I. BÖLÜM
1.3. Teknofobi ve Bilim Kurgunun Mitolojik Kökenleri
2.1.1. Kara Filmler ve Tekno-noir Üzerindeki Etkisi
2.1.1.1. Kara Filmin Kökenleri
Lembrando, então, as abordagens críticas sobre a relação da literatura com as outras artes, Wellek e Warren apontam restrições quanto à fundamentação das analogias interartes: são restritas as comparações baseadas apenas em “uma semelhança de disposição”, comparações a partir “das intenções e das teorias dos artistas”, comparações apoiadas nos próprios objetos de arte (estruturais) e mesmo aquelas com base no “comum fundo social e cultural”, por fim, as comparações amparadas em “conceitos de estilo”109.
104 COELHO, 2003, p. 110-111. 105
NOGACKI, 1999, p. 28-42. 106 BUTOR, 1974, p. 98-99.
107 CURTIUS, E. R. A influência de Balzac. In: BALZAC, 1954, p. 22. 108 RÓNAI. Massimila Doni: Introdução. In: BALZAC, 1954, p. 309. 109
41 Arbex, no estudo introdutório para Poéticas do visível, remete às “fontes de erros” apontadas por Louvel, frequentemente empreendidas pela crítica quanto às aproximações entre literatura e pintura. Dentre essas inadvertências reforçam-se as problemáticas apontadas por Wellek e Warren, ao que se acrescenta: “buscar os modos de manifestação pictural fora do texto”, por exemplo, em dados biográficos ou psicológicos, “a imprecisão das definições do pictural” e, com relevo, “a frequente solicitação, por parte da crítica, de topoï da pintura” (imagens clichês que remetem a artistas específicos), que, para Louvel, são “apenas “ilustrações” e “não laço intrínseco entre pintura e poesia”110.
Esta última problemática é particularmente interessante, pois Balzac recorre frequentemente a metáforas pictórico-poéticas, meramente “ilustrativas”, além de estarem suas narrativas, de certo modo, carregadas de “clichês” – fatos que podem nos indicar “laços” não intrínsecos entre pintura e poesia. O escritor costuma utilizar fartas metáforas, indicando que há poesia em tudo – no mundo, nas coisas –, e se a pintura representa as coisas e o mundo, há frequentemente poesia na pintura. Quanto à questão dos clichês, Nogacki se baseia em pensamentos de Roland Le Huenen e Paul Perron, no artigo Balzac et la représentation111, expondo a seguinte reflexão:
A evocação do nome de um pintor do passado cria uma cumplicidade cultural entre o autor e o leitor na medida em que ela faz parte do projeto de representação. Essa função referencial baseia-se em esquemas convencionais, verdadeiros clichês culturais que associam a graça, a juventude e a nobreza à Itália, as formas mais pesadas a Flandres e aos países Baixos, a dureza dos traços e o rigor à Alemanha112.
Os clichês culturais estão de fato presentes nas narrativas balzaquianas. Conforme aponta Robert Rey, o escritor geralmente se refere à pintura italiana, em especial a Rafael, como “critério de excelência”, no intuito de associar a “graça” dos personagens às imagens pictóricas113. Como afirma Nogacki, os clichês se justificam por ser uma forma de criar empatia com os leitores. Ao prefaciar sua obra, Balzac questiona: “como agradar, ao mesmo tempo, ao poeta, ao filósofo e às
110
LOUVEL apud ARBEX, 2006, p. 47.
111 LE HUENEN, Roland; PERRON, Paul. Balzac et la représentation. In: POETIQUE, n. 61, fev. 1965 apud NOGACKI, 1999, p. 20.
112 NOGACKI, ibid. 113
42 massas que querem a poesia e a filosofia sob imagens empolgantes?”114. Em outras palavras, o escritor precisa lidar com “imagens”, ponderando sobre a querela entre filosofia e poesia, visando a atingir o público em geral.
