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Compreende-se que a educação superior constitui um meio para a produção do conhecimento e a IES é um lugar onde os valores e práticas da educação inclusiva precisam ser vivenciadas. As práticas docentes exigem preparo do profissional de Educação Física ao tratar de pessoas com deficiência; e o projeto de organização universitária deve implementar ações favorecendo a inclusão social e educacional, proporcionando a esses futuros profissionais a prática docente.

Este novo olhar refere-se ao desconhecido, e o diferente exige do educador, ações pautadas não somente em políticas públicas, como também, a valorização da diversidade em todos os espaços, fazendo valer o verdadeiro sentido da inclusão enquanto processo que reconhece e respeita diferentes identidades e que aproveita essas diferenças para beneficiar a todos e a todas (FREITAS, 2005).

Segundo Vitaliano (2007), nos anos 70 houve iniciativa para construção de uma pedagogia universitária, por meio de cursos formais em nível de pós-graduação e apoio pedagógico mediante assessoramento e formação continuada. No entanto, naquela época, o enfoque pedagógico apresentava característica tecnicista enfatizando como fazer e evitando reflexões sobre por que fazer.

Conforme Vitaliano (2007), nos anos 80, quando vivenciávamos uma época mais democrática, iniciaram-se reflexões sobre o ensino superior brasileiro, suscitadas por associações, tais como: a Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior (ANDES), a Federação das Universidades Brasileiras (FASUBRA), e outras. As associações científicas vigentes nesse período também contribuíram com esta reflexão. Destaca-se a Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Educação (ANPEd).

Notadamente, nas décadas de 1980 e 1990, discerniu interlocutores da Educação Física (docentes universitários, pesquisadores e profissionais) envolvidos em uma discussão acerca de sua identidade acadêmica e profissional (PEDRINELLI e VERENGUER, 2005).

Desse modo, houve a proposta de inclusão de disciplina específica ou tópicos de Educação Especial em disciplinas dos cursos formadores de profissionais de 2º e 3º graus (atual ensino médio e ensino superior) que atendem pessoas com deficiência.

Sendo assim, discorrer a respeito de pessoas com deficiência é uma discussão recente, pois somente a partir da década de 80 os cursos de Educação Física acrescentaram nas matrizes curriculares disciplinas e conteúdos relativos às pessoas com deficiência.

Desde a publicação da Resolução 03/87 que trata do Currículo Mínimo para os cursos de Educação Física, o Conselho Federal de Educação (BRASIL, 1987) teve como objetivo reestruturar os cursos de Educação Física. No parecer 215/87 aparece como sugestão, um rol de disciplinas para compor o novo currículo, especificando-se no parágrafo IV do artigo VI, a necessidade de formar um profissional de Educação Física competente a trabalhar com pessoas com deficiência.

Corroborando, sabe-se que a área da Educação Física foi um dos primeiros cursos a conter nas matrizes curriculares, de forma a atender à recomendação da SEESP/MEC22, conteúdos direcionados às práticas esportivas e atividades físicas voltadas ás pessoas com deficiência.

A partir desse momento, os cursos começaram a oferecer em suas matrizes curriculares pelo menos uma disciplina que abordasse a questão da pessoa com deficiência. Esta disciplina, inicialmente, poderia aparecer nas matrizes curriculares de maneira 22 Resolução nº 03/87 do Conselho Federal de Educação.

obrigatória ou optativa. Diante desta conjuntura, houve a necessidade da criação de uma outra disciplina, reconhecendo-se, segundo Coletivo de Autores (1992, p. 61), que “estruturar o programa de uma disciplina e selecionar seus conteúdos é um problema metodológico básico, uma vez que, quando apontam-se os conhecimentos e os métodos para sua assimilação, evidenciando-se a natureza do pensamento teórico que pretende-se desenvolver”.

Partindo dessa reformulação, deparou-se que nas IES, sua maioria, não havia um profissional habilitado para ministrar esta disciplina, com conhecimentos suficientes para oferecer um corpo teórico e metodológico sustentável (GOMES, 2007).

A referida proposta foi encaminhada ao Conselho Federal de Educação em dezembro de 1993, originando a Portaria nº 1.793, de 27 de dezembro de 199423, publicada no Diário Oficial da União – Seção 1 de 28 de dezembro de 1994, p. 20.767, em forma de RECOMENDAÇÃO, pelo Ministro de Estado da Educação e do Desporto. Considerando a necessidade de complementar os currículos de formação de docentes e de outros profissionais que interagem com as pessoas com deficiência, o texto apresenta três importantes artigos, assim elaborados:

Art. 1º - Recomendar a inclusão da disciplina “Aspectos Éticos-Políticos- Educacionais da Normalização e Integração da Pessoa Portadora de Necessidades Especiais”, prioritariamente, nos cursos de Pedagogia, Psicologia e em todas as Licenciaturas.

