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KONUŞMACILAR SERDAL BAHÇE

Ao tratar da significação das preposições por e per, Carneiro Ribeiro (1950) afirma que os escritores modernos utilizam essas duas preposições sem fazer distinção entre elas, no entanto, cabe observar que esses conectivos tanto podem indicar a ideia de causa, quanto de espaço por onde e as demais relações análogas. No entanto, emprega-se o por quando não houver artigo e per quando este vier seguido de artigo, conforme os exemplos: “Por (por sem artigo) outro lado, custava tolerar suas mentiras e, às refeições, a sua maneira ruidosa de comer, enchendo a boca de comida com auxílio das mãos” (Rubião, 1995: 26); “Deoquinha era um São Sebastião, mais furado que um piruliteiro, pelas (per+as) flechas inclementes da adversidade” (Ribeiro, 2000: 73-74). (grifos nossos)

Gramáticos modernos como Cunha e Cintra (2001), não descrevem a diferença de significado das preposições por e per, consideram mais importante mostrar as ideias que elas denotam, sendo a primeira de movimento, entendido como o percurso de uma extensão entre limites, através de, duração no espaço: “Pois é, seu Silvino, vou ficando por aqui mesmo” (Dourado, 1995: 63); duração no tempo: “Afinal, mais de um mês tinha se passado e eu, pelo meio da manhã, na saleta das mulheres, trocava, desgostosa, os bilros na minha almofada de renda” (Queiroz, 1992: 95); na noção: “O Criador escreve certo por linhas tortas e agora, por via de circunstâncias tão ingratas...” (Ribeiro, 2000: 81) Na expressão de situação, como resultado do movimento de aproximação a um limite no espaço:

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“Passou a percorrer, um por um, os andaimes, exortando-os a abandonar o trabalho” (Rubião, 1995: 73).; no tempo:” Pela tarde, a calma retornou ao edifício, encorajando Gérion a ir ao terraço para averiguar a extensão dos estragos” (Rubião, 1995: 10); na noção: “No quarto mal iluminado pelo luar, os seus olhos brilhavam molhados” (Dourado, 1995: 204).

Apresentamos, a seguir, a descrição de usos das preposições com, em, por e per na língua portuguesa em que se evidenciam alterações não apenas de significado, mas também de grafia relacionadas à própria diacronia da língua, em que serão tomados como instrumento de análise textos em língua portuguesa dos séculos XIV ao XX respectivamente.

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V– Emprego das preposições com, em, por e per do século XIV ao XX

5.1. – Emprego das preposições com, em, por e per no século XIV

5.1.1 – preposição com

Com – procede do latim cum que nessa língua reproduzia, entre

outras, a noção de companhia (Petrus cum Paulus est – Pedro está na companhia de Paulo); simultaneidade no tempo (cum prima luce – logo que amanhece); ideia de modo ou maneira de ser (magno cum luctu – com grande dor); ideia de instrumento (cum lingua lingere – lamber com a língua). A preposição cum ainda no período denominado de “Romance”2 denota o sentido de instrumento, ganhando também a ideia de causa. Em textos do português arcaico (século XIV), se verifica o emprego de con no sentido de companhia: “E degolarõ-no con outros e foy-se pera o parayso do deleyto (...)”3. Ressalte-se que essa grafia do Português no século XIV é idêntica à utilizada no Italiano: “E con te domani parleremo” disse a bassa voce; la confessione nell’automobile le aveva lasciato una penosa impressione...(Moravia, 1997: 285), e no Espanhol: En cuanto a la sobrecarga cognitiva del acto de escribir, en comparación con el de leer, puede comprobarse si se hace la analogía con el aprendizaje de una lengua extranjera (Marín, 1999:284) línguas essas em que “con” permaneceu inalterada até a atualidade.

