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290 Cf Pernes, Fernando – Carta aberta a Júlio Giraldes.Jornal de Letras e Artes. Lisboa. Nº 167. 9 dez 1964, p. 6

291 Cf Giraldes, Júlio – Resposta à carta aberta de Fernando Pernes. Lisboa. Jornal de letras e Artes.Lisboa. Nº 169. 23 dez 1964, pp. 7 e 10

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2.4.i.Nota biográfica e percurso académico-profissional

Nascido em 1928 em Moimenta, Alfredo Margarido estudouna Escola de Belas Artes do Portoeexpôs pontualmente, enquanto artista plástico, entre 1954 e 2009. Apesar de manter esta actividade praticamente até à sua morte, em 2010, é todavia, na área da escrita social e políticae dos estudos e crítica das culturas africanas,que o autor se tornarelativamente notável293.A sua obra literária estende-se do ensaio à poesia, da

tradução ao romance e àpublicação jornalística. Por questões políticas, escreveu ainda, com os nomes de Lúcio da Câmara, Paulo Saraiva, Manuel Kimbanda, etc294.Devido à

sua obra poética,e também em consequência de relações esporádicas que manteve com os sucessivos grupos que se reuniam no Café Gelo: primeirocom os elementos da futura“KWY” (onde Margarido viria a colaborar com o ensaio «Deformação e desagregação na pintura contemporânea», publicado no número 6 da revista em Junho de 1960) eposteriormentecom a 2ª geração de“Os surrealistas”295, que também lá

passaram a reunir-se em torno de Cesariny (Margarido é referido por Helder Macedocomo a pessoa que, hipoteticamente, poderá ter ligado Cesariny aos KWY e ao

293 Mesmo na área da escrita Alfredo Margarido continua a ser um autor relativamente desconhecido. Sendo, talvez injustamente, referenciado com brevidade na História da Literatura Portuguesa de António José Saraiva e Óscar Lopes ( consultou-se a 2ª ed.corrigida da Porto Editora (s/i de data) e não se encontrou qualquer referência, já na 7º ed.,corrigida e actualizada, (s/i de data) encontraram-se três breves referências, sem grande expressão, nas págs. 1075, 1165 e 1175), esta situação deve-se, por exemplo segundo Diogo Ramada Curto, a uma carreira e obra que embora vastas e profícuas “foram dispersas e nunca sistematizadas”, CfCurto, Diogo Ramada –Combates Cruzados. Alfredo Margarido: Um pensador livre e crítico. Lisboa: Biblioteca Nacional de Portugal. 2012 p. 53., sobretudo até à data em que a Biblioteca Nacional lhe presta homenagem com a exposição e livro “Alfredo Margarido – Um pensador livre e crítico”. Livro onde vários autores lhe reconhecem um vasto talento em várias áreas da escrita e do ensino, e onde, entre outros, Daniel Lacerda justifica ainda a invisibilidade de Margarido nos seguintes termos: “ A edição em livro, que se inicia presentemente, deverá suscitar uma nova e surpreendente apreensão do contributo que Alfredo Margarido prestou à cultura portuguesa e lusófona. Pois a sua invulgar e corajosa postuta assentava numa matriz de autonomia ede grande sensibilidade à expressão literária e artística, havendo integrado as influências dopensamento mais avançado do Ocidente – do marxismo, ao freudismo e ao estruturalismo. Por isso mesmo, não foi até hoje creditada pelo establishement como outros ensaístas contemporâneos, antes permanecendo evenescente numa franja marginal – para alguns maldita – o que não deixaria certamente de apreciar, sabemdo-se que a obra que possui mais leitores raramente é aquela que abriga maior originalidade.”, inLacerda, Daniel. - Alfredo Margarido e a revista Latitudes. Alfredo Margarido: Um pensador livre e crítico. Lisboa: Biblioteca Nacional de Portugal. 2012, p. 51.

294 Cf Henrique, Isabel Castro – “Porta entreaberta”…de Alfredo Margarido. Alfredo Margarido – Um pensador livre e crítico. Lisboa. Biblioteca Nacional de Portugal. 2012, p. 20.

295 “Os Surrealistas” foi o grupo formado pelos dissidentes do “Grupo Surrealista de Lisboa” lançado por Cândido Costa Pinto em 1949 (entretanto, expulso de imediato) e dissolvido após a exposição realizada em 1949, na Jalco. Os dissidentes acabariam por permanecer activos, no panorama artística, durante maisuns anos, pois, enquanto José-Augusto França continuou a enfatizar, nos anos 50 e 60, os efeitos do “Grupo Surrealista de Lisboa”, numa perspectiva mais estética e formalista e sobretudo no âmbito das artes plásticas, o grupo dos dissidentes “Os Surrealistas” continuaram no activo, num âmbito mais multidisciplinar, libertário e situacionista. Relacionando a cultura com o quotidiano, seguindo a raiz dadaísta e autores menos submetida às directrizes bretonianas, casos, entre outros, de Antonin Artaud e do percursor Alfred Jarry. Os dissidentes continuaram ligados entre si por via de diferentes práticas, que muitas vezes cruzavam – a poesia e a literatura seriam das mais importantes, tal como as artes plásticos, embora também editores, filósofos, críticos culturais, dramaturgos, tivessem apoiado e integrado os seus projectos etc.. “Os surrealistas” dissidentes eram constituído por muitos dos intelectuais que se reuniam no Café Gelo, dos quais uma número significativo ainda colaborou com a revista “Pirâmide”.

