• Sonuç bulunamadı

Nos trabalhos voltados à investigação da pobreza no setor rural, podem ser encontradas diversas abordagens e metodologias para sua quantificação, caracterização e compreensão. No que se refere à quantificação, as medidas de pobreza mais comumente utilizadas são: o índice de Sen e a classe de medidas de FGT. No processo de caracterização, é comum o uso de modelos logit e outros modelos econométricos. Destaca se também o uso do cálculo das elasticidades crescimento e elasticidades desigualdade das medidas de pobreza

14

para compreender as variações na pobreza em decorrência das variações na renda média e na desigualdade na distribuição dos rendimentos.

Alwang, Sieguel e Jorgensen (1996), investigando os determinantes para redução da pobreza no rural do Zâmbia, além de calcularem os índices FGT, estimaram os determinantes dos gastos familiares por adulto equivalente, na qual foram inseridas variáveis como capital humano, localização e acesso aos serviços (alimentação, segurança, escola primária, secundária, saúde, transporte e lazer).

Silva Júnior e Sampaio (2005), com base em regressões logit, também, analisaram as características dos pobres do setor rural nordestino com o objetivo de traçar um perfil da pobreza para o período de 1992 a 1999. Os resultados indicaram que é mais provável que os indivíduos residentes em áreas rurais nordestinas sejam pobres, se nunca estudaram ou possuam baixíssima escolaridade, não forem de cor branca, forem do sexo feminino, tiverem sua principal atividade profissional ligada à agricultura e residirem nos estados do Piauí ou da Paraíba. Duas constatações importantes às quais eles chegaram foi que: os indivíduos ocupados na agricultura estão em piores condições do que aqueles que estão em outro setor; e houve, ainda que pequena, uma redução nos níveis de pobreza, especialmente entre 1992 e 1995.

Em consonância com os resultados de Silva Júnior e Sampaio (2005) estão Grossi, Silva e Takagi(2001). Estes autores confirmaram o não crescimento da pobreza nas áreas rurais não metropolitanas, ao verificarem que os dados apontam para uma aparente redução do número de pobres ligada à atividade agrícola. Contudo, esse declínio do número de pobres estaria mais ligado ao abandono das atividades agrícolas pelas não agrícolas – fato observado pelo crescimento das atividades não agrícolas – do que propriamente por eventuais melhorias das condições do setor rural.

Outros dois elementos que podem ser trazidos à luz dessa discussão para tentar explicar a pequena queda e, em certa medida, a estabilidade no número de pobres rurais seriam: o avanço das transferências governamentais na forma de aposentadorias e/ou pensões previdenciárias, ocorrido nos últimos anos; e o êxodo rural, apesar de ter se acalmado na década de 1990, ainda ocorre, especialmente, com as famílias pobres que migram em busca de condições melhores nas cidades (GROSSI, SILVA e TAKAGI, 2001).

A trajetória de longo prazo (1970 a 1999) da incidência de pobreza no Brasil e no Nordeste rural, do ponto de vista da insuficiência de renda, é apresentada por Rocha (2006). Entre 1970 e 1980, ocorreu uma redução significativa da incidência de pobreza em decorrência das taxas de crescimento da renda. De 1980 a 1993, a incidência de pobreza

oscilou de forma mais modesta em relação aos níveis de 1980. Em 1994, o plano de estabilização reduziu drasticamente a inflação e diminuiu sensivelmente a pobreza, obtendo melhores resultados em 1995 e estabilizando a em um novo patamar até 1999.

Nessa trajetória, o Nordeste continuou a representar a região que tem maior participação na pobreza do Brasil (Ver Tabela 5). Apesar de o Nordeste acompanhar as demais regiões na queda do número de pobres de 1992 para 1999, sua participação na pobreza brasileira aumentou, ainda que moderadamente – comportamento oposto ao do Sul, Sudeste e Centro Oeste. Contudo, os dados apontaram para uma tendência à estabilidade da participação do Nordeste no número de pobres do país (em torno de 42%).

