das políticas públicas na área cultural em Viçosa, deve-se ao discurso identitário apregoado por alguns grupos da sociedade viçosense, desde o início dos anos 1980. Vimos que esse discurso se fundamentava principalmente, na visão segundo a qual, a criação da UFV teria provocado um conjunto de mudanças rápidas e profundas desde a década de 1970. Novamente, percebe-se a influência do discurso defendido por Maria do Carmo Tafuri Paniago (entre outros), justificando outros discursos e embasando iniciativas do poder público municipal. Em resposta às mudanças mencionadas pela autora, um determinado grupo social propôs a definição de uma identidade local e elegeu determinados personagens, lugares, práticas culturais ou acontecimentos passados, como alicerces de seu discurso identitário.

3.1.1: Viçosa e a proteção aos bens culturais e naturais: discussões socioeconômicas e políticas.

A Folha da Mata publicou em janeiro de 1988, o seguinte artigo, a respeito da chamada “Lei Sarney”, Lei nº 7.505, de 2 de julho de 19861:

O Departamento de Cultura da PMV já está inscrito no C.P.C. – Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas de Natureza Cultural – do Ministério da Cultura, podendo receber patrocínio e doações instituídas pela Lei 7.505, a chamada “Lei Sarney”. Esta lei, regulamentada em 2 de julho de 1986, prevê a concessão de benefícios fiscais em operações de caráter cultural. Desse modo o Departamento de Cultura da PMV esta apto a fornecer recibos no valor de doações que receber de particulares ou empresas, que por sua vez poderão se beneficiar com o desconto no imposto de renda. [...] Quanto às áreas culturais beneficiadas, elas são: o artesanato, folclore, atividades de preservação, artes plásticas, literatura, teatro, biblioteca, museu, dança, música.

1 LEI, Sarney. Disponível em: http://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/109576/lei-sarney-lei-7505-86. Consulta em 09/11/15.

94 Embora reconheça que não se pode esperar muito de Viçosa porque o município não arrecada muito, o diretor do Departamento de Cultura da PMV disse que esforços serão feitos no sentido de se conseguir apoio de empresas e colaboradores de fora. ‘A idéia é

transformar Viçosa num pólo do turismo cultural’ ressaltou Jershon Ayres de Morais,

para concluir. Os projetos para 88

Já de posse do certificado de cadastramento junto ao C.P.C. do MINC, o Departamento de Cultura da PMV elaborou um extenso programa de projetos culturais para execução no decorrer do ano de 1988, nas diversas áreas de sua atuação. Na área de ‘Festivais e

Eventos Programados’, o Departamento relacionou as seguintes atividades em que estará

atuando este ano: Exposições quinzenais com artistas viçosenses; Feira de Artesanato da Microregião de Viçosa; Gincana Artística de pintura de muros; Festejos do Dia da Cidade; II Exposição Agropecuária e Industrial de Viçosa; Carnaval; Festival de Música Sertaneja; Mostra de Teatro Amador de Viçosa; Concurso de Fotografia

‘Mostre a sua Cidade’, lançamento de disco ‘Músicos de Viçosa’, Ruas de Lazer;

Concurso Livre de Poesia Viçosense. O Departamento relaciona também na programação cultural de 88 alguns ‘Projetos Especiais’, com as seguintes atividades: Circo da Cultura; Teatro Municipal; Biblioteca Pública Municipal; Pinacoteca Pública Municipal; Teatro Infantil nas Escolas; Teatro para o Povo; Memória da Cidade; Ampliação da Casa da Cultura; Vídeo-Sala; Lira Santa Rita; Cultura com Lazer, Centro de Artes; Artesão. Também previsto pelo Departamento [...] participação em encontros culturais nas áreas de memória, museu, restauração, arquivo, biblioteca, cinema, literatura, música, fotografia, artes cênicas (teatro, circo e dança), artes visuais, antropologia. Finalmente, os projetos culturais do Departamento de Cultura da PMV preveem ainda a assinatura de convênios com entidades culturais para bolsas de estudos e pesquisa2.

