2.5. Eserin Hazırlanmasında Esas Alınan Kaynaklar
2.5.2. Kitâbu’l-Emṣal'de Rivayet Ettiği Hocaları
Através de um narrador que conta uma história de que não participa, o leitor é envolto num discurso metaficcional, abordando o processo de constituição da própria ficção. Ele prega a necessidade de um novo romance, que atenda às necessidades daquele contexto, traçando um esboço do que caracteriza essa nova forma de sua constituição.
Nas duas páginas seguintes, a narradora entabula conversa com a leitora, tratando de aspectos que particularizam a reação dos indivíduos, em face de situações diárias. Menciona, para isso, aquilo que chama de “noções da psicologia positiva”:
É possível que a leitora que folhear estas paginas conheça algumas noções da psychologia positiva que se esforça a não perder de vista a combinação da physica com a moral, do agente e da acção, considerando o tecido nervoso, o tecido por excellencia. Para conhecer-se o temperamento de qualquer indivíduo, a sua energia elástica e vital, e até mesmo para julgar do seu valor individual, bastará medir exactamente por elle o systema nervoso nos diversos modos de acção e reacção combinados com a noção do volume do centro dos mesmos (SABINO, 1891, p. 264).
Lembremos que, até o final dos anos 80, do século XIX, a psicologia estava intrinsecamente atrelada à filosofia, tendo em vista que foi justamente neste campo de conhecimento que ela nasceu. Naquela época, influenciados pelo ideário positivista, defensor do cientificismo, alguns psicólogos33, na Alemanha, patronos da aplicação do método científico nos estudos da física, da fisiologia e da química, decidiram criar uma Psicologia positivista, através da qual fosse possível analisar, à luz da ciência, os processos psicológicos humanos, assegurando, por conseguinte, maior credibilidade aos seus estudos.
Esse movimento eclode na Alemanha, sendo liderado por alguns pesquisadores que realizavam experiências com pessoas, levando em consideração, apenas, aquelas reações passíveis de serem medidas e percebidas. Imbuídos desse propósito, eles criaram métodos para medição de reações humanas, num movimento visto como o nascimento da Psicologia científica.
Ao trazer, para o plano literário, aspectos científicos do comportamento humano, a narrativa em questão faz um retrato mais materialista da vida em sociedade, baseando-se em teorias cientificistas em projeção, naquele período, o que evidencia uma influência realista, com toques naturalistas, na composição da trama, especificamente nessas passagens metatextuais, que fornecem explicações ancoradas na ciência, no determinismo e na influência do ambiente e da herança na vida dos indivíduos.
Depois de argumentar cientificamente sobre o comportamento humano, a narradora defende a necessidade de o indivíduo dar “preferência ao que emana da razão”, tendo em
33 Wilhelm Maximilian Wundt (Neckarau, 16 de agosto de 1832 — Großbothen, 31 de agosto de 1920), médico, filósofo e psicólogo alemão e um dos fundadores da moderna psicologia experimental, juntamente com Ernst Heinrich Weber (1795-1878) e Gustav Theodor Fechner (1801-1889). Maiores explicações sobre a Psicologia positiva, vide o artigo intitulado “Psicologia humanista no Brasil”, de W. B. Gomes, A. F. Holanda e G. Gauer, disponível em: http://www.ufrgs.br/museupsi/brasilpsio.htm.
vista que “as emoções [...] privão a intelligência de agir com certa presteza” (SABINO, 1891, p. 265). Essa discussão nos remete, de imediato, para Lutas do coração e sua defesa da prevalência da razão, nos assuntos do coração, que é o tema de seu enredo.
Quando começa a narrar os fatos que dizem respeito à vida da protagonista, a narradora finge distanciamento, mas, pelo teor daquilo que vai informando, ela revela um pouco de si, demonstra ser culta, ter um espírito aguçado e uma língua ferina, que não hesita em criticar o sistema político, a legislação brasileira, bem como a hipocrisia de uma sociedade que perpetua uma hegemonia masculina.
A narradora, citando Lamennais, mostra às suas leitoras a discrepância entre o pensamento filosófico dele e o que reza as leis brasileiras, no que diz respeito à traição. Trazendo à baila o ocorrido com Corbella, sistematicamente traída pelo visconde, a narradora apresenta razões que comprovam o tratamento diferenciado e injusto, a depender de quem seja o cônjuge que cometa esse ato:
Diz Lamenais [sic]34 que o matrimonio só tem uma phase: “a moral, que deveria ser imposta com preceitos iguaes para ambos os cônjuges”. É lógico isso, razoável, mas impraticável pelas leis estabelecidas pelo Codigo Penal e Social. D’ahi, veja-se: o homem que tem a seu favor a liberdade, a acção, faz o que lhe parece, se trahe a esposa deixando-a na penúria, infamemente, a sociedade está sempre prompta a desculpal-o e a apontar-lhe a regeneração no futuro, que o tornará então um homem de bem. Se porém vê-se illudido, a lei faculta-lhe ainda o direito de matar aquella que o trahio, porque sujou-lhe o nome, emporcalhou-lhe a honra. Indo preso, ou entregando-se à prisão que é de melhor effeito, sob o manto da mesma lei, sahe absolvido, victorioso, dizendo a sociedade que elle é um homem de bem, que cumprio com o seu dever (SABINO, 1891, p. 274-275).