        

2 A partir de 218 a.C., com a invasão romana da península, e até o século IX, a língua falada na região é o romance, uma variante do latim que constitui um estágio intermediário entre o latim vulgar e as línguas latinas modernas: italiano, português, castelhano (espanhol), francês, etc. 3 Do Orto do esposo, códice alcobacence. In Nunes, 1959:84

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5.1.2 – preposição em

A preposição latina In se transformou em en e posteriormente

passou a ser grafada em. Esta partícula exprime o sentido de interioridade com referência tanto a lugar como a tempo. Seu emprego também pode denotar estado de alguma coisa: leite em pó; divisão, distribuição: peça em três atos; superposição: pôr pé em terra; etc. Um exemplo da utilização de “en”, com sentido de superposição, no século XIV, encontramo-lo no texto a seguir: “[Quando] se esspertou, achou o dom que Deus lhi dera en essa maão que tijnha metuda en sseu sseo”4 (Nunes, 1959: 81).

No texto: “E conta a estoria que, quando este rrey Bamba fui ungido, estando en geolhos ante o altar de sancta Maria, que lhe sayu da boca h a abelha e uoou ao ceeo, em tal guysa que todollos que estauam en rredor dele a uiron”5 (Nunes, 1952: 102), observa-se aqui o sentido de superposição, e a variação de grafia entre o emprego de en e o seu modo atual em.

O fato de coexistirem as duas grafias em um mesmo parágrafo sugere duas hipóteses: a primeira indica que provavelmente ainda persistisse o uso correspondente à fase do “Romance” e; a segunda aponta o possível fato de haver uma distinção semântica nas duas grafias, haja vista que as duas ocorrências de en, no exemplo indicado, denotam superposição e interioridade espacial, respectivamente. Todavia, a ocorrência de em, sugere a composição de uma locução que indica forma/circunstância cujo sentido passou a servir-se de preposição de (em tal guysa – de tal forma).

        

4 De Dois fragmentos de uma vida de S. Nicolau do século XIV, publicado por Pedro de Azeredo. In Nunes, 1959:81.

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5.1.3 – preposição por

Por – corresponde às preposições latinas pro e per que, no entanto, denotavam sentidos específicos e diferentes. Na maior parte das línguas neolatinas elas se confundiram, porém, ficaram separadas em francês, no antigo português, em uma parte do antigo dialeto leonês e no asturiano moderno (Hanssen, 1945: 304). Vale destacar, contudo, que na alteração gráfica da preposição pro > por, houve uma metátese (transposição de fonema que se pode verificar na mesma sílaba ou entre sílabas, como: ravia>raiva).

A preposição pro tinha, no latim, frequentemente o sentido de

‘por’, e substituiu ob e propter como se observa em: “Fides pro una

muliere perfida” (Grandgent, 1952: 77). Segundo Grandgent (1952), com o passar do tempo, pro foi substituída, em parte por per, porém,

em algumas regiões romanizadas o processo foi inverso, sendo pro

que substituiu o per (provavelmente na fase do Romance).

A preposição por era usada, no século XIV, para denotar causa, assim como também exercia funções do per, com sentido de em favor de. Com sentido de causa, temos: “... em tal guíssa, que por as braueza nom se possa tirar a h a parte nem aa outra” (Vasconcellos, 1959: 45).

Segundo Said Ali (1964), a forma pera: usou-se em todo o período do português antigo e ainda no português moderno do século XVI e princípios do século XVII. O aspecto e a significação do vocábulo pera apontam possibilidades do mesmo ter se originado de per+ad ou, de acordo com a etimologia, da combinação de pro+ad. Sendo mais provável a segunda combinação, como no exemplo do século XIV: “Deves saber que ha mester, pera o caualo seer mais asinha mansso, destar presso de dous ramaaes em no preséuell...” (Vasconcellos, 1959: 45).

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No sentido de efeito a atingir, a preposição por continuou sendo empregada durante esse período, como pode ser observado no seguinte texto em que se encontram dois sentidos para a preposição por no século XIV: “E asy por esta maneira forom muitos alimpados dos pecados por [por meio de] o sacramento da comfisom, os quaes pecados nõ ousauam os homẽes por [por – causa, motivo] vergomça comfesar ẽ alg ua maneira”6 (Nunes, 1959: 124) (grifos nossos).

