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Kişisel Özellikler ile Ölçme Araçları Alt Boyutları Arasındaki İlişki ve Farklıklar Üzerine Bulgular ve Yorumlar

4. BULGULAR VE YORUM

4.2. Kişisel Özellikler ile Ölçme Araçları Alt Boyutları Arasındaki İlişki ve Farklıklar Üzerine Bulgular ve Yorumlar

109 Cf. CUMSTON, 1931, p. 191-92. 110 Cf. CUMSTON, 1934, p.194. 111 Cf. CUMSTON, 1934, p. 196. 112 Cf. CUMSTON, 1934, p. 167. 113 Cf. CUMSTON, 1934, p. 201-202

O século XVII é conhecido como o século da revolução científica. A invenção do microscópio, o estudo mais frequente da anatomia humana em cadáveres e o início de pesquisas nas áreas da matemática, química, física, biologia deram impulso à proposição de novos pensamentos que iam de encontro às doutrinas vigentes.

Dentre as inovações na área do saber está a teoria de René Descartes (1596-1650) publicada em 1637, em sua obra Discours de la méthode pour bien conduire sa raison, et

chercher la vérité dans les sciences. Na obra, Descartes apresenta suas considerações sobre a filosofia antiga; aborda questões voltadas para a conduta e o direcionamento do espírito científico; propõe novos princípios filosóficos nos quais todos os fenômenos naturais possuem uma causa e se esta não for conhecida é por falta de meios específicos e falta de estudos prévios; aborda questões relativas à religião e à existência de Deus e da alma; e apresenta o novo modelo epistemológico envolvendo física e medicina, no qual utiliza regras da mecânica e da matemática para explicar os fenômenos e o funcionamento do corpo humano, justificando tal fato pela precisão e a certeza que estão ligados à matemática. A ideia principal consistia no fato de que a observação dos fenômenos tem que ser realizada com o uso da razão sem a influência dos sentidos, o que se pode observar nesse trecho do Discours

de la Méthode:

As longas cadeias de raciocínio simples e fáceis, por meio das quais os geômetras estão acostumados a chegar às conclusões das suas demonstrações mais difíceis, tinham-me levado a imaginar que estão conectadas mutuamente da mesma maneira todas as coisas ao conhecimento do qual o homem é competente, e que não há nada remoto a nós que esteja tão longe do nosso alcance, ou tão escondido que não possamos descobri-lo, desde que deixemos de aceitar o falso como verdadeiro e sempre preservemos em nosso pensamento a ordem necessária à dedução de uma verdade de outra. E tive pouca dificuldade em determinar os objetos com os quais começar, porque já estava persuadido de que seria com o mais simples e o mais fácil de conhecer e, considerando que entre todos os que têm buscado até hoje a verdade nas ciências, só os matemáticos podem dar qualquer demonstração, isto é, qualquer razão certa e evidente, não duvidei de que tal deveria ser a regra das minhas investigações114.

114 Cf. DESCARTES, René. Discurso sobre o método. Trad. Alan Neil Ditchfield. (Coleção Textos Filosóficos).

O método investigativo divulgado por Descartes consistia em quatro preceitos:

O primeiro era de nunca aceitar qualquer coisa como verdadeira que eu não percebesse claramente ser tal; isto é, cuidadosamente evitar precipitação e preconceito, e não incluir nada mais em meus juízos que não os apresentados tão claramente e distintamente a minha mente de modo a excluir toda base de dúvidas. O segundo era de dividir cada das dificuldades sob exame em tantas partes quanto possíveis, como necessária à solução adequada.

O terceiro, orientar meus pensamentos em tal ordem que, começando com objetos os mais simples e mais fáceis conhecimento, poderia ascender-me aos poucos e, como se fosse passo a passo, ao conhecimento mais complexo, nomeando até mesmo em pensamento uma ordem certa para objetos os quais, por sua própria natureza, não sugerem relação de antecedência e sequência.

E o último, fazer em todos os casos enumerações tão completas e as revisões tão gerais, que possa ser assegurado que nada foi omitido 115.

