Apesar de o modelo lacaniano de formação dos analistas ter se apresentado como uma alternativa ao sistema da IPA, procurando romper com a rigidez, com o tom autoritário, hierárquico e antianalítico e tentando corrigi-los, ele padeceu dos mesmos males que pretendia evitar e, por essa razão, foi capaz de suscitar fortes críticas dos alunos mais expressivos de Lacan, como “François Perrier, Jean Paul Valabrega e Piera Aulagnier, que fundaram o Quatrième Groupe”244, em 1969. Tais psicanalistas se demitiram da École Freudienne de Paris, por ocasião da votação (e aprovação) da “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o Psicanalista da Escola”.
Uma das críticas mais contundentes do Quatrième Groupe ou da Organização Psicanalítica de Língua Francesa (OPLF) se centrou no passe, pois ele não funcionava como havia sido teorizado. Isso se deu pois Lacan não conseguiu evitar seu comparecimento ao júri, afinal ele era a pessoa que havia elaborado esse modelo de formação e era praticamente o analista de todos os candidatos, além de diretor da École245.
Ele demonstrou ter ciência dos riscos de sua presença para o sucesso do passe, tendo afirmado: “se ousei introduzir essa experiência não foi para que eu mesmo intervenha nela”246.
Certamente o principal obstáculo ao passe foi o lugar transferencial que Lacan passou a ocupar em sua escola, isto é, o passe teve como destino “remeter todos os protagonistas da grande cena lacaniana à relação imaginária que cada um mantém com um pai fundador”. 247 E é nesse sentido que Valabrega reflete assegurando que a presença de Lacan no júri não passou de uma forma de dominação e de exercício de poder, ou seja, de uma situação antianalítica:
O analista não poderia exercer nenhum poder sobre a aprovação de um candidato que está sendo ou foi por ele analisado. A fortiori, o analista não pode fazer parte de um júri destinado a se pronunciar sobre a aptidão do candidato. Da mesma forma, o analista não pode nomear um de seus candidatos para qualquer função analítica ou designá-lo para qualquer representação, seja ela qual for.248
244
KAUFMANN, Pierre. Op. cit., p. 402. 245
ROUDINESCO, Elizabeth. A História da Psicanálise na França, p. 497. 246 LACAN, Jacques. L’expérience de la passe, p 180-181. (Tradução nossa). 247
ROUDINESCO, Elizabeth. A História da Psicanálise na França, p. 497. 248
A crítica de Valabrega a Lacan não se restringiu ao fato de o passe ser um dispositivo a serviço do exercício de poder; recaiu também sobre o fato de ter se tornado exatamente o que pretendia evitar, isto é, “pluralizar o único”249 ao proporcionar uma identificação alienante com o analista.
Nas palavras de Valabrega,
mas como pôde ele [Lacan] ignorar, mais tarde, o que se tornava evidente a todos? A identificação com o analista é precisamente a relação essencial, se não única, da sua própria prática formadora (...). O sistema de formação elaborado por Lacan e tornado institucional na sua Escola, no princípio de 1969, é um sistema produtor de analista – o próprio Lacan lhes chama seus “alunos” – que dão do mestre uma imagem quase caricatural250.
Tal sistema de formação certamente incluiu a supervisão pois, como sustenta Valabrega, “o mesmo ocorria – viu-se – com o controle” 251, ou seja, o supervisionando passa a ser uma espécie de “fotocópia”252 do supervisor.
“Pluralizar o único” através do passe, proporcionar que o psicanalista, ao final de sua análise, se identificasse com aquele que a tinha conduzido, ou ainda, com aquele que o tinha supervisionado, além de tornar a formação algo alienante e antianalítico, fez com que o modelo lacaniano se assemelhasse ao modelo universitário (da IPA), tão criticado por Lacan. Nesse sentido, afirma Jorge: “Até mesmo o passe pode ser tratado em uma lógica universitária, dependendo da forma como é abordado”253.
