HUKUK BÜROSU
İZMİR TABİP ODASI ONUR KURULU ÇALIŞMA RAPORU
Como já explorado na seção anterior deste trabalho, o isolamento freudiano foi-se diluindo progressivamente, a partir de 1902, quando Freud atendeu à sugestão de Stekel61, reunindo em torno dele alguns intelectuais da época, naquilo que ficou conhecida como Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras e que, a partir de 1908, tornou-se a Sociedade de Psicanálise de Viena.
Apesar de ter havido um crescente interesse pelas teses freudianas, a partir de 1902, tem-se que o primeiro círculo psicanalítico era composto, quase que unicamente, por judeus de Viena. Tal fato suscitou em Freud o temor de que a psicanálise se restringisse à capital austríaca e ao povo judeu, tornando-se, como bem nos lembra Roazen, “uma seita judaica”62.
O interesse de outro grupo pelo saber psicanalítico era fundamental para que Freud pudesse “romper [com] os estreitos limites dos círculos judeus de Viena”63, fazendo com que a teoria recém-fundada pudesse alçar novos ares.
Os novos ares vieram de Zurique, ou mais exatamente, do Hospital Mental Burghölzli, em que Eugen Bleuer64 e Carl G. Jung se destacaram. Porém, não foram apenas estes dois que se interessaram pela psicanálise, formou-se um grupo “coeso de partidários”65 dos postulados freudianos, que contribuiu significativamente para a expansão da psicanálise, como confessa Freud:
61 FREUD, Sigmund. A história do movimento psicanalítico, p. 35. 62
ROAZEN, Paul. Op. cit., p. 263. 63
Idem. 64
Eugen Bleuler (1857-1939) foi um psiquiatra de muito prestígio. Ele cunhou o termo esquizofrenia e autismo, assim como foi professor de psiquiatria da Universidade de Zurique e diretor do importante Hospital do Burgolzli, de 1898 até 1927.
65
A maior parte dos meus seguidores e colaboradores de hoje [1914] chegou a mim via Zurique, mesmo aqueles que se encontravam geograficamente muito mais perto de Viena do que da Suíça.66
Os colaborados aos quais o médico austríaco faz menção se referem “à equipe de residentes no hospital, (...) [que] incluía Karl Abraham, Franz Riklin, Max Eitingon e Herman Nunberg. Além disso, visitantes estrangeiros – em especial A. A. Brill- aí passavam períodos de observação e estudos”.67
A intenção freudiana de “fundar um grande movimento intelectual”68 que extrapolasse os limites de Viena e da cultura semita e que vencesse as resistências da psiquiatria da época, cujo expoente era o Dr. Julius Wagner von Jauregg, que considerava as ideias de Freud verdadeiros “disparates”69, certamente ganhou grande fôlego com a contribuição da escola de Zurique.
Tal escola gozava de muito prestígio entre os intelectuais daquele momento, pois “Bleuler e Jung representavam a melhor psiquiatria acadêmica da época”.70 Nesse sentido, Freud é claro:
Os representantes das nações mais importantes se reúnem na Suíça, onde a atividade intelectual é tão vívida; um foco de infecção ali estava destinado a ser de grande importância para a difusão da “epidemia psíquica”, como Hoche de Freiburg a denominou71.
Assim, foi inegável a contribuição da escola suíça para a expansão do saber analítico, sobretudo pelo empenho de Bleuler e Jung. Freud não deixou de reconhecer tal situação, mesmo quando as divergências com os médicos suíços já tinham ganhado grande corpo, a ponto de levarem ao rompimento com os antigos colaboradores, sobretudo no que diz respeito a Jung:
Repetidas vezes reconheci com gratidão os grandes serviços prestados pela escola de Psiquiatria de Zurique na difusão da psicanálise, em particular por Bleuer e Jung, e não hesito em fazê-lo ainda hoje, quando as circunstâncias mudaram tanto. 72
66 FREUD, Sigmund. A história do movimento psicanalítico, p. 37. 67
MCGUIRE, William. A correspondência completa de Sigmund Freud e Carl G. Jung. Rio de Janeiro: Imago, 1993, p. 15.
