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Ainda que Michel Foucault (1926-1984) não tenha citado diretamente Hannah Arendt em seus escritos, penso ser fundamental mencionarmos aqui alguns aspectos do percurso da política que foram pioneiramente por ele desvelados. Foi Foucault quem realizou uma análise histórica e detalhada das transformações das técnicas e dos saberes que promoveram a entrada da dimensão do labor (vida biológica, ou vida natural em Foucault) na esfera política34.

Entretanto, antes de adentrarmos na contribuição foucaultiana, vejamos breves notas sobre a noção de social em Hannah Arendt e em Jacques Rancière, a fim de explorar algumas possibilidades de diálogo entre ambos. Ainda que o termo social não seja uma referência explícita de Rancière a Arendt, suas conceituações têm preocupações semelhantes. Antecipando o argumento, pode-se considerar que a política ao modo rancieriano encontra-se justamente “imersa na esfera do social” arendtiana, a qual vem a ser a um só tempo a tentativa de sua negação, paradoxalmente o seu constante impedimento. Como nos diz Rancière (1996:97), o conjunto das inter-relações policiais que confrontam a política tem um nome:

Chama-se o social. (...) O social foi precisamente, na época moderna, o lugar onde se jogou a política, o próprio nome que ela tomou, lá onde ela não foi simplesmente identificada à ciência do governo e aos meios de apoderar-se dele. Esse nome é, na verdade, semelhante ao de sua negação.

Da maneira como entendo, na teorização de Arendt o social possui uma dimensão mais ampla do que a que aparece em Rancière, mas contém em si um sentido de negação de

34 Capítulo V da História da Sexualidade vol. I, A Vontade de Saber: direito de morte e poder sobre a vida

mundo35 que lhe é muito semelhante. Para ela, “a realidade da própria política coincide com o aparecer para outrem” e a esfera do social refere-se à determinada “(...) forma de sociabilidade contemporânea que expressa claramente a impossibilidade de constituição de um universo comum entre os indivíduos” (Keinert, 2005:55;64). Como procurei argumentar, essa impossibilidade também está no fundo de toda a teorização rancieriana sobre o par consenso-dissenso e da racionalidade política como elemento capaz de construir, através da exposição do conflito, mundos comuns que antes não apareciam.

Interessa-nos aqui que os processos de desenvolvimento de dispositivos disciplinares do corpo e de controle das populações desvendados por Foucault são essenciais para a compreensão daquilo que veio a se tornar a política contemporânea. Como veremos a seguir, de um lado Foucault expõe o modo como a emergência da biopolítica é colocada a serviço dos Estados na administração da questão social desde o séc. XVII; e, de outro lado, nos revela a permanência das técnicas biopolíticas como dispositivos de controle policial (nos termos de Rancière) e ordenação dos corpos, em pleno séc. XXI.

O que podemos perceber de imediato em Foucault é que, uma vez transfigurada em biopolítica, em uma técnica instrumental de governo, a política afasta-se radicalmente da concepção arendtiana, pois aí a política jamais visa a manutenção ou o controle da vida (1981:47), e, se houvesse objetivos a priori na ação política, esses seriam, antes, os de contribuir para a faculdade de julgar e para a liberdade dos seres humanos.

Em diferentes obras Foucault nos narra o processo através do qual, nos princípios da Idade Moderna (séculos XVII e XVIII), a vida natural começa a ser incluída nos mecanismos e nos cálculos do poder estatal (e do saber estatístico). É a própria dimensão do labor que

35 Ver a detalhada discussão de Fabio Keinert: O espaço do social como dissolução do mundo comum. (Keinert,

passa a estar sob a interferência mais direta da razão política governamental36, ficando assim mais estritamente vinculada à esfera pública enquanto problema coletivo, uma questão social. A conseqüência para os tempos modernos é que a política gradualmente transfigura-se em biopolítica:

