Durante o ano de 2010 forma realizadas diversas visitas a cinco escolas do município de João Pessoa, pertencentes ao mesmo polo administrativo – Polo 1 (Mangabeira/Bancários/Cidade universitária/Cristo/Penha), onde foram feitas entrevistas semi-estruturadas com professores e encarregados da administração da unidade escolar e observação do campo de análise, perfazendo um total de 13 (treze) professores entrevistados, 05 (cinco) diretores, 03 (três) vice-diretores, 02 (duas) psicólogas e 02 (duas) autoridades da Secretaria de Educação do Município.
Tentou-se delimitar a amostragem de acordo com dados do último censo escolar municipal, adotando-se como grupo focal as escolas com maior número de alunos negros. Mas, não foi possível se chegar a tal informação devido à ausência, alegada pela Secretaria, de dados seguros fornecidos pelas unidades escolares e, por fim, após tentativas insistentes, obteve-se a informação de que os dados ainda não haviam sido catalogados e estruturados, não sendo possível, disponibilizá-los.
Então, optou-se, com o objetivo de delimitar o grupo de pesquisa, por recorrer à organização administrativa da Secretaria de Educação em polos23, tentando minimizar
Segundo informações prestadas pela Secretaria de Educação do Município, as unidades escolares são agrupadas em pólos, num total de nove, seguindo o critério de contigüidade entre os bairros da capital ou entre as escolas. Polo 1 (Mangabeira/Bancários/Cidade Universitária/Cristo/Penha); Polo 2 (Cristo/Rangel); Polo 3 (Bairro dos Novais/Alto do Mateus); Polo 4 (José Américo/Valentina/Geisel/Gramame); Polo 5 (Jaguaribe/Torre/Centro –Roger/Varadouro/Ilha do Bispo/Miramar); Polo 6 (Pe. Zé/Mandacaru/Bairro dos Estados/13 de maio/Bairro dos Ipês/Bessa); Polo 7
as possíveis inconsistências metodológicas e diminuir a margem de variantes e interferências sobre o grupo pesquisado de aspectos e condições outras não referentes à educação e relações étnico-raciais. Ou seja, buscou-se estabelecer a homogeneização do grupo focal, tanto quanto possível, através da restrição da pesquisa às escolas do Polo 1, que compreende os bairros de Mangabeira, Bancários, Cidade Universitária, Cristo e Penha, visto que submetidos à mesma Coordenadoria e, supostamente, às mesmas diretrizes, metodologias e comandos de atuação.
Inicialmente, as visitas, autorizadas pela Secretaria de Educação do Município e pelos diretores das escolas, foram dedicadas à observação assistemática24, em que foi possível, na condição de ouvinte não interveniente, analisar o cotidiano escolar, as práticas, posturas, metodologias e materiais didáticos utilizados na condução da temática História e Cultura afro-brasileira e africana. Buscou-se primeiramente naturalizar a presença da pesquisadora no campo de observação para, a partir daí, perceber os fluxos e influxos do dia a dia dentro das unidades selecionadas. A escolha de tal método de abordagem deveu-se ao fato de que, “tanto quanto a entrevista, a observação ocupa um lugar privilegiado nas novas abordagens de pesquisa educacional.” (LÜDKE, 2008, p. 26). Corroborando a escolha, continua a autora:
“A observação direta permite também que o observador chegue mais perto da ‘perspectiva dos sujeitos’, um importante alvo nas abordagens qualitativas. Na medida em que o observador acompanha in loco as experiências diárias dos sujeitos, pode tentar apreender a sua visão de mundo, isto é, o significado que eles atribuem à realidade que os cerca e às suas próprias ações.” (LÜDKE, 2008, p. 26)
Adotou-se na elaboração da pesquisa a utilização da metodologia qualitativa25, buscando estabelecer amostragem que indicasse uma tendência de comportamento do todo (comunidade escolar do município de João Pessoa), com o intuito de possibilitar a
(Bairro das Indústrias/Costa e Silva/Ernani Sátiro); Polo 8 (Funcionários/Esplanada/Grotão); Polo 9 (Cruz das Armas).
