2.16. Savaş Konulu Filmler
2.16.4. Kaval Sesi
Empregamos, nas interpretações, o dispositivo analítico advindo da Análise do Discurso franco-brasileira, que parte dos estudos pecheutianos em interface com a psicanálise. Além disso, dialogamos com alguns conceitos referentes aos estudos culturais sobre globalização, neoliberalismo e pós-modernidade, bem como com algumas noções foucaultianas, em destaque, aquelas referentes às relações de poder e ao discurso como regime de verdade.
Ressaltamos que nossa pesquisa é de natureza interpretativa, constituindo- -se no que a AD reconhece como gestos de interpretação. São gestos porque os sentidos dos dizeres não são rígidos e únicos, são versáteis, móveis, dinâmicos, uma vez que as palavras se inscrevem em diferentes memórias discursivas, podendo assumir diferentes sentidos e também se colocando à mercê do equívoco.
3.2.1. O papel da interpretação
Uma vez que a AD busca "compreender como o objeto simbólico produz sentidos, como ele está investido de significância para e por sujeitos" (ORLANDI, 2007, p. 26), a escolha da base teórica justifica-se pelo objeto de estudo assumido: o discurso do professor-enunciador, heterogêneo por constituição. Por ser o discurso nosso principal objeto de estudo, entendido como palavra em movimento, prática de linguagem (ORLANDI, 2003), abordamos a língua estruturada como possibilidade do equívoco, da opacidade e marcada pela historicidade que a inscreve. Tecemos nossas reflexões sobre a rede de representações, através da análise da materialidade linguística e das suas condições de produção e tomamos a interpretação como principal dispositivo analítico. Esta é concebida " [...] enquanto dispositivo do analista e gesto do sujeito que diz – nos oferecendo um lugar extremamente expressivo de observação dos processos de produção dos sentidos e de constituição dos sujeitos (ORLANDI, 2012, p. 100). Eni Orlandi ressalta que
a interpretação está presente em toda e qualquer manifestação da linguagem. Não há sentido sem interpretação. Mais interessante ainda é pensar em gestos de interpretação, uma vez que as diferentes linguagens, ou as diferentes formas de linguagem, com suas diferentes materialidades, significam de modos distintos (ORLANDI, 2012, p. 9).
Através desse dispositivo, objetivamos escutar, além das evidências para compreendermos a opacidade da linguagem, seus equívocos, os sentidos não evidentes, o não-sentido e a determinação dos sentidos pela história. Ademais, observamos a constituição do sujeito pela ideologia e pelo inconsciente, além dos sentidos do silêncio para ouvir, naquilo que o sujeito diz, aquilo que ele não diz, mas que constitui o sentido (ORLANDI, 2007).
Concordamos com Ferreira (2005) quando ratifica a posição de Orlandi ao apontar que:
A interpretação sempre pode ser outra, mas o movimento interpretativo não é um movimento caótico, não regido. As condições de produção e a própria possibilidade de abertura impõem determinações, limites a esse movimento, o que significa dizer que a interpretação pode ser múltipla, mas não qualquer uma (FERREIRA, 2005, p. 17-18).
Ao assumir que o sentido sempre pode ser outro, é preciso ter especial atenção às condições de produção – ou o contexto – sócio-histórico, ideológico, contexto imediato (NEVES, 2002), pois elas oferecem limites ao movimento interpretativo, contribuindo para uma maior acuidade interpretativa da materialidade linguística por parte do analista. Como analista da materialidade linguística, buscamos interpretar os efeitos de sentido produzidos no intradiscurso, no fio do dizer, contemplando também sua opacidade, seus equívocos, suas falhas, seus efeitos metonímicos e metafóricos, que, de acordo com Pêcheux (1995), é um fenômeno semântico produzido por substituição contextual.
A interpretação é o principal dispositivo analítico empregado na análise de nosso corpus. O tratamento dos fatos linguísticos materializados nos recortes
selecionados a partir das entrevistas realizadas busca identificar e problematizar as representações ou imagens constituídas por um conjunto de vozes que se contradizem e se combinam para constituir os sujeitos envolvidos no processo de aprendizagem (CORACINI, 2003a).
3.2.2. Ressonâncias discursivas
Operamos com a noção de ressonância discursiva, de acordo com Serrani- Infante (2005, p.90), quando afirma que "existe ressonância discursiva quando determinadas marcas linguístico-discursivas se repetem, a fim de construir a representação de um sentido predominante". Para se caracterizarem as ressonâncias
discursivas, observamos a repetição de itens lexicais, construções parafrástica e os modos de dizer.
Há ainda outras categorias como contradições, metáforas, denegações, regularidades e dispersão de sentidos, efeitos polissêmicos, lapsos, dentre outros, que permeiam a materialidade
discursiva dos dizeres dos professores de E/LE, que são da ordem de outras recorrências. A análise das ressonâncias e das recorrências em nosso corpus tem por
objetivo estabelecer como ocorre “a construção das representações de sentidos predominantes em um discurso determinado" (SERRANI-INFANTE, 2005, p. 90), ou como algum dizer se afasta dessas representações predominantes.
Operamos nos níveis do inter e intradiscurso para depreendermos os efeitos de sentido das ressonâncias e de recorrências mais singulares. Desse modo, retomamos, a seguir, os conceitos abordados na tessitura teórica do capítulo II.