As ideias de Descartes começaram a movimentar todas as áreas do saber, sobretudo a comunidade médica que já tinha entrado em contato com as novas ideias circulacionistas vindas da Inglaterra, em 1616. Neste ano, o médico inglês William Harvey (1578-1657), após várias observações em corações de animais, propõe que o coração tem movimentos de pulsação. Esse movimento injeta o sangue nas artérias, que segue para todos os órgãos e que é trazido de volta pelas veias para o coração116

. A proposição de Harvey causou reações de repúdio da Faculdade de Medicina de Paris, que defendia as antigas tradições Galeno hipocráticas, na arte de curar e no entendimento do funcionamento e anatomia do corpo humano.

A primeira diferença entre os dois modelos consiste no trajeto do sangue. Para Galeno, ele corre paralelamente e é consumido no seu destino, sendo frequentemente produzido pelo fígado. Para Harvey, ele circula pelo corpo e volta a sua origem. Uma outra diferença foi

115 Cf. DESCARTES, 2008, p.25. 116 Cf. RICHARDT, 2005, p. 79-80.

Para Galeno, o sangue, produzido pelo fígado circulava pelas veias. O coração como já dito anteriormente é o órgão sede do espírito vital e o pulmão traz o ar pelas artérias, que vai refrigerar o sangue quente.

relativa à função das válvulas venosas, que não permitem o retorno do sangue pelas veias, impedindo assim o duplo trajeto sanguíneo117 .

A teoria de Havery não respondia a algumas questões, como por exemplo, às diferenças de densidade e cor dos sangues que circulavam nas artérias e veias. Contudo, esta teoria instigou novos pesquisadores a se debruçarem sobre estudos acerca do tema, sobretudo estudos referentes à anatomia humana118.

Não houve uma ruptura brusca de paradigma. Houve, no século XVII, um longo processo de lutas, principalmente no âmbito acadêmico. O decano (doyen119) da Faculdade de Medicina de Paris, Guy Patin (1510-1671)120, posicionou-se contra a descoberta de Harvey, rechaçando a teoria inglesa dos muros da academia francesa e, somente em 1672, o rei Luís XIV encarregou o médico da rainha e dos príncipes, Pierre Dionis (1645-1718), de ensinar a teoria da circulação sanguínea de Harvey no Jardin du Roi, o herbário de plantas medicinais121

.

A Paris do século XVII tornou-se o ponto de encontro dos pesquisadores do mundo todo, com o objetivo de divulgar seus estudos, como por exemplo: o médico anatomista sueco Nicolas Sténon (1638-1686), que fez seu discurso sobre o cérebro; o médico e fisiologista holandês Reigner de Graaf (1641-1673) fez experiências com a extirpação de órgãos; Guillaume Homberg (1652-1715), que realizou pesquisas químicas; os médicos ingleses William Petty (1623-1687) e Thomas Hobbes (1588-1679), que realizaram dissecações anatômicas122.

117 Cf. GRMEK, 1990, p.95. 118 Cf. GRMEK, 1990, p. 110.

119 Gestor da Faculdade de Medicina de Paris. 120 Cf. GRMEK, 1990, p. 286.

121 Cf. RICHARDT, 2005, p. 81. 122 Cf. GRMEK, 1990, p. 245.

Alguns estudiosos, por iniciativa própria, começaram a se reunir e a criar centros de estudos científicos particulares, para discutirem e publicarem suas pesquisas, como a Academia de Montmort, sob a administração do médico Samuel Sorbière (1615-1670) e a

Compagnie de Science et des Arts, dirigida e financiada por Melchissédech Thévenot (1620- 1692)123 .

Para ter o controle dos estudos e das pesquisas realizados no seu reinado, Luís XIV, através de seu superintendente Colbert, criou, em 22 de dezembro de 1666, a Académie

Royale des Sciences, com o objetivo de assegurar à comunidade científica a dignidade social, o suporte material e a disciplina do trabalho em comum, e cujos oito membros fundadores estavam ligados às várias áreas da ciência, como a botânica, a química, a medicina. Dentre eles destacam-se o médico anatomista Jean Pacquet, Claude Perrault e Cureau de La Cambre, os dois últimos médicos do rei. Os médicos se reuniam semanalmente na biblioteca do rei, a fim de discutir pesquisas principalmente de cunho morfológico.124 Em 1669, a Academie

Royale de Sciences contava com 64 membros125.

Outro importante centro de estudos científicos em Paris foi o Jardin du Roi, fundado em 1636, pelo principal médico do rei Luís XIV, Guy de La Brosse (1585-1641). Lá, inicialmente, eram cultivadas e estudadas plantas medicinais e eram realizadas autópsias de animais126.

