13 Ataşelik
KADININ STATÜSÜ GENEL MÜDÜRLÜĞÜ
Foto 2 e 3: Placas indicativas da cidade de Speyer
Fonte: Fotos do arquivo pessoal da autora.
Seguindo nosso percurso em busca de conhecermos melhor Edith Stein, passaremos para os anos em que ela tornou-se professora. Esse era um sonho que alimentava desde a infância55. Durante o doutorado, Stein teve sua primeira
experiência como professora substituta de um professor que estava na guerra e outro doente. Deu aulas de alemão, história e geografia, latim e três cursos superiores. Percebeu, porém que teria que fazer uma escolha, pois o magistério estava tomando todo o seu tempo e não estava conseguindo dedicar-se ao doutorado. Mesmo a contra gosto, precisou parar de trabalhar e dedicar-se ao doutorado “se é que queria fazer algo científico que valesse a pena” (STEIN, 1933/2002, p. 476).
Ao concluir o doutorado, Stein tentou seguir a carreira acadêmica, mas sua condição de mulher a impediu de exercer o magistério no ensino superior.
Entre os anos de 1923 a 1931 passou a dar aula no Instituto Santa Maria das Dominicanas56, em Speyer, na Alemanha. Desse período não existem relatos
55 Como desde criança Stein dizia que seria professora, as irmãs a julgavam muito precoce e que
esse um sonho sem fundamento.
56 O Convento de Santa Madalena existe desde 1228 em Speyer, primeiramente como comunidade
de penitentes, que tinha como padroeira santa Madalena. Em 1304 foram incorporadas à Ordem Dominicana. O convento passou por sucessivas crises, destruições e perseguições, em virtude de guerras (1689-Guerras da Sucessão de Luiz XIV), da Revolução Francesa (1792/95) e do
autobiográficos, mas uma farta documentação histórica, cartas e relatos colhidos de pessoas que coviveram com ela nessa época: ex-alunas, colegas, ouvintes de conferências, entre outras. Esse é o período em que produz a maior parte do que hoje temos como sua Obra Pedagógica: são diversas conferências e o curso
Estrutura da Pessoa Humana (1932-33/2000).
Selecionamos os testemunhos de três alunas que a conheceram no período em que lecionou na Escola das Dominicanas, destinada à formação de professoras. As alunas não relatam suas palavras, mas suas atitudes enquanto professora e ajudam-nos a conhecer melhor a personalidade de Edith Stein.
A senhorita Stein foi nossa professora de alemão de 1926 a 1929. Desde o primeiro contato percebemos que estávamos diante de uma personalidade muito forte, de uma educadora. Suas aulas eram de uma tal clareza que era impossível não assimilá-las e não sentir estimulada a trabalhar. O tempo passado a seu lado era como uma espécie de recolhimento. Nestes três anos não me recordo uma única vez em que uma de nós tenha ousado, com menor barulho, interromper a aula. Mas ela nunca foi severa e dura conosco. Falava com ar sério e encantava-nos sua afabilidade (MURIBEL, 1954/2001, p. 85).
Uma outra aluna tem a seguinte lembrança:
Na correção de nossas composições o ponto capital era a clareza de plano e a objetividade de pensamento. Requisitos de estilo e de imaginação pareciam-lhe secundários. Antes de tudo, era seu desejo que nossa exposição fosse solidamente fundamentada. (MURIBEL, 1954/2001, p. 86)
Uma outra ainda:
A senhorita Stein era educadora em todas as ocasiões. Sabia organizar maravilhosas recreações, nas quais suas alunas se sentiam à vontade para se dirigirem a ela com toda liberdade e cordialidade. Desejava, então, que nos sentíssemos despreocupadas e desinibidas. Falávamo-lhes de nossos problemas e de nossas experiências e ela, pacientemente, nos escutava. Inspiravam-me Nacionalismo (1937/38). Em 1802 o convento foi secularizado e vendido, sendo restabelecido pela Igreja em 1827. Em 1839 as Irmãs dominicanas abriram a primeira Escola Superior Feminina do palatinado. Outras escolas também foram abertas, entre elas uma escola para formar professoras católicas.
uma espécie de temor seu ar grave e sua radiosa inteligência. Ao lado de um espírito tão grande, tudo o mais me parecia detalhe insignificante. Quase nunca nos falava de religião, mas sentíamos que ela vivia sua fé. (MURIBEL,1954/2001, p. 86)
Foto 4: Jardim do Convento, onde Stein costumava promover momentos de descontração com as alunas.
Fonte: Fotos do arquivo pessoal da autora.
