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KONUT SORUNU BAĞLAMINDA MEKANIN ÜRETİMİ VE TÜKETİMİ

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SINIFSAL FARKLILIKLAR BAĞLAMINDA ASEPTİK MEKANLARIN TEMSİLİ: KONUT REKLAMLARI ÖRNEĞİ

REPRESENTATION OF ASEPTIC LOCATIONS IN THE CONTEXT OF CLASS DIFFERENCES: SAMPLE OF HABITATION ADS

2. KONUT SORUNU BAĞLAMINDA MEKANIN ÜRETİMİ VE TÜKETİMİ

Olá, vovó. Estou trazendo um pão e uma garrafa de leite. Ponha na despensa, minha filha. E traga um pouco de carne que há lá com a garrafa de vinho que está na prateleira. Havia um gatinho na sala que espiou comer e disse: Eca! É preciso ser uma porca para comer a carne e beber o sangue da vovó

Tire a roupa, minha filha , disse o lobo, e venha para a cama comigo (ANÔNIMO, apud TATAR, 2004, Chapeuzinho Vermelho, p. 334).

A ideia do direito natural, iniciada na época clássica, continuou na Idade Média e, a partir de Hugo Grócio (1588-1625), foi consolidada, principalmente, a partir do livro De Iure

Belli ac pacis, de 1625. Hobbes, assim como Spinoza, Locke, Rousseau e Kant que talvez seja

um dos mais importantes jusnaturalistas, antes do questionamento desta doutrina por Hegel, fazem parte da escola do direito natural moderno, apesar das concepções filosóficas diferentes. O direito natural moderno pode ser considerado uma unidade caracterizada por razão e método sendo não metafísico, ontológico e ideológico.

Para Bobbio (1991, p. 78), historicamente, o direito natural é uma tentativa de dar uma resposta tranquilizadora às consequências corrosivas que os libertinos tinham retirado da crise do universalismo religioso, sendo assim uma reação ao pirronismo moral e ao relativismo ético.

Hobbes utilizou o novo direito natural que remonta a Grócio, para deduzir sua teoria do homem no estado de natureza e Estado social, criando um modelo dicotômico: ou o homem vive no estado de natureza, ou vive no Estado civil. Bobbio diz:

A contraposição entre os dois estados consistente no fato de serem os elementos constitutivos do primeiro indivíduo singulares, isolados, não associados, embora associáveis, que atuam de fato seguindo não a razão (que permanece oculta ou impotente), mas as paixões, os instintos ou os interesses [ ] (BOBBIO, 1991, p. 39).

Para Bobbio (1991), o Leviatã (1651), descreve o estado de natureza em três circunstâncias: 1) nas sociedades ditas primitivas, incluindo os povos bárbaros da Antiguidade e os indígenas da contemporaneidade, cuja existência Hobbes conheceu através dos relatos dos grandes navegadores; 2) na guerra civil, quando impera, dentro de um Estado constituído, a anarquia; 3) nas guerras e nos conflitos entre Estados. Essas três situações Bobbio denomina de sociedade pré-estatal, antiestatal e inter-estatal, respectivamente. No Leviatã (1651), Hobbes refere-se a essas três situações, tendo, inclusive, vivenciado a segunda antiestatal na Inglaterra.

Poderá porventura pensar-se que nunca existiu um tal tempo, nem uma condição de guerra como esta, e acredito que jamais tenha sido geralmente assim. Porque os povos selvagens de muitos lugares da América, com exceção do governo de pequenas famílias, cuja concórdia depende da concupiscência natural, não possuem nenhuma espécie de governo, e vivem em nossos dias daquela maneira embrutecida que acima referi. Seja como for, é fácil conceber qual seria o gênero de vida quando não havia poder comum a recear, através do gênero de vida em que os homens que anteriormente viveram sob um governo pacífico costumavam deixar-se cair, numa guerra civil (HOBBES, 2000, p. 110).

Segundo Bobbio (1991, p. 98-99), existem variações sobre os temas fundamentais, no que se refere ao estado de natureza hobbesiano: na primeira variação, o estado de natureza seria um fato historicamente determinado ou socialmente imaginado, na segunda, pontua-se a belicosidade ou harmonia deste estado, e, na terceira variação, refere-se ao indivíduo isolado ou em sociedade, ainda que seja primitiva.

Na primeira versão, o estado de natureza, em Hobbes, é parcial, não universal e circunscrito a certas relações entre os homens ou grupos. Nesse aspecto, diferentemente de Rousseau, para o qual esse estado nunca existiu, para Hobbes, é uma hipótese baseada em fatos empíricos de certos momentos específicos da História, em que não existe, um Estado jurídico forte. Em todas as situações descritas, o estado de natureza é caracterizado pelo egoísmo individualista, acarretando uma agressividade contínua entre os homens.

