Para além de certos desajustes já apontados, deparámo-nos em Giraldes, com devaneios pseudopoéticos que, além de destituídos de qualquer qualidade literária, ainda projectam sobre os objectos uma aura de ingenuidade, queem certos casos, como o que citamos infra, até poderia ser adequado se não rasasse o patético.Confronte-se a abordagem que faz à obra de Sarah Affonso:
“Esses assuntos são talvez aqueles que uma artista ainda menina soube sonhar, soube idealizar através de qualquer vicissitude ou aspereza da vida. (…).
Vejamos, por exemplo o quadro Nº 6, chamado “A Estrela”: - lá vai a estrela, misto de papagaio de papel ao sabor do vento, e de astro rútilo que traça no céu um poema. Por baixo, os meninos espreitam e guiam “A Estrela que será a próxima, a própria “estrela dos meninos” (…).“287.
Para concluir, a sensação que nos ficou é a de que os textos de Giraldes abafam o sentido plástico e o hipotético valor estético e histórico das obras, pois entre uma argumentação de pretensões formalistas e tecnicistas desenquadradas e uma escrita impressionista provinciana e muito pouco sedutora, resta um discurso demasiado simplista e amador para o que a época demandava. Assim, ocontributo do crítico não nos parece de todo relevante para as transformações que, na nossa década de estudo, se operaram na arte e no seu campo. Tão pouco, pelo menos disso não encontrámos vestígios, consolidou o escultor um ethos artístico ou intelectual marcante (algo que poderia não ter alcançado por via da escrita, mas que poderia ter alcançado através de obra plástica, da participação em acções e projectos culturais relevantes, ou através da vinculação a instituições actuantes e inovadoras do circuito artístico).
286 Giraldes, Júlio - Escultura e cerâmica de Mário Silva. Jornal de Letras e Artes. Nº 122. 29 jan. 1964, p. 13.
166
2.3.v. A contibuição de Júlio Giraldes para uma descentralização da crítica de arte e o contencioso com Fernando Pernes
Não obstante as debilidades apontadas à sua escrita crítica, Júlio Giraldes publicou cerca de vinte e um artigos no “Jornal de Letras e Artes”, através dos quais assegurou que muitas das exposições realizadas no Porto, entre 1962 e 1964, constassem nesse veículo cultural lisboeta.O facto dos seus comentários serem algo anacrónicos, de serem intermitentemente publicados e deusufruírem de um espaço editorial reduzido por comparação aos outros críticos responsáveis pela “DAP” (e que por norma se ocupavam das exposições realizadas em Lisboa) não lhe retira o mérito de ter ajudado a romper com a tendência centralista que a arte e os seus agentes ainda evidenciavam na década de 60.
Poder-se-ia inferir que seria o próprio “JLA” a cultivar uma política centralista, contudo, até certo ponto justificada,atendendo ao factoda maioria das exposições surgirem em Lisboa, onde se concentravam a globalidade das Galerias existentes na década (em 1964, Lisboa tinha sete galerias a funcionar enquanto no Porto existam apenas quatro)288 e onde estavam sediadas as entidades culturais de maior peso (caso da
F.C.G, da SNBA,etc.). Por tudo isto, não é de estranhar que muitos dos críticos, oriundos do Norte de Portugal (Rui Mário Gonçalves inclusive tem a mesma origem de Giraldes – Abragão), se tenham concentrado em Lisboa, justificando-se a questão por uma tradição política e cultural de raiz, algo que levaria largos anos a alterar-se. Um dos personagens que irá ter papel preponderante nesta alteração é Fernando Pernes, ao inverter essa lógica migratória, (tendo nascido em Lisboa, mudou-se para o Porto em 1973, onde permaneceu até à sua morte em 2010, tendo um peso impar na instauração de instituições e eventos cruciais para a divulgação da arte contemporânea na cidade).Ironicamente,seria Pernes (que começaria a assinar a rúbrica “Das Artes Plásticas” em finais de 1964, substituindo Alfredo Margarido289) a despoletar uma
controvérsia com Giraldes relacionada com a centralização artística. A questão foi
288 Em 1964, as galerias a funcionar em Lisboa eram a Gravura (Cooperativa Gravura), a Diário de Notícias, o Palácio Foz (S.N.I.), a Galeria da S.N.B.A., a Divulgação , a 111 e a Interior. No Porto existiam a Dominguez Alvarez, a Divulgação e a galeria do Ateneu Comercial do Porto
289 Fernando Pernes, inicia a crítica às exposições de Lisboa, na rúbrica “DAP” no nº 162 do JLA, publicado a 4 de Novembro de 1964, essa colaboração estender-se-ía com alguma regularidade até Outubro de 1966.
167
tornada pública através das duas cartas trocadas nessa mesma publicação, respectivamente a 9 de Dezembro de 1964290e a 23 de Dezembro de 1964291. A
“Resposta à carta aberta de Fernando Pernes”, seria a última publicação de Giraldes no jornal, após a última crítica publicada uma semana antes na secção “DAP”. A carta de Pernes remete directamente para questões relacionadas com a oposição entre artistas e críticos de Lisboa e Porto, onde acusa literalmente Giraldes de regionalismo - “(…) num tempo de universalidade, são ridículos todos os regionalismos. Diz Giraldes: que o Lanhas, o Nadir e o Resende expunham pintura que ia muito além da dos então surrealistas-vanguardistas do Sul?”292.Giraldes responderia com alguma animosidade às
acusações de Pernes, sustentando com alguns factos que uma situação de centralismo era inegável.
Assim, apesar da pouca ou nenhuma importância que as críticas de Júlio Giraldes possam ter tido para a mudança de paradigmas artísticos na década de 60 e para a profissionalização da própria crítica nesse contexto, não quisemos deixar de o referir, não só pelo facto de integrar o grupo de colaboradores do JLA mas também pelo facto de aí evidenciar que o Porto, embora sendo sido relegado na época para segundo plano neste processo (por questões, como já referido mais logísticas e estruturais do que por falta de talento e de vontade), não se conformou com tal situação,reagindo-lhe. Ao nível da crítica é incontornável que, bem ou mal, Giraldes acrescentou algo à manifestação desse inconformismo, contribuindo, ainda que sem consequências directas assinaláveis ( e eventualmente até de forma errática – como entendeu Fernando Pernes) para o desvanecer dessa hegemonia.