KOMİSYON RAPORLARI
KADIN SAĞLIĞI VE KADIN HEKİMLİK KOMİSYONU 18.09.2014
Início esta seção aludindo ao cenário psicanalítico, após a morte de Freud, em 1939, ou melhor ainda, ao impacto que ela trouxe para a formação dos analistas. Como atesta Balint, o sistema de formação criado pela Policlínica de Berlim e ratificado pela IPA não foi alvo de disputas acirradas171, enquanto Freud estava vivo e exercia grande influência e liderança no movimento psicanalítico, já que era ele, em momentos cruciais, que decidia “quem”172 e o “que”173 estava correto na esfera psicanalítica.
Com sua morte, o movimento psicanalítico perdeu a figura de liderança e experimentou uma fase em que os diversos grupos de analistas passaram a competir entre si. Esse fato provocou cisões entre as escolas, pois cada uma delas
168
RASCOVSKY, Luiz. Reflexiones sobre la formación analítica y el análisis didáctico. Revista de Psicoanálysis, nº 29, p. 801-828, 1972. (Tradução nossa).
169 VALABREGA, Jean Paul. A análise quarta, p. 41- 42.
170 FONTENELE, Laéria B. Caminhos e descaminhos da supervisão em Psicanálise. In: JORGE, Marco Antonio Coutinho. Lacan e a Formação do Psicanalista. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2006, p. 263.
171
Conforme explorado na seção anterior deste trabalho, foi Vilma Kovacs, em 1936, que teorizou sobre a formação dos analistas rivalizando com o modelo de formação de Berlim.
172
BALINT, Michael. Op. cit., p. 172. 173
procurava reivindicar para si o legado freudiano, considerando-se a verdadeira representante de Freud.
Nesse sentido, pondera Mezan:
minha impressão é que ela [tentativa de as escolas de se comprovarem como verdadeiras representantes do médico austríaco] reside na necessidade de provar que as teorias pós-freudianas são fiéis à matriz básica da psicanálise, isto é, à obra de Freud. Todas têm a pretensão de ser a única reta continuação das ideias do fundador...174
Esse panorama reuniu as condições ideais para as primeiras cisões no âmbito da IPA, muitas motivadas por questões que circundavam a formação dos analistas, na qual a supervisão estava diretamente envolvida.
Nesse contexto, a França “entrou na era dos conflitos, das crises e das controvérsias”175, no início dos anos de 1950, e três tendências se fizeram presentes no domínio da Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP): uma considerada como “ortodoxia clássica”176, em que Sacha Nacht se destacava como representante, a segunda entendida como a “corrente liberal”177, defendida por Daniel Lagache, e a terceira, denominada “nova ortodoxia, cujo expoente era Jacques Lacan”178.
Em relação à primeira tendência, temos em Nacht sua melhor expressão, pois o analista romeno pertencente à segunda geração de psicanalistas franceses, era um adversário convicto da análise leiga, tendo-seunido aos analistas americanos da IPA, na defesa intransigente de que o direito ao exercício da psicanálise só poderia ser exercido por médicos.
Já a tendência da “corrente liberal”, liderada por Lagache, rebateu essa ideia do psicanalista romeno e defendeu a integração da psicanálise à psicologia, por meio da universidade, possibilitando-se, desse modo, um grande acesso dos psicólogos a esse campo do saber.
No que diz respeito à “nova ortodoxia”, Lacan almejou o “retorno a Freud”179, ou seja, a volta rigorosa aos textos freudianos, a fim de assentir a formação por não médicos, de garantir a (re)valorização do inconsciente na teoria psicanalítica
174 MEZAN, Renato. O tronco e os ramos. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 26. 175
ROUDINESCO, Elizabeth. A História da Psicanálise na França. A batalha dos cem anos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, v. II, 1986, p. 448.
176 Ibidem, p. 242-245. 177 Ibidem, p. 255-272. 178 Idem. 179
(desvinculando a psicanálise da psicologia), e ainda aspirou repensar a formação psicanalítica respeitando-se a premissa do rigor analítico.
A fundação do Instituto de Psicanálise da SPP180, ou melhor ainda, a eleição, em 17 de junho de 1952, da diretoria desse órgão, que era encarregado de administrar a formação e o ensino, com autonomia em relação a Sociedade francesa, fomentou ainda mais as disputas e as divergências já existentes entre as três tendências gaulesas.
