4.2. TÜRKİYE’DE KAMU YÖNETİMİ VE BELEDİYELERİN DURUMU
4.2.1. Kamu Yönetiminin Durumu
A identidade só existe a partir de algo que está fora dela, ou seja, outra identidade que difere dela. Assim, temos que ela é marcada pela diferença, a qual envolve negação e é sustentada pela exclusão, ou pertence a um grupo ou a outro. Como afirma Woodward (2012):
As identidades são fabricadas por meio da marcação da diferença. Essa marcação da diferença ocorre tanto por meio de sistemas simbólicos de representação quanto por meio de formas de exclusão social. A identidade, pois não é oposto da diferença: a identidade depende da diferença (WOODWARD, 2012 p. 40)
Temos, então, que a identidade e a diferença são indissociáveis, uma depende da outra. A marcação por meio dos sistemas simbólicos é uma produção social. Por exemplo, quando citamos a deficiência física, a cadeira de rodas é um símbolo que representa essa deficiência. Ou ainda, quando citamos o Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST) e as pessoas que moram na zona rural, o pé vermelho é um símbolo da sua identidade que foi criado pela sociedade para marcar a diferença.
Outro autorque contribui com esta temática é Silva (2012)que problematiza a questão da identidade e da diferença, colocando também que existe uma relação de dependência entre elas, considerando que identidade é aquilo que se é, tem referência a si mesma. E a diferença é aquilo que o outro é, na verdade é uma negação de tudo que não faz parte da própria identidade. Nas palavras do autor:
[...] as afirmações sobre diferença só fazem sentido se compreendidas em sua relação com as afirmações sobre identidade. Dizer que ela é chinesa significa dizer que ela não é argentina, ela não é japonesa, etc., incluindo a afirmação de que ela não é brasileira, isto é, que ela não é o que sou. As afirmações sobre diferença também dependem de uma cadeia, em geral oculta, de declarações negativas sobre (outras identidades). Assim como a identidade depende da diferença, a diferença depende da identidade. Identidade e diferença são, pois, inseparáveis. (SILVA, 2012, p. 75)
Esta relação de interdependência também é apresentada por Veiga-Neto (2011, p.113) “se o normal depende do anormal para a sua própria satisfação, tranquilidade e singularidade, o anormal depende do normal para sua própria segurança e sobrevivência”. O normal definirá a norma e quem fará parte dela.
A constituição da identidade da pessoa com deficiência sempre foi produto da diferença porque a sociedade concebeu um ser como norma e as pessoas que não atendem a essa norma são marcadas por aquilo que não são. Diante disso, percebemos que esses dois conceitos são criados no contexto de relações culturais e sociais, através de atos de criação linguística:
Dizer que são o resultado de atos de criação significa dizer que não são elementos da natureza, que não essenciais, que não são coisas que estejam simplesmente aí, à espera de serem reveladas ou descobertas, respeitadas ou toleradas. A identidade e a diferença têm que ser ativamente produzidas. Elas não são criaturas do mundo natural ou de um mundo transcendental, mas do mundo cultural e social. Somos nós que as fabricamos, no contexto de relações culturais e sociais.(SILVA, 2012, p.76)
O modelo médico focado na incapacidade das condições biofísicas do individuo contribuiu bastante para criar a diferença, para criar a imagem do deficiente como um ser incapaz devido às suas limitações orgânicas. Por meio do modelo social, podemos ver a
deficiência como uma produção social, pois a limitação não está mais no individuo, mas na sociedade que não está organizada para lidar com as diferenças e isto causa desvantagem social.
Essa desvantagem pode expressar o desejo dos diferentes grupos da sociedade para garantir o acesso privilegiado aos bens sociais. Onde há identidade e diferença existe uma relação de poder e a marca do poder é incluir ou excluir, que está totalmente ligada à normalização, onde uma identidade é eleita como parâmetro para avaliar as demais, que sempre recebem cargas negativas.
As cargas negativas podem ser criadas pela linguagem, quando as proposições são performativas, algumas sentenças descritivas podem ter este efeito:
Assim, por exemplo, uma sentença como ‘João é pouco inteligente’, embora pareça ser simplesmente descritiva, pode funcionar – em um sentido mais amplo – como performativa, na medida em que sua repetida enunciação pode acabar produzindo o ‘fato’ que supostamente apenas deveria descrevê- lo (SILVA, 2012, p.93).
A produção da identidade também deve ser olhada pelo lado performativo, aquilo que dizemos também contribui para reforçar uma identidade e não somente descrevê-la. É a repetição que caracteriza e cria uma identidade negativa.
Veiga-Neto (2011), a partir das contribuições de Michel Foucault utiliza os termos anormais para designar os grupos que a Modernidade cria e exclui. Muitas vezes, esse termo nos incomoda porque ele vem carregado de outros nomes e práticas negativas de exclusão. O autor coloca que o conceito de anormal está ligado a relações de poder que o grupo social estabelece, atribuindo uma marca:
A atribuição de uma marca – agora, construída a partir de critérios fundamentalmente econômicos, como capacidade de consumir, avaliada tanto pelo poder financeiro quanto pela competência/expertise para fazer as melhores escolhas – não propriamente a um corpo, mas a toda uma fração social para que, depois se diga que qualquer corpo dessa fração é normal ou anormal pelo simples fato de pertencer a tal fração. Isso equivale dizer que o critério de entrada não é mais o corpo (em sua morfologia e comportamento); o critério de entrada pode ser, também o grupo social ao qual esse corpo é visto como indissoluvelmente ligado. (VEIGA-NETO, 2011, p.107).
