GİREBİLİR Mİ? TOPLU İŞ ARAMA İZİNİ VE İŞ GÜNLERİ Mehmet KARADURMUŞ *
IV- İHBAR SÜRESİ, İŞ ARAMA İZNİ VE YILLIK İZİN SÜRESİ:
“O respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros...” (FREIRE, 2004, p. 59).
Para melhor entendermos esta dimensão devemos esclarecer os conceitos envolvidos nesta abordagem. A ética49, vista no âmbito da universalidade: “... é o conjunto de princípios e disposições voltados para a ação, historicamente produzidos, cujo objetivo é balizar as ações humanas” (CASALI, 2001, p. 119).
O que se pretende ressaltar é que a ética pode e deve ser incorporada pelos indivíduos, sob a forma de uma atitude prática. Entretanto, a moral e a ética são mutáveis, historicamente se ampliam e se modificam, existindo entre elas uma tensão permanente. A ética exerce uma função crítica sobre a moral, constituindo-se no principal regulador do desenvolvimento histórico-cultural da humanidade, não permitindo a sua auto-destruição, porém, não garantindo o progresso moral da humanidade.
Princípios como justiça, cidadania, solidariedade, igualdade de direitos, dignidade da pessoa humana podem e devem ser incorporados ao comportamento, ao proceder dos indivíduos, contudo podem entrar em conflito, quando existem interesses outros, sujeitos a pressões econômicas e de mercado.
Educar supõe sempre o outro, o que implica ética. De um modo geral, não nos referimos, apenas, ao outro próximo, com quem convivemos, pois a ética envolve alteridade responsável em relação à temporalidade (presente e futura) e a espacialidade (qualquer lugar, próximo ou remoto).
49 Necessário se faz distinguir moral de ética. A moral do étimo latino mos, moris ou do grego ethos,
refere-se igualmente a padrões de convivência humana em uma determinada parte do todo. São padrões culturais particulares, parciais que correspondem ao âmbito da moral, considerada como: “[...] a regulação dos valores e comportamentos (procederes) considerados legítimos por uma determinada sociedade, um povo, uma religião, uma ordem política, uma certa tradição cultural. Há morais específicas também em grupos sociais mais restritos: uma instituição, um partido político, um grupo de identidades estéticas, etc. Há, portanto, muitas e diversas morais. Cada sistema moral cria seus próprios mecanismos particulares de legitimação. A moral não tem compromisso com a universalidade” (CASALI, 2001, p. 119).
No princípio que rege a ética, o outro é um sujeito de direitos, direito à vida , que deve ser produzida, reproduzida e desenvolvida e direito à liberdade, à possibilidade de viver plenamente.
A educação trabalha com potencialidades e possibilidades. O vir-a ser, o devir no desenvolvimento do ser humano deve pairar sempre no horizonte de quem educa. O educar para quê e quais as conseqüências do educar é uma questão de ética, de consciência, de responsabilidade diante do outro e do mundo.
Não podemos deixar de nos remeter à ótica freireana nesse aspecto: à incompletude ontológica de ser mais, ao papel do outro na relação dialógica com o mundo (ação interativa), ao discurso da possibilidade para a superação das desigualdades e exclusão social. Deve-se ressaltar, entretanto, que tanto a educação, como a ética, podem permitir a reprodução e legitimação de interesses outros que não os apontados.
[...] a compreensão da História como possibilidade e não determinismo, de que decorre necessariamente a importância do papel da subjetividade na História, a capacidade de comparar, de analisar, de avaliar, de decidir, de romper e por isso tudo, a importância da ética e da política....a prática educativa como um exercício constante em favor da produção e do desenvolvimento da autonomia de educadores e educandos” (FREIRE, 2004, p. 145).
A escola é um componente da cultura, parte da parcialidade, está sujeita a determinações universais decorrentes da totalidade das relações humanas. Cabe à educação repensar seu próprio padrão cultural, as formas de produção de indivíduos e as formas das determinações macroestruturais da economia, da política e da cultura mundiais.
A educação é, portanto, moral (particular, conserva a cultura) e ética (universal, possibilita a transformação). A escola como locus de produção de conhecimento só alcançará legitimidade política e cultural quando deixar de ter caráter quantitativo (plural, mas mera repetidora) e passar a ser qualitativa (inovadora, possibilitadora da diversidade cultural), na visão dialética do processo educativo.