Tal fomento se deu pois Nacht elegeu-se presidente do Instituto, elaborando um programa que previa o exercício da análise somente por médicos, estabelecendo regimentos e estatutos que o destacavam e que, por outro lado, colocavam tanto Lagache como Lacan em segundo plano.
As disputas se intensificaram ainda mais com a eleição de Lacan para a presidência da SPP, em janeiro de 1953, e com a recusa de Nacht a aceitar alunos analisados por Lacan para a formação psicanalítica, em fevereiro desse mesmo ano. A justificativa do presidente do Instituto para essa recusa era a condenação da técnica lacaniana, ou seja, a reprovação da sessão curta.181
A ruptura se tornou iminente com o voto de desconfiança da maioria dos membros da sociedade francesa contra Lacan, em 16 de junho de 1953, o que o retirou da presidência da SPP. Lagache, que era o vice-presidente, deveria assumir, porém se demitiu e fundou a Sociedade Francesa de Psicanálise (SFP), levando consigo Jacques Lacan, Françoise Dolto, Jean Laplanche, Jean-Bertrand Pontalis, Serge Laclaire, dentre outros importantes psicanalistas da chamada terceira geração, que também não compactuavam com as normas estabelecidas por Nacht para a formação dos analistas.182
É exatamente nesse panorama repleto de divergências, em que a questão da análise leiga se apresentou como um embate importante, acrescido do “desvio técnico183” de Lacan e da eleição de Nacht para presidir o Instituto de Psicanálise,
180 ROUDINESCO, Elizabeth. História da Psicanálise na França. p. 255-272. 181
Lacan promoveu uma inovação técnica ao elaborar a sessão curta, ou ainda, a sessão de duração variada. Tal novidade rivalizou com a regra da IPA, que determinava o tempo fixo das sessões: de 45 a 50 minutos. Para o analista francês, a sessão curta expressava a necessidade de sinalizar a fala do analisando, por meio do enunciado de um significante. LACAN, Jacques (1945). O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada. In: Escritos, Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p.197-213 e LACAN, Jacques. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise, p. 238-324.
182
ROUDINESCO, Elizabeth. A História da Psicanálise na França. p. 255-272.
183 Idem. Cabe esclarecer que o desvio técnico lacaniano se refere ao fato de Lacan empregar a sessão curta (com tempo variável) em vez de obedecer à regra estabelecida pela IPA sobre o tempo de 45 a 50 minutos para as sessões.
que ocorreu a primeira cisão francesa, em 1953, cisão essa que foi motivada principalmente pelo tema da formação do psicanalista.
É nesse terreno de desavenças que Lacan fez uma crítica áspera a
International Psychoanalytical Association, levando-nos a entender seu pensamento
em “Situação da Psicanálise e formação do psicanalista, de 1956” 184. Nesse trabalho, Lacan afirma:
(...) não nos esquecemos de que a entrada na comunidade [analítica] está sujeita à condição da análise didática, e há mesmo uma certa razão para que tenha sido no círculo dos didatas que veio à luz a teoria que faz da identificação com o eu do analista com a finalidade da análise.185
Ao ser fiel ao modelo imposto pela IPA, ao final de sua análise didática, o analista tem como resultado a identificação com o mestre, o que se traduz como uma “grave deturpação da ética analítica”186. “Grave deturpação da ética analítica” pois a identificação com o eu do analista acarreta uma situação de alienação, que equivale à “(...) reprodução imaginária, que, por uma modalidade de fac-símile análoga à impressão, permite, por assim dizer, sua tiragem num certo número de exemplares em que o único se pluraliza”187.
“O único se pluraliza”, isto é, na compreensão lacaniana a formação, nos moldes da IPA, opera da seguinte maneira: o candidato a psicanalista se transforma em uma espécie de cópia do mestre, em que o senhor confere ao servo o passaporte para ascensão ao posto de analista. Aplicando-se esse modelo à supervisão, o supervisionando pode reproduzir tal e qual o supervisor, tornando-se uma espécie de caricatura de seu mestre.
“Uma vez explorado o conteúdo da formação, condensado em torno da filologia, Lacan radiografa o modus operandi da IPA, visando demonstrar suas vias e impasses”188, e sua radiografia também revelou que o sistema de formação da IPA se baseava em um modelo universitário, em que a “rigidez” tomou o lugar do “rigor”, que é “de alguma forma ético”189.
Conforme Jorge, 184
LACAN, Jacques. Situação da psicanálise e formação do analista em 1956, p. 461– 495. 185 Idem, p. 479.