A Faculdade de Medicina de Paris era parte integrante de uma instituição maior, a Universidade de Paris (1150), fundada no século XII. A prática médica era considerada incompatível com a vida eclesiástica, nem padres, nem bispos podiam ingressar na Faculdade de Medicina. No entanto, os médicos eram obrigados ao celibato e as assembleias eram

123 Cf. GRMEK, 1990, p. 246-247. 124 Cf. RICHARDT, 2005, p. 76-77. 125 Cf. GRMEK, 1990, p. 249 126 Cf. GRMEK, 1990, p. 250.

realizadas por vezes em torno da fonte de Notre-Dame, em Sante-Geneviève des Ardents, ou em Saint-Éloi. As práticas particulares, como exames e teses, eram realizadas na residência do decano, o responsável pelo gerenciamento da faculdade. Em 1452, o cardeal de Estouteville, incumbido pelo papa Nicolau V de reorganizar a Universidade de Paris, começou uma reforma na Faculdade de Medicina, inicialmente desobrigando o médico do celibato127.

Mesmo afastando-se do âmbito da Igreja, a Faculdade de Medicina ainda mantinha estreitas ligações com esta instituição. Um dos critérios para ter acesso ao curso de medicina era ser católico romano, esse critério foi aos poucos sendo relaxado, contudo a religião católica era dominante. O dia de São Lucas, santo dos médicos, era celebrado com uma missa cantada, na qual o coro era formado pelos doutores da Faculdade128.

A Faculdade de Medicina foi reorganizada fisicamente, mas manteve o principio conservador, era a guardiã das práticas antigas. Os médicos formavam uma corporação fechada, organizada na docência e no exercício profissional liberal. No século XVII a Faculdade de Medicina de Paris constituía a única autoridade competente em medicina legal. Vistoria e inspeção do comércio das farmácias, consultas sobre grandes epidemias, verificação pluviométrica, distribuição de água na cidade, escolha da localização de cemitérios, serviços de quarentena, vistoria no comércio de alimentos, eram algumas de suas atribuições 129.

Os médicos eram divididos em banco dos anciãos e banco dos jovens. O médico entrava para o banco dos anciãos após dez anos do doutorado, o que lhe conferia honrarias e status. Quando um médico do banco dos anciãos entrava em um recinto, os jovens deviam levantar-se em sinal de respeito e, em qualquer situação, deviam-lhes marcas de deferência.

127 Cf. REYNAUD, Maurice. Médecins au temps de Molière : moeurs, institutions, doctrines. 2e Ed. Paris :

Didier, 1863, p. 12.

128 Cf. REYNAUD, 1863, p. 23. 129 Cf. REYNAUD, 1863, p.16.

O decano era considerado o mais alto dignatário, o guardião da disciplina e do status, revertido de uma carga honorífica considerada como a maior recompensa de toda uma vida de dedicação. Ele carrega no pescoço as chaves da Faculdade de Medicina, responde pela boa administração dos bens da companhia. Ele comanda as assembleias, organiza a fala dos doutores e finaliza os trabalhos. O decano tem direito a voto na eleição da Universidade de Paris e, junto com os decanos das outras faculdades, é responsável por analisar e julgar todos os processos acadêmicos. Dentre as atribuições do decano também está zelar pelas disciplinas e estudos, manter a boa harmonia entre os pares, intervindo em qualquer disputa, advertindo e aplicando penas disciplinares 130.

O posto de decano era eletivo e o mandato durava dois anos. A eleição ocorria no primeiro sábado, após a festa de Todos os Santos, depois da missa. Naquele momento, os doutores da Faculdade de Medicina se reuniam em assembleia geral. Em duas urnas, eram colocados os nomes de todos os doutores. Havia uma urna para o banco dos anciões e outra para o banco dos jovens. O decano sorteava três nomes da primeira urna e dois da segunda. A esses doutores caberia a responsabilidade de indicar o nome de cinco doutores mais dignos. Eles proferiam um juramento e se retiravam para um momento de oração e em seguida indicavam três doutores, dois anciãos e um jovem. O nome dos doutores indicados ia para uma urna onde o decano que está saindo do cargo sorteia o nome do seu sucessor 131.

