2.2. Letif Seferov
2.9.3. Dede Korkut
NEOLIBERALISMO, GLOBALIZAÇÃO E PÓS-MODERNIDADE
Para mais ampla problematização do contexto histórico de nosso objeto de pesquisa – o discurso de professores de espanhol como língua estrangeira – entendemos que os estudos culturais, por tratarem da cultura contemporânea, que está atravessada pelos efeitos do moderno e do pós-moderno e por também buscarem uma ressignificação das noções de discurso, cultura, poder, identidade e representação, agregam-se ao aporte teórico desta pesquisa.
Os estudos culturais, de acordo com Costa, Silveira e Sommer (2003), estão unidos por uma abordagem cuja ênfase está na análise do conjunto da produção cultural de uma sociedade, de seus diferentes textos e seu significado político. Para os autores:
Os Estudos Culturais não pretendem ser uma disciplina acadêmica no sentido tradicional [...] o que os tem caracterizado é serem um conjunto de abordagens, problematizações e reflexões situadas na confluênca de vários campos já estabelecidos, é buscarem inspiração em diferentes teorias, é romperem certas lógicas cristalizadas e hibridizarem concepções consagradas. Suas pesquisas utilizam-se da etnografia, da análise textual e do discurso, da psicanálise e de tantos outros caminhos investigativos para poder compor seus objetos de estudo e corresponder a seus propósitos (COSTA, SILVEIRA e SOMMER, 2003, p. 40).
Devido ao fato dos Estudos Culturais (EC) percorrerem diferentes disciplinas e metodologias, e por se aproximarem do discurso e da psicanálise, acreditamos na proficuidade do acionamento de alguns conceitos, especialmente as noções de globalização, pós-modernidade e neoliberalismo, desenvolvidos pelos EC para nossa pesquisa.
Tendo em vista o impacto do contexto neoliberal para a formulação e promulgação da Lei Nº 11.161, apoiamo-nos no que Coracini (2007, p. 10) aponta ao retratar o contexto pós-moderno, no qual "consomem-se línguas como se fossem mercadorias, objetos que nos tornam consumíveis num mercado de trabalho seletivo e
exigente". O mundo pós-moderno, de acordo com Hall ([1992]2011) referindo-se a Harvey, Giddens e Laclau29, está diretamente relacionado aos conceitos de descontinuidade, fragmentação, ruptura e deslocamento de estruturas, instituições, processos econômicos, etc. É um período histórico que promove ondas de profundas transformações sociais em toda a superfície da terra, ondas estas que produzirão diferentes "posições-sujeito", diferentes identidades no sujeito pós-moderno.
O discurso do capital e do neoliberalismo contribuem para a implementação da Lei e apontam para as relações indicadas por Bauman (1999), que sugere que estamos todos dentro e no mercado, sendo ao mesmo tempo clientes e mercadorias. O neoliberalismo é caracterizado por políticas de livre mercado, pela concentração de capital e poder em poucas empresas. É uma forte tendência política e econômica na atualidade que orienta, e orientou, decisões governamentais e políticas educacionais no Brasil e em diferentes países. Conforme apresentado anteriormente, a criação do MERCOSUL em 1991, a presença de grandes empresas espanholas e um aprofundamento das relações socioeconômicas com a cultura hispânica, revelam o impacto das políticas neoliberalistas para o crescimento da demanda pela língua espanhola no contexto brasileiro.
A relação entre neoliberalismo e educação é nosso foco de interesse, pois nos auxilia na compreensão dos efeitos de sentido da Lei e de algumas das representações dos sujeitos-professores. De acordo com Marrach (1996)30, "no discurso neoliberal, a educação deixa de ser parte do campo social e político para ingressar no mercado e funcionar a sua semelhança", e a retórica neoliberal atribui um papel estratégico à educação e salienta três objetivos principais:
1) Atrelar a educação escolar à preparação para o trabalho e a pesquisa acadêmica ao imperativo do mercado ou às necessidades da livre iniciativa. Assegura que mundo empresarial tem interesse na educação porque deseja uma força de trabalho qualificada, apta para a competição no mercado nacional e internacional. [...]
2) Tornar a escola um meio de transmissão dos seus princípios doutrinários. O que está em questão é a adequação da escola à ideologia dominante. [...] fazer da universidade e da escola veículos de transmissão do credo neoliberal pressupõe um reforço do controle para enquadrar a escola a fim de que cumpra mais eficazmente sua função de reprodutora da ideologia dominante.