186 FORBES, Jorge. A Escola de Lacan: A formação do psicanalista e a transmissão da psicanálise. Campinas: Papirus, 1992, p. 9.
187
LACAN, Jacques. Situação da psicanálise e formação do analista em 1956, p. 479. 188
CRUXÊN, Orlando S. Algumas Questões Relativas à Formação do Analista. Psicanálise & Barroco em revista. V. 7, n°. 2, dez. 2009, p. 122.
189
LACAN, Jacques (1955). Variantes do tratamento-padrão. In. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 326.
a instauração desse tripé [análise didática, supervisão e seminários teóricos] deu à formação do psicanalista o estatuto de algo aparentemente bastante definido. Disso resultou a concepção de que a formação do psicanalista tem um fim e é passível de ser inteiramente acabada. Esse modelo, que se deve chamar de modelo universitário da formação psicanalítica, baseia-se no ideal do acesso a um saber que, doravante, passa a regular a prática do psicanalista de modo preciso. O psicanalista se forma e, a partir daí, saberá como agir com seus futuros analisandos.190 O modelo universitário empregado pela IPA, em que há o acesso a um saber acabado, fez Lacan enfatizar, ao longo dos seus seminários, a ideia de que o ensino da psicanálise objetiva produzir efeitos de formação, em vez de formação do analista. Produzir efeitos de formação significa que a formação é continuamente refeita, sendo caracterizada por ser um processo inacabado e permanente.191
Além de defender que a formação não é perene, Lacan sustentou o não- saber no processo desta, acentuando que esse não-saber ocupa um lugar de destaque na escuta analítica.
Nesse sentido, Jorge diz que
(...) se trata de conceber a experiência não mais sob o prisma do discurso universitário, no qual o saber regula toda a experiência de produção do sujeito bem pensante, e sim à luz de sua própria especificidade, a do discurso psicanalítico, valendo-se da inclusão do real, ou seja, do não-saber no próprio cerne da experiência. 192
Apesar das denúncias lacanianas ao modelo de formação da International
Psychoanalytical Association, em 1956, Lagache, que tinha fundado a Sociedade
Psicanalítica Francesa em 1953, pleiteava a filiação desta à associação internacional. Porém, sabe-se que a admissão da SPF na IPA encontrou obstáculos devido à presença de Françoise Dolto e de Lacan na sociedade recém-criada. Dolto se apresentava como um entrave à admissão devido a sua forma singular de analisar as crianças, isto é, ela
(...) abandon[ou] a técnica da brincadeira e da interpretação dos desenhos e pratic[ou] uma escuta capaz de traduzir a linguagem infantil. Na verdade, segundo Dolto, o psicanalista deveria usar as mesmas palavras que a
190
JORGE, Marco Antonio Coutinho. Apreender a apreender: Lacan e a supervisão psicanalítica. In: JORGE, Marco Antonio Coutinho. Lacan e a formação do psicanalista. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2006, p. 285.
191
LACAN, Jacques (1975). Conférences et entretiens dans des universités nord-américaines. Scilicet, n° 6/7, 1975, p. 42-45. Disponível em: http://aejcpp.free.fr/lacan/1975-12-01.htm. Acesso em: 17 mai. 2015. (Tradução nossa).
192 JORGE, Marco Antonio Coutinho. Jacques Lacan e a renovação da clínica psicanalítica. Sobre o impacto de seu ensino no Brasil. In: JORGE, Marco Antonio Coutinho. Lacan e a formação do psicanalista. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2006, p. 200.