Os professores da Faculdade de Medicina eram eleitos da mesma forma, em um total de dois. O conhecimento médico era dividido em duas disciplinas. A primeira começava às seis horas da manhã e compreendia o ensino das coisas naturais, como anatomia e fisiologia, e das coisas não naturais como higiene e dietética. A segunda começava após o meio dia e englobava as coisas contra a natureza, no caso as doenças e a terapêutica. Em 1634, o decano

130 Cf. REYNAUD, 1863, p. 24-25. 131 Cf. REYNAUD, 1863, p. 29-31.

C. Guillemeau instituiu um curso de cirurgia em latim e, em 1646, foi introduzido o curso de botânica pelo decano Jacques Perreau.

As aulas de anatomia não eram realizadas com cadáveres, salvo em alguma solenidade onde os criminosos eram condenados a morte e o corpo era cedido para fins de estudo da Faculdade; contudo, os alunos e os mestres só observavam, pois o trabalho manual era realizado pelos cirurgiões barbeiros132.

Não havia um esquema pedagógico para as aulas práticas, após receberem as licenças os estudantes deveriam acompanhar os médicos nas visitas de consulta e o caso era deliberado, em latim, ao pé do leito do paciente. Em 1644, foi implantado um serviço de atendimento ambulatorial público, para pobres, no Hôtel-Dieu133, uma espécie de posto médico, onde seis médicos realizavam as consultas e deliberavam em latim acerca dos casos, sob o olhar dos estudantes134.

Para ingressar na Faculdade de Medicina de Paris, o candidato deveria passar por um processo seletivo que acontecia a cada dois anos. Nessa seleção, os candidatos posicionavam- se em frente à Faculdade identificavam-se declinando nome, sobrenome, pátria e religião. Como pré-requisito, a idade mínima era de vinte e cinco anos, a apresentação de certificados de Mestre em Artes ou Filosofia, juntamente com uma declaração da Universidade, comprovando que o candidato havia seguido quatro anos de estudos, à exceção dos filhos dos médicos, que não precisavam apresentar certificações. A seleção durava uma semana e os exames realizados envolviam questões relacionadas com as coisas naturais, não naturais e contra a natureza, bem como comentários acerca de aforismas hipocráticos. Na solenidade de

132 Cf. REYNAUD, 1863, p. 34.

133 Hospital destinado a atender os pacientes indigentes. Cf. Trésor de la langue française. Disponível em :

http://atilf.atilf.fr/dendien/scripts/generic/cherche.exe?22;s=3141834345. Acessado em: 10/02/2012.

ingresso, o estudante deveria proferir um juramento de obediência aos doutores e ao decano, de dedicação aos estudos e participação em missas135.

Após dois anos de estudos, o acadêmico de medicina prestava um exame final. Ele também tinha que ratificar a comprovação de seus estudos e apresentar um histórico familiar que não maculasse a honra da classe médica. Aprovado, ele receberia a licença para exercer a medicina, em uma solenidade que a Universidade realizava com todas as honras e pompas. Antes da solenidade de recebimento da licença, o Chanceler representante da Igreja católica, e o decano apresentam os futuros médicos à sociedade: soberanos, ministros, parlamento, altos funcionários do Estado, reitor da universidade são convidados a participar da solenidade, em que os novos médicos serão colocados à disposição da sociedade e da Igreja136.

Na véspera da cerimônia, os doutores se reuniam em uma cerimônia à parte, para escolher o médico mais notável, aquele que teve mais mérito e participou da maioria dos debates públicos. Em seguida, eles se reuniam com os futuros licenciados e os levavam ao anfiteatro. Lá, na presença de todos convidados, o chanceler divulgava o nome do melhor estudante e travava com ele um debate público sobre religião e filosofia, para, em seguida, abençoar os futuros médicos ajoelhados que, em seguida, prestavam o juramento médico. Após terem recebido as licenças, havia uma missa em agradecimento à Virgem Maria e para pedir que o começo de seu exercício profissional fosse auspicioso137.

Seis semanas após o licenciamento, o médico já podia se candidatar ao doutorado, o mais alto titulo da classe médica, que lhe dava o direito de intervir junto a autoridades civis e religiosas, assistência estrangeira e, sobretudo, que lhe conferia o prestígio de participar de todas as cerimônias e gozar de todos os privilégios que um médico pode receber. Para isso, o

135 Cf. REYNAUD, 1863, p. 38-40. 136 Cf. REYNAUD, 1863, p.48. 137 Cf. REYNAUD, 1863, p.49-51.

candidato a doutor tinha que se apresentar ao decano, o qual, após uma rápida enquete sobre sua vida profissional, seus hábitos e moral, marca o dia da defesa da tese138.

