Os profissionais de nível superior dos serviços substitutivos de atenção em saúde mental que participaram deste estudo eram, em sua maioria, mulheres, adultos, com média de 42 anos, experientes profissionalmente, com tempo de atuação na área da saúde mental de 1 a 34 anos e, na instituição pesquisada, de 1 a 18 anos.
Quanto aos papéis e às funções desempenhados pelos profissionais pesquisados, destacaram-se: atendimento individual especializado, com observação do comportamento e registro do mesmo e da conduta terapêutica no prontuário; atendimento em grupos de usuários; atendimento à família/familiar, geralmente, acompanhado por outro profissional de nível superior, utilizando, principalmente, a abordagem cognitiva; e promoção de ações visando à autonomia do portador de transtorno mental.
Quanto às políticas e à formação em saúde, evidenciaram-se diversas dificuldades encontradas pelos profissionais dos CAPS e ambulatórios de saúde mental de Natal (RN) referentes, principalmente, à falta de capacitação das equipes, à ausência de uma rede de saúde mental estruturada para oferecer suporte para esses serviços, agravada pela carência de recursos humanos, materiais e de infraestrutura, entre outros. No tocante aos recursos humanos, observou-se déficit na formação acadêmica da maioria dos profissionais relacionado à falta de estágios e aprofundamentos na disciplina de saúde mental, com exceção dos médicos, que consideraram sua formação como satisfatória, embora alerte-se que os mesmos fizeram referência à residência médica e não à graduação, bem como ausência de cursos de capacitação e de supervisão clínico-institucional, comprometendo, sobremaneira, a qualidade da assistência prestada.
No entanto, constatou-se que, mesmo diante das dificuldades enfrentadas pelas equipes, relacionadas a problemas técnicos, de comunicação e de gestão, estes profissionais assumiam o compromisso da reforma psiquiátrica brasileira, mesmo com lacunas na sua compreensão, assim, utilizando-se de recursos próprios herdados da experiência na área e da possível troca de informações entre eles. Desse modo, tentavam manterem-se coesos e comprometidos com os processos de cuidar do portador de transtorno mental, trabalhando de forma multidisciplinar, porém na perspectiva da interdisciplinarmente, na medida em que tomavam as decisões em conjunto.
Quanto à adequabilidade dos papéis e funções dos profissionais aos serviços substitutivos de saúde mental, constatou-se adequação em relação ao tempo de trabalho na área e nos serviços de saúde mental pesquisados; nos atendimentos e atividades individuais (observação e registro do comportamento do paciente e das condutas terapêuticas no
prontuário); na promoção de ações visando à autonomia do paciente; no atendimento em grupo de pacientes; e, em parte, à família/familiar dos portadores de transtorno mental. No que diz respeito à inadequabilidade dos papéis e funções, registram-se aquelas sobre o atendimento aos grupos de familiares, a formação especializada em saúde mental e as condições de trabalho nos serviços substitutivos.
Concluiu-se pela rejeição da hipótese nula (H0) e aceitação da hipótese alternativa (H1), onde se evidenciou adequação nos papéis e nas funções desenvolvidas pelos profissionais tanto nos CAPS quanto nos ambulatórios de saúde mental, embora convivendo em seu cotidiano com inúmeras dificuldades encontradas no desenvolvimento de suas práticas profissionais frente às condições de trabalho.
Considerando-se os achados obtidos concluiu-se também que a assistência prestada nos dispositivos substitutivos da rede de atenção em saúde mental no Município de Natal/RN, apesar dos avanços obtidos anteriormente e da adequabilidade nos papéis e nas funções dos profissionais dos serviços, ainda se apresenta muito aquém ao idealizado pela Reforma Psiquiátrica Brasileira e pela Política Nacional de Saúde Mental, necessitando, urgentemente, de investimentos e modificações por parte dos serviços, profissionais e gestão municipal.
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS E RECOMENDAÇÕES
A realização deste estudo ocorreu logo após uma das piores gestões municipais de Natal (RN), de ampla repercussão nas mídias de massa e redes sociais em todas as áreas, com efeito deletério na educação, na saúde, na segurança pública, entre outros segmentos e, mesmo assim, manteve-se a pesquisa que objetivou analisar o processo de reforma psiquiátrica e a política de saúde mental do Município de Natal/RN a partir dos papéis e funções dos profissionais dos serviços substitutivos em saúde mental.
