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581.1.5.5.3 Turizm Talebinin Analiz

1.2. KALKINMA KAVRAM

A liderança dos processos de inovação social e desenvolvimento territorial é “revolucionária”, não no sentido dado por Schumpeter (1988), de um transformador nas relações técnicas ou econômicas do modelo para uma afirmação e reprodução de novas mercadorias ou formas de produção, mas no de um ator e transformador de suas ações de interesse comunitário e propenso à economia social, um déviance do sistema social, portador de um papel importante na constituição territorial, pois ele é um elemento de conhecimento e transmissão de cooperação e transformação. Ou seja, é um articulador de interesses capaz de ter a competência de embates de projetos e, ao mesmo tempo, de alianças territoriais para difusão de inovação socioespacial. Entre suas funções estão a de estimular e apoiar os esforços de mudança social, criar um espaço de respeito, confiança e criatividade, projetar e programar projetos de base e a de ser um político comprometido com o processo de inclusão social.

Para este trabalho, a identificação das características institucionais e de liderança se deu por meio da realização de entrevista, por meio das quais se procurou informações sobre a política pública no Instituto de Desenvolvimento do Norte e Nordeste de Minas Gerais (IDEME), na Empresa de Assistência e Extensão Rural (EMATER) e na Delegacia Federal do Ministério de Desenvolvimento Agrário (DFDAMG), sediados em Belo Horizonte. Contudo, percebeu-se a pouca ligação desses órgãos com a política territorial, pois essa política se efetivava diretamente entre o MDA e o território, sem uma escala de poder no Estado de Minas Gerais. O Conselho Estadual de Desenvolvimento Rural Sustentável (CEDRAF-MG) não aparece mencionado na pesquisa, o que leva a pressupor que ele funcionou apenas como uma estrutura de apoio, que reconhecia as decisões de base do território ou seguia seus princípios.

O MDA é o agente principal do governo na política, pois por meio dele se estrutura a principal parte – o processo da policy-making, e por ela se estabelece a coconstrução e a coprodução da política pública (VAILLANCOURT, 2011), como

relata uma liderança (entrevistado): “Diversas vezes saí no carro do território direto para Brasília”. Essas informações são relevantes, pois dois aspectos podem ser ressaltados:

– as relações entre Estado, políticas públicas e agentes territoriais se dão em uma escala local; e

– Política do Território da Cidadania do Alto Jequitinhonha, com uma maior possibilidade de negociações para os atores sociais do território.

Essas informações foram importantes, pois demonstraram, na execução do programa e dos acordos territoriais entre os agentes e os movimentos sociais, uma isenção aos órgãos do governo de Minas Gerais, em especial o IDEME e a EMATER, para executarem arranjos e políticas com eficiência e acordos de governanças sem passar pelo crivo intermediário. Essa isenção não pode ser confundida com autonomia, pois o próprio ato de isentar já mostra uma opção política, que permite acordos com os movimentos sociais dando especificidade local, colocando a ação dessa política com outro viés além das tradicionais intervenções do tipotop-down desenvolvidas para a região. Historicamente, estas apenas empreenderam uma modernização sem interferência nas questões estruturais da não inclusão dos agricultores familiares do Vale; assim, um novo paradigma do desenvolvimento regional – o territorial (BENKO, 2007; GUMUCHIAN; PECQUEUR, 2007). Esse programa agora se agrega a outros de aptidão ou condão de desenvolvimento endógeno, do tipo bottom-up.

Acordos locais com a participação de esferas do governo federal, estadual e municipal dos movimentos populares foram feitos na conjuntura de um governo com uma proposta democrática e popular, a partir de uma especificidade histórica que torna a ação da administração pública importante para a Geografia (CASTRO, 2005). A política pública territorial incorporada ao espaço-tempo do Alto Jequitinhonha evidenciou no trabalho de campo que a referência ao termo território transmitia automaticamente aos entrevistados a ideia do PRONAT – o que revela a peculiaridade de que este programa possibilitou nas relações sociais, com uma maior mobilização e discussões na base que em outros programas de desenvolvimento, como o PCPR e o PROMESO.

A mesma relação não se dá com o MDA, pois ele aprova e libera os recursos para a política, mas nos documentos que a orientam fica explícita a busca da gestão

social dos territórios pretendida com a introdução de nova cultura democrática na relação entre Estado e atores sociais (PERICO, 2009). Pois a solução para a superação de situações que necessitam de iniciativas socialmente inovadoras, por meio de políticas públicas, impõe que elas sejam negociadas no sentido de uma governança (MOULAERT, 2005; KLEIN; BELLMARE, 2010) e que envolvam agentes e instituições, assim, possibilidade de inovação social. A partir de ações governamentais, torna-se evidente a importância da análise da composição das lideranças do Território Cidadania do Alto Jequitinhonha, pois, ao observar sua origem, trajetória e compromisso social, suas intencionalidades (DI MÉO, 2005) e posicionamento frente à política territorial, percebe-se que essas são um elemento fundamental de transposição da mensagem política para a compreensão do território, reforçando, assim, a articulação local-territorial da política e a necessidade de uma análise dos líderes desse processo.

Além da detecção das entidades públicas e parcerias na formulação da política, esse contato foi importante para o início do “mapeamento” das lideranças locais. A identificação dessas lideranças foi um dos primeiros passos da pesquisa. Foram indicados nomes de pessoas vinculadas aos órgãos públicos que eram atores ou desenvolviam atividades técnicas no Território da Cidadania do Alto Jequitinhonha. É preciso ressalvar, no entanto, que a não participação não significa o desconhecimento de que no local se trabalha com o assunto, que se desconhecem os feitos e/ou circunstâncias. A Secretaria do MDA indicou nomes de pessoas vinculadas a movimentos sociais, que já haviam sido referenciados em outros momentos do estudo, como nas pesquisas de campo, por meio das entrevistas e visitas no território. Para confirmação, todos passaram pela aceitação dos demais e pelo reconhecimento das lideranças dos movimentos como atores de coordenação do Território.

