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O termo adolescência não estava em voga quando Rousseau escreveu O Emílio. No início do livro, Rousseau (1999, p. 13) divide o final da infância como puberdade, que se inicia entre os 12 e os 15 anos: é a idade da força. Deixando de lado a dependência e a fraqueza de criança, o púbere começa a ganhar força e a ficar mais independente.
Essa transição, para Rousseau (1999, p. 272), é uma tempestuosa revolução, anunciada pelo murmúrio das paixões nascentes; uma fermentação muda, que anuncia a aproximação do perigo; uma mudança do humor; arroubos frequentes e uma contínua agitação, que torna a criança quase indisciplinável. Torna surda, a voz que a fazia ficar dócil. Como um leão em sua pele, desconhece seus guias, já não quer ser governada.
Essa fase, para Rousseau (1999, p. 278), é um segundo nascimento . Na criança, o amor de si, por influência social, já se transforma em capricho, tirania, inveja, ciúme, disputa; na idade da força, soma-se a vaidade, o orgulho e a crueldade. A comparação com o outro, as preferências, os preconceitos, a opinião e, principalmente, a imaginação criam necessidades artificiais, que, somando-se à agressividade e ao egoísmo, fazem do púbere um lobo em potencial.
Para Rousseau (1999, p. 275), eis como paixões doces e afetuosas nascem do amor de si, e como as paixões odiosas e irascíveis nascem do amor próprio, assim, o que torna o homem essencialmente bom é ter poucas necessidades e pouco se comparar com os outros; o que torna o homem mau é ter muitas necessidades, dando muita atenção à opinião. A partir desse princípio, é fácil ver como podemos dirigir para o bem e para o mal todas as paixões das crianças e dos homens.
Esse é o ponto de Arquimedes em O Emílio. A dialética natureza-sociedade, instintos- relação com o outro (intersubjetividade), representa uma estrada com vários caminhos. Se existe uma tendência para a bondade, esta é apenas uma possibilidade. Na interação criança e cuidadores, existem inúmeras possibilidades: crueldade, tirania, doçura, maldade. Jogamos com interação, instintos e meio, ou, em uma linguagem atual, genes e sociedade. A violência é um produto dessa interação. Podemos até admitir, em Rousseau, tendências naturais, como o amor de si e a piedade, mas são possibilidades, que podem transformar-se em crueldade e violência. Até a idade da razão, para Rousseau (1999, p. 377), não podemos falar em moral. Até então, o jogo das paixões interagindo com os outros vai tecendo suas teias, tais como as parcas.
Na Profissão de fé do vigário Saboiano, que se encontra no capítulo IV do EMÍLIO, Rousseau fala de um instinto social. O homem é social por natureza, ou pelo menos, é feito para tornar-se tal (ROUSSEAU, 1999, p. 39).
Este trecho contradiz textos anteriores, inclusive algumas passagens em O Emílio. Colocar a socialização como instinto, dentro da natureza, é reconhecer que não existem indivíduos isolados, como no Discurso. Este é um paradoxo, entre tantos, na obra de Rousseau. Para Starobinski (1991, p. 78), transparência e obstáculo, ser e parecer, verdade e mentira, indivíduo e sociedade, são pares que se opõem e complementam-se em Rousseau.
Existe um movimento circular que inicia na criança e suas tendências inatas de amor de si, conservação, fome, temor da morte, necessidade de bem-estar, passando pelo outro, que cuida dela. Desse encontro, paixões inatas, como capricho, ciúme, inveja, crueldade, podem desenvolver-se. Alguns instintos, como o choro, a manipulação, o capricho e o amor próprio, dependendo dessa relação com os cuidadores, podem possibilitar à criança transformar-se em um violento e cruel tirano. Mas, por não ter ainda forças físicas suficientes, a criança espera a idade da força e da razão para transformar-se de vez em lobo. É na puberdade que a violência instala-se com toda intensidade.
Na Profissão de Fé, Rousseau (1999 p. 379) declara que Deus não é o autor do mal, uma vez que Ele é justo e bom e em nada se relaciona com a maldade humana. O autor do mal é o próprio homem, que é livre, e é essa liberdade que o coloca frente a frente com o bem e com o mal. A sociedade é feita por homens. Sendo o homem um ser com instinto social, a sociedade pode ser o produto da perfectibilidade ou da corrupção humana.
Queremos obter a preferência que concedemos; o amor deve ser recíproco. Para ser amado, é preciso tornar-se amável. Para ser preferido, é preciso tornar-se mais amável do que os outros, mais amável do que qualquer outro, pelo menos aos olhos do objeto amado. Daí os primeiros olhares para os semelhantes; daí as primeiras comparações com eles; daí a emulação, as rivalidades, os ciúmes (ROUSSEAU, 1999, p. 277).
Esse trecho nos fornece pistas sobre o duplo caminho das paixões, no contato com o outro. Verdade e aparência, transparência e obstáculo. Para Starobinski (1991, p. 98), essa dialética perpassa o indivíduo, chega ao outro e retorna ao indivíduo. No caso de O Emílio, esse jogo de espelhos ocorre entre a criança e os cuidadores. Um jogo de rivalidades, ciúmes, inveja, disputas.
Emílio, na idade da força, deve trabalhar principalmente, em ofícios manuais e estudar, principalmente história, controlar as paixões, cooperar e trabalhar junto a outros, aprender a
socializar-se, cooperando. Segundo Rousseau (1999, p. 356), a troca e a reciprocidade são valores que devem ser adquiridos por Emilio. Na idade da razão, é preciso estudar a sociedade pelos homens e os homens pela sociedade; quem quiser tratar separadamente a política e a moral nada entende de nenhuma das duas (ROUSSEAU, 1999, p. 309).
Não é o desejo de ser o primeiro, mas o de superar-se e contribuir para a coletividade, que faz da idade da razão a fase apropriada para o desenvolvimento da moral. A piedade desenvolve-se plenamente nesta idade, mas temos o outro lado , do amor próprio, do orgulho, da vaidade e da crueldade. Nesse momento, temos Emilio e o lobo púbere frente a frente.
Emílio desnaturou-se e tenta contribuir para o contrato social, mas os lobos encontram- se soltos, em plena idade da razão, movidos pela vaidade, violentos e cruéis. Emílio, desnaturado versus lobos, frutos da socialização, que o preceptor tentou evitar em Emílio.
Podemos agora resumir que, dos 12 aos 15 anos, Emílio deve aprender educação social, ofício manual, hierarquia dos ofícios, escolha de uma profissão e acúmulo de experiências úteis. Deve lutar contra a opinião e os preconceitos.
Na idade da razão, dos 15 aos 20 anos, vem a educação sexual, estudo da história das paixões para aprender melhor sobre o homem, o desenvolvimento da piedade levando a uma verdadeira sociabilidade e a uma educação religiosa. O preceptor forma, assim, o púbere moral e o racional. Da natureza para a sociedade e da sociedade para a natureza modificada.
Do outro lado, muitos lobos na idade da razão, inflados pela vaidade, são verdadeiros tiranos. Este confronto ainda passa por Sofia. Vamos agora contar um pouco dessa história.