5.1.4 – preposição per

Per – se usa em latim com verbos de movimento e se pode traduzir por através de. A preposição per tinha, em português antigo como em latim, o sentido de através de, por meio de, e podia significar lugar por onde alguma coisa se estende e duração de algum acontecimento: “Correram per mato espesso (...) per lama, augua ou ervaçal” (Fernão Lopes, D. J. 118. In Said Ali, 1964: 215).

Somados aos sentidos “através de” e “por meio de”, no latim, a preposição per também indica o lugar em que se faz algo, sendo que, em Romance, não havia distinção entre lugar e direção. No português do século XIV a ideia de movimento se converte na ideia de extensão e lugar: “E, asy como hyam adiante, passauã per muitas cõpãnhas,

que lhes jnclinauã as cabeças e rrecebiã-nos muy bẽ cõ grande aligrya e saluauã a alma per seu nome e diziam todos (...)”7 (Nunes, 1959:143).

Metaforicamente, ainda, denota a pessoa por meio da qual uma ação se executa e a coisa que serve de meio para executar uma       

 

6  Códice  nº  94,  publicado  pela  Academia  das  Ciências  de  Lisboa,  sob  o  título  de  Crónica  da  Ordem  dos  Frades Menores, respectivamente a fols. 100 R. e V. e 138 R. e V. e páginas 256 a 258 e 369 e 370. In Nunes,  1959: 124. 

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ação: “E elrrey Rramiro emtemdeo que era emganado per sa molher e que já dali nom podia escapar senom ajudar de seu saber e disse a gram alta voz (...)” (Do IV Livro de Linhagens, fols. LIX, V. In Nunes, 1959:25). Às vezes a preposição per expressa a ideia de modo (esta variação deriva do significado instrumental): “... tratou entre elles por tal maneira que o infante fosse beijar as mãos a seu padre e que elrey beenzesse seu filho e partirom dalli amigos”8 (Nunes, 1959: 44).

Nesse período, tem-se a forma polo < pollo (contração de por+lo), utilizada no sentido de direção, que posteriormente foi substituída pela forma pelo, como no exemplo que segue: “E elrei dõ Afom[so] de Portugal era de grãdes feitos e, quanto mais olhaua polos [em direção a] mouros, tanto lhi mais e mais crecia e esforçaua o coraçõ como home, que era de grãdes dias e tijnha que Deus lhi fezera gram mercee eno chegar àquel tempo hu podia ẽmẽda de seus pecados por salvaçõ de sa alma e receber morte por Jesu Christo”9 (Nunes, 1959:45-46). (grifo nosso)

Per aparece no lugar da preposição de como se verifica no seguinte exemplo: “E elle meteu-sse ẽ naues e uẽeo-se em Spanha; elrrey Rrecessundo rrecebeu-ho muy ben e deu-lhe terra em uiuesse e despois per [de algum] tempo casou-ho con h a sua sobrinha”10 (Nunes, 1959: 103). (grifo nosso)

        

8 Da Relaçam da vida da gloriosa Santa Izabel, Rainha de Portugal, trasladada de hum livro escrito de mão  que está no Convento de Santa Clara de Coimbra, na Monarchia Lusitana, págs. 402 e 405 a 406, edição de  Lisboa de 1751. In Nunes, 1959: 43‐44. 

9  Do  III  Livro  de  Linhagens,  fragmento  apenso  ao  códice em  que  se  encontra  o  Cancioneiro  da  Ajuda.  In  Nunes, 1959: 45‐46. 

