1.4. Banka Hesaplarının Fıkhî Tahlîli
1.4.3. Katılma Hesaplarının Fıkhî Tahlîli
Se na Antigüidade grega a sociedade estruturava-se em torno de uma clara distinção entre polis (esfera pública) e oîkos (esfera privada), na Era Moderna essa relação apresenta-se de forma bastante distinta. “Com as revoluções americana e francesa22, no fim do séc. XVIII a era moderna emerge sob o signo da igualdade e da desnaturalização das desigualdades dadas pelo nascimento” (Keinert, 2005:43), dando as condições para a origem da esfera do social, das desigualdades sociais como tema da política, debatidos em uma esfera pública que veio a ser constituída a partir do Estado nacional (Arendt, 1990).
Assim, na esfera privada predominam as atividades de manutenção da vida biológica e a sociabilidade de tipo familiar, na qual a violência, a hierarquia, o constrangimento e o mando do mais forte se exercem cotidianamente. O oîkos é a esfera das associações movidas pela necessidade biológica vital; nada muito distinto de como se associam os animais. Por oposição, a esfera pública entende-se sob duplo sentido: é aquela referente ao mundo que é comum, ao que liga e separa as pessoas; e também ao agir político, aos temas que aparecem
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Para Arendt, mesmo quando os seres humanos estão privados de espaços públicos, como sob regimes totalitários, ainda assim podem recorrer à liberdade de pensamento. O recurso ao pensamento não deve ser entendido como um recuo para o “eu” interior, ambos não se confundem, pois o pensamento também está vinculado à dimensão do agir e, assim entendida, a liberdade subjaz tanto à ação quanto ao pensamento (1987:18).
22 Na realidade, em Sobre a Revolução, Arendt refere-se não somente às experiências destas duas revoluções,
mas também aos conselhos revolucionários da Comuna de Paris de 1871, aos soviets da Revolução Russa de 1917 e da Revolução Húngara de 1956.
em público e são “horizontalmente” debatidos e julgados entre iguais, pela persuasão da palavra (Amiel, 1996:74-76). Quando passa a haver um predomínio da esfera do social – sobre as esferas da família e da política –, este consiste numa indistinção entre elementos do público e do privado, na qual o que importa notar é que os interesses privados assumem importância pública, caracterizando assim uma universalização da lógica do oîkos.
Esse processo de emergência do social impõe dificuldades para a compreensão da divisão entre público e privado; entre polis e família, dado o caráter amalgamado da organização política, a partir de então estruturada em torno de uma gigantesca administração doméstica nacional, ou de uma economia (oîkonomia) nacional (Arendt, 1981:37;45). A ascensão da esfera do social representa um deslocamento da preocupação individual com a propriedade privada e com as questões mais vinculadas à (des)igualdade econômica, para preocupação e problema de caráter público. Na leitura das análises de Michel Foucault sobre a governamentalidade (1979:281-282) nota-se que a emergência do social está intimamente vinculada ao desenvolvimento de técnicas de governo, de gestão da política.
A arte de governar, tal como aparece em toda esta literatura [posterior ao Príncipe, de Maquiavel], deve responder essencialmente à seguinte questão: como introduzir a economia – isto é, a maneira de gerir corretamente os indivíduos, os bens, as riquezas no interior da família – ao nível da gestão de um Estado? A introdução da economia no exercício político será o papel essencial do governo [e] (...) a arte de governar é precisamente a arte de exercer o poder segundo o modelo da economia. (...) A palavra economia designava no século XVI uma forma de governo; no século XVIII, designará um nível de realidade, um campo de intervenção do governo através de uma série de processos complexos absolutamente capitais para nossa história.
Ao invés de se entrar na esfera pública pela riqueza privada que liberava (liberação) das preocupações com a dimensão do labor, na modernidade exige-se da esfera pública (instrumentalizada em razão do social) que dê proteção e condições para o acúmulo de mais riquezas e que administre a miséria. O espaço público é gradualmente envolvido pelas
‘virtudes’ cristãs e philantrohpicas de compaixão; pela vivência pessoal e privada; e por todas as formas de caridade.
Portanto, é através da compreensão do declínio da esfera pública e da ascensão da esfera social que se pode compreender como a política deslocou-se historicamente e veio a ser o que é hoje.