68 ROAZEN, Paul. Op. cit., p. 263. 69 Ibidem, p. 260-261.
70
Ibidem, p. 262. 71
FREUD, Sigmund. A história do movimento psicanalítico, p. 37. Cabe frisar que o editor inglês esclarece, em nota de rodapé, que Hoche foi um professor de psiquiatria em Freiburg. Tal médico fez críticas severas às teses freudianas.
72
Ibidem, p. 36-37. Freud aqui faz alusão ao rompimento da amizade com Jung, que se deu por volta de 1913.
A importância de Jung73 para Freud, ou melhor, a esperança freudiana de que o médico de Burghölzli pudesse continuar seu legado, para além dos limites semitas e vienenses, é bem conhecida pelos psicanalistas e aparece com muito clareza em vários trechos da correspondência entre os dois. Para ilustrar a questão, apresentamos três trechos, extraídos das missivas.
Em 01 de janeiro de 1907 Freud escreve:
Na verdade considero seu ensaio sobre D. pr. [demência precoce] como a mais rica e significativa contribuição aos meus esforços de que já tive notícia, e entre meus alunos de Viena, que levam sobre o senhor a vantagem talvez questionável de um contato pessoal comigo, sei de apenas um cuja compreensão pode ser igualada à sua; nenhum, porém, se mostra tão capacitado e disposto a fazer pela causa [psicanalítica] o mesmo que o senhor74.
Quatro meses depois, ou seja, em 07 de abril de 1907, ele renova as suas esperanças e o anseio de que Jung o substitua:
(...) gostaria de repetir por escrito várias coisas que lhe confiei verbalmente, em particular que o senhor me encheu de confiança em relação ao futuro, que agora me dou conta de ser tão substituível quanto qualquer outro e que não poderia desejar ninguém melhor do que o senhor, tal como o conheci, para continuar e completar minha obra. 75
Essa esperança se faz presente dois anos depois, em 16 de abril de 1909: “o adotei como primogênito e o sagrei (...) sucessor e príncipe herdeiro”.76
Foi exatamente pelo fato de Freud ter ansiado tanto por um sucessor, para que a psicanálise não se circunscrevesse a Viena e aos judeus e fosse aceita pela comunidade científica e acadêmica da época, que ele tolerou os reveses, as disputas de poder e de preferência junto a si, assim como os deslizes e as posturas antianalíticas de seus primeiros colaboradores, dos quais Jung é um deles.
Em suas palavras,
em vista da coragem reveladora pela devoção a um assunto [psicanálise] olhado com tanta reserva e tão pobre de perspectivas, estava disposto a tolerar dos membros do grupo muito coisa que não deveria tolerar numa situação diferente.77
73
Não me deterei na importância de Jung para Freud, ou ainda, nas circunstâncias que levaram ao rompimento da amizade, pois esse tema extrapola o objetivo deste trabalho.
74
MCGUIRE, William. Op., cit., p. 56. 75 Ibidem, p. 65.
76
Ibidem, p. 243. 77
Mas a que tipo de tolerância Freud está se referindo? Qual é a relação entre essa circunstância e a supervisão em psicanálise?
Levando em conta o interesse deste trabalho, irei me deter apenas na tolerância de Freud a Jung e não aos demais discípulos daquela época. Assim, vou aludir ao imbróglio no qual o médico suíço colocou seu mestre, em relação ao caso de Sabina Spielrein78.
“Peço-lhe mil perdões, foi só minha tolice que o envolveu nesta confusão”79, escreve Jung a Freud, em referência ao caso da jovem russa, em 21 de junho de 1909. Tal situação havia levado o suíço, três anos antes, a pedir o auxílio de Freud, naquilo que se caracterizou como a primeira demanda de supervisão80 propriamente psicanalítica. Digo propriamente psicanalítica, pois aqui se trata de Jung (que em 1904 inicia seu percurso como analista) se dirigindo a Freud (um psicanalista mais experimentado), ansiando que este o auxiliasse, no que se referia aos aspectos clínicos, transferências e contratransferências suscitados a partir do atendimento a Spielrein.