3.2.3. Inter e intradiscurso
Conforme detalhamos no capítulo II, o inter e o intradiscurso são categorias fundamentais para nosso dispositivo de análise, portanto, retomamos brevemente essas noções pecheutianas. O interdiscurso é compreendido como
fragmentos de múltiplos discursos que constituem a memória discursiva, [...] fragmentos que nos precedem e que recebemos como herança e que, por isso mesmo sofrem modificações, transformações. A memória, o interdiscurso são inúmeras vozes, provenientes de textos, experiências, enfim, do outro, que se entrelaçam numa rede em que os fios se mesclam e se entrelaçam (CORACINI, 2007, p. 9) (grifos nossos).
O intradiscurso, conforme define Serrani-Infante (1998, p. 234.), "refere-se à
dimensão horizontal do dizer, ao fio do discurso, à dimensão linear da linguagem. Ao se abordar o
intradiscurso, examina-se o que um enunciador efetivamente formula num momento dado, em relação ao que disse antes e dirá depois". Assim, no intradiscurso, na linearidade do dizer, estuda-se a construção de representações de semelhanças e diferenças.
3.2.4. Modalidades da heterogeneidade enunciativa
Também de acordo com nossa tessitura teórica desenvolvida no capítulo II, interessa-nos a noção de heterogeneidade, de Authier-Revuz (1998, 2004), na
articulação estabelecida com a noção de interdiscurso, de Pêcheux, e na confluência entre a AD, a psicanálise e a linguística, proposta pelo trabalho da pesquisadora.
Authier-Revuz (1998, p. 26) sublinha que "as palavras que dizemos não falam por si, mas pelo ...'Outro'". É no espaço das não-coincidências do dizer, em que se
faz o sentido das heterogeneidades, que desenvolvemos nossa interpretação com o instrumental disponibilizado pela teoria da heterogeneidade, de Authier-Revuz.
Sintetizamos, no quadro a seguir, algumas das modalidades e figuras do aporte teórico-analítico de Authier-Revuz (2004, 1998) que contribuíram para os gestos de interpretação dos fatos linguísticos de nossa pesquisa.
QUADRO 2 – MODALIDADES E FIGURAS DO APORTE TEÓRICO-ANALÍTICO DE AUTHIER-REVUZ (2004) e (1998)
Não-coincidências do dizer
Não-coincidência interlocutiva
Ocorre através de glosas e reinstaura um UM de co-enunciação. O enunciador anexa, ata o outro ao seu próprio querer, ao seu dizer, criando um nós-enunciador. O dialogismo bakhtiniano e a interdiscursividade de Pêcheux são base dessa modalidade.
Não-coincidência do discurso consigo mesmo
O enunciador faz alusão a outro discurso assinalando a "interdiscursividade representada". É materializado por meio de glosas que marcam no dizer a presença de outras palavras, pertencentes a outro discurso. Coberto pelo dialogismo bakhtiniano.
Não-coincidência entre as palavras e as coisas
Remete ao real da língua, ao espaço do equívoco e do outro, à falta constitutiva do sujeito e à não captura do objeto pela letra. A língua é vista como o instrumento utilizado para nomear, capturar esse real. Tem como base elementos da psicanálise lacaniana, ligado ao real da língua.
Não-coincidência das palavras consigo mesmas
Acolhe os equívocos do dizer através das ambiguidades, da polissemia, a homonímia, de trocadilhos, etc. Relaciona-se à lalangue, de Lacan, ao real da língua.
Heterogeneidade mostrada Formas marcadas:
linguisticamente descritíveis, marcadas na superfície do discurso
Retoque / Ajustamento / Modalização autonímica / Itálico / Entonação
Discurso direto O locutor se comporta como tradutor: fazendo uso de suas próprias palavras, ele remete a um outro como fonte do "sentido" dos propósitos que ele relata.
Discurso indireto O locutor se apresenta como um simples "porta-voz", dando lugar explicitamente ao discurso de um outro em seu próprio discurso.
As aspas Sinal de distância. As palavras aspeadas são assinaladas como "deslocadas", "fora de seu lugar", pertencendo e adequando-se a um outro discurso.
A glosa Fórmula de comentário. Modo singular de se colocar do sujeito na não coincidência. Indica que o discurso de um sujeito não é homogêneo, mas é habitado por outros enunciados provenientes das mais diversas formações sociais e discursivas.
Formas não marcadas:
indicam a presença do outro de forma implícita, diluída.
Con ota çã o autoním ic a Discurso indireto livre /Ironia / Antífrase Imitação / Alusão Reminiscência / Estereótipo
Formas discursivas ligadas à conotação autonímica; a presença do outro não é explicitada por marcas unívocas na frase, opera no espaço do não explícito, do semidesvelado, do sugerido, mais do que no mostrado, no dito. É uma modalidade implícita da presença diluída do outro no discurso.
Heterogeneidade constitutiva
Não possibilita marcas linguísticas da presença do outro. Detectável no interdiscurso.
3.2.5. Retomando algumas noções psicanalíticas
As noções psicanalíticas de registros do simbólico, real e imaginário, noção de pulsão e de gozo, a angústia, o desejo, a transferência, a transmissão e a repetição e a denegação, arroladas no capítulo II, perpassam as análises em diferentes momentos e constituem nosso quadro teórico-metodológico.
Acreditamos que o aporte teórico-metodológico e as categorias empregadas (ressonâncias, intra e inter-discurso, heterogeneidade e noções da psicanálise) nos permitiram compreender os modos como surgem as representações dos professores enunciadores acerca da Lei 11.161/2005 e seus impactos, acerca do ensino de espanhol e da língua como um valor. Esse aporte também nos permitiu (re)velar como os efeitos de sentidos dessas representações incidem nos processos identificatórios e na constituição subjetiva do sujeito-professor, entendendo-as como heterogêneas e contraditórias. Passemos, então, ao capítulo IV, referente à análise dos dizeres dos professores.