O princípio fundamental de instauração da liberdade pública, [a ação política], converteu-se na formulação de direitos que garantissem a igualdade social. Neste sentido, as revoluções anunciavam, neste momento, a organização de um mundo político inteiramente determinado pelos desígnios da necessidade (Keinert, 2005:48).
Trata-se, assim, de uma atividade cujo significado tem sido transformado essencialmente a partir da ausência de uma esfera pública de debate e participação, da ausência de um mundo comum, e também a partir de novas experiências subjetivas marcadas pelo isolamento produzido pela privação de vida em um mundo comum (op. cit.:41).
Como veremos mais adiante com Foucault, a consolidação dos Estados nacionais na modernidade e o surgimento dos dispositivos de biopoder acentuam o processo gradual de deslocamento da política em direção à esfera social. Nesse percurso histórico, ela passa de um dos mais elevados atributos do ser humano (o tipo ideal grego) a um deturpado negócio, destinado a uma classe política que vive da disputa pelo aparelho estatal e que nele se aloja buscando satisfazer interesses próprios.
Na Grécia antiga todo conceito de dominação e de submissão, de governo e de poder, bem como a ordem regulamentada que os acompanha, eram tidos como pré-políticos, pertencentes à esfera privada, não à esfera pública (Arendt, 1981:41). Já no mundo moderno, a política não raro passa a ser apenas mais uma função da sociedade, culminando na sua institucionalização incessante, cujo ápice se expressa na profissionalização dos políticos, isto
é, a sua passagem da dimensão da ação para a dimensão da fabricação utilitária, relativa à administração instrumental de interesses, uma ação orientada pelo cálculo de meios relativos a fins (Weber, 2005b:13-15).
Uma vez que está destinada a tratar da questão social, enquanto preservação da riqueza e administração da miséria, a política moderna desloca-se assim para uma interação cada vez mais íntima com a economia de mercado, na qual está inscrita inclusive a questão de sua autonomia com relação a esse mesmo mercado (Keinert, op. cit.:52). A decadência da esfera pública corresponde a sua transformação em uma esfera muito restrita de governo, a qual é resultado da transformação da sociedade numa “economia doméstica” de dimensões nacionais e formas estatais (Arendt, 1981:70;78). A ascendência das atividades econômicas (oîkonomicas) ao nível público transforma a administração doméstica e as atividades antes pertinentes à esfera privada da família em temas do interesse “coletivo”. A própria noção de privacidade moderna difere em muito daquela clássica na medida em que é muito mais associada ao individualismo, à inviolabilidade do eu, do que à privação no sentido arendtiano. A esfera pública moderna passa a ser responsável pelo suprimento das necessidades do mundo privado, da esfera mesma do labor (op. cit.:42;48), agora traduzidas em termos de interesses políticos.
Na sociedade moderna desenvolvem-se mecanismos de uma organização pública do próprio processo vital, um processo de promoção do labor à estatura de coisa pública, no qual as funções corporais e os interesses materiais não precisam mais ser “escondidos” da esfera pública como o eram dentre os gregos. Muito pelo contrário, alimentam-se desta nova esfera social (op. cit.:55-56;82-83). “Criaram-se, assim, as condições para a ocupação do espaço público pela figura do animal laborans, [conceito] referente àquele que não age, mas apenas trabalha passivamente para o sustento de sua existência biológica” (Keinert, op. cit.:60, grifos meus).
As reflexões acerca das revoluções do século XVIII, em Sobre a Revolução, e também aquelas apresentadas em A Condição Humana constituem experiências a partir das quais Arendt expressa sua compreensão sobre a emergência do social à qualidade de esfera pública. Foram revoluções nas quais, segundo a autora, o espírito revolucionário de reatualização da política foi abandonado em função da urgência de inclusão social das massas miseráveis. A crítica de Arendt chama a atenção à entrada da fraternidade no mundo político e às transformações daí decorrentes.
(...) os sentimentos de compaixão e fraternidade não fundam um corpo político, porque solidarizar-se com alguém não significa tomá-lo como interlocutor político que compartilharia pela via do debate as questões públicas inerentes ao mundo comum. ‘(...) Por isso [a fraternidade] permanece, politicamente falando, sem importância nem conseqüências’ (Keinert, op. cit.:47).