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5.2 – Emprego das preposições com, em, per e por no século XV

5.2.1 – Preposição com

A preposição latina cum que segundo Grandgent (1952), no século IV já havia desaparecido da Região da Gália, durante o período denominado de “Romance”, aparece em textos portugueses do século XV com variação gráfica: cõ, con, com, conforme o exemplo: “E seguindo aqueste caminho, os Iudeus, que depoes elle veherõ, todos se trabalharom de poer nome aos filhos e aos logares, que fossem acordados cõ as suas propriedades em alg a parte...” E o autor escreve mais adiante “... e aqueste nome “senhor” com a pessoa que elle representa, significa senhorio, que he cousa moral... (Vasconcellos, 1959: 88-89). Estas variações gráficas atestam a irregularidade ortográfica que existia nesse período.

No século XV a preposição cõ (com) denota o sentido de maneira ou modo, como se evidencia no seguinte texto: “E o emperador logo fez coroar seu filho Titus emperador, cõ grãde festa, muy honrradamente, e ly pregou Sam Clemente e foi escuitado cõ grande deuoçõ do emperador e de toda sua corte” (A Estoria de Vespesiano. In. Vasconcellos, 1959: 95-96).

O sentido latino de companhia que se encontra em textos do século XIV expresso pela preposição com permanece presente durante o século XV. Essa ideia é manifestada quando a um ente se associa outro para praticar uma ação ou sofrê-la, como se observa a seguir: “Amdou el quamto pode per hu emtemdeo que Diego Lopez

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iujnria e achou-ho já uĩir com seus escudeiros...”11 (Nunes, 1959: 186).

Além do sentido de modo e companhia, com o passar do tempo, essa partícula sofreu várias alterações de sentido, entre elas, a conotação de causa, como no exemplo a seguir: “E, posto que aquelle senhor se mostrasse ledo com aquestas razõoes, bem parecia que tijnha o coraçon asaz de triste”12 (Nunes, 1959: 204).

A preposição com nesse período (século XV) é empregada, também, como instrumento (no sentido de meio) quando aquilo com que se pratica uma ação é algo abstrato, conforme o seguinte exemplo: “Outros nomes signifficam as cousas segundo os auctos naturaaes e as moraaes obras que com ellas som feitas” (Da Virtuosa Bemfeitoria do Infante D. Pedro. In Vasconcellos, 1959:89). A preposição com pode, também, denotar fato simultâneo ou paralelo a

outro. Neste caso, o fato simultâneo, ou que acompanha alguém, pode atuar sobre este indivíduo e manifesta-se como causa determinante da sua ação ou situação, como no exemplo: “E estaua em tall comtenpraçom asy como se fosse em no dia do juizo, e choraua dos seus olhos que com suas lagrimas se laua [uan]”13 (Nunes, 1959: 148).

5.2.2 – preposição em

A preposição em, no século XV, entre outros sentidos exprime a noção de interioridade com referência tanto a lugar quanto a tempo: “Amigo, cree uerdadeiramẽte que oje em este dia som passados       

 

11 Chronica de D. Pedro, de Fernam Lopez, capítulos XXX e XXXI, fols. 24 V. a 26 R. In Nunes, 1959: 186.  12 Da Chronica do Infante Santo D. Fernando, edição de Mendes dos Remédios, págs. 62 e 67. In Nunes,  1959: 204.

13  Da  Vida  de  D.  Tello  e  Noticia  da  fundação  do  mosteiro  de  S.  Cruz  de  Coimbra,  nos  Portugaliae  Mon.  Historica, Scriptores, págs. 77 e 78. In Nunes, 1959: 148. 

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duzẽtos e seseenta e sete ãnos que tu estás a esta porta e n ca te partiste dela”14 (Nunes, 1952: 64). Seu emprego pode denotar, também, superposição: pôr pé em terra; estado de alguma coisa: leite em pó; divisão, distribuição: peça em três atos etc.

Em construções que signifiquem lugar para onde, a preposição em, geralmente, era substituída pelas preposições a ou para, e às vezes, contra: “E entom aquella sabedor rreynha oolhou contra [em direção a] o emperador com as maãos levantadas e deshy tornou sua face contra [em direção a] os povoos que com ella veheram desvayradas creenças, que estavam em aquelle grande canpo”15 (Nunes, 1959:143) (grifos nossos).

