KÜRESELLEŞME, KÜLTÜREL ÇEŞİTLİLİK VE KÜLTÜRLERARASI MEDYA PEDAGOJİSİ
GLOBALIZATION, CULTURAL DIVERSITY AND INTERCULTURAL MEDIA PEDAGOGY
2. KÜLTÜRLERARASI VE ULUSÖTESİ İLETİŞİM
Minha mãe me matou, meu pai me comeu, Minha irmã, Marlene, meus ossos recolheu Em seda os envolveu, e sob o zimbro os depositou, Bela ave canora agora eu sou (RUNGE, apud TATAR, 2004, O pé de zimbro, p. 165).
O homem, para Lorenz (1982, p. 27), é provido de instinto social, e um desses instintos de ligação social é o imprinting. A base da moral humana é instintiva, sendo a racionalidade um adorno do desenvolvimento sócio-cultural.
Já a primeira função compensadora da moral responsável, aquela que impediu os austrolopitecos de destruírem a si próprios com seus primeiros utensílios de pedra, não teria sido possível sem uma apreciação instintiva da vida e da morte (LORENZ, 1994, p. 79).
Diferentemente de Hobbes e de Rousseau (com exceção do capítulo IV, em O Emilio), Lorenz inscreve o homem no social. Essa socialização interage com nosso corpo e com seus instintos, moldando padrões de conduta, que, no homem, solidificam-se na cultura. Esta é a mescla de instintos e invenção social. Nesse aspecto, Lorenz aproxima-se de Rousseau, pois a origem do mal , no homem, encontra-se na perversão da organização social. Não são os instintos a origem do mal, e a agressividade serve à conservação das espécies, mas daí não decorre um estado de guerra, como descreve Hobbes. O imprinting nos liga a outros seres, construindo uma afinidade emocional.
O homem é um animal social, e a socialização já é um fator que pode inibir os instintos agressivos. Quais seriam, então, as causas principais da degenerescência da agressividade no homem?
Conjecturando com uma evolução histórica, Lorenz (1994 p. 40), coloca, à semelhança de Rousseau, que a posse individual, a divisão meu e teu, foi o início da divisão entre os homens. A agricultura e a passagem do nomadismo para o sedentarismo marcam uma mudança, na conduta humana, acarretada pela posse e pela sedentarização, então, ocorre o surgimento de castas e classes sociais e a institucionalização da propriedade privada. A partir de então, para Lorenz (1994, p. 140), ocorrem duas consequências: em primeiro lugar, os agricultores tornam-se muito mais agressivos na defesa dos seus territórios, que no tempo em que eram caçadores e viviam livremente dos frutos da natureza, não sendo, logo, decisiva, a agressão territorial [...]. Uma segunda consequência perigosa da agricultura foi o aumento explosivo da população que ela possibilitou.
Nesse trecho, Lorenz aparentemente caminha com Rousseau, mas, na segunda conseqüência, deixa claro que há um malthusonismo social nessa conjectura34. O aumento da população, para Lorenz (1994), alterou a relação entre dominantes e dominados com decorrente aumento da agressividade entre os homens. A industrialização e o avanço tecnológico, aliados à superpopulação, provocam uma psicopatia generalizada na sociedade (LORENZ, 1994, p. 277).
A psicopatia social é aquela na qual o homem fraqueja abertamente, sob a pressão que lhe é imposta, tornando-se neurótico ou delinqüente (LORENZ, 1994, p. 289). O homem domesticado é o psicopata social 35. A pulsão agressiva, que, nos primórdios da evolução humana, volta-se para grupos rivais, diminuindo dentro dos laços familiares, na sociedade industrial, generaliza-se. Essa situação assemelha-se ao estado de natureza Hobbesiano , que, para Lorenz, é formado por neuróticos e psicopatas sociais. O ódio entre pseudo- especificações diferentes passa agora a disseminar-se no tecido social.
Para Lorenz (1994), a falta de coesão grupal e o abismo entre gerações dificultam a transmissão de ritos, normas e tradições. A geração mais nova não introjeta valores, além de não respeitar a hierarquia que a relação mestre-aluno favorece em sociedades tradicionais. Esses fatores acarretam um profundo tédio que contribui para a formação de delinquentes juvenis: a sociedade industrial produz delinquentes juvenis (LORENZ, 1994, p. 89)36.