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Café Gelo296).Margarido é ainda aliadoà consequente colaboração de Cesariny com

Carlos Loures e com a revista “Pirâmide”297 (considerada com a publicação mais

emblemática da 2ª geração surrealista do Café Gelo a seguir às “Folhas de Poesia”),sendo incluído no capítulo “A margem do surrealismo ortodoxo” na tese “O surrealismo em Portugal” de Maria de Fátima Marinho298.

296 Em artigo sobre a dinâmica que animou e relacionou os sucessivos grupos que passaram pelo Gelo, entre meados dos anos 50 e princípio dos 60, é citada em nota final um testemunho de Helder Macedo. “ um dos primeios protagonistas e estudioso do Café Gelo”,que equaciona a possibilidade de ter sido Alfredo Margarido quem leva pela primeira vez cesariny ao Gelo. Cf Franco, António Cândido – O Grupo do Café Gelo: Do princípio ao fim. A IDEIA/ Revista de Cultura Libertária. Évora. II Série.Vol 17. Nsº 73/74. Nov. 2014, pp.. 117 -121.

297 A “PIRÂMIDE – Cadernos de publicação não periódica” foi uma publicação organizados por Carlos Loures e por Máximo Lisboa. Foram editados três números apenas, entre Fevereiro de 1959 e Dezembro de 1960, em Lisboa. Para informação mais detalhada sobre o contexto em que a revista surge e evoluiu, bem como sobre os seus conteúdos e colaboradores cf. PIRES, Daniel, Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa do Século XX (1941-1974), volume II, 1º tomo, (A-P), Lisboa, Grifo, 1999. In Hemeroteca Digital de Lisboa (2016). Reprodução da página nº. 46 do Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa do Século XX (1941-1974), volume II, 1º tomo, (A-P), Lisboa, Grifo de Daniel Pires [Fichas históricas da HDL: referência à publicação Pirâmide de Loures e Lisboa]. Disponível em http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/FichasHistoricas/Piramide.pdf (Consultado a 14-09-2016)

A participação de Alfredo Margarido no Nª 3, a desvinculação que a revista marca neste número relativamente à ortodoxia surrealizante de Mário Cesariny (que organizou na sua totalidade o nª 1 da revista - 1959) e de alguns elementos da 2ª geração dos surrealistas do Gelo, café onde o projecto foi gerado, bem como ainda o deslocamento de Carlos Loures das alas surrealista para as neo-realistas, encontram-se mencionados em artigo publicado na “Ideia” em Novembro de 2013.

Cf Simões, Manuel G. – Carlos Loures, a Pirâmide e o Grupo Surrealista do Café Gelo. A IDEIA/ Revista de Cultura Libertária. Évora. II Série.Vol 16. Nsº 71/72.. Out. 2013, pp.189-192

A referido afastamento de Carlos Loures do surrealismo, ao longo da década de 60, dará origem a uma troca de artigos, entre ele e Mário Cesariny, publicados no JLA. Cf. Cesariny, Mário – Nota sobre Carlos Loures. Jornald de Letras e Artes. Lisboa. Nº 231. “ mar. 1966, p. e Loures, Carlos – A propósuto da nota de Mário Cesaryni. Jornal de Letras e Artes. Lisboa. Nº 232. 9 Mar. 1966, p. Na origem desta troca de animosidades, terá estado a publicação de 4 artigos de Carlos Loures no Jornal de Letras e Artes, ao longo de 1963, com o título “Demónios do Absurdo”, o caso é referido com algum detalhe por Manuel Simões, cf. idem, ibidem, p. 191. 298 “Registamos apenas os nomes de alguns autores que, na apreciação de Maria de Fátima Marinho, são considerados “Surrealistas sem Escola”: Mário Saa, Vitorino Nemásio, Edmundo de Bettencourt, Manuel Lima e Jorge de Sena (1987,p.157-186) e referiremos alguns autores que, nunca tendo feito parte de nenhum dos grupos surrealistas apresentam inequivocamente influências e características surrealistas. Continuamos a seguir de perto o levantamento de nomes feito pela mesma autora na sua obra O Surrealismo em Portugal, os quais se apresentam organizados em três “secções”, no capítulo “À Margem do Surrealismo Ortodoxo”. Na primeira são referidos os nomes de Isabel Meyrelles, Fernando Lemos, Alfredo Margarido, Ruben A.; na segunda, os nomes mais próximos da corrente do Abjeccionismo que marca “um regresso ao desígnio de contestação e destruição característico dos dadaístas, a um sentido de derisão, desespero ou, até, agressão que vem retomar aquele espírito de empenhamento revolucionário que é próprio do Surrealismo” (Guimarães, 1992,p.172).” In Maria da Natividade Pires: s. v. “Surrealismo, Ceia, C. (s/d). In E-Dicionário de Termos Literários. Disponível em http://www.edtl.com.pt (Consultado a 31-03-2013).

