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1. LİTERATÜR TARAMASI

3.1. Futbolcuların Ast-Üst İletişim Doyum Düzeyleri

Mordido por cães, um lobo estava em estado lastimável, a ponto de não poder sequer buscar alimento. Avistou então um cordeiro, e lhe implorou que lhe desse de beber da água do rio que era próximo: pois se tu me deres de beber, encontrarei por mim mesmo o que comer . E o cordeiro respondeu: mas se eu te der de beber, eu ainda serei teu alimento . (ESOPO, 2008, p. 120)

Seguindo Hobbes, a igualdade, no estado de natureza, leva, na sequência, à igualdade de cada um a desejar tudo que contribua para sua preservação ou deleite. Essa é a raiz da competição e luta de todos contra todos. Segundo Hobbes (Leviathan, cap.VI), se um objeto é desejado por mais de uma pessoa, instala-se a rivalidade e briga acirrada por este objeto, sendo a natureza do desejo o poder acumulativo, cada um vai tentar dominar e subjugar o outro e conseguir obter o objeto de desejo sobre sua posse e conquista. Zarka (2001, p. 255- 309) divide as paixões, segundo Hobbes, em individuais e relacionais. Das individuais, que podemos chamar de inatas, são as duplas, desejo/aversão; amor/ódio; prazer/dor, e partem do espaço sensorial interno para o mundo externo, porém essa relação com o objeto de desejo já introduz uma relação, já que existe a mediação da linguagem. Podemos, seguindo Zarka (2001), conjecturar convergências entre Hobbes e Rousseau, já que, neste ponto, o desejo, com o advento da complexidade das relações humanas, propiciadas pela linguagem, introduzirá o elemento de discórdia e de disputa. Seguindo Zarka (2001, p. 255-309), dentro das paixões complexas, podemos citar concupiscência, luxúria, ciúme, curiosidade, admiração, glória e vanglória, entre outras.

Podemos pontuar a importância da linguagem neste ponto. Se o homem não tivesse inventado a linguagem , ficaria em uma dimensão bem próxima à dos primatas não humanos. Mas esse é o ponto de corte. Zarka (2001, p. 301) coloca que a curiosidade, como paixão complexa, relacional, é quem dá o movimento dessa passagem. Como Hobbes (Leviathan, 2000, p. 47) coloca, a curiosidade é especificamente humana, e é esta paixão que impulsiona o homem para desenvolver a linguagem, complexificar as relações, e principalmente, instaurar a vontade de poder. Nesse aspecto, Zarka (2001, p. 256) observa outro ponto que pode ser comparado com o conceito de perfectibilidade humana de Rousseau, sendo que Hobbes parte da autopreservação, que não é devir. A curiosidade, em Hobbes,

instaura uma dimensão temporal que parte do aqui e agora, para sobrevivência e projeta o futuro. Nessa sequência, o desejo de poder busca meios, para se autopreservar e garantir o que foi adquirido, ampliando o campo de ação. Mais adiante, voltaremos ao conceito de perfectibilidade em Rousseau e faremos novos paralelos.

No momento, o fundamental é fixar, utilizando o próprio Hobbes, que, sendo o homem, por natureza, associal e, como diz na obra Do Cidadão (HOBBES 2004b, p. 23): Assim, não buscamos a sociedade naturalmente e por si própria, mas que, para que possamos dela receber alguma honra ou lucro. Desejamos estes em primeiro lugar e, aquela secundariamente .

Curiosidade e vontade de poder, para Zarka (2001, p. 256), são paixões intersubjetivas, decorrentes da socialização humana. Delas decorrem as demais e, inclusive, a transformação das paixões individuais para um espaço inter-individual. Existe uma tendência de cada um querer atribuir o valor que dá a si mesmo como valor maior, sendo a vanglória uma das paixões que mais proporciona a disputa. Vemos, assim, aparecer o espaço relacional. Os conceitos de valor e de preço, em Hobbes, podem remeter, segundo Bobbio (1991, p. 34), ao início da construção de um ethos da classe, já que a burguesia passa a ocupar uma posição que, aos poucos, torna-se hegemônica em relação à aristocracia.