Bobbio, em relação à belicosidade ou harmonia do estado de natureza, afirma que:

Na figuração Hobbesiana do estado de natureza, confluem três inspirações diversas: a representação do estado ferino da sociedade humana, segundo a concepção epicuriana transmitida por Lucrecio no quinto livre do De Rerum Natura; as descrições dos viajantes ao Novo Mundo, que foram documentadas, de modo amplo e admirável por Landucci; e as vivas impressões da guerra civil inglesa (BOBBIO, 1991, p. 50).13

Em relação ao fato de o estado de natureza ser individual ou social, as teorias jusnaturalistas se inspiram em princípios individualistas. A criação da sociedade política seria, portanto, uma criação dos indivíduos. Ao contrário da teoria aristotélica, em que há uma continuidade, passando por indivíduo, famílias e grupos (ARISTÓTELES), neste modelo, a sociedade política é diversa da natural, sendo um corte ou uma criação artificial, advindo, assim, a dicotomização entre estado de natureza e social.

13 Bobbio se refere aqui ao livro de Sergio LANDUCCI, I filosofi e i Selvaggi, 1580-1780. Torino:

Para Bobbio (1991, p. 3-8), alguns autores, principalmente depois de Hegel e Marx, consideram o estado de natureza como um constructo da formação da burguesia, principalmente sob o aspecto econômico. Já citamos Macpherson (1970), que constrói uma teoria do individualismo possessivo em cima do estado de natureza. No modelo Hegeliano- marxista, citando Bobbio (1991, p. 5), artifícios, como contrato, pactos, dicotomia, estado de natureza e estado civil não têm significado. Na realidade, o movimento da história, da luta de classes e da economia é o que deve ser analisado. A relação homem-natureza é de transformação e criação. Não existe uma dicotomia entre natureza-cultura, mas uma relação mediada pelo homem, que transforma a natureza e modifica-se. Bobbio (1991, p. 15) pontua que o homines oeconomici tem relações entre si iguais e independentes. Com a dissolução dos laços feudais de clientela e do modelo familiar, tanto o greco-romano, quanto o feudal, a família tende a deixar de ser instituição econômica para tornar-se lugar de afeto e educação (ÁRIES, 1987, p. 98). Bobbio (1991, p. 14) vê, neste movimento histórico, um terreno fértil para o modelo jusnaturalista, que passa a expressar as relações econômicas e o individualismo da classe burguesa em ascensão. Mas Hobbes não pode ser reduzido a uma crítica histórica parcial, que não leva em consideração a complexidade do seu pensamento.

Hobbes, segundo Bobbio, pode ser considerado o pai do jusnaturalismo moderno, já que Grócio ainda utiliza referências do jusnaturalismo medieval. É fundamental que, para marcar bem o homem natural de Hobbes, possamos recapitular alguns conceitos básicos no que se refere às faculdades corporais: passionalidade, liberdade, movimento, poder e guerra de todos contra todos. A conservação da vida humana é o alicerce deste arcabouço teórico. Pela conservação, o poder conquista, invade, orgulha-se, vangloria-se e torna o estado de natureza o espaço de uma luta sem trégua, sendo que, até o tempo em que não existe luta seja um tempo de preparação para ela. O medo, unido a uma tênue esperança de uma vida mais confortável, impele o homem natural a pôr fim à guerra, para dar um basta a sua própria insegurança e destruição. Segundo Ribeiro:

O medo é das principais experiências que temos de nossa condição. Revela ao homem, no estado natural, que este é insustentável: por natureza cada indivíduo quer expandir-se; mas fazendo-o, entra em guerra com os outros. A morte violenta, resultado da própria natureza humana, limita-a brutalmente: vivemos a temê-la; até novo estado, o medo é a paixão que melhor nos define. Depois, porém, contêm-se o temor à morte bruta, ao qual não se compara o novo medo, ao soberano: com ser discricionário, este é discreto e se levarmos uma vida retirada estaremos tranquilos (RIBEIRO, 2004b, p. 295).

Para Bobbio (1991, p. 98), o homem, na antropologia Hobbesiana, não é um valor absoluto. Não existe propriamente uma moral no estado de natureza, e esta é um produto da

invenção da linguagem e da razão e, principalmente, do Estado social. O realismo Hobbesiano coloca o homem como um ser passional e mesquinho no estado de natureza, não cabendo a essa antropologia a problemática da maldade, já que bem e mal são nomes ou marcas postas pela criação da linguagem14. Para Bobbio, no Leviathan:

O homem é um ser da natureza, determinado por leis mecânicas, dominado por paixões inatas e prepotentes que configuram de modo irrevogável sua posição no mundo. A paixão mais característica do homem é, talvez, na antropologia de Hobbes, a vaidade: mais a vaidade do que o interesse, ou seja, mais o prazer de ser estimados e honrados pelos outros do que de tirar vantagens deles, sendo que a vaidade é o prazer da alma, enquanto o interesse é o prazer dos sentidos [ ] (BOBBIO, 1991, p. 85).

