Além desses elementos transtextuais citados, a metaficção é outro recurso empregado por Sabino, na tessitura da sua prosa. Tomamos este conceito de Linda Hutcheon (1984), quando ela trata da narrativa narcísica, aquela que faz evocações ao próprio ato de narrar. Nessa linha, o foco é direcionado, tanto para a ficção, quanto para além dela, numa relação que Hutcheon chama de narcísica: uma narrativa que traz, em seu bojo, tessituras sinalizadoras de sua própria narrativa identitária, deixando à mostra, para o leitor, pistas deste fazer ficcional.
Essa voz, que ousa interromper o narrado, é mediada pelo mundo da ficção e o mundo do leitor, numa relação dual, já que é possível, a ele, contemplar o mundo diegético esboçado na obra. Tal como Narciso, que ficou a mirar sua face refletida nas águas, o texto se debruça sobre si, preso em sua imagem narrativa. Consequentemente, permite ao leitor descortinar o percurso de criação literária, compreendendo o texto como um processo, do qual ele, leitor, participa ativamente, construindo sentidos e tirando ilações. A metaficção, portanto, é um recurso narrativo empregado por Inês Sabino tanto no conto, quanto na prosa romanesca.
Esse jogo metaficcional é um expediente empregado por alguns escritores que antecederam Inês Sabino, como por exemplo, Almeida Garrett e, no Brasil, Machado de Assis que, dez anos antes da publicação de Sabino, já se valera dessa estratégia. Constitui-se como um discurso voltado para si, dando pistas dessa escritura ficcional. Nesse sentido, o autor implícito busca estabelecer uma dialogia a partir do uso de recursos que possibilitam ao leitor enxergar a obra, não como produto pronto e acabado, mas como um processo que se constitui em diálogo constante, numa conexão firmada entre o ficcional e o universo do público leitor, configurando aquilo que Linda Hutcheon (1984) denomina de narrativa narcísica, que ela traduz da seguinte forma:
[....] Ficção sobre ficção – isto é, ficção que inclui em si mesma um comentário sobre sua própria identidade narrativa e/ou lingüística. “Narcisista” – o adjetivo qualificativo escolhido aqui para designar essa autoconsciência textual – não tem sentido pejorativo, mas principalmente descritivo e sugestivo, como as leituras alegóricas do mito de Narciso (HUTCHEON, 1984, p. 12).
O conceito em foco nos possibilita pensar numa leitura compartilhada, mediante a qual o leitor deixa de ser mero espectador para se tornar um coadjuvante, partícipe desse processo
de escrita que lhe é desvendado na própria narrativa; debruça-se sobre si, intertextualmente, para falar de si.
Compreendemos, por conseguinte, que um dialogismo é instituído e isso ocorre em duas frentes: horizontalmente, nos momentos em que o narrador entabula conversa com sua possível leitora; verticalmente, quando insere, ao longo da narrativa, essas reflexões que dialogam tematicamente com o fato em si (KRISTEVA, 1974). Esse modo de que Sabino se vale para tecer seu texto nos remete a um caminho de mão dupla que se imbrica, em um entrecruzamento de textos de distintas tessituras, transformando-os em um único, porém, híbrido de forma.
No conto “O dia de anno bom”, percebemos esse uso metaficcional da linguagem, quando a narradora faz menção à arte da escrita, na terceira parte do conto, dirigindo-se à leitora fluminense, com quem deseja firmar uma relação dialógica. Dialogismo que se mescla com um discurso metaficcional, no qual a narradora reflete sobre o ato da escritura, defendendo o seu direito de mergulhar naquele locus narrativo, levando consigo a sua leitora e possível cúmplice:
Com o direito da minha fraquíssima penna, que traça, risca, emmoldura quadros, pinta a opulência, descreve a miséria, desecca, ajudado do escalpello da razão, o cadáver pestilento do vicio, retalha a maledicência, faz jus à virtude, censura ou applaude o esforço da idea, entro comvosco em uma sala de visitas preparada com todo o confortable do indispensável a uma vida à ingleza (SABINO, 1891, p. 37).
A narradora quebra a linearidade do texto e tenta impelir a leitora a se distanciar da narrativa, enquanto objeto-arte, para conscientizar-se do fazer literário, imiscuir-se nessa história, não mais como mera espectadora, mas como testemunha dela.
No excerto anterior, a narradora falava sobre seu ato de escrita, advogando em causa própria e defendendo o direito, afiançado pela escrita, de entrar naquele espaço. Linguagem falando de outra linguagem, feita de outros fios que, juntos, formam uma mesma teia para atrair o leitor. Torna-se, desse modo, dupla, pois que “objeto e olhar sobre esse objeto, fala e fala dessa fala, literatura-objeto e metaliteratura”, como alude Rolland Barthes (2007, p. 28). Nesse caso, conforme Huctheon (1984), é a ficção que insere em seu corpo narrativo comentários sobre seu itinerário narrativo.