O contexto de redemocratização vivenciado pelo Brasil a partir da segunda metade da década de 1980, além dos fatores externos, colaborou para que a cultura passasse a ser valorizada e, consequentemente, se tornasse alvo de discussões e políticas públicas. A Constituição promulgada em 1988, durante o governo do presidente José Sarney, foi qualificada de “cidadã”, exatamente por estender a cidadania, garantindo plenos direitos, aos brasileiros. A valorização da diversidade cultural ganha espaço nos cenários político e econômico do Brasil e se materializa em políticas públicas de incentivo cultural em todo o país. É o caso da chamada “Lei Sarney”, que, até mesmo antes do vigor da nova Carta, já estabelecia estratégias para o apoio às atividades culturais no Brasil.

Sob influência dos cenários nacional e internacional de interesse pela cultura, ocorrerá em Viçosa, assim como em muitas outras cidades brasileiras, uma valorização das práticas culturais não apenas social, mas, também nas esferas política e econômica. Através das publicações feitas no jornal Folha da Mata e documentos que tramitaram na Câmara Municipal de Vereadores de Viçosa (CMV), percebe-se a atribuição de uma importância cada vez maior às questões ambientais e à cultura de maneira geral. Em 1974, por exemplo, Antônio Chequer remeteu à CMV o “Projeto de Lei” nº 06/74, para a criação do

2 “Departamento de Cultura da PMV já pode receber patrocínio e doações pela ‘Lei Sarney’”. Folha da Mata. Viçosa – MG, nº 989 - 30 de janeiro de 1988. p.9. Grifos nossos.

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Departamento de Turismo e Cultura. A criação de um Departamento de Cultura ainda era o objetivo do “Projeto de Lei” nº 21/1987, de autoria do então Presidente da Câmara, Roberto Passarinho e foi remetido ao Prefeito José Américo. Em 1992, o “Projeto de Lei” nº 023/92 pretendia que se concedessem incentivos fiscais a projetos culturais. Naquele mesmo ano o vereador Arnaldo Andrade remetia uma “Indicação” ao Prefeito Municipal para que este aprovasse o “Anteprojeto de Lei” que incentivava o aprimoramento das artes e incentivos à cultura no município. Em 1993 a Lei nº 899 de 14 de janeiro de 1993 criou a “Secretaria de Cultura, Esporte, Lazer e Turismo” (SMCELT) de Viçosa. Ligada à ela, haveria o “Departamento de Patrimônio” com as funções principais de: proteger o patrimônio natural e cultural, inventariar bens culturais e tombar bens imóveis. Em 1996 o “Projeto de Lei” nº 031/96 propunha a criação do “Conselho Municipal de Cultura, Patrimônio Cultural e Ambiental de Viçosa” (CMCPCAV) e naquele mesmo ano foi assinada a Lei 1143/96 relacionada à proteção dos patrimônios cultural e ambiental de Viçosa. Em 1998, a concretização do “Projeto de Lei” nº 014/98 deu-se em 20/05/98, quando foi assinada a Lei nº 1255/98, a qual modificava a determinação da Lei nº 899 de 1993 e renomeava a SMCELT, acrescentando a ela o termo “patrimônio” (Secretaria Municipal de Cultura, Esporte, Lazer, Turismo e Patrimônio), modificando também a nomenclatura do “Departamento de Patrimônio”, o qual passava a ser “Departamento de Patrimônio, Arquivo e Proteção” (DPAP). Ainda em 1998 foi assinada a Lei nº1283 a qual instituiu o Conselho Municipal de Turismo. A Lei nº1523/2002 instituiu o Código de Meio Ambiente do município de Viçosa. A Lei 1574/2003 instituiu o Código de Posturas3.