Tabela 5 Participação no número de pobres do Brasil e proporção de pobres por região

1992 1999 Região Participação (%) Proporção de pobres Participação (%) Proporção de pobres Norte 4,98 50,21 5,63 39,65 Nordeste 41,58 63,87 42,03 50,90 Sudeste 36,69 36,27 36,00 28,85 Sul 8,97 25,19 8,72 19,71 Centro Oeste 7,77 50,35 7,61 37,43 Brasil total 100 44 100 34,95

Fonte: Elaboração própria, a partir de Rocha (2006)

Conforme observa Rocha (2006), essa estabilidade resultou da redução da pobreza na área rural em descompasso às áreas urbana e metropolitana, nas quais a pobreza se agravou. De 1992 a 1999, conforme visto na Tabela 6, a pobreza no rural caiu de 66,89% para 51,77% — redução mais expressiva (22,6%) do que nos setores urbano (20,9%) e metropolitano (13,9%). Outro indicador positivo para o setor rural é a redução da sua participação no número de pobres nordestinos, que passou de 38,04% para 35,95%.

As melhorias no estrato rural nordestino, segundo Rocha (2006), estão associadas à crescente cobertura de benefícios previdenciários e assistencialistas, como o Programa Emergencial de Frentes Produtivas, implantado em 1998, em resposta à seca que teve início naquele ano, que transferiu para o Ceará, Pernambuco, Paraíba, Piauí e Rio Grande do Norte valores correspondente a mais de 10% da renda rural total do mês de setembro de 1998 de cada região.

Apesar das melhorias ocorridas na participação do setor rural na pobreza nordestina, o indicador para 1999 ainda foi bastante elevado, encontrando se mais de 1/3 dos pobres dessa região neste setor e mais da metade da população rural em condições de pobreza.

Tabela 6 Proporção de pobres e participação na pobreza do Nordeste por setor 1992 1999 Setor Proporção de pobres Participação (%) Proporção de pobres Participação (%) Metropolitano 61,38 18,12 52,86 19,39 Urbano 62,47 43,84 49,44 44,66 Rural 66,89 38,04 51,77 35,95 Nordeste total 63,87 100 50,9 100

Fonte: Elaboração própria a partir de Rocha (2006)

É importante ressaltar, também, que o fenômeno nacional de longo prazo, denominado por Rocha (2006) de “desruralização da pobreza”, é menos intenso na região Nordeste (5,5%) do que no Brasil (9,8%) no período de 1992 a 1999. A participação do setor rural na pobreza do Brasil e do Nordeste reduziu, respectivamente, de 24,31% para 21,93% e de 38,04% para 35,9%, representando uma diminuição em 9,8% da incidência da pobreza do setor rural no Brasil e em 5,5% do setor rural no Nordeste.

Segundo dados de Lopes e Mariano (2007), a região Nordeste, especialmente o setor rural, ainda apresentava em 2005 um número elevado de pobreza, apesar da ocorrência das diversas políticas implementadas pelo Governo Federal nos últimos anos para combatê la. A partir dos dados da PNAD de 2005, e utilizando uma metodologia semelhante à do Banco Mundial para a determinação da linha de pobreza (estipulada em um dólar/dia por pessoa)15, esses autores detectaram que no Nordeste 32% das famílias que residem no setor rural encontram se em situação de pobreza.

Como bem observam esses autores, a Bahia é o estado que detém o maior contingente de famílias pobres, com 334.791 famílias. Na outra ponta, temos Sergipe, apresentando apenas 22.463 famílias, sendo o último do rank em número de famílias pobres. No que se refere às dimensões das populações rurais desses estados, foi verificado que no Piauí 42% da sua população rural são pobres. Este é seguido por Alagoas, com 38%, e pelo Maranhão, com 37%. Os estados com proporções menores de pobres são Sergipe, Rio Grande do Norte e Bahia, com 22,74%, 25,71% e 27%, respectivamente.

Na análise da intensidade da pobreza do Nordeste, Lopes e Mariano (2007) observaram que o hiato de renda é significativamente grande para toda a região, especialmente para os estados do Maranhão, seguido de Pernambuco e Ceará.

Conforme Rocha (2006), a desigualdade na distribuição dos rendimentos seria responsável pelos níveis de incidência de pobreza absoluta, ainda elevados no ano de 1999,

15

Correspondente à renda mensal familiar de R$ 68,81, tomando como mês de referência setembro de 2005. Em maio de 2011, utilizando esta mesma metodologia, a linha de pobreza corresponderia a R$ 48,30.

apesar da redução da pobreza resultante do crescimento e modernização do Brasil ocorrida no período de 1970 a 1999.

