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KAPSAMINDAKİ MAL TESLİMLERİNDE TECİL-TERKİN UYGULAMASINDA SON DURUM

Meus filhos não saem pra rua. São criados tudo dentro de casa. Ficam assistindo desenho... não deixo meus filhos participarem de nada no bairro... não deixo ver, mesmo que a violência aconteça na porta de casa... é muito traumatizante (D.S.).

Minha filha já está ficando mocinha. O corpo está se formando, então.... morro de medo. Não deixo sair (M.M).

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Devido à elevada altitude (923 metros acima do nível mar), é uma das poucas cidades da Bahia que tem um rigoroso inverno.

Falo pros meus filhos: “Não façam amizade com os meninos da escola... todo dia eu falo”. Na escola os meninos maiores agridem os menores... (A.F.).

O ônibus43 sobe uma imensa avenida, às vezes, uma ou outra pessoa entra e outras descem. O motorista se dirige à maioria das pessoas como se fossem conhecidas, às vezes brinca com uma ou outra. Os passageiros conversam entre si. São nove horas da manhã e o sol se desponta depois de uma garoa. Nesse horário o movimento de pessoas está menor. Logo, o ônibus começa a subir uma ladeira um tanto elevada. Ao findar aquela imensa ladeira, ele entra por umas ruas apertadas e muito esburacadas. E logo pára numa parte elevada por uns cinco minutos. Uns passageiros sobem, outros descem. Algumas pessoas e crianças se encontram nas portas das suas casas ou na rua, outras nos quintais lavando roupas ou até mesmo conversando. Algumas casas estão com as portas fechadas. São pequenas casas, bem humildes, algumas delas um tanto precárias. Olhamos curiosa sem saber que lugar era aquele que tanto chamara a nossa atenção. Aproximamos e perguntamos ao motorista: “Que bairro é esse?” E ele nos responde: “É o bairro Jardim Vitória”.

Abrimos esse ponto com uma breve narrativa para ressaltar que o nosso estudo tem uma proximidade muito grande com o contexto sociocultural do aluno, com a sua realidade de vida, enfim com o bairro de onde a maioria deles provém. Afinal, como se dá o processo de sociabilidade das crianças, num bairro como esse?

Cabe dizer, no entanto, que realizamos um intenso estudo no interior da CMC, no interior da sala de aula, mas em nenhum momento fomos diretamente ao bairro Jardim Vitória. Todas as alternativas foram inviabilizadas. Até mesmo um taxista, que nos transportava para a rodoviária da cidade, nas suas conversas relatou uma experiência não muito boa que passara há poucos dias, quando transportava um passageiro. Segundo ele, ao adentrar pelo referido bairro, logo que o passageiro desceu, seu carro foi cercado por quatro homens que o assaltaram. Isso em pleno dia, com alguns moradores que passavam pela rua, inclusive crianças assistindo a tudo, sem nenhum tipo de manifestação. A partir de depoimentos dados por moradores44 do Jardim Vitória ao jornal local, nesse bairro acontecem as maiores atrocidades envolvendo assaltos, mortes, muita violência. Um senhor questiona sobre a educação das crianças

43 Na verdade estamos nos referindo a um microônibus (não tem cobrador), o único que transita por aquela região. Cabe dizer também que estávamos nos dirigindo para uma creche, para visitar algumas alunas-estagiárias e nos indicaram o referido ônibus. Depois de longas voltas chegamos à creche.

que presenciam constantemente tudo aquilo, muitas vezes, não só presenciam como se tornam as maiores vítimas.

O bairro Jardim Vitória é um bairro periférico de Vitória da Conquista. Podemos dizer que, de acordo com relato de uma funcionária da escola, é um bairro formado por uma população que, na sua maioria, é muito pobre e que apresenta um quadro de violência e marginalidade bastante elevado.

A partir do relato de uma outra funcionária da escola CMC, “nesse bairro moram muitas pessoas que sofrem forte violência física, principalmente as mulheres e as crianças”. Ainda segundo a funcionária, algumas mães informam que existe certa região no bairro que a violência é tão grande que, às 18 horas, os marginais dão o “toque de recolher”. Na sua conversa, ela diz: “A gente não quer se envolver com essas histórias, mas de tanto ouvir as mães, a gente acaba se misturando”. Continuando, ela afirma que de acordo com dados informativos dos alunos, no referido bairro moram muitos trabalhadores, como por exemplo: empregadas domésticas, quebradores de pedra, carregadores de areia, pedreiros, pequenos comerciantes, como os barraqueiros da feira e tantos outros que são empregados em empresas e nas pequenas indústrias. “Não podemos achar que lá só tem marginais, existem muitos pais e mães de família”. Nesse sentido, o professor F diz: “Na avenida aqui de frente da escola encontramos às seis/sete horas muitas pessoas descendo ou subindo. Dezenas de pessoas. Umas indo pra o trabalho, outras retornando do trabalho. Então, você não pode generalizar e achar que a comunidade é só feita de marginais, que todos são marginais”.