criança e comunicar-lhe os seus próprios pensamentos sob o aspecto real.193
Além de sua forma peculiar de analisar os pequenos, a psicanalista francesa não agradava à associação internacional pois,
aos olhos da comissão de inquérito194 da International Psychoanalytical Association, ela aparecia como um guru, e até o grande Donald Woods Winnicott, que reconhecia seu gênio, a acusou de ter excessiva “influência” sobre seus alunos e não se preocupar suficientemente com as regras da análise didática.195
Essa mesma rejeição da IPA a Dolto, pelo fato de ela possibilitar aos analisandos um desvio da verdadeira maneira de se tornarem psicanalistas (regras da IPA), se aplicou também a Lacan. Hartmann (presidente da associação internacional naquela época) escreveu, em março de 1955, a Lagache:
mas Lacan não é um membro qualquer de sua sociedade. Ele está (...) em primeiro plano (...). Sei, por um número considerável de fontes, que seus ensinamentos têm um peso enorme sobre os estudantes. Em que se transformarão os analistas formados por ele?196
Vale ressaltar que, em 1959, no Congresso Internacional de Copenhague, foi criada uma outra comissão (pois a primeira se instalara em 1953, conforme explicita a nota de rodapé nº 194) para avaliar um novo pedido de reconhecimento da SFP junto à IPA. Dirigida por Pierre Turquet e composta por Paula Heimann, Ilse Hellman e Van der Leeuw, essa comissão concluiu, através da “escuta”197 dos membros e candidatos da SFP, que a maioria dos componentes da sociedade fundada por Lagache condenava a prática de Lacan. Os membros da sociedade francesa informaram ainda que se sentiam vítimas de uma técnica que reprovavam.198
Como exigência para a filiação da SFP à IPA, a comissão recomendou que “Lacan fosse barrado da lista dos analistas didatas, assim como Françoise Dolto”199. Foi a partir desse contexto que o médico francês, em 21 de junho de 1964, leu
193
ROUDINESCO, Elizabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise, p. 158. 194
Segundo ROUDINESCO, Elizabeth. A História da Psicanálise na França, p. 340, no Congresso Internacional de Psicanálise em Londres, em 1953, foi composta uma comissão de inquérito da IPA, formada por Winnicott, Greenacre, Hoffer e Lampl-De Groot. Tal comissão tinha como propósito avaliar o pedido de reconhecimento junto à associação internacional por meio de entrevistas com candidatos e analistas. A estrutura da SFP e a cisão que deu origem a ela foi objeto de atenção desse colegiado.
195
ROUDINESCO, Elizabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise, p. 159 196
HARTMANN, Heinz Apud ROUDINESCO, Elizabeth. A História da Psicanálise na França, p. 341. 197
ROUDINESCO, Elizabeth. A História da Psicanálise na França, p.349. 198 Idem.
199
KAUFMANN, Pierre. Dicionário Enciclopédico de Psicanálise: o Legado de Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996, p. 399.
diante de seus partidários, na residência de François Perrier, o Ato de Fundação da Escola Francesa de Psicanálise, que mais tarde foi denominada de École
Freudienne de Paris (EFP).
Lacan, nessa oportunidade, declarou: “Fundo – tão sozinho como sempre estive na minha relação com a causa psicanalítica – a Escola Francesa de Psicanálise”200. A EFP tinha como objetivo “restaur[ar] a sega cortante de sua verdade [de Freud]; que reconduz[iria] a práxis original que ele instituiu sob o nome de psicanálise”201 . Ou seja, Lacan pretendia implantar o retorno a Freud, com a fundação de sua escola, no que diz respeito à formação do analista, ou seja, o rigor freudiano perdido (pelas regras rígidas da IPA) na formação do psicanalista.
Obedecendo a essa premissa, a École inovou quanto à análise didática: Lacan rompeu com a obrigatoriedade de os candidatos escolherem um analista na lista de titulares do instituto a que pertenciam.
Nas palavras do médico de Paris,
o uso do consentimento dos pares tornou-se obsoleto, por haver permitido a introdução muito recente do que se chama “a lista”, a partir do momento em que uma sociedade pôde utilizar esta última para fins que desconhecem da maneira mais clara as próprias condições da análise a ser empreendida bem como da análise em curso. Condições cujo essencial é que o analisando seja livre para escolher seu analista.202
A não obrigatoriedade da escolha de um didata também se estendeu à supervisão, como oportunamente lembra Didier-Weill:
paralelamente a essa desinstitucionalização da análise didática, a Escola Freudiana de Paris desistitucionalizara a supervisão, ao recusar-se a subordinar o título de psicanalista à obrigação de ter passado com sucesso por uma ou várias supervisões. Ao que eu saiba, todos fizeram supervisão, mas escolhendo eles mesmos tanto um analista supervisor quanto o momento em que essa experiência lhe era necessária. 203
Em seu modelo de formação, Lacan reservou um lugar à supervisão: “desde o início e na totalidade dos casos, uma supervisão qualificada será assegurada, nesse contexto, ao praticante em formação, em nossa Escola”. 204
200
LACAN, Jacques (1964a). Ato de Fundação. Escola Brasileira de Psicanálise, p. 1. Disponível em: http://ebp.org.br/wp-content/uploads/2011/12/ato_de_fundacao1.pdf. Acessado em 12 abr. 2015. 201 Idem.