Conciliando uma vida intensa de aulas, publicações e convívio com as alunas, os anos em Speyer foram também de aprofundamento na fé católica57. Nesse
período conheceu a obra de São Tomás de Aquino e fez a tradução de Quaestiones
Dignitate de Veritate para o alemão, uma vez que dominava o latim. Aliás, ela tinha
fluência em sete idiomas: latim, grego, francês, alemão, espanhol, polonês e holandês.
Santo Tomás de Aquino exerceu grande influencia sobre ela, ajudando-a a compreender que era possível conciliar vida intelectual e espiritualidade, fé e razão.
57 A conversão de Stein ao catolicismo aconteceu em 1921. Sobre esse assunto trataremos com
Em Speyer, escreveu a uma amiga58: “que fosse possível colocar a ciência a serviço de Deus, só o compreendi claramente depois de haver entrado em contato com Santo Tomás [...] e foi isso que me fez decidir dedicar-me seriamente outra vez ao trabalho científico” (STEIN, 1928/2002, p. 809)59. Escreveu ainda:
No tempo imediatamente anterior a minha conversão e depois, durante um certo período, cheguei a pensar que levar uma vida religiosa significaria deixar de lado tudo de terreno e viver tendo o pensamento única e exclusivamente em coisas divinas. Porém, pouco a pouco, fui compreendendo que neste mundo é necessário outra coisa, e que inclusive na vida mais contemplativa, não deve cortar-se a relação com o mundo; creio, inclusive, que quanto mais profundamente alguém está imerso em Deus, tanto mais se deve ‘sair de si’, isto é, oferecer-se ao mundo, para ir levar a vida divina.60
O conhecimento da obra de São Tomás de Aquino foi facilitado pelo fato de ser dominicano, da mesma ordem do convento onde Edith Stein trabalhava e morava. As irmãs dominicanas cultivam grande devoção ao santo, preparando solenemente sua festa anual. O interesse de Edith Stein voltou-se, sobretudo, para o estudo teológico, reconhecendo a grande riqueza que existia em seus escritos.
Em 26 de março de 1931 despediu-se de Speyer e, no ano seguinte, assumiu um posto de docente no Instituto Alemão de Pedagogia Científica em Münster.
O nome de Edith Stein aos poucos foi se tornando conhecido, sobretudo em agrupamentos da juventude e nos círculos femininos católicos. Fez diversas conferências em Friburgo, Munique, Colônia, Zurique, Viena, Praga, Salzbourg. Era elogiada pela capacidade de oratória e de utilizar termos precisos e seguros.
58 Carta a Calista Kopf, em 12/02/1928.
59 Da tradução em espanhol: “Que sea posible cultivar la ciencia como culto divino, es algo que me ha
quedado bien claro después de haber entrado en contacto con santo Tomás […] y sólo como consecuencia de ello me he decidido a tomar otra vez en serio el trabajo científico”.
60 Da tradução em espanhol: “En el tiempo inmediatamente anterior a mi conversión y después,
durante un cierto período, llegué a pensar que llevar una vida religiosa significaría dejar de lado todo lo terreno y vivir teniendo el pensamiento única y exclusivamente en cosas divinas. Pero, poco a poco, he comprendido que en este mundo se nos exige otra cosa, y que incluso en la vida más contemplativa no debe cortarse la relación con el mundo; creo, incluso, que cuanto más profundamente alguien está metido en Dios, tanto más debe, en este sentido, ‘salir de si mismo’, es decir, adentrarse en el mundo para comunicarle la vida divina”.
Nesse período, em especial durante o tempo que ensinou em Münster, confrontou-se com seus próprios limites e não se intimidou em admitir em carta61 à
sua amiga HedwigConrad-Martius: “Nesses meses, fiz rápidos progressos no conhecimento de meus próprios limites [...] Esse conhecimento não tem em si nada de deprimente. Simplesmente, não é muito fácil estar em um lugar de responsabilidade requerendo tantas qualidades que me faltam” (STEIN, 1932/2002, p.991).62
Edith Stein não parecia inibir-se em revelar seus limites, pois conhecia suas potencialidades. Não precisava se afirmar perante as pessoas, mas também tinha a humildade suficiente para perceber o que lhe faltava. Se considerarmos que esses foram os tempos de maior projeção de Edith Stein como conferencista internacional, sua confidência ganha ainda mais valor.
61 Carta de 13/11/1932.
62 Da tradução em espanhol: “este conocimiento de los propios limites ha hecho en mí grandes
progresos en los últimos meses […] Ser consciente de esto, no es cosa que me deprima. Únicamente que no es fácil hallarse en un puesto de responsabilidad, para el que a una le falta tantas cosas necesarias […]”