Em 23 de outubro de 1906, mais exatamente na quarta carta da correspondência entre Freud e Jung, o médico suíço descreve o quadro clínico de sua paciente histérica81, sem nomeá-la:
Me é necessário, ab-reagir junto ao senhor, com o risco de aborrecê-lo, uma experiência que vivenciei muito recentemente. Trato uma histérica segundo seu método. Caso grave, uma estudante russa, doente faz seis anos (...) Eu lhe seria extremamente reconhecido se o senhor me comunicasse, em algumas palavras, sua opinião sobre essa história.82
Certamente que o leitor não terá dificuldades de identificar, nesse fragmento da correspondência, que Jung demandou a Freud aquilo que, a partir de 1920, se chamará supervisão. Porém, o que eu gostaria de frisar diz respeito à característica
78
Sabina Spielrein (1885-1942), psicanalista russa (uma das primeiras analistas), foi analisada por Jung, no Hospital Mental de Burgholzi, de 1904 a 1905, e posteriormente se tornou amante dele. Spielrein deixou importantes contribuições sobre o conceito de pulsão de morte.
79 MCGUIRE, William. Op., cit., p. 259. 80
Supervisão em termos atuais, pois, nesse momento, tal processo ainda não tinha sido sistematizado.
81 Aqui vale lembrar que Sabrina Spielrein fora diagnosticada como histérica, psicótica histérica e ainda como esquizofrênica, segundo CROMBERG, Renata Udler. O amor que ousa dizer seu nome.
Sabina Spielrein pioneira da psicanálise. Tese de doutorado - Universidade de São Paulo -
Departamento de Psicologia Social e do Trabalho Instituto de Psicologia, 2008, p. 21. 82
Aqui optei pela tradução realizada por LEITE, Eliana Borges Pereira, encontrada em MIJOLLA, Alain. Algumas ilustrações das situações de “supervisão” em psicanálise. In: STEIN, Conrad (Org). A Supervisão na Psicanálise. São Paulo: Escuta, 1992, p. 117 em vez da encontrada em MCGUIRE, William. Op. cit., p. 47 pois Leite traduz o termo abreagiren por ab-reação. (Grifo nosso)
dessa primeira demanda de supervisão, que poderá ser melhor entendida a partir da elucidação do termo ab-reagir, empregado por Jung.
Como Breuer e Freud nos legaram, desde 1893, no trabalho intitulado “Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos”83 e reiteraram em “Estudos sobre a Histeria”84, de 1895, ab-reação é o mesmo que descarregar um afeto ligado a uma vivência traumática.
Mas a que espécie de descarga afetiva Jung se refere ao pedir socorro ao experiente Freud? Será que justamente por envolver uma vivência abrangendo a ab- reação é que podemos considerar essa solicitação como o primeiro pedido de auxílio (supervisão) propriamente psicanalítico?
Certamente que sim pois, no caso, não se trata de uma simples descrição de um quadro clínico, ou melhor ainda, de uma exposição médica em que o profissional não está, de alguma maneira, implicado na relação com seu paciente.
Como bem esclarece Silva,
(...) devido ao método psicanalítico que, longe de colocar uma distância ascética entre os dois participantes da investigação, antes os integra num mesmo vínculo, numa mesma relação, num mesmo jogo de transferência e contratransferência, em que a emoção rola de um polo a outro, embora com formas e utilizações diferentes. Pois eu não creio que se possa fazer psicanálise mantendo-se alheio como um cirurgião, sem se deixar queimar pelo fogo das paixões que o analisando ateia no relacionamento. Deixar-se incinerar com elas já seria outro problema.85
Ser envolvido pelas paixões e fantasias que se presentificam através do discurso do paciente, ou seja, estar entrelaçado pela transferência foi exatamente o que ocorreu com Jung. Como aponta Mijolla, a fala do suíço dirigida a Freud “expõe um fragmento de vida de um terapeuta em seu vínculo psicoafetivo com um paciente”86. Dito de outra forma, tem-se que a solicitação de Jung dirigida ao mestre Freud traduz uma intensa relação transferencial entre a jovem russa e o médico de Burghölzli, assim como também evidencia a viva contratransferência experimentada por ele.
Nesse sentido, em 11 de setembro de 1910, Spielrein escreve:
O amor pelo meu amigo apossou-se de mim com ardor selvagem. Às vezes, debatia-me impetuosamente; às vezes, deixava que me beijasse os dedos e
83
BREUER, Joseph; FREUD, Sigmund (1893). Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos
histéricos. ESB, Vol. II, 1996.