E esses não foram todos os documentos que tramitaram na Câmara Municipal de Viçosa, a respeito de assuntos referentes à cultura, ao longo de tantos anos. São apenas alguns exemplos que indicam a frequência com que o assunto passou a ser discutido no Legislativo municipal e quais foram as instituições, atividades, valores, etc, mais valorizados por aqueles legisladores, ao longo do período. Independentemente de terem sido aprovadas ou não, essas indicações, projetos de leis, requerimentos, solicitações, etc, demonstram um crescente empenho por parte dos vereadores do município de Viçosa, ao longo de quatro décadas – 1970 a 2000 – no sentido de estimular o desenvolvimento cultural e a preservação ambiental. Vejamos também alguns recortes da Folha da Mata, que apontam preocupações semelhantes às que vinham sendo discutidas entre os vereadores do município.

3 Cf: www.leismunicipais.com.br. Consulta em: 03/06/2015; Arquivo da Câmara Municipal de Viçosa, MG: http://www.lampeh.ufv.br/camara/?link=docCon. Consulta em: 06/06/2015 e http://www.vicosa.mg.leg.br/legislacao. Consulta em: 06/06/15.

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Em setembro de 1988 publicou-se uma notícia a respeito da participação da professora Maria do Carmo Tafuri Paniago como sócia efetiva da “Comissão Mineira de Folclore”4. Já em 1990, noticiaram a criação da “Comissão de Cultura e Assistência Social”. Segundo o articulista:

[...]a eles competem analisar e dar parecer a mesa do Legislativo nos assuntos de exames, servindo seus pareceres de base para discussões e votações. [...] “Competência” [...]: Comissão de Cultura e Assistência Social – Emitir parecer sobre os projetos referentes à educação, ao ensino e as artes, ao patrimônio histórico, aos esportes, à higiene e saúde pública e às obras assistenciais5.

Além disso, destacam-se também, as notícias a respeito de organizações que visavam à manutenção das “tradições” de pequenos grupos que viviam na cidade de Viçosa e que se identificavam de acordo com critérios variados. Também foram muito comuns, as notícias sobre eventos relacionados às questões ambientais, alguns promovidos pela Prefeitura Municipal e outros pela UFV. Sobretudo no início da década de 1990, tais notícias se tornaram bastante frequentes, como por exemplo, no segundo semestre do ano de 1990, quando em setembro publicaram que “Estudantes japoneses da UFV fundam entidade para preservar a cultura e a tradição”6. Em outubro saiu a seguinte nota: “Meio ambiente é tema de

discussão na abertura da Semana Acadêmica de Agronomia”7. No mês de novembro a

“Semana Cultural Japonesa”8 ganhou destaque e, ainda que na página 9, o movimento negro

foi lembrado na matéria “Negros: uma raça em busca de igualdade”9. Em dezembro do mesmo ano, também numa parte de pequeno destaque no jornal, publicou-se a nota intitulada “Exploração Florestal na microrregião foi debatido em seminário”10.

Como procuramos demonstrar, essas atitudes estavam em consonância com movimentos nacionais e internacionais que caminhavam no mesmo sentido e que

4 “Viçosense é sócia efetiva da Comissão Mineira de Folclore”. Folha da Mata. Viçosa – MG, nº 1020, 02 de setembro de 1988. p.4.

5 “Legislativo viçosense aprova novas comissões permanentes”. Folha da Mata. Viçosa –MG, nº 1121, 11 de agosto de 1990. p.10. Grifos nossos.

6“Estudantes japoneses da UFV fundam entidade para preservar a cultura e a tradição”. Folha da Mata. Viçosa, MG. Nº 1127, 22 de setembro de 1990. P.5.

7“Meio ambiente é tema de discussão na abertura da Semana Acadêmica de Agronomia”. Folha da Mata. Viçosa, MG. Nº1131 - 20 de outubro de 1990.p.2

8“Semana cultural Japonesa começa na terça-feira”. Folha da Mata. Viçosa, MG. Nº1133, 03 de novembro de 1990.p.1.

9“Negros: uma raça em busca de igualdade”. Folha da Mata. Viçosa, MG. Nº1136, 24 de novembro de 1990.p.9. 10“Exploração Florestal na microrregião foi debatido em seminário”. Folha da Mata. Viçosa, MG. Nº1139, 15 de dezembro de 1990.p.12.