202
LACAN, Jacques (1964b). Nota anexa, p. 5. Disponível em: http://ebp.org.br/wp- content/uploads/2011/12/ato_de_fundacao1.pdf. Acessado em: 12 abr. 2015.
203
WEILL-DIDIER, Alain. A questão da formação do psicanalista para Lacan. In: JORGE, Marco Antonio Coutinho. Lacan e a formação do psicanalista. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2006, p. 24.
204
Além dessa inovação, “O Ato de Fundação” da EFP propôs banir o formato de hierarquia que predominava na IPA, pois os membros da École tinham igual direito de votar os regulamentos da escola, isto é, não havia “uma hierarquia de cima para baixo, mas uma organização circular cujo funcionamento, fácil de programar, se firmara na experiência.”205
Outra importantíssima questão trazida por Lacan, ao fundar a EFP, foi repensar a formação do analista, propondo circunscrever a transmissão da psicanálise (que envolve necessariamente a análise didática, a supervisão e o ensino teórico) a partir de uma lógica interna à própria psicanálise, a transferência, contrapondo-se ao modelo da IPA, segundo ele balizada por princípios externos ao saber psicanalítico.
Segundo ele, “o ensino da psicanalise só pode ser transmitido de um sujeito a outro através de uma transferência de trabalho206. Os seminários, inclusive nosso curso na Hautes Études, nada fundarão caso não reenviem a essa transferência.”207
O fato de Lacan sustentar que a transmissão da psicanálise passa necessariamente pela transferência nos remete à seguinte afirmação freudiana: “pois um paciente nunca se esquece novamente do que experimentou sob a forma de transferência; ela tem uma força de convicção maior do que qualquer outra coisa que possa adquirir por outros modos”. 208
Assim, ao buscar resgatar o rigor freudiano, insistindo em que a transmissão da psicanálise passa pela transferência, Lacan não mais distinguiu análise didática e análise terapêutica. Para ele, “toda análise é didática” 209, pois só tem um cunho de transmissão do saber psicanalítico por seu resultado, isto é, o analista. Jamais a análise se torna didática a priori, ou seja, por ser conduzida por um didata que segue um regulamento e uma norma.
Três anos depois da publicação do “Ato da Fundação”, o analista francês procurou regulamentar e institucionalizar as recomendações para a formação dos analistas, declarando que sua “Proposição de outubro de 1967 sobre o Psicanalista
205 LACAN, Jacques. Ato de Fundação, p. 2.
206 Em, Jacques, Variantes do tratamento-padrão, p. 325-382, o médico francês esclarece que o estudo teórico deve ser obrigatoriamente cruzado pela experiência psicanalítica, isto é, a transferência de trabalho provoca trabalho de transferência.
207
LACAN, Jacques. Nota anexa, p. 7.
208 FREUD, Sigmund (1938). Esboço de Psicanálise. ESB, Vol. XXIII, 1996, p. 191. 209
LACAN, Jacques (1958). A direção do tratamento e os princípios de seu poder. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
da Escola” versava sobre as “estruturas asseguradas na psicanálise e garanti[am] sua efetivação no psicanalista”. 210
Mas quais são as “estruturas asseguradas na psicanálise” a que Lacan se refere em sua Proposição de 1967?
Fundamentalmente foi a criação do polêmico e discutível dispositivo do passe que se configurou como a estratégia de rompimento com os impasses da formação dos analistas, advindos das normas estabelecidas pela IPA:
(...) existe um real em jogo na própria formação do psicanalista. Afirmamos
que as sociedades existentes fundam-se nesse real. (...) Não menos
patente — e concebível, para nós — é o fato de que esse real provoca seu
próprio desconhecimento, ou até produz sua negação sistemática. 211
Outro empecilho diz respeito à identificação do candidato com seu didata: tal fato faz com que a análise não cumpra sua função psicanalítica, qual seja, engendrar a emergência do saber do Outro, isto é, o saber do inconsciente.
Nesse mesmo sentido, argumenta Kaufmann: “Uma análise que termina, por exemplo, com a identificação do analisando com uma figura ideal, ou com o analista, não conhece o passe.”212
Apesar de o passe ter sido instituído para se oferecer como uma tática substitutiva e alternativa à clássica e rígida formação dos analistas da IPA, ele se revelou, conforme o próprio Lacan asseverou, um “completo fracasso”, e, 213 para se apreenderem as grandes controvérsias e as dificuldades que cercaram esse tema, é fundamental clarificar a tese de Lacan214 sobre essa prática, alicerçada no princípio