84 BREUER, Joseph; FREUD, Sigmund. Estudos sobre a Histeria, p.12-350. 85
SILVA, Maria Emília Lino. Os avatares da função psicanalítica. Percurso nº 12, 1994, p. 23. 86
me sentia presa a seus lábios, louca de amor. Como é tolo falar disso! Também a minha razão, com toda a frieza da qual é capaz, abandona-se a fantasias. Como deveria opor-me àquela poderosa força? (...) Melhor uma amizade pura, mesmo se à distancia. Que ele me ama, é certo; mas há um “porém”, como costumava dizer o nosso velho professor de ciências naturais; isto é, meu amigo já é casado. Conhecemo-nos e, sem saber como, nos amamos; era muito tarde para fugir. Muitas vezes, aconteceu- nos estar à vontade num abraço apaixonado. Sim, era muito!”. 87
A estudante não deixa nenhuma dúvida sobre seu ardente vínculo afetivo com Jung, isto é, da presença da transferência erótica que ele ab-reagiu junto a Freud. Cabe lembrar que, desde a segunda carta trocada entre o pai da psicanálise e o suíço, este já dava sinais vívidos de reconhecer a importância crucial da transferência no tratamento analítico: “Quero dizer que a sua terapia [de Freud] não me parece depender apenas de afetos liberados por ab-reação, mas também de certas relações (rapports) pessoais”. 88
Apesar de Jung ter mostrado familiaridade com o processo transferencial, ele não conseguiu lidar analiticamente com a paixão que Spielrein nutria por ele, deixando-se “incendiar” por ela, como muito bem nos lembrou Silva. 89
Em outras palavras, e me mantendo fiel ao legado psicanalítico, tem-se que o médico suíço não “dominou” a transferência erótica a ele dirigida. Ou ainda, como observa Richebächer: “Quando Spielrein agarra Jung num nível erótico adulto, ele parece perder o equilíbrio”.90
É exatamente nesse ponto (no atoleiro transferencial e contratransferencial em que Jung se encontrava) que Freud entrou em cena, colocando-se como um supervisor.
O pai da psicanálise se posicionou como um supervisor pois assinalou ao amigo e discípulo dois aspectos, a saber: em primeiro lugar, o caráter duplo da transferência, ou seja, apesar de ela se apresentar como um obstáculo, um entrave ao processo analítico, é só a partir de sua presença e de sua interpretação que a verdade inconsciente do paciente é revelada, isto é, que a análise se torna possível. Em segundo lugar, o médico de Viena não deixou de tocar em um tema crucial do caso Spielrein: a contratransferência.
87 CAROTENUTO, Aldo. Diário de uma secreta assimetria. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984. p. 200. 88
MCGUIRE, William. Op., cit., p. 42. "Relações (rapports) pessoais” que nada mais são do que transferências.
89
SILVA, Maria Emília Lino. Op., cit., p. 23.
90 RICHEBÄCHER, S. In: League with the devil and yet you fear fire? In: COVINGTON, C. e WHARTON, B. (Org.) Sabina Spielrein, Forgotten Pioneer of Psychoanalysis. Nova York, Brunner- Routledg, 2003, p. 235. (Tradução nossa).
Freud ensinou a Jung que a compreensão da transferência, por parte do psicanalista, favorece significativamente as condições de domínio de suas reações inconscientes diante da atualização dos desejos do analisando.