24 O método de observação assistemática “procura recolher e registrar os fatos da realidade sem a
utilização de meios técnicos especiais, ou seja, sem planejamento ou controle. Faz parte dos estudos exploratórios sobre o campo a ser pesquisado. Objetivo: identificar as crenças e objetivos que orientam os comportamentos dos indivíduos sem que estes tenham consciência dos reais motivos” (Lakatos, 1996, p. 79).
25 Registre-se que a presente pesquisa foi submetida à apreciação do Conselho de Ética na Pesquisa (CEP), obtendo aprovação e liberação para sua feitura por preencher todos os requisitos necessários para a condução de pesquisa com pessoas.
visão, ainda que fragmentada, do panorama da realidade posta em análise e coletar com segurança dados que viabilizassem a aferição da efetividade da Lei 10.639/03 nas escolas do município de João Pessoa.
As entrevistas semi-estruturadas26 com professores, diretores e responsáveis políticos pela gestão educacional no município, foram feitas com o escopo de ir além da caracterização e delimitação do objeto de estudo, tentando conhecer um pouco mais dos atores ligados ao processo educativo. Ao se escolher esse tipo de entrevista, sugeriu-se um quadro referencial de temas que tangenciavam o objeto específico da pesquisa (efetividade da Lei 10.639/03) de acordo com os pressupostos teóricos previamente adotados. Dessa forma, tentou-se proporcionar certa liberdade aos entrevistados para que se conduzissem livremente nos relatos prestados, compartilhando com a entrevistadora dados importantes da sua experiência pessoal e profissional, que, ao final, seriam o suporte de fundo das premissas levantadas aprioristicamente pela pesquisadora quando da elaboração do projeto de pesquisa.
É importante referenciar que todo o trabalho foi desenvolvido partindo da percepção e aceitação da realidade social multicultural na contextura da pós- modernidade, que privilegia e incentiva a convivência intercultural e o reconhecimento e fortalecimento de identidades variadas e até mesmo conflitivas (Hall, 2006, p. 13).
Ao mesmo tempo, faz-se necessário reconhecer que o campo de pesquisa escolhido – escolas públicas do município de João Pessoa/PB – não se notabiliza pela congregação de pessoas pertencentes a culturas, religiões, etnias ou nacionalidades – grupos minoritários – diferentes, sendo imprescindível, nesse momento, e daqui para frente, esclarecer que, ao tratarmos de multi/interculturalidade e multiculturalismo, estaremos, para os fins da pesquisa, referindo-nos apenas às diferenças étnico-raciais.
Ressalte-se que a fraca vocação da cidade de João Pessoa como espaço multicultural, contribui para o afastamento da temática dos espaços escolares, visto que encarada como realidade distante e que prescinde de abordagem educacional, consequentemente, essa ausência de debate e cotejamento do multiculturalismo nas escolas, concorre para o enfraquecimento da discussão sobre a situação racial nos ambientes sociais e escolares, reproduzindo a ideologia dominante de não tensão e não conflituosidade racial brasileira.
26 “A entrevista semi-estruturada se desenrola a partir de um esquema básico, porém não aplicado rigidamente, permitindo que o entrevistador faça as necessárias adaptações.” (LÜDKE, 2008, p. 34)
Os relatos e concepções dos entrevistados serão abordados conjuntamente às observações da pesquisadora, quando das entrevistas e das visitas às escolas, tendo como referencial comum questão teórico-prática proposta, pertinente ao objeto central da pesquisa, e que emergiu como ponto de tensão e discussão constante.
A intenção da presente pesquisa foi averiguar o grau de efetividade da Lei 10.639/03, enquanto ação afirmativa de cunho valorizatório dos negros, e a realidade dos elementos teóricos irradiados do seu conteúdo normativo – identidade/multiculturalismo/interculturalidade – que são, na verdade, pressupostos para sua concretização, no âmbito das escolas municipais de João Pessoa, analisando e refletindo a realidade legal a partir dos dados coletados na investigação feita em um fragmento do possível campo total de pesquisa, com intenção de estabelecer e indicar a tendência comportamental focalizada como provável padrão para todo o sistema educacional municipal e propor elementos que contribuam para o debate teórico conducente à criação de uma cultura de igualdade a partir da naturalização das diferenças.