Em continuação, a narradora mostra o avesso da situação, quando o crime passional é protagonizado pela mulher:
A mulher tudo a fere, sei. A bem da sua dignidade é que deve manter-se sempre no seu papel de senhora, para não cingir-se ao de escrava, porque, a matar ella o marido n’um caso fortuito, levada pelo desespero do ciúme seria simplesmente reputada uma assassina infame, concordando eu que, sendo a mesma fraca, nunca ao seu todo gracioso e gentil estaria bem o alfange de uma Judith35, estampada numa mulher da actualidade (SABINO, 1891, p. 275).
34 Hughes Félicité Robert de Lamennais, padre, filósofo, escritor e político francês, uma figura controversa que buscou a conciliação entre o Catolicismo e a política liberal, após a Revolução Francesa.
35 Pelo contexto, por se tratar da defesa da emancipação feminina e da denúncia em relação a casamentos impostos, provavelmente a narradora faça referência a Judith, filha de Shakespeare e irmã gêmea de Hamnet. Ela se casou contra a vontade do pai que, contrariado, alterou seu testamento. Em Lutas do coração, também há uma referência a Judith, quando a mãe da protagonista, na véspera das suas núpcias, dá-lhe conselhos em relação à vida conjugal, finalizando: “Torna-te em uma Judith moderna” (SABINO, 1898, p. 332). Outra possibilidade pode ser uma relação com a personagem bíblica Judite, do livro homônimo, constante do Velho Testamento, da Bíblia Católica. Judite conduziu o povo israelita à vitória contra o exército do rei Nabucodonosor, comandado pelo príncipe Holofornes. Viúva, bela, sábia e extremamente fiel ao Deus de Israel, engendrou a morte de
A narrativa apresenta, no cenário literário, um assunto que, desde o Brasil-colônia, suscita polêmicas, pois, nesse período, o assassinato da mulher adúltera era admitido pela lei portuguesa, algo que não valia em caso inverso, ou seja, a mulher traída não tinha os mesmos direitos garantidos por lei, recebendo, portanto, um tratamento diferenciado.
Num jogo de palavras, a narradora faz um contraponto entre o que reza a legislação brasileira e os princípios cristãos. Ela explicita como nossos códigos, penal e social, ratificam a supremacia masculina, diferentemente da doutrina cristã, que prega a igualdade entre os gêneros:
O sábio que veio ao mundo resgatar a mulher, tirando-a da torpeza em que vivia como cousa, plantou-lhe a igualdade de par com o seu másculo companheiro. Igualdade, por confraternisação e caridade, foi essa a doutrina de Jesus (SABINO, 1891, p. 275).
Essa desigualdade de direitos, oriunda de uma sociedade amparada no patriarcado, dava, aos homens, poder sobre as mulheres, respaldando um sentimento de posse exercido, disseminado e perpetuado, por muito tempo. Além disso, a honra masculina era associada ao comportamento feminino, chegando-se ao cúmulo de justificar o assassinato daquelas que traíssem seus maridos.
Lana Lage (2012) apresenta essa criminalização do adultério como um exemplo contundente da banalização da violência contra as mulheres, reflexo dessa ideologia patriarcal. Ela comenta que os códigos de 1830 e de 1890, bem como a Consolidação das Leis Penais, de 1932, tratam o adultério da mulher casada como passível de punição de um a três anos de reclusão, o mesmo só se aplicando ao marido quando ele promovesse a manutenção da concubina “teúda e manteúda”. Ou seja, para o homem, a lei; para a mulher, os rigores desta mesma lei. Para ele, era permitida a manutenção de relacionamentos extraconjugais, desde que não provesse abertamente o sustento da amante, o que tornava essa legislação, no mínimo, perniciosa e desigual, com tratamentos diferenciados em função do gênero36.
Iáris Ramalho Cortês (2012) explica que, no Brasil, essa desigualdade penal é mantida por muito tempo e em várias fases da sociedade brasileira. No período do Brasil Colônia, nas Ordenações Filipinas, que vai de 1603 a 1830, o adultério era considerado um crime contra a Holofornes que, seduzido ante sua beleza e astúcia, foi por ela decapitado, o que viabilizou a vitória do povo de Israel. Disponível em: http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/judite/15/#.U_8i4fldWpQ. Acesso em 26 de agosto de 2014.
36 A lógica provável, para a discrepância é que, o homem usaria seu próprio dinheiro. Como a mulher, em geral, não produzia rendas, transferiria o dinheiro do marido para o amante.
segurança do estado civil e doméstico, cabendo a indulgência ao marido que matasse a esposa adúltera, por se entender que ele não estava cometendo crime, mas defendendo legitimamente sua honra.