Alterando uma homeostase biológica e social, que redireciona a agressão através de ritos, cerimônias e laços, temos agora uma alteração desse equilíbrio, levando a uma falta de mecanismos compensatórios, para diminuir a agressividade, generalizando-a no tecido social. O mal , na realidade, não é a agressão, mas a inexistência de mecanismos eficazes nos níveis cultural e filogenético que possam lidar com essa agressividade.
A diminuição da criatividade humana com a superespecialização, a competição desmedida e destrutiva, que é diferente, para Lorenz, da competição pela preservação da
34 O termo diz respeito aos efeitos negativos da superpopulação, que leva à pobreza e a uma seleção que
favorece os mais ricos, que são mais aptos a sobreviver e se refere à obra de Malthus, exemplo: Princípios de
economia política (1820) e Definições em economia política (1827). Para o autor, a diferença entre as classes
sociais era uma conseqüência inevitável. A pobreza e o sofrimento eram o destino para a grande maioria das pessoas.
35
Esta afirmação serve para naturalizar a violência, confundindo-a com agressividade. O psicopata social é uma metáfora perigosa, que faz do homem um animal que não controla os instintos, transformando-se em psicopata.
36 Uma falácia perigosa, pois não considera a construção de laços empáticos e de uma nova sociedade,
espécie, culmina com a cobiça do dinheiro, provocando uma neurose epidêmica (LORENZ, 1994, p. 145).
Para Lorenz (1994), essa neurose caracteriza-se pela competição desregulada, a cobiça pelo dinheiro e a hierarquia desmedida, com aumento do desejo de poder: esses são os males do homem moderno. A agressividade humana patológica é produto desses fatores. Estamos utilizando o imprinting, para fixar modelos de pessoas perversas e gananciosas. O lobo é o objeto preferido para o imprinting da criança.
Ridley (2008, p. 221) coloca que o conceito de imprinting foi uma ponte genial para associar natureza e criação. Imaginar um instinto, com todo seu aparato genético, que se ligue a um fator ambiental e retroalimente-se, é uma cartada poderosa que liga gene e ambiente. Um passo importante é dado, mas isso é apenas o começo, como aprofundaremos adiante.
Para Lorenz (1994, p. 294), a nossa época oferece numerosas ocasiões desagradáveis de observar, no comportamento social, as consequências de uma falta, mesmo parcial, de tradição cultural. Os seres humanos, em causa vã, desde uma juventude que exige a abolição necessária, embora perigosa, de costumes que se tornaram anacrônicos, até os jovens em fúria e os bandos de adolescentes rebeldes, e, por fim, a certos tipos dessas características de delinquente juvenil que é igual em toda parte e cego a todos os valores. Todos esses infelizes são vítimas de um profundo tédio.
A violência faz parte do continuum biológico-cultural. Não existe uma ruptura entre agressão/biologia e violência/cultura, neste ponto Lorenz estaria de acordo com Hobbes, para o qual, na passagem do estado de natureza para o estado civil, a natureza humana não muda. Lorenz fala em agressão patológica, que é característica do homem. O Imprinting é a ponte, mas Lorenz não aprofunda como de que modo genes são alterados pelo Imprinting. A agressão pode ser redirecionada para esportes, por exemplo, mas como o social penetra no gene, interage e o modifica não foi adequadamente explicado. A violência, excesso de agressividade, existe no homem, que, degenerado por laços sociais inadequados, transforma- se em psicopata social. Ridley (2008, p. 223), com lucidez, enxergou que Lorenz acertou em um ponto: ao colocar a agressão e a violência como uma interação de genes e ambiente, deu um importante passo, mas o que está errado é o continumm, a não diferenciação entre agressividade e violência, isto é, o que pertence à espécie humana e nos diferencia das outras espécies. O instinto agressivo descontrolado, no homem, não é a resposta. Faltou aprofundar que o impriting já coloca uma dimensão de socialização no processo, e, no ser humano, com a linguagem e a cultura, temos diferenças fundamentais em relação a outras espécies.
Passaremos agora para Wilson e Dawkins, que radicalizam, ainda mais, as posições de Lorenz, para os quais a biologia assume, através dos genes, uma posição de proeminência, e tenta deslocar de vez a questão da agressividade e violência para a dimensão biológica.