Percebemos o poder de dominação que o grupo se utiliza criando as identidades anormais. Nessa ideia vemos como a pessoa com deficiência é dominada pela sociedade moderna, fazendo com que tenha que lutar, constantemente, pelos seus direitos de participação.
As classes inclusivas, segundo Veiga-Neto (2011), colocam em ação a norma marcando a distinção entre normais e anormais:
Se parece mais difícil ensinar em classes inclusivas, classes nas quais os (chamados) normais estão misturados com os (chamados) anormais, não é tanto porque seus (assim chamados) níveis cognitivos são diferentes, mas, antes, porque a própria lógica de dividir os estudantes em classes – por níveis cognitivos, por aptidões, por gênero, por idades, por classes sociais etc – foi um arranjo inventado para, justamente, colocar em ação a norma, através de um crescente e persistente movimento de, separando o normal do anormal, marcar a distinção entre normalidade e anormalidade. (VEIGA- NETO, 2011, p.110–111).
O nível cognitivo foi criado para marcar a distinção dentro da escola. Sabemos, por diversos estudos, sobre a existência das múltiplas inteligências, onde cada ser humano possui uma habilidade específica em determinada área que não necessariamente o cognitivo. Gardner (1994) contestou os testes psicométricos de QI (quociente intelectual) como única forma de avaliar a inteligência dos indivíduos. De acordo com ele “há evidências persuasivas para a existência de diversas competências intelectuais humanas relativamente autônomas abreviadas daqui em diante como inteligências humanas” (GARDNER, 1994, p.7). Esse autor defende a existência de inteligências múltiplas, entre elas, podemos citar a linguística, musical, lógico-matemática, espacial, corporal-sinestésica e as pessoais. Se a escola conseguisse identificar esta inclinação intelectual de cada indivíduo, poderia criar programas para desenvolver habilidades específicas ao invés de ficar marcando a diferença, seguindo o padrão na norma estabelecida.
Ao falar da diferença, Veiga-Neto (2011, p.117) diz que “trata-se do fato de que colocar todos os anormais num mesmo plano significa não atentar para as peculiaridades culturais que se estabelecem em cada grupo”. Diante disso, percebemos que é preciso se atentar para as diferenças, não podemos trabalhar num mesmo plano sem considerar as especificidades de cada ser humano.
Ferre (2001) recorre ao dicionário para mostrar a relação existente entre identidade, diferença e diversidade:
Pelo dicionário sabemos que a palavra ‘diferença’ significa a qualidade ou acidente pelo qual uma coisa se distingue de outra ou variedade entre coisas de uma mesma espécie e que ‘diversidade’ significa variedade, dessemelhança, diferença ou de distinta natureza, espécie, número ou figura. Vemos assim que o significado de ‘diferença e diversidade’ permite-nos distinguir o outro de um, o outro do mesmo. Quer dizer que o diferente ou diverso é contrário do idêntico. Saberemos também olhando um dicionário que ‘identidade’ significa o fato de ser uma pessoa ou coisa a mesma que se
supõe ou se busca ou bem a circunstância de ser uma pessoa a que diz ser. (FERRE, 2001, p.195)
Ela coloca que devemos olhar além do significado preciso das palavras. Utiliza-se de um texto de Clarice Lispector que reflete que não somos o próprio nome, ele pertence ao que nos chamam:
Eu não sou meu nome; meu nome pertence àqueles que me chamam. Minha identidade me dão os outros, mas eu não sou essa identidade, pois se eles têm de dá-la a mim é porque eu, em mim mesma, por mim mesma, em minha intimidade, não a tenho. (FERRE, 2001, p.196)
A diferença nos afasta da identidade criada pelos outros:
Na verdade, a diferença, o desvio, a inclinação até o não idêntico, que conforma a intimidade de cada um, nos afasta da identidade que os outros nos dão e, no mais íntimo de cada qual, talvez todos saibamos que não somos ninguém. Não obstante, a educação impõe, a si mesma, o dever de fazer de cada um de nós alguém; alguém com uma identidade bem definida pelos cânones da normalidade, os cânones que marcam aquilo que deve ser habitual, repetido, reto, em cada um de nós. (FERRE, 2001, p.196)
O ser diferente causa grande perturbação na sociedade, porque lembra as próprias limitações. Não podemos limitar a identidade da pessoa com deficiência pelas características orgânicas.
Quando a autora discorre sobre a questão da diferença de gênero sexual, conclui que essa diferença não se resolve igualando-os, porque na verdade são dois. Fazendo um paralelo com as pessoas com deficiência percebemos que não é possível igualar todos, porque cada um tem diferenças que precisam ser respeitadas para garantir a igualdade de oportunidades.
Considerando a instituição escola, espaço este em que a pessoa com deficiência está inserida, não devemos pensar em um modelo único, mas sim em uma instituição que atenda às especificidades, contribuindo na construção da identidade que a promova positivamente dentro da sociedade. Acreditamos que não é possível levantar pontos e questionamentos sobre a constituição da pessoa com deficiência sem considerar essa totalidade/complexidade que é a sociedade e acreditamos no subsídio do enfoque social neste contexto.