Aulagnier, por sua vez, não economizou tinta ao criticar Lacan e considerou o dispositivo do passe a “contradição mais extrema e mais grave”254 da Proposição pois
(...) oferece o título de psicanalista, no sentido em que é entendido nesse texto, em nome de uma única prova: que o candidato saiba testemunhar aquilo que representa para si esse momento particular penoso que representa um fim de análise, testemunho esse que o dispensa de qualquer necessidade de um outro, em nossa opinião bem mais difícil: aquele que se refere ao que representa para si o ato psicanalítico, ou seja, ter assumido na prática e não simplesmente em intenção a responsabilidade de analisar um outro sujeito.255
249 LACAN, Jacques. Situação da psicanálise e formação do analista em 1956, p. 479. 250
VALABREGA, Jean Paul. A Formação do psicanalista, p. 45. 251
VALABREGA, Jean Paul. A análise quarta, p. 45. 252
Idem.
253 JORGE, Marco Antonio. Lacan e a estrutura da formação psicanalítica, p. 95. 254
AULAGNIER, Piera. Sociedade de Psicanálise e Psicanálise de Sociedade, p. 95. 255
Aulagnier denunciou o risco de o passe permitir que um analista iniciante, que ainda não tivesse evidenciado o necessário conhecimento do saber psicanalítico e que não experenciasse a prática analítica pudesse ser nomeado como AE256 da
École. Nesse sentido, em fevereiro de 1968, a analista francesa escreveu a Lacan
sugerindo modificações no procedimento do passe e solicitou que o canditado “já seja AME”257 e que ainda ele “possua uma experiência real”258 para que o dispositivo criado pelo analista de Paris pudesse se tornar efetivo.
Ela se perguntou como Lacan, ao instituir o passe, na tentativa de evitar os impasses da formação, pôde cair no mesmo erro da IPA, a qual ele combatia com tanto ardor: apesar de inaugurar uma revolucionária maneira de “passar” a psicanalista, o passe revelou-se uma estratégia tão alienante quanto as normas estabelecidas pela Associação Internacional.
Para a psicanalista do Quatrième Groupe, o fato de os alunos de Lacan terem ficado “fascinados pelo prestígio da interpretação de Freud que este oferecia”259 fez com que os lacanianos dessem “valor de lei”260 aos ensinamentos do francês, endeusando-o e, desse modo, perdendo a possibilidade de ser genuínos, autênticos e singulares em sua prática analítica. Lacan não foi capaz de deter esse movimento, ou seja, “quanto ao “Mestre”, caiu na armadilha da oferta que induziu. A tentação de criar sua linhagem, de marcar unicamente com seu selo a filiação psicanalítica não encontrou mais ponto de resistência.”261
Lembro aqui que não é só o analista que pode cair na armadilha de se oferecer ao aluno e ao analisando com o sujeito suposto saber, como um ser ideal e com ares divinos; o supervisor também pode ocupar esse lugar, não oferecendo resistência a esse movimento. A ausência de resistência a essa ação de idealização fez com que o passe tenha se exposto, com justa razão, às mesmas críticas que o modelo de formação dos analistas da IPA recebeu, tornando-se também antianalítico.
256
Em LACAN, Jacques. La proposition du 9 octobre 1967 sur le psychanalyste de l’école, d’après. p. 1, o médico francês distinguiu três títulos: AME, AE e AP, sendo que o primeiro se refere a qualquer pessoa que faça parte da escola, o segundo é aquele que “deu provas nas supervisões” e passa a ser membro da escola e o terceiro é o analista da escola que “testemunhou a didática”.
257
AULAGNIER, Piera. In: KAUFMANN, Pierre. Op. cit., p. 402. 258
Idem.
259 AULAGNIER, Piera. Sociedade de Psicanálise e Psicanálise de Sociedade. p. 95. 260
Ibidem, p. 96. 261
Desse modo, Aulagnier afirma, com propriedade, que “(...) há dois tipos de sociedade que existem atualmente [1969] na França, acabam por trazer à luz perigos e erros, opostos na forma, porém igualmente graves no fundo”262.
Em 1978, o próprio Lacan, por ocasião das assembleias que se sucederam no âmbito da École, confessou o “impasse”263 gerado por seu modelo de formação, ao se alicerçar na tese de o analista se autorizar por si mesmo, através do dispositivo do passe: “Que pode haver na cabeça de alguém para que ele se autorize a ser analista? Eu quis ter depoimentos, e naturalmente não tive nenhum (...) é claro que esse passe é um completo fracasso.”264
Uma das consequências do completo fracasso do passe derivou da “alienação que Lacan provocava em seus seguidores”265, como também sustentou Mijolla-Mellor, ao ser entrevistada por Mezan. Tal situação motivou a criação da análise quarta, da qual uma das funções era enfrentar os “efeitos de[essa] alienação”266.
