Na análise do material, os elementos que se constituíram como semelhantes e que estiveram relacionados aos sentidos atribuídos à violência intrafamiliar contra crianças e adolescentes, transcenderam aquela que ocorre dentro da família. As descrições sobre a violência estiveram relacionadas ao envolvimento de crianças e adolescentes com o uso e o tráfico de drogas no bairro, caracterizando a presença da violência comunitária (KRUG et al., 2002) ou infantojuvenil (MINAYO, 2001). Apesar disso, a violência intrafamiliar ou interpessoal não se neutralizaram. Sobre esta, os profissionais mencionaram elementos relacionados às situações de desemprego, à situação econômica precária, ao alcoolismo e às drogas utilizadas por pessoas da família para explicarem a ocorrência da violência intrafamiliar contra crianças e adolescentes no lar. Conseguiram identificar que a violência no lar, também, é movida pelo desemprego, pela desintegração comunitária, pelo alcoolismo e uso de drogas por alguém da família. Os aspectos culturais que legitimam práticas educativas que utilizam da violência física severa, também, fizeram parte das explicações mencionadas por eles.
Quanto à natureza da violência intrafamiliar contra crianças e adolescentes, a violência psicológica e a negligência se destacaram. Um elemento que foi mencionado por uma participante deste estudo esteve relacionado à violência entre irmãos, que se configura como mais um aspecto da violência intrafamiliar, porém, ele tem sido pouco explorado pelas pesquisas sobre violência intrafamiliar contra crianças e adolescentes no campo da saúde. Mesmo não tendo sido um elemento comum em todos os discursos, consideramos que este seja um elemento novo e relevante para abrir mais campos de pesquisa sobre o tema.
Os discursos a baixo ilustram algumas explicações sobre a ocorrência da violência intrafamiliar, na perspectiva dos profissionais de saúde. Estes apontam para a complexa rede de conexão entre a violência que ocorre dentro da família e a violência estrutural. Os aspectos
culturais também estiveram presentes, legitimando a violência física severa como uma prática educativa, onde a iniquidade de poder na relação entre adultos e crianças mantém a violência entre pais/adultos e crianças/adolescentes. Porém, vale ressaltar que os profissionais não resumiram suas explicações centrais sobre a ocorrência da violência intrafamiliar contra crianças e adolescentes nesta relação desigual de poder, como veremos a seguir, nos seguintes discursos:
Eu vejo assim, muito a questão da falta de estrutura da família. Às vezes criança que a gente atende que sofre maus-tratos pela mãe, por parentes próximos, às vezes tem problema com alcoolismo, problema de droga, às vezes é desemprego, situação econômica precária, às vezes a mãe está numa situação financeira precária, teve uma gravidez não planejada. Isso acaba levando a família a não estar se estruturando. Isso leva a uma série de complicações. [...] tem muita criança aqui que é cuidada pela avó, até de uma forma assim, porque não tinha outra opção e as crianças depois têm problemas na escola, problemas de agressão com outras crianças, a indisciplina ou a dificuldade de aprendizado e a hora que você vai ver melhor a situação dessa criança, vem tudo isso aí, ou questão de abandono, a avó que está cuidando e nem sempre tem condições. (Juliana).
Às vezes a gente fica sabendo de pai que bate no filho exageradamente. Machuca, dá uns puxões de orelha. Eu não sou contra, até eu fazia, mas, depende do tipo de correção. (Matheus).
Muitas vezes é um pai que age com violência para com o filho e se você for ver o histórico dele, só está tentando educar o filho. Por que se você está educando seu filho de uma forma não violenta, você está passando uma forma de linguagem para ele. Se você age com violência a sua linguagem é violenta. (Camila).
Os estudos de Harzheim (2013), Bazon et al. (2010) e Martins (2006) apontam que a vulnerabilidade socioeconômica da população pode ser um fator de risco para a presença da violência intrafamiliar. Viver em condições materiais extremamente adversas potencializam situações de violência intrafamiliar, principalmente, com relação à negligência, embora não seja um determinante dela (BAZON et al., 2010; MARTINS, 2006). A vulnerabilidade socioeconômica é uma característica da violência estrutural (MINAYO, 2006). Neste estudo,
as condições materiais de existência foram o contexto de produção das explicações etiológicas a respeito da violência intrafamiliar. Elementos da violência estrutural também foram citados como: o desemprego e a situação econômica precária, cujas origens para tal situação se encontram nas relações desiguais de distribuição das riquezas, característica do capitalismo.