Em 1830, essa disparidade, no tratamento entre os gêneros, ainda se reflete na legislação, uma vez que o Código Penal do Império pune a mulher adúltera com prisão de um a três anos. Esse mesmo entendimento é mantido no Código Penal de 1890 e, em 1932, na Consolidação das Leis Penais. Somente em 2005 essa prática do adultério deixa de ser considerada crime, na legislação penal do Brasil.
Na verdade, tratando-se de relacionamento conjugal, as alternativas para a mulher eram, no mínimo, limitadas. Sob a égide de um rígido controle masculino, ela saía do domínio paterno para o do marido, numa relação baseada, na maioria dos casos, em interesses puramente comerciais, na qual o amor e o prazer pouco ou nenhum valor tinham, já que a finalidade primeira era a procriação, algo que fica bem evidente na narrativa. Corbella tinha tudo, menos o amor:
Olhou em roda: o boudoir era caprichosamente adornado; o palacete, mobiliado com luxo; as carruagens, optimas; a criadagem, escolhida; boa capa, boa adega. Nada mais faltava-lhe, a não ser o amor, a confiança que elle não lhe despertava, e que ella não lh’a pedia, por não lhe ser isso facultado (SABINO, 1891, p. 267).
Essas digressões da protagonista corroboram para pôr o leitor em alerta, para, no mínimo, fazê-lo enxergar aquela relação matrimonial desastrosa sob outra ótica, mesmo naquele contexto histórico ainda desfavorável aos direitos femininos, com respaldo do próprio Código Civil, preconizador de uma relação conjugal de subordinação e dependência da mulher que estava, do ponto de vista legal, alijada de quase todos os atos civis e que, mesmo sob a Constituição de 1891, ano da publicação do livro Contos e lapidações, que preconizava serem todos iguais perante a lei, contudo, esse rol não incluía as mulheres e, vinte e cinco anos depois, em 1916, o Código Civil ainda as tratava como alguém “relativamente incapaz” (CORTÊS, 2012).
Hahner (2012) comenta que as mulheres eram consideradas perpetuamente menores pelo código civil oitocentista, só podendo assumir os negócios familiares quando enviuvassem, como forma de preservação dos bens familiares. Como Corbella tinha apenas vinte anos, ao se casar com o visconde bem mais velho, ela denota a preocupação com a não dilapidação do patrimônio que assumirá, quando ele morrer, algo que ela prevê por causa da
vida dissoluta e os gastos excessivos que ele mantinha, principalmente em decorrência das despesas oriundas das relações extraconjugais. Ela se inquieta e diz:
Ao ficar viúva, o que restar-lhe-hia?
[...] O prodigo do marido sem duvida não teria feito ainda testamento, porque no tresloucamento em que vivia não julgava que a vida se assemelha a luz vacillante da vela que a crepitar, apaga-se de vez (SABINO, 1891, p. 267).
Como a história não é concluída, as leitoras ficam sem saber o que acontece com Corbella. Essa questão da viuvez feminina será retomada em Lutas do coração ([1898] 1999), quando a personagem Ofélia (ainda com o nome de batismo, Antonieta) enviúva e se vê pobre, em decorrência da gestão fraudulenta dos negócios, pelo seu marido, o comendador Bernardes.
Há um esforço da narradora para apontar as contradições desse tipo de situação e, na medida em que dialoga com a filosofia, a religião e a própria lei, a narradora respalda seu ponto de vista (claramente favorável a mudanças para o feminino) e, concomitantemente, busca desestabilizar, em seus leitores, certezas por ventura existentes.
Ao escolher uma narradora com essa representação, e tratar tal temática a partir da experiência feminina, Inês Sabino demonstra uma opção primordialmente política. Ela deixa de lado o excesso de subjetivismo e o apego melancólico ao passado, característicos do Romantismo, preferindo escrever sobre o tempo presente e as demandas da sociedade brasileira que emerge com uma nova face. Algo que, sem dúvida, vinha provocando alterações nos códigos familiares, sociais e legais, não podendo a literatura ficar à parte, sem promover reflexões sobre tais assuntos.
A narrativa de “Fragmento de um romance inédito” é suspensa, assim como começou: com pontilhados, numa inequívoca incompletude. Sete anos depois, a autora publica seu primeiro romance, Lutas do coração, com um enredo que nos permite enxergar algumas simetrias entre os dois textos. Em ambos, é possível identificar fios de uma mesma tessitura, enredos que dialogam entre si: casamentos entre mulheres muito novas e homens bem mais velhos, impostos pela família, em função de interesses financeiros; traições masculinas, sob a complacência da sociedade; mesma linguagem simples; presença de um discurso metaficcional, que condena os exageros do Romantismo e defende uma literatura problematizadora dos fatos cotidianos, voltada muito mais para as minúcias que levam à verdade, sem artificialização nem apego demasiado à emoção; personagens retratadas fielmente, em seus vícios, virtudes e defeitos.