A ética é inseparável da prática educativa, pois a prática educativa enquanto prática especificamente humana é de natureza ética (FREIRE, 2004, p. 17). É impossível desunir ensino dos conteúdos de formação ética dos educandos. O ensino dos conteúdos é um testemunho ético que se realiza ao serem ensinados: “[...] não posso [...] reduzir minha prática docente ao puro ensino daqueles conteúdos[...] tão importante
quanto ele, o ensino dos conteúdos é o meu testemunho ético ao ensiná-los” (FREIRE, 2004, p. 103).
Freire considera a ética da globalização como a ética do mercado50 e não do ser humano. Para ele, a prática educativa deve ser realizada visando à produção de conhecimento, e não a sua reprodução, bem como ao desenvolvimento da autonomia de educadores e educandos .
Freire (2004, p. 16) defende, ainda, a ética que afronta a discriminação:
A ética de que falo é a que se sabe afrontada na manifestação discriminatória de raça, de gênero, de classe. É por esta ética inseparável da prática educativa, não importa se trabalhamos com crianças, jovens ou com adultos, que devemos lutar.
Devemos considerar que o currículo escolar é composto por determinações epistemológicas e éticas (universalidade), por determinações culturais e morais (parcialidade), por determinações individuais (singularidade) dos sujeitos envolvidos, que por sua vez determinarão os conteúdos e sua disposição nos currículos.
Segundo Casali (2001, p. 123), a ação do educador (singularidade), de acordo com um projeto coletivo elaborado pela escola (parcialidade) e em conformidade com referências éticas na universalidade poderá tornar-se concreto e, historicamente, sintetizar todas as determinações, representando a unidade na diversidade.
Embora o tema da ética permeie toda a obra pedagógica e política de Freire (CASALI, 2005, p. 65), essa temática se explicita nos textos de sua última fase, provavelmente em virtude do tema ter emergido com mais força nesse período histórico51. Segundo Freire, só há educação onde houver atitude de indignação ética contra as injustiças. Assim, toda ação pedagógica tem como um dos seus objetivos a formação ética . Nenhuma ação pedagógica pode separar o ético do “não-ético”, porque, para ele, não existe “não-ético” na educação. Assim como toda ação pedagógica é política, toda ação pedagógica é ética52. Casali (2005, p. 66) esclarece: “A rigor, o político confunde-se com o ético, pois política não é outra coisa senão um certo ordenamento da vida social, ou seja, a produção de um certo ethos53”.
50“O discurso da globalização que fala da ética esconde, porém, que sua ética é a ética do mercado e não
a ética universal do ser humano, pela qual devemos lutar bravamente se optarmos, na verdade, por um mundo de gente” (FREIRE, 2004, p. 127).
51 Refere-se ao Governo Sarney e depois ao Governo Collor (1989-1992). A prefeita da cidade de São Paulo, Luiza Erundina, foi uma das lideranças pela ética e Paulo Freire absorveu esse espírito. 52 Refere-se , evidentemente, a “ética boa”.
Casali (2005) faz referência a Enrique Dussel54, reconhecido como um dos mais consistentes pensadores sobre a ética, como um reconhecedor de Freire como uma das expressões mais acabadas da ética em educação e, portanto, de importância histórica no âmbito educacional. Essa importância é atribuída a Freire por reconhecer que sua proposta educativa busca uma transformação da realidade contextual e a promoção de uma consciência ético-crítica no educando.
Sem consciência ético-política não há educação autêntica. Esse ato pedagógico ético-político de Freire só se dá por meio de um processo da práxis de libertação55, em que o sujeito histórico da ação para a transformação se realiza na própria realidade histórica. Nessa direção, é fundamental o processo de conscientização do educando56. Para isso, é essencial a participação do educador crítico que deverá apreender a compreensão de mundo trazida pelos educandos para poder despertar sua consciência crítica de dentro para fora, vista como um compromisso ético com a realidade em que vive.
Para Freire, a ética se relaciona com a dimensão ontológica do ser humano de ser mais, sabendo mais. É a ética da vida: conversão da vida negada em vida afirmada (CASALI, 2005)57. É uma ética baseada na comunidade Para ele, a educação deve ser uma prática de liberdade. A liberdade do(s) educando(s) é meio e fim da educação, assim como é condição, meio e fim da vida política.