Cunha (2009), buscando analisar a evolução da desigualdade e da pobreza no Brasil ressaltou as diferenças entre domicílios urbanos e rurais no período de 1981 a 2005 e forneceu a distribuição das famílias do setor rural brasileiro, conforme o rendimento familiar, apresentada na Tabela 7. Os dados evidenciaram que a apropriação da renda pelas famílias desse setor, historicamente, tem ocorrido de forma que a porção maior da renda, em média 29%, tem sido apropriada pelos 5% mais ricos e a porção menor, em média 17%, pelos 50% mais pobres. No decorrer da série analisada, esse comportamento não tem se alterado significativamente, o que evidencia um padrão de apropriação, resultado da péssima distribuição de renda no setor rural brasileiro.

Tabela 7 Percentual da renda das famílias rurais do Brasil apropriada de acordo com o rendimento familiar

Ano 50% mais pobres 5% mais ricos

1981 18,1 26,9 1982 18,5 25,5 1983 17,9 27,9 1984 17,9 27,8 1985 16,8 29,4 1986 13,4 34,0 1987 15,9 28,9 1988 15,7 29,3 1989 14,3 31,4 1990 15,5 28,9 1992 16,6 28,0 1993 15,0 32,9 1995 17,0 30,0 1996 16,1 30,4 1997 16,4 30,5 1998 17,1 31,0 1999 17,0 30,7 2001 17,7 28,2 2002 18,8 26,0 2003 19,9 21,9 2004 18,7 26,3 2005 19,2 25,0

Fonte:Elaboração própria, a partir de Cunha (2009)

Embora a distribuição de renda no setor rural do Brasil tenha se alterado pouco em 25 anos (1981 a 2005), é possível perceber, na tendência de longo prazo, a queda sucinta na desigualdade de renda, conforme Gráfico 4. O comportamento da medida de desigualdade pode ser fragmentado em dois períodos: no primeiro, de 1981 a 1986, a medida de desigualdade atingiu seu pico após uma moderada elevação de 0,50 para 0,59; no segundo, de

1986 a 2003, um período mais longo, caiu a desigualdade na distribuição do rendimento familiar, variando de 0,59 a 0,45, sendo este o menor nível observado na série histórica.

Gráfico 4 Medida de desigualdade da distribuição de renda familiar do setor rural brasileiro no período de 1981 a 2005

Fonte: Elaboração própria, a partir de Cunha (2009)

Neder e Mariano (2004) realizaram um estudo sobre a pobreza e distribuição de renda em áreas rurais no período de 1995 a 2001. Utilizando dados da PNAD, com a metodologia proposta por Datt (1998), baseada na parametrização da curva de Lorenz Quadrática Geral, eles calcularam a elasticidade da pobreza em relação à renda média e ao índice de Gini para vários estados brasileiros. No tocante aos indicadores de pobreza, para a maioria dos estados analisados, com exceção de São Paulo, verificou se uma queda significativa na proporção de pobres. Em termos de distribuição de renda rural, a região Nordeste apresentou dois padrões: os estados do Maranhão, Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte com elevados índices de Gini; e os estados da Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia, com valores significativamente mais baixos.

Quanto às elasticidades, o estudo indicou que a elasticidade da pobreza (em módulo) cresce com o desenvolvimento das regiões enquanto que a desigualdade na distribuição de renda constitui um entrave para a redução da pobreza. Dessa forma, a elasticidade da pobreza se relaciona positivamente com mudanças percentuais nos índices de desigualdade. Portanto, a pobreza poderia ser reduzida mais rapidamente com política de distribuição de renda.

Revisados os principais indicadores, relevantes à temática deste estudo, relacionados à redução da pobreza rural, ao crescimento e à desigualdade de renda, disponíveis na literatura,

percebe se que, ao longo dos anos, a pobreza tem declinado, acompanhada de melhoras na renda média e de uma queda lenta na desigualdade na distribuição dos rendimentos rurais, embora ainda permaneça bastante elevada e com reduções menores do que a pobreza rural brasileira.

Entretanto, ainda existem lacunas importantes que precisam ser preenchidas, quais sejam: qual o comportamento da pobreza, do crescimento da renda média e da desigualdade de renda no setor rural do Nordeste nos anos mais recentes? Quem tem contribuído mais para as mudanças na pobreza: o efeito crescimento ou o efeito desigualdade? A pobreza rural do Nordeste tem estado mais ou menos sensível às mudanças na renda média e às mudanças na desigualdade?

As respostas a essas questões podem elucidar aspectos importantes da pobreza rural e, consequentemente, favorecer a identificação das políticas mais adequadas para o combate à pobreza rural nordestina, além de fornecer indicadores inéditos que poderão servir de referências para outros estudos. No próximo capítulo, descreve se a metodologia para o tratamento das questões aqui expostas.