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demonstravam tanto uma preocupação em defender a identidade dos grupos sociais ou comunidades.

Esse interesse duplo que envolve tanto questões globais quanto locais, fica bastante evidente no caso de Viçosa. Como vimos nos capítulos 2 e 3, a preocupação em defender uma identidade e em estabelecer uma memória coletiva baseada em determinados fatos, personagens e valores, pode ser percebida, vinda da parte de alguns grupos desta sociedade, desde o início da década de 1980. Por outro lado, observa-se pelos trabalhos da Câmara Municipal de Vereadores e também por publicações feitas no periódico Folha da Mata, que o interesse pela cultura e pelo meio ambiente passou a ter um fim mais pragmático a partir da década de 1990 e também foi se tornando mais expressiva. Nos dois tipos de documentos analisados, transparece o interesse maior em desenvolver a atividade turística no município, como uma possível “indústria”.

Quando o elemento financeiro ganha a cena, o contexto se modifica e precisa ser analisado dentro dessa especificidade. A partir do final do século XX, seguindo uma tendência internacional de mercantilização do lazer, uma sofisticação do capitalismo globalizado para estimular um novo tipo de consumo, associado à cultura, ao descanso, ao contato com a natureza, etc. O turismo será visto como fonte de lucro e a cidade de Viçosa, que como tantas outras cidades brasileiras, estava ainda fortemente ligada ao campo e tinha um setor industrial incipiente, vê nessa nova atividade uma possibilidade de desenvolvimento econômico.

Nesse novo contexto, interessa-nos refletir acerca das atividades, instituições, valores, lugares, paisagens, que serão elencados por políticos, cidadãos comuns, artistas, intelectuais, enfim, pelos protagonistas dessa nova fase da história de incentivo à cultura em Viçosa. Além disso, buscaremos analisar os discursos que foram mobilizados durante aquele período para justificar tais escolhas. Alguns grupos sociais em Viçosa, seriam os responsáveis, a partir dos anos 1990 por uma nova etapa no processo de estabelecimento de uma identidade local: estabelecer um menu dos principais atrativos da cidade com vistas a chamar a atenção dos turistas. Evidentemente, isso demandará discussões também relacionadas à necessidade de “preparar a casa” para receber as visitas. Os possíveis problemas de infraestrutura urbana, questões ambientais, manutenção das tradições, proteção ao patrimônio, criação de instituições culturais, etc, seriam pontos essenciais nas pautas de discussões do poder público local e também dos setores econômicos direta e indiretamente relacionados à questão do

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turismo. Tratava-se de uma questão que envolvia amplos e distintos interesses e que atraiu a atenção de muitos grupos.

Por fim, estamos interessados em analisar qual a autoimagem assumida pela sociedade viçosense e divulgada agora, como atrativo turístico aos possíveis interessados em aproveitar o que a cidade poderia oferecer nesse âmbito. Percebe-se, claramente, o interesse de se estabelecer uma “identidade turística” para a cidade e, é claro que esse jogo de poder e interesses, que explicita a luta dos diferentes grupos por seus espaços na cidade – não apenas para participar dela, mas, para usufruir do que ela pode oferecer –não se dará sem conflitos. Ao fim e ao cabo, a análise do processo e de seus resultados, demonstrará quais foram as vozes em jogo, e, dentre elas quais prevaleceram e quais foram silenciadas. Além disso, permitirá também, apontar possíveis vozes sociais que sequer participaram das discussões e cujas referências, possivelmente, não fizeram parte daquilo que a cidade passou a oferecer como suas melhores características ou seus pontos de identificação cultural.

Vejamos a partir de agora, através de publicações do jornal Folha da Mata, algumas das principais discussões levantadas em Viçosa, ao longo desse processo de investimentos financeiros, intelectuais e de forças sociais para desenvolver a atividade turística na cidade.

3.2: Os bens culturais e naturais a serviço do turismo: em busca de identidade e