Para Hobbes, as causas principais da discórdia são a competição, a desconfiança e a glória. A competição leva ao uso da violência com o outro; a desconfiança, a criar fortalezas e outros artifícios, para defender a conquista; e o terceiro, a glória ou vanglória, para ressaltar a tendência da natureza humana, a disputar por ninharias e outras migalhas. Nesse estado de guerra perpétua, as noções de justiça, injustiça, bem e mal não existem: a justiça e a injustiça não fazem parte das faculdades do corpo ou do espírito (HOBBES, 2000, p. 110). Em relação ao estado de guerra, não é necessário, para Hobbes, a guerra de fato, mas, tal como o clima prediz chuvas e tempestades, o lapso de tempo, em que exista a intenção de lutar e de subjugar, é considerado guerra mesmo não havendo. A pré-condição existe e pode precipitar- se a qualquer momento. Nessa condição natural de guerra de todos contra todos, também não existe a distinção entre o que é meu e seu, sendo a propriedade algo que se conquista e preserva através da força e da subjugação. Escreve Hobbes, em uma passagem famosa: Desta guerra de todos os homens contra todos os homens também isto é consequência que nada pode ser injusto. As noções de bem e de mal, de justiça e de injustiça não podem aí ter lugar. Onde não há poder comum não há Lei e onde não há lei não há injustiça. Na guerra a fraude e a justiça são as duas virtudes cardiais (HOBBES, 2000, p. 110).

A partir deste movimento de luta, no estado de natureza, são criadas as condições de possibilidade para sair dele, que parte também do movimento das paixões. De acordo com Hobbes: As paixões que fazem os homens pender para a paz são o medo da morte, o desejo daquelas coisas que são necessárias para uma vida confortável, e a esperança de consegui-las através do trabalho (HOBBES, 2000, p. 111).

O medo da morte é o movimento passional inicial que tenta afastar-nos do estado de natureza. O mesmo instinto de autoconservação que nos faz lutar e subjugar, agora, sob os auspícios do medo da morte, faz-nos desejar sair da guerra para o estado de paz, pois é a partir do desejo que tentamos sair do estado de natureza. A razão, então, cria leis, chamadas leis da natureza, que possibilitam a convivência pacífica entre os homens e favorecem a saída deles do estado de natureza. Para Hobbes, a razão sugere adequadas normas de paz, em torno das quais os homens podem chegar a acordo. Essas normas são aquelas a que por outro lado se chama lei da natureza (HOBBES, 2000, p. 111).

O direito de natureza é a liberdade que cada um tem de usar o poder da maneira como quiser, com a finalidade de preservar a sua vida. Para Hobbes, utilizando um conceito da física, a liberdade é a ausência de impedimentos externos, cujo movimento de um corpo só pode ser parado por outro. No caso do homem, o limite refere-se ao impedimento de utilizar o poder da forma como melhor aprouver.

Através dessas definições, segundo Hobbes, pode-se deduzir que, no estado de natureza, o homem usa seu poder da maneira como melhor lhe convier, cuja utilidade é a conservação da própria vida. O que impede esse movimento é o outro, que também pode usar esse poder. Quando duas ou mais pessoas desejam o mesmo objeto, inicia-se uma disputa, em que alguém deve subjugar outrem, ou limitar e cercear o uso do poder como bem entender. Como a natureza do poder é cumulativa, existe uma tendência a obter sempre mais em relação àquilo de que se necessita. Como vimos anteriormente, isso leva à vanglória, que retroalimenta o círculo de poder e mais poder. A este direito de natureza, jus naturae ou jus naturalis, Hobbes contrapõe as leges naturalis ou leis da natureza:

Um preceito ou regra geral, estabelecido pela razão, mediante o qual se proíbe a um homem fazer tudo o que possa destruir sua vida ou privá-la dos meios necessários para preservá-la, ou omitir aquilo que pense poder contribuir melhor para preservá- la (HOBBES, 2000, p. 113).

O direito é a liberdade de fazer, ou de omitir, enquanto a lei determina, ou obriga a fazer, ou a omitir. A lei delimita o movimento ininterrupto instaurado pelo direito. No estado

de direito ou de natureza, existe a guerra de todos contra todos, porém cada um usa sua passionalidade e razão, para alcançar os objetos que deseja.