Nas palavras de Freud, em 07 de junho de 1909,
embora penosas, tais experiências são necessárias e difíceis de evitar. É impossível que, sem elas, conheçamos realmente a vida e as coisas com as quais lidamos. Eu mesmo nunca estive em tais apuros, conquanto tenha chegado, não poucas vezes, bem perto divisando por fim a narrow escape. Acho que só as necessidades implacáveis que me tolhiam o trabalho e o fato de ser dez anos mais moço que o senhor quando me dediquei à ΨA [psicanálise] salvara-me de experiências análogas. Mas o dano que causam não perdura. Elas nos ajudam a desenvolver a carapaça de que precisamos e a dominar a “contratransferência”, que é afinal para nós um permanente problema; ensinam-nos a deslocar nossos próprios afetos sob o ângulo mais favorável. São uma “blessing in disguise. 91
Onze dias depois, isto é, em 18 de junho de 1909, Freud mantém o tom de supervisor e de ensinamentos a Jung:
Numa segunda carta Fráulein Spielrein admitiu que o assunto dela tem relação com o senhor; mas ficou nisso, eximindo-se de revelar intenções. Minha resposta foi bastante sensata e penetrante; dei a entender que à moda de um Sherlock Holmes eu me valera de uma pista indistinta para desvendar o mistério (é claro que depois de suas informações isso até foi fácil) e sugeri um procedimento mais adequado, algo por assim dizer endopsíquico. Não sei se esta sugestão será eficaz. Devo exortá-lo, por ora, a não ir muito longe nesse rumo de reação e contrição. Lembre-se da oportuna frase de Lassalle sobre o químico cujo tubo de ensaio se quebrara: “De sobrancelha franzida para a resistência da matéria, ele prossegue no trabalho.” Tendo em vista o tipo de matéria com o qual trabalhamos, jamais será possível evitar pequenas explosões no laboratório. Ora não damos ao tubo a inclinação necessária, ora o aquecemos muito depressa. Mas assim descobrimos que parte do perigo jaz na própria matéria, que parte em nossa maneira de lidar com ela.92
Além de Freud se posicionar como supervisor, chamando a atenção de Jung para a necessária tarefa do analista de se haver com o que o processo analítico suscita (transferência), assim como com o que ele desperta no próprio psicanalista (contratransferência), não se eximiu de orientar o suíço no que se refere ao funcionamento psíquico e ao quadro clínico da estudante russa:
A história da defecação é curiosa e sugere numerosas analogias. Talvez o senhor se lembre da afirmação que faço, em minha Teoria da Sexualidade, de que mesmo as crianças de tenra idade extraem prazer da retenção das fezes. O período entre 3 e 4 anos é o mais importante para essas atividades
91
MCGUIRE, William. Op., cit., p. 254. Narrow escape (uma fuga apertada) e blessing in disguise (uma benção disfarçada) em inglês no original (N. da Tradução). Cabe acrescentar que essa é a primeira vez que Freud emprega o termo contratransferência.
92
sexuais, que mais tarde se incluem entre as patogênicas (ibid). A visão de um irmão que é espancado desperta um vestígio de memória relativo ao período de 1 a 2 anos, ou uma fantasia transposta para esse período. Não é incomum que os bebês sujem as mãos de quem os pega no colo. No caso dela não poderá ter ocorrido tal coisa? E isso aviva a lembrança das carícias do pai durante a infância. Fixação infantil da libido no pai — a escolha típica do objeto; auto-erotismo anal. A posição escolhida por ela pode ser decomposta em elementos, pois ao que parece há ainda outros fatores que lhe foram acrescentados. Que fatores? Deve ser possível, pelos sintomas e mesmo pelo caráter, reconhecer a excitação anal como motivação. Tais pessoas freqüentemente exibem combinações típicas de traços de caráter. São extremamente asseadas, avarentas e obstinadas, traços que, por assim dizer, são sublimações do erotismo anal. Casos como esse, baseados em perversões reprimidas, podem ser analisados de modo muito satisfatório.
Como o senhor vê, não me incomodou em nada. Suas cartas dão-me um grande prazer.93
A partir dessa resposta, não fica difícil concluir que Freud tenha visto com bons olhos o pedido de auxílio de Jung, desempenhando com satisfação a tarefa de supervisor, descontruindo assim o temor deste de o ter “incomod[ado]”94 com essa solicitação, trazendo-lhe alguma contrariedade.
Diante de tudo o que foi exposto até então, pode-se afirmar, com justa razão, que o pedido de auxílio de Jung, em relação ao caso da jovem estudante russa, surge na história da psicanálise como a primeira solicitação de supervisão especificamente psicanalítica. Isto se dá, como já discutido acima, pois Freud, nesse caso, analisou a contratransferência em conjunto com a transferência, informando Jung desses movimentos. Tal fato se constitui como a função da supervisão, como bem argumenta Safouan95.
3. A supervisão na Correspondência de Freud e seus discípulos – Sándor Ferenczi e