Ao optar por esse percurso metaficcional, Sabino delega para o conjunto de narradores a tarefa de deixar pistas textuais sinalizadoras do ato em si de narrar, enquanto processo, revelando e desvelando uma ficção que autoconscientemente esgarça seu percurso ficcional, as suas escolhas temáticas: um mundo invadindo o outro, uma linguagem discorrendo sobre a
outra, numa imbricação que captura o leitor para dentro desse constructo narrativo no qual a obra se desdobra como produto, mas também como processo, um mundo nutrindo-se do outro e se desnudando ao perscrutar do leitor.
Esse jogo metaficcional foi empregado por Almeida Garrett (1954), em Viagens na minha terra, capítulo cinco, quando o narrador explica aos seus leitores:
Sim, leitor benévolo, e por esta ocasião te vou explicar como nós hoje em dia fazemos a nossa literatura. Já me não importa guardar segredo, depois desta desgraça, não me importa já nada. Saberás, pois, ó leitor, como nós outros fazemos o que te fazemos ler (GARRETT, 1954, p. 38).
Tanto o narrador se dirige ao leitor, tratando-o afavelmente, quanto emprega um discurso metaficcional, quando trata da literatura na própria trama literária.
Na prosa sabiniana, isso também é perceptível. No conto “Seis dias no mar”, por exemplo, a trama enfoca o estabelecimento de uma amizade entre uma americana e uma brasileira, num cruzeiro que parte de Recife, capital pernambucana, para o Rio de Janeiro. Dirigindo-se à Mrs. Francis Fen, a brasileira começa a discorrer sobre o estado político e intelectual do Brasil, esclarecendo que “a nossa literatura, posto que muito nova, era conmtudo fértil” (SABINO, 1891, p. 54).
Em Fragmento de um romance inédito, texto que consideramos matriz para o romance Lutas do coração, o narrador se apropria do texto literário para fazer uma abordagem crítica sobre a literatura:
Com a idade medieval fôrão-se as castelãs; com a época do romantismo tombarão os poetas de pallidez marmórea, acabarão-se os tísicos e aquelles que fazião da vida uma serie de conjuncto tão poeticamente contornada, a ponto de hoje parecerem ridículos, irrisórios, mesmo até incomprehensiveis.
A atualidade quer robustez. A geração presente é uma geração de fortes. O chic, o ideal das moças já não é o ar doentio e débil, mas sim o da saúde, o da vida, o do bem-estar da alma, educando-se para viver sem sucumbir, tendo no rosto duas rosas estampadas; não de carmim artificial, mas sim do sangue bom, transmissor da saúde, da força e da vida (SABINO, 1891, p. 263).
Há uma severa crítica aos exageros da escola romântica, evidenciando-se a impropriedade de se manter uma literatura com as características que tipificam essa escola literária, marcada, dentre outras coisas, pelo “culto do funéreo, do efêmero da existência, a se contrapor a paradoxais anseios de vida e permanência”, como informa Massaud Moisés, em Romantismo-Realismo (2006, p. 15).
Contrapondo-se a esse modelo, o narrador sabiniano ressalta que o contexto exigia algo mais próximo da realidade, de modo a atender às demandas sociais, políticas e culturais, e, consequentemente, considerar as solicitações de um público já afeiçoado aos princípios norteadores da estética realista, já que o realismo e o naturalismo despontaram oficialmente, em nosso país, entre 1880 e 1881, quando Machado de Assis e Aluísio de Azevedo publicam Memórias póstumas de Brás Cubas (2006) e O mulato (1998), respectivamente (CANDIDO; CASTELLO, 1991, p. 288).
Este mesmo recurso metaficcional é observado em Lutas do coração ([1898] 1999). No segundo capítulo, a personagem Hermano, depois de retornar para o Brasil, após uma rápida incursão contextual, reflete sobre a literatura do país:
Quanto à literatura, se bem que adiantada relativamente, com os velhos, os novos e os nefelibatas, tem ainda muito que progredir, sendo possível que até o fim do século surjam mais talentos, que cônscios do grande papel que deverão representar às constelações do mundo intelectual, se arrojem a novos assuntos (SABINO [1898] 1999, p 74).
Os narradores sabinianos, que em geral se dramatizam nessas obras, são fidedignos, na medida em que falam e agem em consonância com os parâmetros estabelecidos pela obra e pelo autor implícito. Narradores que buscam instaurar um pacto de confiança com o leitor, não fogem do proposto na narrativa, bem como se revelam conscientes de si próprios, como escritores, ao exporem pistas do seu fazer ficcional, quando empregam o recurso da metaficção para desnudar seu processo de escritura, a exemplo da abertura de “Fragmento de um romance inédito”.
De um modo geral, os narradores sabinianos escolhem a narração impessoal. No entanto, traem sua presença pelas marcas pessoais explicitadas (uso de elementos lingüísticos, como alguns pronomes) e se mostram narradores fidedignos, desejosos de seduzir o leitor, convencendo-o a entrar no jogo. Para tanto, inserem comentários e chamamentos voltados para incitar o leitor a não somente continuar a leitura, mas participar dela ativamente, conforme demonstraremos na seção subsequente.