A sociedade capitalista é marcada pelo individualismo exacerbado, a competição e a desigualdade. Embora o patriarcado6 seja anterior ao advento do capitalismo, são dois sistemas que ainda permanecem e estão, agora, interligados. São duas formas que produzem e reproduzem a vida em sociedade a partir de relações de dominação e anulação do outro, especialmente dos corpos, da liberdade e da autonomia (NARVAZ; KOLLER, 2006).
O estudo de Santos (2005) mostrou que os profissionais da ESF, ao trazerem explicações sobre a violência intrafamiliar, também o fizeram a partir do reconhecimento do atravessamento da violência estrutural nas situações de violência intrafamiliar. Em nosso estudo, podemos afirmar, segundo o discurso dos profissionais, que “violência gera a violência” e a violência estrutural mantém suas relações com a que está presente no interior das relações familiares. No estudo de Lobato, Moraes, Nascimento (2012) e Moreira (2012a), os profissionais de saúde da família, também, associaram a violência intrafamiliar contra crianças e adolescentes ao uso de drogas, álcool, envolvimento de algum familiar com o tráfico de drogas, o desemprego e a pobreza.
O que podemos notar é que as concepções sobre a violência intrafamiliar não foram naturalizadas, os componentes históricos, sociais, econômicos e, a natureza ideológica da cultura atravessaram o discurso dos profissionais e foram o pano de fundo para as explicações sobre ela.
No estudo de Villar (2007), as respostas dadas pelos profissionais de saúde da família, sobre as violências que mais acometiam crianças e adolescentes, foram encaixadas nas seguintes modalidades: violência física, psicológica e sexual. Os tipos de violências que podem estar relacionados à violência estrutural, como a negligência, por exemplo, que tem sua origem nas condições socioeconômicas da família, porém, não exclusivamente, foram pouco reconhecidos como violência por eles. O estudo de Villar (2007) constatou que devido ao empobrecimento da população atendida, que vivencia situações de extrema miséria e vulnerabilidade, os profissionais entrevistados encontraram dificuldades em estabelecer limites entre pobreza e negligência, justificando certas atitudes dos familiares para com as crianças e adolescentes e não os incluindo como violência. Por outro lado, em nosso estudo,
6 Constitui um tipo hierárquico de relação, que invade todos os espaços da sociedade, representa uma estrutura
os profissionais da ESF conseguiram reconhecer elementos da violência estrutural como um dos determinantes para a violência na família. O discurso de Juliana ilustra com detalhes esta questão quando fala a respeito do desemprego, da situação econômica precária, da gravidez não planejada, levando a uma série de dificuldades.
No estudo de Lobato, Moraes, Nascimento (2012) e Andrade e col. (2011), os profissionais, também, mencionaram a desestrutura familiar como um dos determinantes para a violência na família, semelhante aos dados do nosso estudo. A desestrutura familiar mencionada por Juliana esteve relacionada ao cuidado diário das crianças feito exclusivamente pelos avós e a gravidez não planejada agravada pela precariedade socioeconômica da mãe. Em estudo realizado por Gutierrez e Minayo (2011), os avós são importantes fontes de ajuda prática, para compartilhar o cuidado com os pais ou apenas o pai ou mãe, além de serem uma referência simbólica para as crianças/adolescentes. Entretanto, os profissionais não mencionaram os avós como importante rede de apoio e cuidado, pois, como ilustra o discurso de Juliana, o cuidado parece ser realizado exclusivamente pela avó, sem nenhuma presença do pai ou mãe, sobrecarregando-a no cuidado.
A violência estrutural, segundo Minayo (2006, p. 83), é aquela que incide sobre as condições de vida da criança, a partir de decisões histórico-econômicas e sociais e, muitas vezes, ela aparece de forma naturalizada, como se não houvesse a interferência daqueles que detêm o poder e a riqueza. Em nosso estudo, os profissionais relacionaram alguns aspectos da violência estrutural à violência intrafamiliar, como, por exemplo, as situações de negligência. Sabemos que o abandono é uma característica da negligência e esta é definida como a natureza das situações de violência intrafamiliar, ao lado da violência psicológica, sexual e física. Para Minayo (2006, p. 82), a negligência ou abandono, inclui a ausência, a recusa ou a deserção de cuidados necessários a alguém que deveria receber atenção e cuidados. Falta de atenção e cuidado em relação às necessidades básicas, como: não alimentar, não cuidar da higiene, prover tratamento médico inadequado à criança quando ela necessitar, absenteísmo da escola e omissão de atenção e de limites frente às várias situações do cotidiano (MINYAO, 2006; SANCHEZ; MINAYO, 2004).