A biopolítica lida com a população, e a população como problema político, como problema a um só tempo cientifico e político, como problema biológico e como problema de poder. (...) Permitindo quantificar os fenômenos próprios à população, [a estatística] revela uma especificidade irredutível ao pequeno quadro familiar. A família como modelo de governo vai desaparecer. Em compensação, o que se constitui nesse momento é a família como elemento no interior da população e como instrumento fundamental. (...) Quando se quiser obter alguma coisa da população – quanto aos comportamentos sexuais, à demografia, ao consumo, etc. – é pela família que se deverá passar. De modelo, a família vai tornar-se instrumento, e instrumento privilegiado, para o governo da população (Foucault, 1979:288-289; 1999:292-293).

Através de uma análise das formas de poder através de períodos históricos37, Foucault nos mostra como na sua “forma antiga”, na Antigüidade clássica, o direito do soberano sobre a vida e a morte era um direito de causar a morte ou deixar viver; e, também, um direito de confisco, de apreensão; um mecanismo de subtração de riquezas, serviços, trabalho, enfim, valores – estas últimas suas manifestações mais cotidianas.

Com o desenvolvimento rápido das disciplinas – as escolas, colégios, casernas, ateliês, etc. – o mundo ocidental produziu um deslocamento do poder soberano baseado no confisco e na morte, para um poder que administra, que gere a vida biológica, “um poder destinado a

36 Uma discussão muito mais aprofundada sobre o tema da Governamentalidade pode ser encontrada nos cursos

de Foucault de 1978, no Collège de France. Para os limites desta dissertação adotaremos a definição que segue: “O conjunto constituído pelas instituições, procedimentos, análises e reflexões, cálculos e táticas que permitem exercer essa forma bastante específica e complexa de poder, que tem por alvo a população, por forma principal de saber a economia política e por instrumentos técnicos essenciais os dispositivos de segurança” (Foucault, 1979:291-292).

37 Sobre o método arqueológico de Michel Foucault, ver: Entrevista com Michel Foucault. In: Rouanet, Sérgio

Paulo (org). O Homem e o Discurso (A arqueologia de Michel Foucault). Ed. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro – GB – 1971.

produzir forças, a fazê-las crescer e a ordená-las mais do que barrá-las, dobrá-las ou destruí- las” (Foucault, 1988:128;131).

Há fundamentalmente dois pólos de desenvolvimento desse poder sobre a vida biológica (labor) que ganham relevância respectivamente nos sécs. XVII e XVIII: as disciplinas do corpo (anátomo-política do corpo humano: adestramento e ampliação das aptidões do corpo visando sua integração em sistemas de controle eficazes e econômicos); e as regulações da população (bio-política da população: dinâmicas e variações dos processos biológicos de natalidade, mortalidade, nível de saúde, etc.) (op. cit.: 131).

É a partir destes dois pilares (anátomo e bio-política) que, já no século XIX, o poder soberano de morte apresenta-se como complemento de um poder que se exerce, positivamente, sobre a vida, gerindo-a e promovendo-a a melhores condições.

Dizer que o poder, no século XIX, tomou posse da vida, dizer pelo menos que o poder, no século XIX, incumbiu-se da vida, é dizer que ele conseguiu cobrir toda a superfície que se estende do orgânico ao biológico, do corpo à população, mediante o jogo duplo das tecnologias de disciplina [dos corpos], de uma parte, e das tecnologias de regulamentação [da população], de outra (Foucault, 1999:300).

Interessa apontar que mesmo tendo referenciais analíticos distintos, para Jacques Rancière (2001b:4) há pontos de diálogo entre a teorização foucaultiana do biopoder e a sua sobre a formação do Estado policial. Isto ocorre na medida em que, nas suas palavras:

[O que interessou a Foucault na sua teorização] sob o nome de política, foi propriamente a relação do poder do Estado com os modos de gestão das populações e de produção dos indivíduos. Isto concerne, para mim, a esfera da polícia. E o que Foucault fez é – no sentido forte do termo – a teoria do Estado policial: não o Estado repressivo, mas o Estado como realidade em si, não referido ao ato de nenhuma subjetividade política originária, o Estado funcionalista, inteiramente investido na relação entre a sua própria conservação e a conservação – ou a não- conservação – de um certo estado de sua população. É o Estado que protege a vida e envia à morte.