Autores como Bobbio e Skinner consideram que Hobbes absorveu uma antropologia humanística que deve muito aos autores clássicos. Sendo que aponta não apenas para o trágico, mas, sobretudo, para o ridículo ou satírico da condição humana.

Nessa passagem sutil entre o estado de natureza para o Estado social, ou do homem natural para o artificial, encontramos dois aspectos de nossas paixões que podem ser considerados como propulsores do movimento de passagem da nossa passionalidade para nossa racionalidade: a busca e a curiosidade.

O que se pode dizer da moralidade no estado de natureza, não podemos falar de moral. Na luta de todos contra todos, não existem valores morais. Hobbes fala de preço ou valor que uma atitude tem em relação a outra. Todo homem tem seu preço, dependendo do valor que outros dão a determinada ação, sendo assim matar, trair, competir, ser generoso ou altruísta só pode ser valorizado sob o prisma do interesse do outro, que observa e coloca um preço na ação. Sem leis naturais e jurídicas e uma força maior que as façam cumprir, não se pode falar de moral, que, no Leviatã, não é apriorística, não nasce com o homem nem muito menos é corolário dele em estado de natureza, mas depende da sociedade política. O homem passional é, portanto, um ser amoral. Mesmo utilizando-se do recurso das leis naturais provenientes de Deus, no estado de natureza, o homem não é capaz de, em foro externo, cumpri-las. Essas leis, que são preceitos morais, mesmo funcionando em foro interno, não garantem sua execução, não sendo suficiente para fazer cumprir os pactos.

14 A leitura teológica de Hobbes coloca Deus como criador das leis da natureza, estas leis são morais e

prescrevem in foro interno, normas de conduta para o homem. Como a natureza vem de Deus, assim como as leis, estas seriam transcendentes. Sobre isso ver o clássico: SCHMITT, C. Teologia Política, Belo Horizonte: Del Rey, 2006.

Para Hobbes, no estado de natureza, as noções de bem e de mal, de justiça e injustiça, não podem aí ter lugar. Onde não há poder comum, não há lei, e onde não há lei, não há injustiça (HOBBES, 2000, p. 110).

Sendo assim, o homem natural, apesar de leis ou normas, necessita do poder da espada para cumpri-las, pois sua passionalidade não garante a obediência às leis da natureza. O homem as vislumbra, mas as paixões as obscurecem.

Nesse ponto, o artífice se faz presente. Para corrigir uma natureza defeituosa e palco das paixões mais baixas, segundo Bobbio (1991, p. 28), o homem torna-se um relojoeiro e arquiteto. Como já citamos, cria-se a grande máquina (Schmitt, 2002, p. 98), para corrigir as imperfeições da natureza. Sua razão calcula, pede ajuda a Deus e treme: de indivíduo para indivíduo, ocorre um pacto de submissão. O súdito, que está na máquina, transforma-se no homem, que é um Deus para o homem, citado no início Do Cidadão. Na realidade, o homem é o autor de um palco, e o Estado Social é um texto a que os atores devem ser obedientes e submissos. Se não advém a morte e a esperança, perde-se. O lobo torna-se um súdito obediente. O sarcasmo de Hobbes evita soluções tão óbvias. O lobo é cínico, assim como os recursos de eloquência de Hobbes (SKINNER, 1999, p. 34). E a violência e a agressividade? O monstro marítimo será capaz de acalmá-las? Neste momento da história, o lobo transforma- se em súdito. O Leviathan surge com todo esplendor. Concentração total do poder. Mas, eis que surge Beehemoth. Tentaremos agora concluir essa história e tirar um conceito sobre a agressividade e a violência na obra de Hobbes. Porém, fica a pergunta. Depois do De Cive, Hobbes supõe que os temperados apenas reagem aos ígneos, e a desconfiança se espalha. A competição, motor dos ígneos, é o princípio de tudo. Do lado destes, a vanglória e a competição. Os temperados desconfiam e se defendem. Essa dialética não está explícita em Hobbes, mas fornece uma pista. O Estado domestica o homem, pelo medo, transformando-o em cidadão? Esta transformação ocorre de fato? E a agressividade e a violência, presentes no homem natural, continuam a existir no Estado social?

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