Um dos sentidos mais usuais da preposição em corresponde ao utilizado em discursos para indicar o lugar onde as coisas se passam como pode ser constatado a seguir: “E esta dona Clarissa tiinha h u filho, e bautizarõ-no em Iherusalem”16 (Nunes, 1952: 159). A preposição em, com sentido diretivo, embora seu emprego seja

menos comum, nas ocorrências junto a verbos como: lançar, meter, pôr, deitar, admitir, sair, saltar etc., indica a ideia de direção como no seguinte exemplo: “E, em saindo elrey da crasta, uyo uiir h u crerigo que era muy negro de sua collor e disse-lhe (...)”17 (Nunes, 1959: 151).

Verbos com sentido de passar de um estado a outro, pedem um complemento formado com a preposição em, por significarem movimentos encaminhados em determinado sentido. São eles:          14 Do Conto de Amaro, inserto no códice alcobacense nº 266 de fols. 120 V. a 122 V. In Nunes, 1952: 64. 15 Da Corte Imperial, edição da Câmara do Porto, 1910, págs. 5‐9. In Nunes, 1959:143.  16 Da Estoria de Uespasiano, edição de 1496, folhas 24 V. a 28 R. e páginas 80 a 85 da de Esteves Pereira. In  Nunes, 1952: 159.  17 De Chronicas breves e Memorias avulsas de S. Cruz de Coimbra, de págs. 27 a 30 dos Port. Mon. Hist.,  depois de confrontadas com o respectivo original. In Nunes, 1959: 151.

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transformar, converter, desfazer etc., conforme se constata em: “E rreteue pera sy e pera todos seus sobcessores o consentimento da inliçom que fezesem das abadesas quando alg a ouuesem d’enleger em abadessa d’esse moesteiro” (Da Chronica breve do Archivo Nacional. In Vasconcellos, 1959: 68).

Nas frases em comprimento, em largura, em altura, em profundidade, a preposição em é empregada com o sentido de lugar para onde seguem as linhas de medição, como no exemplo: “E todo o cãpo era cercado em redor de muytas aruores muy fremosas, que dauam fruytus muy doçes e muy saborosus e de muytas guisas” (A Côrte Imperial. In Vasconcelos, 1959: 60).

5.2.3 – preposição por

A preposição por, do latim pro, era usada para denotar causa,

porém no sentido de efeito a atingir, continua sendo empregada, nesse período, como no exemplo: “E conssijrando que os que leem, geeralmente reguardom a estas fĩjs. S. Prymeira por [com a finalidade de] acrecentar em uyrtudes, mynguar em fallicimentos, prazendo por ello [efeito a atingir] a nosso Senhor, e alcãçar na uida presente e [na] que speramos o que dá graciosamente aos que per ssa merecee lhes praz bem uyuerem” (Do Leal Conselheiro d’El-Rei D. Duarte. In Vasconcellos, 1959:74-75) (grifos nossos).

Durante o século XV, permaneceu o uso da preposição pera com o significado de para, como no exemplo: “E todas estas cousas nos deuem mouer pera deseiar que seiamos semelhantes a elles, comprindo por obra o que elles fezerõ”18 (Nunes, 1959: 179). Ainda, no texto a seguir tem o mesmo sentido: “Pregunta ha Demetrio,       

 

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fillosofo, e elle confessará que elle tirou os olhos assy meesmo pera veer ha verdade, e pera nom veer ho poboo, que he emmigo da verdade”19 (Vasconcellos, 1959: 64-65).

A preposição por exercia, frequentemente, funções do per, com sentido de em favor de conforme se verifica no exemplo: “Vinhan muitos velhos cãaos fazendo grande chanto por [em favor de] dom Tello e fazendo dizer misas”20 (Nunes, 1959: 149). (grifo nosso)

Nas conjurações, a preposição per cedeu lugar ao por derivado de pro, como ilustra o texto seguinte: “Oo senhor, por Deus e por mercee, nõ matedes o cardeall, ca en Roma que ssodes herege”21 (Nunes, 1959: 154).