Nessa gestão moderna da vida, o ajustamento dos seres humanos à acumulação de capital foi característica muito importante e tal processo deu-se essencialmente através da ação dos grandes aparelhos de Estado que foram se complexificando e se racionalizando. Também contribuíram de maneira central as técnicas anátomo e bio-políticas que interferiram nos processos econômicos de produção, socializando indivíduos com corpos “dóceis”, “flexíveis” e altamente produtivos no trabalho.

Se, por um lado, é verdade que Foucault não tem nenhuma referência a Rancière nas suas formulações sobre a emergência dos dispositivos disciplinares do corpo e de controle das populações, chama bastante atenção o fato de que Foucault, a seu modo, tenha se debruçado sobre a análise de formas concretas de poder pelas quais se configura o que para Rancière seria um recorte policial do mundo sensível.

O investimento sobre o corpo vivo, sua valorização e a gestão distributiva de suas forças foram indispensáveis naquele momento [de formação capitalista, nos sécs. XVIII-XIX]. (...) Examinem algo como a cidade operária. A cidade operária, tal como existe no séc. XIX, o que é? Vê-se muito bem como ela articula mecanismos disciplinares de controle sobre o corpo, sobre os corpos, por sua quadrícula, pelo recorte mesmo da cidade, pela localização das famílias (cada uma numa casa) e dos indivíduos (cada um num cômodo). Recorte, pôr indivíduos em visibilidade, normalização dos comportamentos, espécie de controle policial espontâneo que se exerce assim pela própria disposição espacial da cidade: toda uma série de mecanismos disciplinares que é fácil encontrar na cidade operária (Foucault, 1988:131-133; 1999:299).

O homo faber moderno, nos termos arendtianos, desloca a ordem hierárquica da vida ativa, na qual a ação constituiria a característica mais elevada do ser humano. As atividades de fabricação são então supervalorizadas e passam a tomar o lugar da ação política na vida dos homens, reduzindo também o desdém social antes dedicado ao labor desde o mundo antigo. Para Arendt, o domínio da fabricação e do labor na modernidade constitui uma

extraordinária perda de experiência das atividades humanas mais elevadas (Arendt, 1981:314;319;329;335).

O impacto de tal deslocamento sobre a faculdade humana de julgamento, sobre a esfera pública e sobre a liberdade de ação política é grande, sendo a conseqüência mais profunda a uniformização e administração técnica do mundo contemporâneo. Na sociedade de massas contemporânea, a ação política é substituída por um comportamento normatizado e com isso perde-se muito da dimensão inovadora, criativa da política – sobretudo se vista à luz do tipo ideal grego – que passa a ser cada vez mais rara e efêmera. Na medida em que a chave interpretativa arendtiana é a da defesa da democracia participativa; e a igualdade efetiva é política, não social, os resultados – como não poderia ser diferente – são desastrosos para o que ela define como a dignidade da política, isto é: a atividade política, antes depositária do desejo de imortalidade mundana, baixou na modernidade ao nível de atividade instrumentalizada em função da economia (Arendt, 1981:327).

Como veremos a seguir, no entanto, ainda que seja verdadeiro esse declínio da política referida no tipo ideal grego como resultado da emergência da esfera social, é interessante observar também que, segundo Oliveira (2006:1), “a invenção grega no capitalismo foi evidentemente redefinida, mas sua atualização num sistema movido pelo conflito de classes ganhou talvez sua maior pertinência, (...) pois a luta de classes redefiniu a política como o mais poderoso antídoto contra aquela tendência concentradora” [do capitalismo]. É justamente a partir da interação entre política e esfera social, entre política e capitalismo, que situaremos algumas distinções entre Arendt e Rancière no que se refere às formas da ação política.