29 Stuart Hall, ao citar os referidos autores, utiliza as seguintes obras: 1)HARVEY, D. The condition of Post-
Modernity. Oxford: Oxford University Press, 1989. 2) GIDDENS, D. The Consequences of Modernity.
Cambridge: Polity Press, 1990. 3) LACLAU, E. New Reflections on the Resolution of our Time. Londres: Verso,
1990.
3) Fazer da escola um mercado para os produtos da indústria cultural e da informática, o que aliás é coerente com a idéia de fazer a escola funcionar de forma semelhante ao mercado, mas é contraditório porque, enquanto, no discurso, os neoliberais condenam a participação direta do Estado no financiamento da educação, na prática, não hesitam em aproveitar os subsídios estatais para divulgar seus produtos didáticos e paradidáticos no mercado escolar (MARRACH, 1996).
As posições contraditórias do discurso neoliberal são asseveradas por Marrach, que indica o papel reprodutor, transmissivo e mercadológico da escola. O neoliberalismo está inserido no contexto da globalização, conceito de caráter indeterminado, indisciplinado, com a ausência de um centro de um painel de controle, conforme aponta Bauman (1999). A globalização é um regime mundializado de economia e mercado, de acordo com Hall (2011), um complexo de processos e forças de mudança. A globalização
[...] se refere àqueles processos atuantes, numa escala global, que atravessam fronteiras nacionais, integrando e conectando comunidades e organizações em novas combinações de espaço-tempo, tornando o mundo, em realidade e em experiência, mais interconectado (ANTHONY MCGREW31, 1992, apud
HALL, 2011, p. 67).
A globalização acentua o ritmo da integração global, aumenta o fluxo e laços entre as nações, modifica a compreensão do espaço-tempo promovendo a sensação de que o mundo é menor e as distâncias mais curtas, incidindo nos sistemas de representação dos sujeitos, conforme aponta Hall (2011). O fenômeno da globalização é caro em nossa pesquisa por apresentar impactos nas configurações identitárias dos sujeitos-professores, nas concepções de educação, nos desdobramentos de políticas públicas para a educação. Apresenta também impactos nos conceitos de língua e cultura. A globalização e a consequente lógica do mercado têm implicações sobre as imagens que se têm de língua e cultura, conforme afirma Rajagopalan (2003), pra quem a ascensão social e o aprendizado de uma LE sempre estão relacionados. O autor afirma que
com raríssimas exceções, sempre se pensou que só pode haver um motivo para alguém querer aprender uma língua estrangeira: o acesso a um mundo melhor. As pessoas se dedicam à tarefa de aprender línguas estrangeiras porque querem subir na vida. A língua estrangeira sempre representou prestígio. Quem domina uma língua estrangeira é admirado como pessoa culta e distinta (RAJAGOPALAN, 2003, p. 65).
31 McGREW, A. "A global society?". In: Stuart Hall; David Held e Tony McGrew (orgs.) Modernity and its
Os conceitos de neoliberalismo e globalização advindos dos estudos culturais, que ressaltam as condições marcantes da pós-modernidade, ao apresentarem as condições de instabilidade, de ruptura da ordem, a horizontalização da comunicação inerentes à pós-modernidade e na medida em que também dialogam com noções da psicanálise dentre outras, contribuem com a pesquisa proposta. Nas palavras de Costa, Silveira e Sommer (2003):
as instabilidades do mundo contemporâneo, a desintegração das narrativas mestras que o explicavam, as inúmeras rupturas com a ordem estabelecida, a intensa conexão planetária favorecida pela mídia, as novas questões trazidas por inéditas formas de migração e desterritorialização, são condições às quais os EC parecem responder, produzindo encaixes temporários, porém fecundos (COSTA, SILVEIRA e SOMMER, 2003, p. 43-44).
As rupturas e instabilidades do mundo contemporâneo abordadas pelos estudos culturais contribuem para nossa problematização e reflexão acerca de políticas linguísticas educacionais e, especialmente, da promulgação e o do discurso daLei 11.161 e seus efeitos na Educação Básica. Marca-se, então, o prestígio da língua estrangeira e o lugar do espanhol como diferencial nos dizeres dos sujeitos-professores de E/LE.