Valabrega, defensor dessa modalidade de supervisão, sustentou que, na análise, existe uma área surda, ou ainda, “restos de início de análise” que nada mais são do que as partes não analisadas (“zonas surdas”), presentes desde o começo do trabalho analítico e que permanecem até o final desse processo. Tais partes não analisadas interferem diretamente na contratransferência do analisando, em relação a seu paciente.
A análise quarta (que é “uma teoria do controle. Sem tirar e nem pôr”267) tem como finalidade “(...) descobrir uma via de acesso ao candidato e ajudá-lo a identificar os pontos de contato e de interferência da sua prática com a sua própria análise”268.
Ela269 se refere aos momentos em que o candidato trata, com outro analista – que não o seu - dos pontos surdos de sua análise pessoal, isto é, dos “vestígios
262
AULAGNIER, Piera. Sociedade de Psicanálise e Psicanálise de Sociedade, p. 98. 263
LACAN, Jaques. L’expérience de la passe, p 180-181. (Tradução nossa). 264 Ibidem, p. 181.
265 MIJOLLA-MELLOR, Sophie. Entrevista com Sophie de Mijolla-Mellor. In: Mezan, Renato (2008). Entrevista com Sophie de Mijolla-Mellor. Percurso, nº 41, 2008, p. 107.
266
Idem. 267
VALABREGA, Jean Paul. A Formação do psicanalista, p. 77. 268 Ibidem, p. 51.
269
É chamada análise quarta pois nesse processo estão envolvidos: (1) um paciente, (2) um candidato que é o analista desse paciente, (3) o analista do candidato e (4) um outro analista.
transferenciais”270 e contratransferenciais. Em um processo de análise quarta, o psicanalista em formação
(...) não vem falar somente de como escuta o seu paciente: também toma consciência de como seu analista está “presente” nesta escuta. Ou seja, toma consciência da forma como ele mesmo, enquanto paciente, foi escutado. 271
Adquirir consciência da forma como foi analisado, ou melhor ainda, deparar- se com os possíveis “efeitos da alienação produzidos durante a análise”, ao realizar a análise quarta, era um processo precioso para os analistas críticos ao modelo empregado pela École. Tal preciosidade residia no fato de o efeito da análise quarta ter se tornado “fundamental para os fundadores do Quarto Grupo para que pudessem se desligar de Lacan”272; em outros termos, para que eles pudessem se divorciar da influência que o analista francês exercia sobre seus analisandos, ao idealizá-lo.
Fica fácil perceber que a tentativa lacaniana de evitar e corrigir os impasses do modelo de formação da IPA, através do passe, dos seminários, do cartel e da supervisão, ironicamente levaram a desdobramentos muitíssimo semelhantes aos engendrados pelo sistema de formação da Associação Internacional: tornar a formação do analista um processo alienante, antianalítico, no qual existe a multiplicação de um único modelo - o do analista didata e do supervisor.
A semelhança com a história da formação do psicanalista vivida pela IPA não se esgota no fato apontado acima, pois o sistema de formação lacaniano foi também o responsável por cisões no seio da École, haja vista que, em 1969, se fundou o
Quatrième Groupe.
Como se não bastasse essa atmosfera de hostilidade e de críticas do final dos anos 60, Lacan introduziu, no início de 1970, a tese do matema273 e do nó borromeano274. Tais postulados, conforme sustentam Roudinesco e Plon275, foram o
270
MIJOLLA-MELLOR, Sophie. Op. cit., p. 107. 271 Idem.
272
Ibidem, p.107-108. 273
Segundo ROUDINESCO, Elizabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise, p. 502. matema significa “o termo criado por Jacques Lacan, 1971, para designar uma escrita algébrica capaz de expor cientificamente os conceitos psicanalíticos e que permite transmiti-los em termos estruturais, como se tratasse da própria linguagem da psicose”.
274
Ibidem, p. 541. nó borromeano é a “expressão introduzida por Jacques Lacan, em 1972, para designar as figuras topológicas (ou nós traçados) destinadas a traduzir a trilogia do simbólico, do imaginário e do real, repensada em termos de reais/simbólicos/imaginário (R.S.I.) e, portanto, em função da primazia do real (isto é, da psicose) em relação aos outros dois elementos”.