Os aspectos culturais também marcaram as explicações sobre a violência intrafamiliar contra crianças e adolescentes. Os discursos de Camila e Matheus ilustram este aspecto, ao se referirem ao uso da violência física exagerada para educar ou corrigir.
Notamos, nesses discursos que o poder patriarcal e a dominação ainda regem as relações entre pais e filhos, e a violência física ainda é associada à prática educativa. Os profissionais percebem que o uso da violência física pelos pais ou cuidadores em crianças e
adolescentes é utilizado para corrigir e educar. Ela pode se manifestar de várias formas: tapas, socos, empurrão, mordidas, chutes, queimaduras, corte, estrangulamento, etc. (BRASIL, 2002a).
Para Flood (2009), a natureza da violência intrafamiliar, como por exemplo, a violência física e sexual, não são fatos biológicos, naturais, intrínsecos aos seres humanos. Ao invés disso, são fatores sociais e culturais. No estudo de Rocha e Moraes (2011), os profissionais da ESF que foram entrevistados sobre maus-tratos infantis informaram que percebem a banalização da utilização de agressões físicas utilizadas por pais e cuidadores como prática educativa.
Freyre (1997) também traz importantes contribuições para refletirmos sobre a legitimação de uma relação de dominação histórica e cultural em detrimento dos discursos associados à natureza biológica da violência que é, por sua vez, uma construção naturalizada do poder patriarcal sobre os filhos. Ele ressalta que especialmente no período colonial, os filhos (crianças e adolescentes) assim como as mulheres estiveram submetidos à autoridade paterna e até mesmo depois de crescidos. Quando jovens e casados ainda eram tratados como seres incompetentes pelas pessoas da família.
Zuma (2004) também concorda que os fatores históricos e culturais acerca da relação hierárquica entre pais e filhos e o bater como prática educativa mantêm a violência contra crianças e adolescentes. Para Zuma (2004) a violência física severa geralmente está associada a uma prática educativa, assim como ressaltaram os participantes, Matheus e Camila. Fatores culturais podem manter o uso da violência física exagerada como uma prática educativa e de correção. Entretanto, os fatores familiares, comunitários e outros externos à pessoa criam situações propícias à violência física que ocorre na família, além dos fatores culturais. Ele diz que estes fatores interagem com os biológicos, individuais, formando uma complexa rede de explicações para a violência. Porém, apenas os fatores internos, de ordem biológica7 não são suficientes para explicar a violência intrafamiliar que envolve crianças e adolescentes, inclusive aquela cuja natureza dos atos é da ordem da violência física (ZUMA, 2004).
Em nosso estudo, assim como citou um dos profissionais entrevistados, a violência física severa é aquela que não deve ser aceita e naturalizada como uma prática educativa ou
7 Sobre as concepções biológicas da violência, Camargo, Alves e Quirino (2005) ressaltam que ela é também
explicada a partir de concepções biológicas do comportamento humano, sendo essas, entendidas como a primeira raiz ou origem da violência humana. O ser humano é dotado de instinto agressivo que se instrumentaliza ou se manifesta através de atos violentos. Lorenz (1963) foi quem popularizou o método etológico para o estudo da agressão. Para ele todo ser humano tem uma tendência para agressão intraespecífica, isto é, agressão voltada para outros homens. O método etológico estuda o comportamento humano a partir de um enfoque biológico. Diante disso, Lorenz sugere então, soluções individuais para descarregar o instinto agressivo como, por exemplo: participação em esportes e outras atividades competitivas inofensivas.
corretiva. Posicionamo-nos contra este tipo de estratégia utilizada para educar e os discursos dos profissionais também ressaltam isso, como foi o caso do participante Matheus. No estudo de Villar (2003), os profissionais de saúde entrevistados, também, tiveram esta compreensão de que a violência física severa utilizada pelos pais ou cuidadores em crianças e adolescentes é uma prática educativa, de correção e muitas vezes ela utiliza da força física exagerada, em busca de cooperação do outro. Ou seja, a tradição cultural naturalizada e a relação de poder do adulto com a criança, foram, também marcantes, segundo as falas dos profissionais no estudo do autor supracitado e em nosso estudo também.