Para uma categorização do paralelo texto/imagem ou literatura/pintura há que se atentar ainda sobre as metáforas e os topoï recorrentes nos discursos dos críticos de Balzac. Mas, se estes quesitos nos solicitam no texto do próprio escritor, vale lembrar que as “metamorfoses” entre os modos artísticos – poesia transmutada em pintura, escultura ou música –, conforme insistem Wellek e Warren, são questões próprias ao campo da metáfora – uma pintura jamais se converterá literalmente em texto115. Seja criando os paralelos interartes ou atuando na crítica sobre os mesmos, deve-se considerar este campo de sentido, o campo metafórico. A partir de metáforas ilustrativas, podemos extrair autênticas questões sobre os paralelos entre as artes.
No prefácio à Comédia Humana, Balzac associa o propósito de sua obra à pintura através da utilização de expressões metafóricas, tais como: “pintar os caracteres”116, “pintar as duas ou três mil figuras salientes de uma época”, entre outras. Chega a sugerir: “Esse número de figuras, de caracteres, essa multidão de existências, exigiam cenários e, perdoem-me a expressão, galerias”117. As subdivisões da Comédia são “galerias” cujas seções agrupam “pinturas” características; associações como esta são repassadas, nos modos mais diferenciados, ao léxico dos críticos de Balzac.
Afirma Brandes: “Seu estilo nunca teve igual esplendor nem igual impulso. Rubens, nos seus quadros de faunos atrevidos e de bacantes ébrias, nunca ostentou cores mais ricas nem mais audaciosas, talvez nem mesmo uma ousadia tão hercúlea”118. Nas palavras de Wilde: “A Taberna, do Sr. Zola e as Ilusões Perdidas de Balzac diferem como o realismo imaginativo e a realidade imaginada. [...]. Mas Balzac não é mais realista que Holbein. Ele criava a vida, não copiava a vida”119. Neste trecho, copiar a vida é tarefa de pintor e, para Wilde, Balzac é mais criador (representa a vida por imaginação nova), do que executor da tradicional mimese pictórica. O fato
114 BALZAC, Prefácio à Comédia Humana. In: ______, 1954, p. 12. 115
WELLEK, R.; WARREN, A., 1948, p. 158-159. 116 BALZAC, op. cit., p. 14.
117 Idem, op. cit., p. 20.
118 BRANDES, G. B.. In: BALZAC, 1954, p. 21. 119
43 é que existe uma discussão sobre o Balzac “realista”, no sentido de ser “observador, copista, fotógrafo”120 – em suma, um rival da pintura.
Associações com a poesia também são frequentes, por exemplo, “Theodore de Banville celebra em Balzac o poeta, o imortal Homero do mundo moderno”121. Curtius aproxima Balzac e Baudelaire pelo fato de que não reverenciavam “senão três tipos da humanidade: o padre, o guerreiro, o poeta”122. Croce afirma: “que Balzac era poeta no melhor sentido da palavra, sente-se no vigor com que representa caracteres, situações e ambientes, na singeleza dos motivos que brotam da sua fantasia comovida”123. Conforme este último trecho, o escritor é poeta porque possui vigor e singeleza.
Croce ainda evidencia o embate entre ciência (“o histórico, sociológico e filosófico”) e imaginação (o “diretamente artístico”). Especifica que na obra balzaquiana, para que a ciência não domine a poesia, tendendo à função de uma literatura pedagógica, só resta ao elemento poético se sobrepor aos “elementos científicos, reduzindo-os a seus tons e a suas cores”. Conforme as palavras de Croce, ciência e poesia, por serem conflitantes, possuem como única solução suplantar uma à outra, e a vitória da poesia nos é apresentada pelo ressaltar de suas qualidades plásticas, ou seja, por seu vínculo com a pintura124. Pintura e poesia se vinculam pela mútua função representativa.