A aprovação da liderança dos atores vinculados ao movimento social que articularam na formação do território (PRONAT), que serão chamados de liderança 1 e liderança 2, foi unânime em todas as entrevistas. As duas lideranças são associadas ao movimento de agricultores familiares no Vale, com vínculos na cidade de Turmalina e laços importantes com o Centro de Agricultura Alternativa Vicente Nica (CAV), além do Partido dos Trabalhadores. Na entrevista com membros de outras ONGs ou mesmo de órgãos públicos, podem-se observar frases do tipo: “o povo de Turmalina andou mais na frente” ou “tomou conta”, o que mostra uma capacidade de maior articulação da entidade, CAV, e sua liderança com a organização para estabelecer relação com a política territorial.

Essas lideranças, fundamentais nos embates e acordos territoriais, se colocam como articuladoras, cuja função é realizar contatos. É uma situação que envolve dois ou mais órgãos, como prefeituras, sociedade civil e governos, em que se pressupõe comunicação, relacionamento e convívio para tarefas territoriais, mas que também têm sua formação em conjunto com o espaço-tempo, sobretudo pelas suas “geografias” sociais e pessoais formadas na ação e defesa de um projeto de cidadania com capacidade para realizar ou reafirmar antigas e novas formas de relações sociais, econômicas, ambientais e políticas no lugar e em conjunto com outras territorialidades, entre elas uma ONG, o CAV.

O Centro de Agricultura Alternativa Vicente Nica (CAV) assim se define: Tem como objetivo discutir, formular, experimentar, propor e realizar atividades adaptadas às características sociais, econômicas e ambientais da região, desenvolvidas com base na metodologia participativa, que envolve agricultores (a) como sujeitos das ações (...) melhoria das condições de vida e das relações em família, preservação dos recursos naturais e a convivência com o semiárido. Desenvolve suas ações por meio de três eixos de trabalho: o acesso e gestão da água, tanto para uso humano quanto para produção; a agroecologia e os empreendimentos solidários; e a mobilização e a formação social. São temas transversais a todos os programas: as relações sociais de gênero, meio ambiente e a influência nas políticas públicas. (...) municípios do Alto, Médio e Baixo Jequitinhonha, sempre em sintonia com o movimento sindical dos trabalhadores rurais, organizações da sociedade civil e na busca pelo envolvimento do poder público da região (CAV, 2014, on line, [s.p.]).

O CAV é uma entidade criada na transição democrática, ligada a movimentos sociais que possuem vínculos com a teologia da libertação. Dessa forma, possui forte apelo comunitário participativo, uma vez que já foi um departamento do sindicato de trabalhadores rurais de Turmalina. Atualmente, a entidade é financiada por organismos internacionais e mesmo por políticas públicas, pois pode-se citar como exemplo que a entidade é responsável pelo Programa Um Milhão de Cisternas do governo federal55.

55 <http://www.mds.gov.br/segurancaalimentar/programa-cisternas>.

<http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2013/12/31/interna_gerais,483716/brazilfoundation-apoia- projetos-sociais-ligados-a-educacao-saude-direitos-humanos.shtml>.

Nesse momento a entidade tem fortes vínculos com o Estado e agências financiadoras, mas mantém a participação dos agricultores através dos projetos, visitas, assembleias e reuniões, nas quais se pode analisar e acompanhar o trabalho de campo. Dessa forma, se conjuga uma racionalidade de uma gestão profissional com técnicos, secretarias, novos quadros administrativos e aumento patrimonial e a ligação com os trabalhadores, em que se elaboram e executam diversos projetos, como acesso e gestão da água, com sua captação e armazenamento para fins de abastecimento e produção; agroecologia e empreendimentos, com a produção, fomento ao cooperativismo e associativismo; e acesso ao mercado, mobilização e formação social por meio de comunicação popular, educação do campo e fortalecimento das mulheres.

Observou-se que essa entidade é fundamental para a territorialidade da agricultura familiar do Vale Jequitinhonha, ou seja, a produção e reprodução de uma agricultura vinculada ao trabalho da família, que conjuga uma conjuntura espacial e nesta se estabelece com traços culturais, ambientais, econômicos e de poder. Pela análise dos atores, fica claro que o papel da organização dos agricultores familiares ao longo da história já relatada é de resistência, o que possibilitou o acúmulo de lutas, em especial a partir dos anos 1980. Ou seja, uma liderança que está na conjuntura política de luta pela democracia e contra o modelo neoliberal. Percebe-se, entretanto, que dentro de um mesmo movimento social existem tensões, como a ascendência dos atores com estreita relação com o CAV à liderança territorial em detrimentos de outro ou afirmação de uma entidade sobre a política. Internamente, o CAV se situa dentro de novos desafios com a conjugação de racionalidades (CALIXTO, 2005): a da valorização do saber popular, da participação social e assessoria aos trabalhadores na pedagogia do ver, julgar e agir associados a sua origem. Outra racionalidade, a administrativa empresarial, advém de novas culturas necessárias das alianças políticas com esferas governamentais e financiadores internacionais, como a necessidade de uma gestão que ultrapasse o questionar e estabeleça o fazer e executar, originários de políticas de cunho territorial que repassam responsabilidades aos locais. Pode-se falar de ansiedades e novos espaços de luta, o que se pode chamar de pelejas atuais do tempo e do espaço, a dialética do território agora associada a uma luta institucional?