275
estopim para novas críticas e culminaram na dissolução da Escola Freudiana de Paris, em 05 de janeiro de 1980.
Lacan, “diante de uma platéia muda”276 leu a Carta de Dissolução da EFP, escrita por seu sogro Jacques- Alain Miler:
Há um problema da Escola. Não é um enigma. E eu me oriento aí; já era hora. Este problema demonstra-se tal por haver uma solução: é a dissolução. (...) que retoma a práxis original que ele [Freud] instituiu sob o nome de psicanálise no dever que lhe cabe em nosso mundo – que, por uma crítica assídua, denuncia os desvios e os compromissos que amortecem seu progresso, degradando seu emprego. Objetivo que mantenho. É por isso que eu dissolvo. 277
É interessante notar que foram os mesmos os motivos que determinaram tanto a fundação como a dissolução da École Freudienne de Paris, ou seja, os impasses e desafios da formação dos analistas em que a supervisão é parte integrante.
276 ROUDINESCO, Elizabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise, p. 165. 277
LACAN, Jacques (1980). Carta de dissolução da EFP. Catálogo 2004-2006. Internacional dos Fóruns Escola de Psicanálise do Campo Lacaniano. Ed. Bras., p. 222.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente tese teve como objetivo apreender os múltiplos sentidos da supervisão na formação do analista, suscitados historicamente desde Breuer até Lacan. Em outras palavras, buscou compreender em profundidade o desenvolvimento dessa prática no âmbito analítico, de seus primórdios e de sua origem, passando pelos impasses envolvidos em sua sistematização e sua institucionalização, até as reações e as possíveis soluções que esses mesmos impasses engendraram.
Para alcançar, então, os vários sentidos que essa história produziu, lancei mão do método psicanalítico, pelo qual os escritos sobre a supervisão foram tomados de forma analítica, isto é, interpretados, problematizados e ainda circunscritos a seu contexto histórico.
Ao percorrer a história da formação dos analistas, tendo a supervisão como norte, pude demonstrar situações que se equiparam a essa prática antes mesmo da criação do saber psicanalítico por Freud. Digo que se equiparam pois, quando Joseph Breuer relatou o famoso caso Anna O. a seu amigo Freud, este último (assim como um supervisionando, ao ouvir seu supervisor narrar um caso emblemático) tirou grandes proveitos para sua própria clínica.
Freud extraiu do relato da Srta. Pappenheim a valiosíssima compreensão de que o psiquismo não opera unicamente por meio da atividade consciente, mas que existe um aspecto inconsciente que o influencia e que até mesmo o determina. A não familiaridade com a produção e com a manifestação do inconsciente (advinda do caso de histeria) impressionou e impactou o jovem Freud, da mesma forma que este o fez e faz com inúmeros iniciantes do ofício de psicanalista. Vale ressaltar que essa surpresa com as manifestações não conscientes vão dando lugar a familiarização com essas mesmas produções a partir do percurso de formação do candidato, isto é, com o emprego da análise pessoal, da supervisão e do estudo teórico.
Mas o legado do caso Anna O. para o saber psicanalítico não se esgotou naquele momento, pois as trocas e conversas entre Breuer e Freud sobre a jovem judia (que figuram como situações de supervisão) foram capazes de levar este último a entrar em contato com um método de tratamento inovador. O método catártico era inovador pois se caracterizou como um procedimento clínico em
consonância com o postulado de que a fala do paciente carrega consigo um sentido, um significado a ser decifrado, e a solução desse enigma leva à abertura ao inconsciente1. A abertura ao inconsciente fez com que o discurso da Srta. Pappenheim trouxesse em seu campo a ideia da transferência, da sexualidade e da cura pela fala.
Desse modo, a narrativa do caso da jovem histérica colocou Freud diante dos pilares e dos fenômenos fundamentais da prática psicanalítica, assim como, em uma supervisão, o analista em formação também se vê, ao ouvir um relato de seu supervisor, ou ainda, ao se escutar ouvindo seu paciente, estando imerso naquilo que suscita o emprego da regra fundamental.
Mas não foram só os encontros com Breuer os ilustrativos de uma situação de supervisão na pré-história da psicanálise, mas também a ida de Freud a Salpêtrière e a Nancy. Com Charcot, ele apreendeu uma forma bem singular de diagnosticar, isto é, a clássica nosografia era utilizada, mas apenas como parâmetro, pois as minúcias e as particularidades do caso clínico eram o essencial para o neurologista francês.