Nas entrevistas os professores afirmaram que muitas crianças da escola moram com as avós e tios, porque as suas mães viajam, principalmente para São Paulo, para trabalhar ou então vivem da prostituição. O Professor N, falando sobre o sustento dessas crianças, enfatiza que “umas são sustentadas por mães e pais batalhadores que vivem do subemprego com míseros salários, umas se alimentam por meio das bolsas do governo, outras são sustentadas pela prostituição, outras pelo dinheiro da aposentadoria dos avós e outras são alimentadas pelo dinheiro provenientes do tráfico e roubos”.

Numa dinâmica interativa que realizamos com as crianças, uma das questões se referia ao bairro: O que eu mudaria no meu bairro? As respostas da maioria das crianças foram:

“Eu mudaria no meu bairro o barulho e a violência.” “Eu mudaria a violência e as ruas esburacadas.”

“Eu mudaria no meu bairro a violência e a pobreza.” “Se eu pudesse, eu ia construir outro bairro.”

“Mudaria a violência, a matação de pessoas e os estupros.” “Eu mudaria a violência, as drogas, os tiroteios e as brigas.”

“Eu mudaria as casas, porque são feias, e a vida dos meus pais, porque eles brigam muito.”

“Eu mudaria a rua onde moro, porque é cheia de pedras soltas, é um perigo.”

A palavra “violência”, assim como aquelas que se referem à infra-estrutura, estão presentes em quase todas as respostas. Com relação aos estupros, foram bem pouco falados. Cabe enfatizar que, nos seus relatos, algumas crianças afirmaram gostar de onde moram, outras demonstraram certa vergonha ao dizer que moravam no bairro Jardim Vitória. Uma funcionária da escola diz que algumas mães afirmam que quando realizam compras, não podem falar o endereço onde moram, senão o tratamento dispensado pelas pessoas passa a ser outro.

Numa oficina realizada com doze alunos, com idade entre os 13 e 14 anos (turma 4), uma aluna diz: “Lá onde eu moro tem muitas casas pra cair. Já caiu uma que estava rachada e caiu em cima de uma mulher”. Uma outra aluna diz: “Minha mãe fala pra eu sair da rua, por causa do tiroteio, eles não tem pena, eles atiram”. Outro aluno diz: “No meu bairro, nós brincamos, nós vamos tomar banho numa lagoa, não gosto de ficar mais menino perigoso, lá tem muitas pessoas que tem ruindade, tem tiroteio, morte, roubo.”

Na conversa com as crianças acabamos dizendo que qualquer dia iríamos visitá- los nas suas casas, um deles diz que nós não deveríamos ir porque senão “os bandidos vão querer saber o que foram fazer lá”.

Os professores entrevistados afirmam que esse bairro é um dos mais violentos da cidade. Nesse sentido a própria escola adquiriu um estigma de violenta. “Não temos como fugir, a escola tem uma forte relação com toda essa violência do bairro” (Professor D).

Uma outra questão enfatizada pelos professores diz respeito à sexualidade precoce dos alunos, perceptível nas brincadeiras, nas suas falas, enfim nos comportamentos. Para elas, essa questão tem uma relação direta com a moradia. As casas são de um ou dois aposentos, de forma que pais e filhos dormem juntos. Para o

professor N, “nós atualmente precisamos trabalhar também essa questão da sexualidade na escola, porque é um problema que a gente vê que existe na comunidade. Muitas meninas engravidam precocemente”.

Acompanhamos os planejamentos dos professores, mas não encontramos propostas direcionadas para a questão da sexualidade.

No Projeto Pedagógico da Escola (2008), não encontramos referência específica a esse bairro, de onde provém a maioria dos alunos, como já mencionamos. Faz-se referência ao perfil da comunidade entorno, ressaltando que a escola, situada no centro da cidade, possui bairros circunvizinhos marcados por grandes desigualdades socioeconômicas que se materializam nas mais diversas formas de exclusão: falta de infra-estrutura básica, ausência de investimentos públicos, altos índices de desemprego, altas taxas de analfabetismo, violência, tráfico de drogas, furtos, prostituição, pobreza, etc.

4.3 Os efeitos do contexto social sobre o desempenho e expectativas escolares das