Os resultados obtidos revelaram a carência dos serviços e da rede de atenção psicossocial presentes na capital do Rio Grande do Norte. Tal achado remete e suscita uma reflexão sobre a situação da rede de serviços de saúde mental nos municípios do interior do estado, onde se verificam, a olhos vistos, os resquícios de um modelo tradicional de política partidária, afetando as agendas pactuadas pelo estado frente aos programas ministeriais. Diante da premente situação calamitosa que o Estado enfrentou, e tenta, atualmente, contornar o atraso no progresso e desenvolvimento do mesmo, detecta-se que, apesar dos avanços da reforma psiquiátrica, a saúde mental continua esquecida pelos gestores, fazendo com que muitos serviços mantenham-se funcionando devido à boa vontade e compromisso dos profissionais e familiares dos portadores de transtorno mental, algo meio filantrópico e caritativo.
Ressalta-se que, apesar da adequabilidade dos papéis e funções dos profissionais aos serviços substitutivos em saúde mental, fazem-se necessárias maior capacitação e qualificação dos mesmos, com novas estratégias de cuidado ao portador de transtorno mental e seu familiar, maior conhecimento dos preceitos da reforma psiquiátrica e da Política Nacional de Saúde Mental, a fim de garantir o avanço e a consolidação das mesmas, bem como a melhoria da assistência prestada, além de impulsionar os profissionais na maior compreensão e luta por garantias estruturais para adequar os serviços e os processos de trabalho às condições da dignidade social e humana, portanto, fortalecendo os direitos humanos.
Desse modo, espera-se que este estudo ofereça: contribuições no modus operandi dos profissionais atuantes nos CAPS e Ambulatórios; subsídios para a formação acadêmica dos futuros profissionais e que, atraídos pela área, possam desenvolver habilidades e competências direcionadas à atenção psicossocial a partir da realidade de cada serviço; aos gestores municipais e estaduais do referido estado federativo; e, ainda, contribuir na produção do conhecimento e sua publicização, apresentando indicadores adequados para o fortalecimento da estrutura local e da própria PNSM.
Destacam-se como limitações à realização desta pesquisa: as paralisações ocorridas em todo o Brasil e, consequentemente, em Natal, que atrasaram o processo de coleta dos dados; as greves ocorridas nos serviços de saúde do estado, inviabilizando a realização da pesquisa no Hospital Psiquiátrico Dr. João Machado; a negativa de uma pequena parcela em participar da pesquisa ou a ausência de entrega do questionário, mesmo após muitas e repetitivas solicitações, facultando meios de recolha dos questionários, incluindo seu domicílio; e limitações no próprio instrumento de pesquisa quanto a especificidades das atividades desenvolvidas pelos profissionais, exemplificadas na promoção de ações visando à autonomia do paciente autodeclarada pelos profissionais sujeitos da presente pesquisa.
Ao se considerar a importância dos resultados dessa pesquisa, sugere-se a expansão da mesma para as outras cidades do estado, a partir das unidades regionais de saúde, e também a inclusão dos profissionais de nível técnico e médio, a fim de traçar um perfil da atenção psicossocial no Rio Grande do Norte. Ao mesmo tempo, elencaram-se algumas ações e medidas essenciais para a melhora da assistência em saúde mental, tais como:
Do ponto de vista dos profissionais - Realização de reuniões mensais entre a coordenação de saúde mental e os profissionais dos serviços substitutivos;
Do ponto de vista da gestão - Contratação de um supervisor clínico-institucional para supervisionar e escutar as necessidades e problemas das equipes, ajudando-as a solucioná-los a partir da realidade vivenciada em cada serviço, respeitada suas particularidades e as singularidades dos sujeitos envolvidos;
Do ponto de vista da pactuação - Realização de parcerias com universidades e instituições de ensino para ofertar cursos de capacitação e especialização em saúde mental para os profissionais;
Do ponto de vista da inserção familiar do portador de transtornos mentais - Incentivo à formulação dos grupos de familiares nos CAPS e ambulatórios considerando o adensamento das crises situacionais e recidivas dos quadros graves, acompanhamento do tratamento e apoio ao familiar que sofre com a doença mental, além de estimular a economia solidária, como forma de autonomia e independência econômico-financeira dos mesmos.
Por fim, com a consolidação dos dados deste estudo, pretende-se divulgar os resultados através da publicação dos artigos científicos em periódicos indexados nacionais e internacionais, apresentados na discussão, bem como asseverar o compromisso na apresentação do relatório final junto aos serviços pesquisados e aos órgãos gestores, tornando-
o um documento de consulta sobre o perfil e as atividades desenvolvidas pelas equipes nos serviços substitutivos de saúde mental em Natal/RN, inexistente até o momento na Coordenação Municipal de Saúde Mental. E, assim, buscar-se-á traçar-se um plano de ação para mudar a realidade constatada e garantir aos usuários os princípios operacionais e doutrinários da Reforma Psiquiátrica Brasileira e do Sistema Único de Saúde.
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