No estado de natureza, a guerra de todos contra todos pode levar à morte ou à constante ameaça de aniquilação, que, por sua vez, vai de encontro à busca da autopreservação. Nesse momento, intervém a razão, criando leis que buscam a paz e o direcionar do movimento para a limitação da liberdade natural. Esta busca pela paz, na medida em que se tenha esperança de conseguir, e caso não a consiga procurar, a ajuda e vantagem da guerra é a primeira lei da razão. Na segunda lei, Hobbes (2000, p. 114-115) avança e fala sobre renúncia ao direito e à liberdade naturais, desde que o outro renuncie também. Essa reciprocidade é fundamental, pois o cerceamento da liberdade deve ser para todas as partes envolvidas. Na transferência, deve existir a bidirecionalidade, já que, na medida em que eu transfiro o direito, o outro também transfere. A essa transferência mútua de direitos damos o nome de contrato. Quando, no contrato, alguém transfere seu direito a outro, esperando que este cumpra seu compromisso, em um tempo futuro, referimo-nos a pactos.

Os únicos direitos que não podem ser transferidos, para Hobbes, são o de resistir ao ataque de alguém que quer tirar nossa vida, ou ainda, o de resistir à cadeia, ao ferimento e ao cárcere, pois vão de encontro à autopreservação da vida.

Os contratos e pactos são atos voluntários que visam a um bem para si, o qual é a autopreservação que o estado de natureza não garante. Para Hobbes, a realização do contrato tenta colocar limite no estado de natureza. Os contratos se referem ao futuro. Segundo essa delimitação, pelo contrato, Hobbes remete à possibilidade do não cumprimento do pacto, no que se refere às coisas futuras. Nesse caso, para Hobbes:

Quando se faz um pacto em que ninguém cumpre imediatamente sua parte e uns confiam nos outros, na condição de simples natureza que é uma consideração de guerra de todos os homens contra todos os homens, a menor suspeita razoável torna nulo este pacto. Mas se houver um poder comum situado acima dos contratantes com direito e força suficientes para impor seu cumprimento, ele não é nulo (HOBBES, 2000, p. 117).

Nesse trecho, Hobbes faz uma distinção crucial entre o homem no estado de natureza e o homem em sociedade civil e, na sequência, faz referência ao modo, para obrigar e normalizar o cumprimento dos pactos, já que o homem em estado de natureza está à mercê de paixões diversas e desejos contínuos, não estando propenso a cumprir os pactos.

Todo pacto é um ato da vontade, que, como vimos anteriormente, é o último ato na deliberação, portanto, só se deve prometer o que for possível cumprir, sendo o impossível um não pacto.

Dando continuidade às leis da natureza, a terceira e importante lei diz respeito ao cumprimento dos pactos celebrados. Essa definição da terceira lei como obrigação do cumprimento do pacto é fundamental para nortear o conceito de justiça em Hobbes, para quem a injustiça é o não cumprimento dos pactos, e a justiça é o seu cumprimento. Para existir justiça, é necessário o Estado social que, pela força, obriga ao cumprimento dos pactos. Hobbes afirma que:

Portanto, para que as palavras justas e injustas possam ter lugar, é necessária alguma espécie de poder coercitivos, capaz de obrigar igualmente os homens ao cumprimento dos seus pactos, mediante o terror de algum castigo que seja superior ao benefício que esperam tirar do rompimento do pacto, e capaz de fortalecer aquela propriedade que os homens adquirem por contrato mútuo como recompensa do direito universal a que denunciaram (HOBBES, 2000, p. 123).

Em seguida, Hobbes completa: não pode haver tal poder antes de erigir-se um Estado (HOBBES, 2000, p. 123). Esta passagem é importante, no que tange à dificuldade que os homens possuem de, por si próprios, conseguir a paz. Mesmo a razão não consegue alçar um nível de consciência em que se possa confiar no outro, sendo necessário um poder externo forte.