O estudo de Ramos e Silva (2011), sobre a violência doméstica contra crianças e os profissionais de Unidades Básicas de Saúde, concluiu que a violência que ocorre dentro da família, contra crianças e adolescentes, tem influência dos determinantes socioeconômicos, porém, a matriz cultural que rege as relações de poder e desigualdade entre pais e filhos, em que o adulto faz uso do poder que tem pela violência é um aspecto que também deve ser considerado. Para Minayo (2006a), deve-se incluir a compreensão cada vez mais específica dos fatores e dos contextos na abordagem da violência (do comportamento e das ações). Em nosso estudo, os profissionais apresentaram esta compreensão dos fatores, dos determinantes e do contexto em que a violência ocorre.
A violência entre irmãos, também, fez parte do discurso de um dos participantes entrevistados. Apesar de apenas um deles ter mencionado a violência entre irmãos, como aquela que mais ele identifica quando faz visitas domiciliares, consideramos pertinente destacar esta questão neste estudo, pois se trata de um aspecto pouco explorado em pesquisas sobre a violência contra crianças e adolescentes pelo setor saúde. Os autores Noland e Liller (2000), Eriksen e Jensen (2009), Johnstone e Marcinak (1997), Phillips, Phillips, Grupp e Trigg (2009), Reese-weber (2008), Finkelhor, Turner e Ormrod (2006) e Noland et al. (2004) a consideram um elemento da violência intrafamiliar que envolve crianças e adolescentes. O seguinte discurso ilustra este aspecto:
[...] por que acontece mesmo, briga entre irmãos principalmente. Um não aceita o outro ninguém aceita ninguém [...] Já vi de pai para filho aqui na vizinhança sim, mas, irmãos é muito frequente.
São poucos os estudos que focam a questão da violência entre irmãos, como uma forma de violência no contexto familiar e que envolve crianças e adolescentes. Dos estudos que trataram especialmente da violência intrafamiliar contra crianças e adolescentes e os
profissionais de Saúde da Família, a pesquisadora Tatiana das Neves Fraga Moreira (2012), mencionou a violência entre irmãos como um elemento da violência intrafamiliar que envolve crianças e adolescentes.
Os estudos brasileiros que tratam apenas da violência entre irmãos são ainda menores do que aqueles publicados em outros países. Além do estudo de Moreira (2012) outras pesquisas sobre a violência entre irmãos também, foram publicadas, porém, em número reduzido. Dos estudos realizados no Brasil, foram encontrados dois artigos sobre o tema (CASTANHO, 2010; ASSIS, 1995) e apenas um livro (BRITO, 2002). No artigo de Assis (1995), a autora realizou estudo baseado em inquérito epidemiológico sobre o tema da violência física doméstica que envolve adolescentes, identificando elevada prevalência de violência entre irmãos. Já no estudo de Castanho (2010), ela chama a atenção da população para a naturalização ou tolerância desta forma de violência familiar que envolve crianças e adolescentes, quando, por exemplo, os pais ou adultos responsáveis aceitam o clima de disputa, se omitem de proteger um ou outro e, assim, deixam que os mesmos se “entendam” sem regular a convivência entre eles.
Por outro lado, o número de publicações internacionais encontradas sobre o tema violência entre irmãos (sibling violence) foi maior, totalizando sete publicações (NOLAND; LILLER, 2000; ERIKSEN; JENSEN, 2009; JOHNSTONE; MARCINAK, 1997; PHILLIPS, PHILLIPS, GRUPP, TRIGG, 2009; REESE-WEBER, 2008; FINKELHOR, TURNER, ORMROD, 2006; NOLAND et al., 2004). O estudo de Eriksen e Jensen (2009) ressalta um aspecto relacionado ao grau de severidade da violência entre irmãos, podendo variar dependendo de fatores contextuais, como estresse e recursos familiares. Os autores Noland e Liller (2000), Eriksen e Jensen (2009), Johnstone e Marcinak (1997), Phillips, Phillips, Grupp e Trigg (2009), Reese-weber (2008), Finkelhor, Turner e Ormrod (2006) e também, Noland et al. (2004) foram unânimes ao afirmarem que se trata de uma forma de violência familiar que envolve crianças e adolescentes (principalmente adolescentes) muito comum, porém, que ela é a menos compreendida como uma forma de violência. Ela é vista como menos séria quando comparada a outros tipos de violências que envolvem crianças e adolescentes. Os autores ainda apontam que as pessoas (familiares e outras fora do contexto familiar) geralmente são mais complacentes, mantendo certo silêncio em torno dela.