Margarido é referido na tese de Maria de Fátima Marinho em excertos dispersos, dos quais apresentamos alguns :

A primeira referência é nos agradecimentos (p. 8) seguida da indicação da participação do autor na realização de um cadáver esquisito, publicado na “Antologia Surrealista” : “São os seguintes os textos que compõem o livro Antologia Surrealista do Cadáver Esquisito; (…) «O Cadáver Esquisito e a Colónia Penal» («Homenagem a Franz Kafka» — Alfredo Margarido, Carlos Eurico da Costa);” (p.33). Referências mais sistemáticas surgem no sub-capítulo – “3. últimas actividades do surrealismo como grupo. Actuações individuais” (p.96-113) no qual a autora expõe detalhadamente as incompatibilidades e quezílias entre os elementos ligados ao Grupo Surrealista de Lisboa (formado por J.-A. França e à volta do qual gravitam O'Neill, Dacosta, António Pedro, Fernando de Azevedo, João Moniz Pereira e Vespeira) e os surrealistas dissidentes, encabeçados por Cesariny (e agregando Cruzeiro Seixas, Pedro Oom, António Maria Lisboa etc…), e por fim mesmo entre elementos dos dissidentes. Não obstante a temática tratada no ponto, Margarido é apenas referido pela participação discreta em algumas publicações e pela edição de obra poética e de crítica literária sua:

- “1953 é sobretudo assinalado pela publicação de várias obras de autores surrealistas ou surrealizantes: Manuel de Lima, Malaquias ou a História de um Homem Barbaramente Agredido299, Mário Cesariny de Vasconcelos, Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos300, António Maria Lisboa, Isso Ontem Único301, os dois últimos Afixação Proibida302, Alfredo Margarido, Poemas com Rosas 303 [303 Lisboa, Edições “Árvore”], Fernando Lemos, Teclado Universal304 e a primeira antologia que inclui, além de outros autores, nomes ligados ao surrealismo, “Doze Jovens Poetas Portugueses” e “Cadernos de Poesia”304.[304 org. e prefácio de Alfredo Margarido e Carlos Eurico da Costa, Rio de Janeiro, Os Cadernos de Cultura, Ministério da Educação e Saúde, Serviço de Documentação, 1953. Desta antologia fazem parte: Alberto de Lacerda, Alexandre Pinheiro Torres, Alfredo Margarido, António Maria Lisboa, Carlos Eurico da Costa, Carlos Wallenstein.” ( p. 96)

– “Ë ainda em 1959 que se publicam os dois primeiros números da revista Pirâmide (Fevereiro e Junho) que conta com a colaboração de elementos ligados ao surrealismo.(…) Em Dezembro do ano seguinte sai o 3.° e último número com um texto de Máximo Lisboa, «Iconoclasia»; Poemas de Edmundo de Bettencourt; uma «Nota sobre os 'Poemas Surdos'», de Edmundo de Bettencourt por Alfredo Margarido;(…)”( p.102-103.)

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Também o associa ao movimento a actividade exercida em Angola, na segunda metade da década de 50, em prol do estabelecimento de um pólo surrealista em Luanda,onde se integram as duas exposições de Artur Cruzeiro Seixas (a primeira realizada em Novembro de 1953 e uma segunda em Junho de 1957) cujas críticas publicadas em jornais, para além da participação directa em intervenções relacionadas sobretudo com a exposição de 1957, valeram de imediatoao crítico a expulsão de Angola, e a proibição de lá voltar pelo governador-geral. De seguidadá-se também a expulsão de Cruzeiro Seixas no início dos anos 60299.

Dos seus ensaios sobre literatura, gostaríamos de referir “O novo romance”, obra escrita em parceria com Artur Portela Filho (1937), pelo facto de Margarido, dada a obra, serconsiderado um dos responsáveis pela introdução teórica do nouveau romain em Portugal,contudo, é sobre a sua actividade como crítico de artes plásticas, exercida com regularidade semanal a partir de Dezembro de 1963 e durante todo o ano de 1964 no “Jornal de Letras e Artes”, ao assinar a rúbrica “DAP”-“Das Artes Plásticas”, que nos iremos debruçar infra, não obstante o autor ter publicado artigos sobre arte noutras publicações300.

2.4.ii. O humanismo existencialista em Alfredo Margarido – Jean-Paul Sartre