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2.3. Altın Bankacılığı İşlemlerinin Fıkhî Tahlîli

2.3.1. Altın Hesaplarında Sarf Akdi

Tanto para Arendt quanto para Rancière, há uma centralidade da idéia de que os deslocamentos que sofreu a política – de seu sentido tipológico ideal experimentado na Grécia clássica à política profissional contemporânea – levaram-na ao interior da esfera do social, segundo sua lógica e seus limites. Porém, há uma distância de Rancière com relação ao pensamento arendtiano no que se refere, digamos assim, às dimensões da ação política.

Nos termos de Hannah Arendt, a política não advém necessariamente da inscrição conflituosa da lógica igualitária numa determinada ordem policial hegemônica. Antes, ela pode existir ali mesmo naqueles espaços mais informais e diluídos da esfera pública38 que têm menor visibilidade, que não aparecem tanto enquanto cenas públicas e nem são veiculados pelos meios de comunicação. São as pequenas rodas de conversa, cafés, botequins, as discussões entre amigos sobre questões comuns (ao que Arendt reserva o conceito de amizade política, philia política), dentre outros espaços públicos nos quais situações de circulação da palavra sobre um mundo comum possam existir.

Segundo Feltran (2005:75), para Hannah Arendt “o espaço público, terreno da política, é espaço para que se demonstrem as virtudes de quem debate, através do conflito que necessariamente atravessa as opiniões dos que dialogam, dada a pluralidade do mundo. O espaço público é assim, por definição atravessado pelo conflito entre as partes”. Quando afirmamos que o conflito é inerente à política na concepção arendtiana faz-se necessária alguma forma de mediação com relação ao modo de pensar o conflito político para Rancière, pois, como já observamos, não são idênticos.

Creio que nas obras aqui revisadas Rancière expõe uma lógica de ação e um tipo de conflito que são de outra natureza, muito mais vinculados às tensões propriamente sociais do

38 A este respeito, ver: Habermas, Jürgen. Mudança Estrutural da Esfera Pública: investigações quanto a uma

mundo contemporâneo em que vivemos, enquanto em Arendt os conflitos são, stricto sensu, políticos. Essa diferenciação parece-nos importante pois as cenas políticas arendtianas não estão necessariamente vinculadas aos conflitos de mundo entre classes ou partes da sociedade em litígio, elas têm relação mais próxima com o debate público que – atravessado por conflitos de idéias – concretiza ele próprio o mundo comum entre os que falam, formando o seu senso comum, o seu discernimento, e contribuindo assim para a capacidade de julgar das pessoas. Os trechos a seguir, extraídos de Feltran e Keinert, ilustram de forma clara a diferença qualitativa do conflito como elemento constitutivo da ação política para Rancière e Arendt. Vejamos:

Rancière enxerga a razão política (...) a partir da contribuição das classes populares para a instalação de espaços públicos. (...) As lutas populares que geram a aparição desses espaços estão sempre fundamentadas em conflitos, inerentes à interação das classes populares com grupos dominantes (Feltran, 2005:92).

[Para Arendt], a interação comunicativa tem fim em si mesma, isto é, seu sentido de ser está referido ao seu próprio exercício. (...) A vida política não se realiza com vistas a uma finalidade última a ser alcançada, já que a comunicação se esgotaria assim que os resultados fossem atingidos. (...) Aquilo que caracteriza a ação livre é exatamente seu desprendimento em relação a motivos e fins (Keinert, 2005:26, grifo no original).

Parece-me, assim, que a concepção de Rancière restringe o escopo da política a ações mais vinculadas aos conflitos sociais e às possibilidades de se construir aparições de mundos, de sujeitos políticos que antes não existiam, não eram visíveis. Como já observamos, se a cena de diálogo público é em si política para Hannah Arendt, em Rancière a existência da política dependerá sempre da capacidade de construção dessa cena conflituosa e dos processos comunicativos que nela houver.

Entendida segundo os termos de Rancière, a política é instituída pela ação de uma “parcela dos que não têm parcela numa comunidade”, com vistas a certo fim e motivada por determinados danos. Há passagens explícitas nas quais assemelha política à luta de classes, ou política a um atributo específico das parcelas pobres em uma dada sociedade39. Nesta dissertação, me proponho utilizar o conceito de dissenso como algo que pode ser construído não apenas por parcelas sem-parcela, ou seja, por sujeitos políticos pobres (não-liberados, nos termos de Arendt), mas também por aqueles em melhor condição econômico-social (liberados). Isto porque se vê que no objeto que aqui nos interessa – os movimentos antiglobalização – há diversos atores políticos que não podem ser considerados exatamente “sem-parcela”.

Portanto, tanto a concepção arendtiana de liberação das necessidades vitais, quanto a premissa rancieriana da “parcela dos sem-parcela” como sujeito privilegiado da ação política, serão trabalhados aqui a partir de mediações com relação ao campo pesquisado. Não se trata de “enquadrar” a realidade na teoria, que deve orientar a reflexão sem determiná-la totalmente, mas, antes, de aproximar o sentido dos conceitos à realidade empírica estudada.

Ao menos em teoria, a política arendtiana parece não estar conceituada enquanto atividade humana voltada às questões das necessidades, da esfera do labor ou da justiça social, como penso que esteja em Rancière. Se isso pode sugerir algum tipo de contradição entre suas abordagens, considero que ambas podem ser complementares, uma vez que localizam precisamente a crise da política com seu deslocamento em direção à esfera social.

39

“A guerra dos pobres contra os ricos é assim a guerra sobre a própria existência da política e (...) a política é a esfera de um comum que só pode ser litigioso” (op.cit.:29).

“A instituição da política é idêntica à instituição da luta de classes. (...) A torção pela qual existe política é também a que institui as classes como diferentes de si mesmas” (op. cit.:32).

“(...) a luta de classes não está sob a política, não é a realidade da divisão e da luta que desmentiria a falsa pureza da política. A luta de classes, o cômputo polêmico enquanto um todo dos que não são nada, é a própria política. A divisão do sensível pertence à definição mesma da política como modo específico da ação humana” (Rancière, 1996b:371).

No mundo contemporâneo em que vivemos, no qual a política apresenta-se de modo tão profundamente transfigurado no interior da esfera do social, penso que a abordagem rancieriana é adequada por conceber a lógica da política de modo mais próximo a como ela efetivamente existe contemporaneamente. E é nesse sentido preciso que a política, ao modo de interpretação rancieriano, encontra-se justamente imersa na esfera do social caracterizada por Arendt.