5.2.4 – preposição per

Durante o século XV, a preposição per continua sendo empregada com o sentido de através de, por meio de, e podia significar lugar por onde alguma coisa se estende e duração de algum acontecimento, como no seguinte exemplo: “Padre nosso, que sobre todollos çeeos sooes exalçado, praza-uos de o uosso sancto nome seer louuado per [através de] minha obra em guisa que eu seia mereçedor do celestial regno (...)” (Da Virtuosa Bemfeitoria, edição da Câmara Municipal do Porto, 1910, pág. 6. In Nunes, 1959: 175). (grifo nosso)

No século XV a preposição per, mantém o sentido de tempo que

expressava na língua latina, assim como a noção de momento própria do período “Romance” que lhe designava uma ideia vaga, como no       

 

19 Boosco delleytoso solitario. In Vasconcellos, 1959: 64‐65. 

20  Da  Vida  de  D.  Tello  e  Noticia  da  fundação  do  mosteiro  de  S.  Cruz  de  Coimbra,  nos  Portugaliae  Mon.  Historica, Scriptores, pág. 77 e 78. In Nunes, 1959: 149.

21 De Chronicas e Memorias avulsas de S. Cruz de Coimbra, de págs. 27 a 30 dos Port. Mon. Hist., depois de  confrontadas com o respectivo original. In Nunes, 1959: 154. 

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exemplo a seguir: “Em esta perfilha esteuerom per [tempo] espaço de dias, tanto que os pees começarom de enfraqueçer e outrssy as mãaos”22 (Nunes, 1959: 77-78) (grifos nossos).

A preposição per denota, também, a pessoa por meio da qual uma ação se executa e a coisa que serve de meio para executar uma ação, como no exemplo a seguir em que a preposição per é empregada no sentido de por: “E per [por meio de] ellas logo se pode ssaber a escriptura que nom for verdadeira” (Portugaliae Monum. Hist. Págs. 22-23. In Vasconcelos, 1959:68) (grifo nosso).

A preposição latina per aparece em juramentos e conjurações,

sendo que nos juramentos conserva sua posição e cede lugar nas conjurações à preposição por. Nesse período (século XV) permanece, ainda, a ideia de meio que foi trocada pela de instrumento desenvolvida durante o período “Romance”, como se verifica no exemplo: “(...) chamando Jesu Chisto e Santiago, que per [por meio da / com a] força darmas com aiuda de Deus ouverom de romper os muros entrar (...)” (Cronica da fundaçam do moesteiro de Sam Vicente. In Vasconcelos, 1959: 69). (grifo nosso)

5.3 – Emprego das preposições com, em, por e per no século XVI 5.3.1 – preposição com

Durante o século XVI, o emprego da preposição com/cõ no sentido de companhia é utilizado, quando a um ente se associa outro para praticar uma ação ou sofrê-la, como no seguinte exemplo: “Emtõ lhe foy dito de alg us maliçiosos vezinhos, ymijgos de Christo, que era ally h u mãçebo, chamado Vincente, o qual cõ duas jrmãas que       

 

22 Do Fabulário português do séc. XV, existente na Biblioteca Palatina de Viena de Áustria, publicado por  Leite de Vasconcelos, fábulas III, VIII, XII, XIV e XLI. In Nunes, 1959: 77‐78.

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auia. s. Sabina e Cristela, adoraua a Christo, o qual logo mandou prender e trazer ante sy e disse ao moço...” (De Ho Flos sanctorum em Lingoagẽ portugues, edição de 1513, folha 274, In. Nunes, 1959: 212).

Durante esse período, o sentido de companhia permanece como no seguinte exemplo: “Ao outro dia seguinte, sahio Pedraluarez em terra com a mayor parte da gente... (Gândavo, 1579:6).