O processo de aquisição da Linguagem decorre, na perspetiva de Vygotsky, nas seguintes fases:
1º) A criança entra em contacto com o ambiente social, processo que ocorre de forma exterior, ao nível interpessoal através da sociabilidade e da interação social;
2º) A criança entra em contacto com ela própria, num nível intrapessoal. “ O fator que continua a ser fundamental neste período, é o facto da criança se guiar não pelas conexões objetivas presentes nas próprias coisas, mas por conexões subjetivas que lhes são dadas na sua percepção” (Vygotsky, ibidem:165).
3º) A criança recorre ao sistema de signos e aos instrumentos de cultura e da história, desenvolvendo as funções mentais superiores (Vygotsky, 2007; Ivic, 2010);
Para Vygotsky, o instrumento e o signo é tudo o que se interpõe entre o homem e a natureza, para ampliar e modificar a sua ação e criar estruturas de sentido (Vygotsky, 2007:162). É por intermédio dos instrumentos que os seres humanos estabelecem a mediação simbólica com o mundo; o transformam e se transformam. E é por intermédio dos signos - considerados por Vygotsky como instrumentos psicológicos - que os seres humanos modificam as funções mentais superiores. “A história do
desenvolvimento das funções mentais aparece, pois, como a história do processo de transformação dos instrumentos do comportamento social em instrumentos de organização psicológica individual”(Ivic, 2010).
Segundo Vygotsky, a linguagem é o sistema de signos mais importante para o homem, e é através dela que a criança se apropria dos objetos à sua volta, e das significações socialmente construídas, através de “conexões sincréticas”, isto é, “um amontoado
sincrético e desordenado de objetos que se formam com o auxílio da palavra.”(Idem, 2007:164) A criança que anteriormente solucionava o problema impulsivamente resolve-o, agora, através de uma conexão estabelecida internamente entre o estímulo e o signo auxiliar correspondente. O sistema de signos reestrutura a totalidade do processo psicológico, tornando a criança capaz de processar conhecimento e reconstruir o processo de escolha em bases totalmente novas. (Vygotsky, 2005:27) O essencial, no processo de desenvolvimento, não está no progresso de cada função tomada isoladamente, mas na mudança de relações entre diferentes funções, tais como a memória lógica, o pensamento verbal. O desenvolvimento consiste em formar funções compostas, sistemas de funções, funções sistémicas, sistemas funcionais. (Ivic, 2010: 19). Dentro desta perspetiva, a linguagem falada (fala), tem um papel específico na história do desenvolvimento da criança. Como o desenvolvimento do pensamento é determinado pela linguagem, isto é, pelos instrumentos linguísticos do pensamento e pela experiência sociocultural da criança. No essencial, o desenvolvimento da fala interior, depende de fatores externos (ambientais). O crescimento intelectual da criança, depende do seu domínio dos meios sociais do pensamento e da linguagem. (Vygotsky, 2007:131,132)
De acordo com Wygotsky, a criança inicialmente organiza-se por intermédio do raciocínio prático, mas com a aquisição da linguagem, “uma função organizadora
específica invade o processo do uso de instrumento e produz formas fundamentalmente novas de comportamento” (Vygotsky, 2007: 33). O que o leva assinalar que “a fala tem
um papel essencial na organização das funções psicológicas superiores”. Na obra, “A Formação Social da Mente”, Vygotsky afirma:
“A fala da criança é tão importante quanto a ação para atingir um objetivo (…) a fala e a ação fazem parte de uma mesma função psicológica complexa, dirigida para a solução do problema em questão. Quanto mais complexa a ação exigida pela situação e menos direta a solução, maior a importância que a fala adquire na operação como um todo (…). Essa unidade de percepção, fala e ação, que, em última instância, provoca a internalização do campo visual, constitui o objeto central de qualquer análise da origem
das formas caracteristicamente humanas de comportamento.”(Vygotsky,2005: 21)
O momento de maior significado no processo de desenvolvimento intelectual - que dá origem às formas puramente humanas de inteligência prática e abstrata - acontece quando a fala e a atividade prática - então duas linhas completamente independentes de desenvolvimento - convergem. Assim que a fala e o uso de signos são incorporados à ação, esta transforma-se; reorganiza-se; transmuta-se e segue vias absolutamente novas. No trabalho experimental descrito em “A Formação Social da Mente”, Vygotsky constata que o uso de signos auxiliares interfere nos próprios processos de escolha das crianças, no sentido em que torna possível novos tipos de comportamento: o movimento – que era no início indissociável da percepção direta dos objetos e da realidade – altera-se e submete-se ao controle das funções simbólicas incluídas na resposta de escolha. Esse desenvolvimento representa a transição do comportamento inicial para as atividades intelectuais superiores dos seres humanos. (Vygotsky, 2007:130-138; 267-273)
Antes de controlar o comportamento, a criança começa a controlar o ambiente com ajuda da fala. Isso produz uma nova organização do próprio comportamento, para além de novas relações com o ambiente. A criação dessas formas humanas de comportamento está na origem do pensamento e constitui a base da ação transfiguradora, da criação de objetos e do trabalho produtivo: a forma especificamente humana do uso de instrumentos. (idem, 2005:62), originado o “salto dialético”e a construção ampla do sentido (Vygotsky, 2007: 43), da realidade refletido na consciência. “o sentido é uma parte inseparável da palavra e pertence não só ao
domínio do pensamento, mas também ao domínio da linguagem”.
O método utilizado por Vygotsky não dissociou da investigação do pensamento e da Linguagem “outros aspetos da vida da consciência, como as emoções e“a conexão
entre intelecto e afeto” (idem, 2007:47), no pressuposto de que o pensamento não pode ser “divorciado da plena vitalidade da vida, dos motivos, interesses, e inclinações do
sujeito pensante”; pressupõe que se identifiquem necessidades, incentivos e tendências sob o risco de se transformar num “epifenómeno inútil”.