A tese era baseada no silogismo escolástico e composta de cinco artigos: o primeiro dispunha do tema tratado e a premissa maior; o segundo era destinado ao desenvolvimento; o terceiro era dedicado às relações vinculadas ao tema e outras teorias; o quarto comenta a premissa menor; o quinto trata da refutação das objeções e apresenta a conclusão das premissas139 .

A tese era literalmente defendida, pois as defesas eram públicas e havia a presença de doutores destinados a contrapor-se às proposições do médico candidato ao doutorado; os alunos da Faculdade tinham acesso ao debate e podiam fazer perguntas; o debate ritualístico durava sete horas, durante as quais o candidato tinha que lançar mão de todo seu espírito de erudição e conhecimento da literatura140 para defender sua tese. Após a defesa, a cerimônia de doutoramento ocorria de forma mais íntima na presença de doutores da casta dos anciãos, apresentando o futuro doutor aos membros da Faculdade de Medicina. Ao fazer seu juramento, novo doutor dirige-se ao presidente da cerimônia, um doutor ancião, e garante fidelidade aos ideais da Faculdade, observância de uma vida condizente com os princípios religiosos, participação na missa da vigília do dia de São Lucas dedicada aos já falecidos, condizente com os princípios morais e opondo-se ao exercício ilegal da medicina. O presidente da cerimônia pegava um chapéu de solenidade e com ele fazia, no ar, o sinal da cruz; com dois dedos da mão direita ele batia de leve na cabeça do médico. Depois do ritual, havia uma serie de debates e, por fim, um discurso do doutor recém-titulado em agradecimento à Academia e a Deus141.

138 Cf. REYNAUD, 1863, p.52. 139 Cf. REYNAUD, 1863, p. 43. 140 Cf. REYNAUD, 1863, p.44.

Os médicos do século XVII realizavam suas consultas na residência dos doentes. Eles tinham que percorrer longos caminhos de casa em casa. Alguns médicos mais tradicionais utilizavam mulas para se deslocarem, o que, segundo a tradição, conferia-lhes um ar episcopal. Os médicos mais modernos utilizavam cavalos para o transporte142.

A vestimenta dos médicos mais antigos eram a toga do magistrado com chapéu de abas largas, uma longa peruca e, usualmente, eles cultivavam uma longa barba. Os médicos mais adeptos das ideias novas portavam vestimentas longas de veludo e renda, chapéu de três pontas, mas mantinham a peruca e a barba. O latim era usado tanto nas consultas quanto nas prescrições. Também havia um código ético nas consultas, de acordo com o qual quem começava o debate era o mais novo, tomando como referência a data de seu doutoramento. O mais antigo pronunciava-se finalizando o debate, após o qual era eleito, pela maioria dos votos, o diagnóstico e tratamento, que era comunicado ao doente e a seus familiares143.

Molière teve uma aproximação muito estreita com o campo do saber, no que se refere à Medicina propriamente dita, pois teve em sua experiência de vida um contato intimo com os médicos da realeza da qual ele era apadrinhado, tanto no interior quando sua trupe era itinerante quanto em Paris sob a proteção do rei. O capitulo seguinte apresentará o caminho artístico que Molière percorreu até a sua morte em 1673. Também serão destacadas suas alianças no campo literário e a representação do médico e da medicina em sua obra.

142 Cf. REYNAUD, 1863, p. 79-80. 143 Cf. RICHARDT, 2005, p.160.

5 MOLIÈRE, A GRANDE COMÉDIA E A COMÉDIA DE TIPOS

O presente capítulo apresenta uma retrospectiva da vida teatral de Molière desde seu início com L’illustre théâtre, passando para a Trupe itinerante, a Troupe de Monsieur Le

Frère Unique du Roi e finalmente na Troupe du Roi a fim de estabelecer uma relação entre a personagem do médico que Molière apresentou, em todas as fases de sua vida artística, e o contexto no qual ele estava inserido. Em seguida, são apresentados alguns aliados de Molière na sua luta para manter seu prestígio e conquistar posições de maior conceito no campo literário e social. Na sequência, é apresentado um resumo das peças utilizadas neste estudo para, por fim, serem analisados os aspectos referentes ao médico e à medicina que Molière utiliza na construção de seus personagens e na representação do saber médico.