O núcleo da pedagogia freireana é a formação da consciência crítica no educando. Essa possibilidade humana, torna-se obrigação: o fundamento do dever ético- pedagógico. Para que se realize plenamente deve estar associada a uma práxis de transformação social. Toda práxis, enquanto ação inteligente e intencional de (re)ordenamento social, pressupõe a consciência crítica. O sentido ético dessa práxis é uma educação libertadora.
Um dos problemas cruciais de nosso tempo é a questão ética. Situamo-nos em uma ética utilitarista ditada pela soberania do mercado. A globalização do capital associada à ideologia neoliberal impõe ao mundo um processo de exclusão sem culpa,
54 Argentino, naturalizado mexicano, professor de Ética na Universidade autônoma Metropolitana Iztapalapa e na Universidade Nacional Autônoma do México.
55 “Educação como prática da liberdade, é um ato de conhecimento, uma aproximação crítica da realidade” (FREIRE, 1979, p. 25)
56 “[...] a conscientização não pode parar na etapa de desvelamento da realidade. A sua autenticidade se dá quando a prática do desvelamento da realidade constitui uma unidade dinâmica e dialética com a prática da transformação da realidade” (FREIRE, 2006a, p. 172)
57 Ética comprometida com a luta pela libertação dos oprimidos, pela necessidade de humanização do homem e pela aproximação de sua vocação de ser mais, para protagonizar a transformação da História, através da ação humana (DUSSEL, 2002 apud REGIS et al., 2005, p. 80). A ética freireana é a da vida, a ética que se opõe à coisificação do homem no mundo, minimizando sua atuação como simples espectador, que se acomoda às prescrições alheias (DUSSEL, 2002 apud REGIS et al., 2005, p. 80).
quase natural, sem igualdade e solidariedade. O ser humano não se vê como agente de sua história, da transformação social, da construção do processo civilizatório e do seu mundo. Para Freire, a ética deve ser entendida como uma ação a favor do outro, valorizando a vida e a dignidade humana.
O compromisso ético manifestado por Freire deve ser realizado em ações do cotidiano, de forma compartilhada, coletivamente e solidariamente. Como se vê, as categorias freireanas se entrelaçam como seu pensamento, como sua visão de mundo, na subjetividade, na intersubjetividade, na unidade, na coletividade, na diversidade, na inclusão. Para Freire, o que fundamenta o conhecimento, o saber mais, o ser mais é o diálogo. Relaciona dialogicidade e ética. Para ele, dialogar é ético.
Ahlert (2003) assim como Freire pensa o óbvio. O conhecimento se constrói, é uma busca do vir-a-ser, está sendo, não é acabado. É nessa instabilidade permanente que, segundo ele, vai se forjando a ética da Pedagogia. Aponta a possibilidade da relação entre os fundamentos epistemológicos a uma ética pedagógica58 compatível com a formação para a cidadania. Esta proposição filosófica, pedagógica e ética permeia o pensamento de Ahlert (2003) ao longo de sua discussão sobre a eticidade da educação.
[...] a educação e a ética são dois pilares de uma mesma realidade na construção de seres humanos livres, responsáveis, fraternos, solidários, em suas inter-relações mútuas e com a natureza. Porém, não são uma realidade dada e acabada, mas que se constrói concomitantemente com o desenvolvimento intelectual da humanidade no seu processo de busca do conhecimento (AHLERT, 2003, p. 173)
Para Ahlert (2003, p. 176), é necessária uma auto-reflexão para se recuperar a razão comunicativa, substituída pela instrumental na modernidade, uma vez que, no seu entendimento, essa visão provocou a transformação da ética em técnica. Nesse sentido, a ética é alijada das relações humanas e as questões do convívio humano são transformadas em questões técnicas e científicas. A educação, nessa perspectiva, vem desligada das questões éticas.
O referido autor afirma, ainda, que a reconstrução de um mundo ético passa pela educação que, por sua vez, pressupõe uma mudança de paradigma. Para ele, um paradigma centrado na linguagem, que possibilite uma ampla discussão das questões éticas, morais e sociais, que valorize o coletivo, a igualdade, a fraternidade e a liberdade, aspectos esses também defendidos por Freire, como vimos.
Esse novo paradigma apontado por Ahlert (2003) sugere uma Ética do Discurso, baseada em normas, valores e princípios que devem guiar as relações humanas, políticas e econômicas, bem como os meios e fins da aplicação do conhecimento nas ciências. Nessa ótica, a educação torna-se meio de construção e re-construção de valores e normas possibilitadores da inclusão social. É nesse sentido que a dimensão ética do saber deve ser enfocada.