Já com Bernheim, Freud percebeu que era possível obter os mesmos resultados que Breuer havia tido com Anna O., porém sem a necessidade de o paciente estar hipnotizado, ou seja, os princípios de uma terapia pela fala estavam presentes nos ensinamentos da escola de Nancy.
Evidentemente que, em qualquer processo de supervisão, o supervisor também auxiliará (assim como ocorreu com Freud diante de Breuer, Charcot e Bernheim) o aspirante a psicanalista a procurar evidenciar a singularidade daquele sujeito, e tal idiossincrasia se revelará pela fala do paciente, ativada pela e na transferência, que se oferecerá como o caminho para a expressão da sexualidade perverso-polimorfa daquele que discursa.
A correspondência entre Freud e Fliess também é ilustrativa de situações de supervisão em uma fase em que o pai da psicanálise ensaiava suas primeiras formulações propriamente psicanalíticas. A análise das missivas demonstrou que o berlinense foi para Freud (assim como um supervisor é para o postulante a psicanalista) um apoiador de suas primeiras ideias sobre o inconsciente. Fliess
1 Esse postulado sustentado por Breuer rompia com a concepção vigente na época (psiquiatria alemã e austríaca) de que as doenças deveriam ser compreendidas apenas do ponto de vista anatomofisiológico.
funcionou também como um ouvinte privilegiado, importantíssimo, não simplesmente por ser o único interlocutor naquela ocasião2, mas também por compartilhar com o amigo o interesse pela sexualidade e pelas neuroses. Para além dos interessantes em comum, a presença do médico alemão, ou melhor ainda, os escritos dirigidos a ele proporcionaram que um Freud criador entrasse em cena pois, à medida que ele escrevia ao amigo, um efeito se presentificava, isto é, houve a abertura ao inconsciente, o não sabido se apresentou, a psicanálise foi descoberta. Freud ligou seu desejo de ser analista, de criar uma inédita forma de compreender o psiquismo aos conhecimentos que julgava Fliess possuir.
Ligar o desejo de ser analista a um outro que transferencialmente é encarado como possuidor de um saber é exatamente o que ocorre nas situações de supervisão hoje em dia, e foi o que aconteceu entre Freud e seus mestres: Breuer, Charcot, Bernheim e Fliess. Vale apontar que essa vinculação não se faz sem uma porção significativa de idealização.
Percorrendo mais um trecho da história da supervisão na formação dos analistas, deparamo-nos com episódios nada diferentes dos apontados anteriormente, ou seja, temos nos discípulos de Freud, que agora é mestre, no seio da “Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras”, em Jung (por ocasião do caso de Sabina Spielrein), em Sándor Ferenczi e Edoardo Weiss (nas correspondências) e em Max Graf (ao analisar o pequeno Hans) um Freud que se porta como supervisor (antes mesmo de essa prática ter sido sistematizada e institucionalizada por Max Eitingon, ao fundar a Policlínica de Berlim). Menciono supervisor pois ele se ofereceu, ou melhor ainda, foi visto por seus discípulos como aquele que poderia transmitir seu saber, saber esse que os transformaria em psicanalistas. Desse modo, mais uma vez, o desejo de ser analista se vinculou a uma figura, o mestre Freud, compreendida, ou mais precisamente, encarada transferencialmente como sendo a pessoa capaz de fornecer o conhecimento necessário ao ofício de psicanalista.
Avançando um pouco mais ainda na história, foi-nos possível constatar que o movimento psicanalítico, no início dos anos de 1900, experimentou uma série de críticas e de resistências da comunidade científica aos postulados de Freud, sobretudo os relacionados à sexualidade infantil. Porém, é imprescindível esclarecer
2
Lembro que, nessa época, Freud se encontrava isolado e só, diante das suas primeiras teorizações, tendo Fliess como seu único parceiro e colaborador.
que tais críticas não foram oriundas exclusivamente de pessoas externas ao saber psicanalítico, estenderam-se também a alguns partidários de Freud, mais exatamente a Adler, em 1911, Stekel, em 1912, e Jung, em 1913.
Essas divergências dos discípulos foram as responsáveis pelas primeiras cisões da história da psicanálise e engendraram reações tanto de Freud como de