Ao interligar sequencialmente suas narrativas, Balzac otimiza a “ilusão da realidade”, esta que seria a maior deficiência do Romance enquanto gênero125 – e a maior questão da pintura, se assim podemos dizer. A esse respeito, destaca-se a importância da “descrição” para os textos de caráter ficcional, descrição que não “legitima” a “ilusão de realidade”, na medida em que se distancia dela para se autoafirmar. Segundo aponta Arbex, um texto ficcional não fala “sobre/a propósito”, mas “a partir/à distância” da imagem.126 Ou conforme expõe Hoek, na prática da transposição de arte (poetizar uma imagem pela escrita), o texto literário suplanta a obra visual originária127. Estas ideias são explicitadas por Barthes, em trecho do livro S/Z:
120 BABOU apud CURTIUS. In: BALZAC, 1954, p. 21. 121 CURTIUS, Ibid., p. 20.
122 Ibid., p. 24. 123
CROCE, B. Balzac. In: BALZAC, 1954, p. 19. 124 Ibid., p. 15-16.
125 RÓNAI. A vida de Balzac. In: BALZAC, 1954, p.50. 126 ARBEX, 2006, p. 37.
127
44
[...] para poder falar do real, é necessário que o escritor, por um rito inicial, transforme [...] esse real em objeto pintado (emoldurado); após o que, pode dependurar esse objeto, tirá-lo de sua pintura: em uma palavra: des-pintá-lo (despintar é fazer cair o tapete dos códigos, é ir, não de uma linguagem a um referente, mas de um código a outro código). O realismo (bastante mal denominado, em todo caso, freqüentemente mal interpretado) consiste, assim, não em copiar o real, mas em copiar uma cópia pintada do real: esse famoso real, como sob o efeito de um medo que impediria tocá-lo diretamente, é
colocado mais longe, diferido, ou, pelo menos, captado através do envelope
pictural com que o recobrimos antes de submetê-lo à palavra: código sobre código, diz o realismo128.
Barthes nos fala de uma “circularidade infinita dos códigos”, pois o “real (assim considerado pela ficção) é a réplica de um modelo articulado pelo código das artes”129, uma ideia que se interliga ao que Butor propõe: “personagens fictícias só podem representar grupos de personagens reais porque, na própria realidade, os indivíduos e os objetos têm relações de significação”. Há “uma organização do real” a priori, que se desdobra “em relação à sua representação” – uma extensão da mediação cultural existente130. Neste contexto, a importância atribuída à sobreposição de códigos revela a importância dos “meios” ou da própria materialidade nas relações interartes.
Isto mostra que o “meio” de expressão específico de uma obra de arte (termo que é uma infeliz petição de princípio) não é meramente um obstáculo técnico que tem de ser transposto pelo artista para exprimir a sua personalidade, mas também um fator pré-formado pela tradição e que tem um poderoso caráter determinante, enformador e modificador dos processos e da expressão do artista individual131.
A narrativa “Sarrasine” nos oferece um bom exemplo de diálogo entre os meios artísticos e as funções que eles adquirem conforme a tradição cultural. A escultura é notadamente o ponto fulcral em “Sarrasine”, mas é a presença do Adonis, uma obra pictórica (à primeira vista secundária) que desencadeia a iluminação retrospectiva da história do escultor e, com isso, destacam-se as propriedades narrativas da pintura – em detrimento da própria escultura, que é o
128 BARTHES, Roland. S/Z, 1992, p. 85-86. 129 Ibid., p. 86.
130 BUTOR, 1974, p. 95. 131
45 meio artístico relevante na história. Desse modo, Barthes trabalha com passagens ou transposições “da escultura à pintura” e “da tela à representação escrita”, conforme as peculiaridades de cada “meio” artístico. Afirma que a pintura de Adonis transmuta em um enigma “vago e lunar” a solicitação presencial e “profunda” que circundava a estátua feita por Sarrasine. Por sua vez, a “escritura”, ou seja, – a narração oral e escrita que se desdobra a partir da tela e da história que a circunda – “extenua ainda mais o fantasma do interior, pois não tem nenhuma outra substância a não ser o interstício”132.