Art. 2º - Recomendar a inclusão de conteúdos relativos aos Aspectos Éticos- Políticos-Educacionais da Normalização e Integração da Pessoa portadora de Necessidades Especiais nos cursos do grupo de Ciências da Saúde (Educação Física, Enfermagem, Farmácia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Medicina, Nutrição, Odontologia, Terapia Ocupacional), no Curso de Serviço Social e nos demais cursos superiores, de acordo com as suas especificidades.

Art. 3º - Recomendar a manutenção e expansão de estudos adicionais, cursos de graduação e de especialização já organizados para as diversas áreas da Educação Especial (BRASIL, 1994, p. 2767).

De acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de Educação Física (BRASIL, MEC/CNE, 2004a), em 2004 assegurou-se que as IES organizassem o currículo, estabelecendo os marcos conceituais fundamentais dos perfis profissionais desejados, elaborando ementas, fixando carga horária de cada disciplina e suas respectivas denominações, bem como contemplar peculiaridades regionais.

23 A Portaria nº 1.793, além de ser publicada no Diário Oficial da União de 1994.12.28, foi publicada também na Revista Integração de Educação Especial do MEC, no ano 5, nº14, de 1994, constando dos Informes com o titulo “Portarias recomendam inclusão de disciplinas e conteúdos sobre Educação Especial no 3º grau”.

Desta forma, na Resolução nº 7, de 31 de março de 2004, as questões referentes às pessoas com deficiência ficaram assim instituídas:

a) Art. 6º - As competências de natureza político-social, ético-moral, técnico- profissional e científica, deverão constituir a concepção nuclear do projeto pedagógico de formação do graduado em Educação Física.

§ 1º A formação do graduado em Educação Física deverá ser concebida, planejada, operacionalizada e avaliada com vistas à aquisição e desenvolvimento das seguintes competências: Diagnosticar os interesses, as expectativas e as necessidades das pessoas (crianças, jovens, adultos, idosos, pessoas portadoras de deficiências, de grupos e comunidades especiais) de modo a planejar, prescrever, ensinar, orientar, assessorar, supervisionar, controlar e avaliar projetos e programas de atividades físicas, recreativas e esportivas nas perspectivas da prevenção, da promoção, da proteção e da reabilitação da saúde, da formação cultural, da educação e da reeducação motora, do rendimento físico-esportivo, do lazer e de outros campos que oportunizem ou venham a oportunizar a prática de atividades físicas, recreativas e esportivas (p. 2).

b) Art. 7º - Caberá à Instituição de Ensino Superior, na organização curricular do curso de graduação em Educação Física, articular as unidades de conhecimento de formação específica e ampliada, definindo as respectivas denominações, ementas e cargas horárias em coerência com o marco conceitual e as competências e habilidades almejadas para o profissional que se pretende formar.

§ 4º As questões pertinentes às peculiaridades regionais, às identidades culturais, à educação ambiental, ao trabalho, às necessidades das pessoas portadoras de deficiência e de grupos e comunidades especiais deverão ser abordadas no trato dos conhecimentos da formação do graduado em Educação Física. (p.3).

Caber ressaltar que os parágrafos da Resolução nº 7/2004 são transcritos na íntegra do Parecer CNE/CES 0058/2004.

Considerando-se o § 4º, sentiu-se a necessidade de verificar, especificamente, como esta disciplina, que tem a incumbência de formar um profissional com competências e habilidades para atuar com pessoas com deficiência, vêm sendo articulada nos cursos de Educação Física. Diante disto, teve-se a necessidade de angariar informações pertinentes a esta disciplina, aqui denominada como Atividade Física Adaptada (AFA).

Atualmente, sabe-se que a formação do profissional que atua com pessoas com deficiência ou até mesmo os que atuam com essas inclusas na sociedade ou em ambientes educacionais, está sendo realizada em dois níveis de ensino: graduação e especialização (Lato e Stricto Sensu).

Entretanto, percebe-se que, não só a disciplina no curso de graduação, mas também profissionais já formados, começam a busca de conhecimento no que tange as pessoas com deficiência, pois procuram a estruturarem-se teórica, metodológica e cientificamente.

3.4 EDUCAÇÃO FÍSICA E AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA: ALGUNS