Harris et al. (1981), também, concordam com este aspecto, afirmando que no caso da violência física entre irmãos, ela é considerada altamente normal, apesar de parecer inconveniente aos pais. Para os autores, muito cedo as crianças aprendem um sistema de justiça através da violência física para alcançar o que querem e que a quantidade dela entre
irmãos está relacionada à inconsistência exibida pelos pais na aplicação de um sistema diferente de cooperação que não esteja vinculada à violência física.
Além da violência física que ocorre no microcontexto da relação familiar, os profissionais ressaltaram outros tipos de violências que, também, acometem crianças e adolescentes, como a violência comunitária ou infanto-juvenil. Os seguintes discursos ilustram estes dois aspectos:
Os ACS que estão na rua e estamos aqui há mais de dez anos, podíamos contar nos dedos quem mexia com drogas. Hoje, é impressionante o que tenho de pacientes, crianças envolvidas com droga já é grande, piorou de mais. Não sei o que está acontecendo, as famílias estão ruins hoje (Matheus).
As famílias aqui têm boas condições, mas o número de adolescentes que se envolve com álcool é grande. (Juliana).
[...] Aconteceu isso aqui. Vinha uma moça, uma adolescente, ela não contou para a mãe. Ela estava grávida e ela não contou para ninguém que ela foi vítima de violência sexual. Ela disse que estava a pé e veio um carro com duas pessoas e que estavam mexendo com ela. Até que chegaram em um ponto e jogaram ela dentro do carro e ela disse que estava com tanta vergonha de contar para a mãe e não teve coragem de contar para ninguém, agora ela está grávida e a mãe pressionando ela para saber de quem ela estava grávida por que ela não saía muito de casa e nem tinha namorado, aí ela começou a chorar e contou para a mãe e a mãe trouxe ela aqui. [...] Ela tinha 21 anos. [...] Uma vez eu escutei uma conversa de uma criança. Se eu quiser roubar eu posso, se eu quiser matar alguém, eu posso por que é para comer. A criança tinha seis anos [...] E ela disse: minha mãe não tem muita comida em casa e eu vou te ajudar. Vamos descobrir qual é a razão dele. O pai estava preso [...] Para você mostrar para a criança que este ato de violência é errado, que não é padrão para ele, é difícil por que ele vive isso dentro de casa e ele acha certo, então você vai mudar a opinião de uma criança. (Cláudia).
Os discursos acima apontam para a potencialidade que os profissionais de saúde da família têm para identificar outros tipos de violências. A violência comunitária ou infanto- juvenil, também, se constitui como preocupação ou um problema para na perspectiva dos
profissionais de saúde e eles legitimam este outro tipo de violência, como aquele que atinge crianças e adolescentes. Eles transcenderam suas descrições sobre a violência em crianças e adolescentes, para além do microcontexto das relações familiares. Além disso, como ressaltou uma das participantes deste estudo, a Cláudia, as vítimas chegam ao serviço de saúde, e os profissionais trabalham neste território onde este tipo de violência acontece. Como apontam Krug et al. (2002), Minayo (2006) e Benetti et al. (2006), a violência comunitária ou infanto- juvenil se refere à exposição, principalmente de adolescentes, a agressões, estupros, assaltos, roubos, homicídios, presença de armas e tráfico de drogas no local onde moram. Ela se refere à adesão de crianças e adolescentes às situações de delinquência, contrabando, mortes, crimes violentos, porém esta característica da delinquência infantil e juvenil, de acordo com Minayo (2001), pode estar relacionada também, à violência estrutural. Como pudemos notar os participantes: Matheus, Juliana e Cláudia citaram características deste tipo de violência,