Como vimos, no estado de natureza, não existe justiça e injustiça, nem meu e seu. Esse limite em que termina um conceito e começa outro, é-nos dado pelo Estado social, não fazendo parte da natureza humana no estado de natureza. A justiça é, portanto, uma consequência do Estado social ou artificial.

Na quarta lei da natureza, Hobbes fala sobre a gratidão, que é o reconhecimento do benefício ou da graça dada por uma pessoa a outra. A ingratidão mantém, assim, o estado de guerra e perpetua querelas e desavenças.

A quinta lei refere-se à complacência, que é a capacidade de acomodação de uns em relação aos outros. A complacência leva à sociabilidade e busca, portanto, o estado de paz; o oposto nos faz insociáveis, contribuindo para o estado de guerra.

A sexta lei busca o perdão às ofensas passadas, para garantir a paz no futuro. A sétima nos fala da vingança, em que devemos reparar apenas o bem futuro, nunca o mal passado. A crueldade é o vangloriar-se na vingança relacionada a um ato passado, o que contribui para o estado de guerra.

A oitava lei é sobre evitar ódio, desprezo e ira pelo outro, em gestos ou palavras. Dessas leis, Hobbes deduz outras, que, cada vez mais, vão perfilando a possibilidade da convivência em sociedade. Rompe-se, assim, com o estado de natureza.

Todas as leis da natureza remetem sempre à primeira, que diz respeito ao esforço de buscar a paz por todos os meios. As leis da natureza falam sobre reciprocidade entre os homens. Em muitas passagens do Leviathan, Hobbes repete a máxima: fazes aos outros o que gostarias que fizessem a ti . Sendo assim, essas leis instauram a filosofia moral de Hobbes, que define o que é justo, injusto, bom, mau. Sendo assim, Hobbes expõe que

Todas as leis da natureza são imutáveis e eternas, pois a injustiça, a ingratidão, a arrogância, o orgulho, a iniqüidade, a acepção de pessoas e os restantes jamais podem ser tornados legítimos, pois jamais poderá ocorrer que a guerra preserve a vida, e a paz a destrua (HOBBES, 2000, p. 132).

As leis da natureza obrigam in foro interno impondo o desejo de que sejam cumpridas,

in foro externo ocorre a imposição do desejo de praticá-las.

Hobbes faz uma diferenciação entre os ditames da razão, que são apenas teoremas e conclusões sobre o que se deve fazer para a autopreservação, sendo inapropriadamente chamadas leis, e a lei verdadeira que é:

A palavra daquilo que tem direito de mando sobre outros. No entanto, se considerarmos os mesmos teoremas como transmitidos pela palavra de Deus, que tem o direito de mando sobre todas as coisas nesse caso serão propriamente chamados Leis (HOBBES, 2000, p. 135).

Apesar de as leis da natureza serem feitas para preservar a paz, ainda assim não existe a garantia de que serão cumpridas, devido à turbulência das paixões humanas. Nesse ponto, Hobbes parte para a solução final que é a de erigir um Estado absoluto forte, para controlar nossas paixões e atuar em favor do instinto de preservação ainda não garantido pelas leis da natureza. Segundo Hobbes:

As leis da natureza por si mesmas na ausência do temor de algum poder capaz de levá-las a ser respeitadas, são contrárias as nossas paixões naturais, as quais nos fazem tender para parcialidade, o orgulho, a vingança e coisas semelhantes e os pactos sem a espada não passam de palavras, sem força para dar a menor segurança a ninguém (HOBBES, 2000, p. 141).

Nessa sequência, Hobbes acaba duvidando da capacidade do homem para se autogerir e, consequentemente, duvida da própria razão para controlar nossas paixões. Vimos que o contrato e o pacto são atos da vontade humana. Assim como estes, a entrega da autonomia a

um poder soberano também é obra da vontade, agindo em favor da autopreservação. As leis de natureza são tentativas de nos tirar do estado de guerra.

A razão falha, em parte, nesse propósito e, incapaz de alcançar a paz, o homem delibera para entregar sua autonomia ao soberano. Só o poder externo coercitivo pode garantir-nos a paz. Cria-se, assim, o Leviatã ou Estado social artificial.

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